11/06/2026

“Ah! ― choca mal, quem sai do ninho...”




          […]

Adiante vim para pedir gole dágua, todo pacífico, no rancho de um solteiro; esse deu informação de que, dez léguas em volta, o povoal ia existindo sem questão. Somente seguimos. Dali antes, a gente tinha passado o Alto-Carinhanha ― lá é que o Rei-Diabo pinta a cara de preto. Onde chegados na aproximação do lugar que se cobiçava. Dado dia e meio ― descrevendo no rumo que certo achamos logo ― se havia de ter a casa da raça do Hermógenes! Lei de que íamos dar lá, madrugando madrugada, pegando todos desprevenidos, em movível supetão. Pois o Hermógenes parava longe, em hora recruzando meus antigos rastros, estes rasgos ele não adivinhava. Aí era o meu contrabalanço. Ah! ― choca mal, quem sai do ninho...
Ao que, por isso, não tardamos; não tivessem a primeira notícia da gente. Não se tomou nem um dia de fôlego. A trote e a chouto, vencemos uma grande noite ― e demos lá, no luzir dalva. Abarcamos as condições do lugar, em cerco, entendidos uns com uns, por meio de avisos: que eram canto de acauã e assovio de macaco. Porque sempre eles deviam de ter alguns curimbabas na defesa: capangas e carabinas. Daí, só se esperou o listrar da primeira barra e a ponta da manhã estremecente. Segundo nosso uso. Demos fogo.
Digo franco: feio o acontecido, feio o narrado. Sei. Por via disso mesmo resumo; não gloso. No fim, o senhor me completa. Mas, fazia tempo que não se dava combate, e o propor da gente era tribuzana, essas ferocidades assim.
A casa da fazenda ― aquele reto claro caiado; mas era um casarão acabando o tope do morrete; enganando, até parecia torta. Varejamos o total a tiro. Aí, e o que se gritava!: azurradamente...
Aqueles que estavam lá eram homens ordinários ― derreteram debaixo do pé de meus exércitos. O que foi um desbarate! Como que já estavam de asas quebradas, nem provaram resistências: deles mal ouvi uns tiros. E a gente, nós, estouramos para o centro, a surto, sugre, destrambelhando na polvorada, feito rodeio de vento. Assaz. Do que fiz, desisto. Todos não fizeram? Volvido, receei que Diadorim não me aprovasse; mas Diadorim concordou com os fatos, em armas, em frente. O que se matou e estragou ― de gente humana e bichos, até boi manso que lambia orvalhos, até porco magro em beira de chiqueiro. O mal regeu. Deus que de mim tire, Deus que me negocíe... A vez.
De seguida, tochamos fogo na casa, pelos quinze cantos mortos. Armou incendião: queimou, de uma vez, como um pau de umburana branca... E de lá saímos, quando o fogo rareou, tardezinha. E, na manhã que veio, acampou-se em beira-dágua de sossego. A gente traspassava de cansaços, e sobra de sono. Mas, trazida presa, já em muito nosso poder, estava a merecida, que se queria tanto ― a mulher legal do Hermógenes.
Aquela mulher sabia dureza; riscava. Ela discordava de todo destino. Assim estava com um vestido preto, surrado muito desbotado; caíu o pano preto, que tinha enlaçado na cabeça, e ela não se importou de ficar descabelada. Deixaram! ela sentar, sentou. Nunca encurtou a respiração. Devia de ter sido bonita, nos festejos da mocidade; ainda era. Deram a ela de comer, comeu. De beber, bebeu. A curto, respondeu a algumas duas ou três coisas; e, logo depois de falar, apertava demais a boca fechada, estreitos finos beiços. Mas falava quase assoviado. Figuro que não mascava fumo nem cachimbava, mas mesmo assim cuspia em roda; mas não passava a sola do pé, por cima, para alimpar o chão, como é costume de se fazer, nessas condições. Adverti que estava descalça, e assim devia de ser fora do uso, decerto por causa da hora e confusão em que tinha sido pega. Se arranjou para ela par de alpercatas. Ela soubesse que não se pertencia com a gente. Aceitou meu olhar, seca, seca, com resignação em quieto ódio; pudesse, até com as unhas dos pés me matava. Enrolou a cara num xale verde; verde muito consolado. Mas eu já estava com ela ― com os olhos dela, para a minha memória. Magreza, na cara fina de palidez, mas os olhos diferiam de tudo, eram pretos repentinos e duráveis, escuros secados de toda boa água. E a boca marcava velhos sofrimentos? Para mim, ela nunca teve nome. Não me disse palavra nenhuma, e eu não disse a ela. Tive um receio de vir a gostar dela como fêmea. Meio receei ter um escrúpulo de pena; certo não temi abrir razão de praga. Muito melhor que ela não carecesse de vir. Ser chefe, às vezes é isso! que se tem de carregar cobras na sacola, sem concessão de se matar... E ela ficava assim embiocada, sem semblantes, com as mãos abertas, de palmas para cima ― como se para sempre demonstrar que não escondia arma de navalha, ou porque pedisse esmola a Deus. Lembro dessa mulher, como me lembro de meus idos sofrimentos. Essa, que fomos buscar na Bahia.
E de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas viemos contornando ― só extorquindo vantagens de dinheiro, mas sem devastar nem matar ― sistema jagunço. E duro capitaneei, animado de espírito. O Jalapão me viu, os todos Gerais me viram demais. Aqueles distritos que em outros tempos foram do valentão Volta-Grande. Depois, mesmo Goiás a baixo, a vago. A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o sertão está movimentante todo-tempo ― salvo que o senhor não vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos... Rodeando por terras tão longes; mas eu tinha raiva surda das grandes cidades que há, que eu desconhecia. Raiva ― porque eu não era delas, produzido... E naveguei salaz. Tem as têlhas e tem as nuvens... Eu podia lá torcer o azul do céu por minhas mãos?! Virei os tigres; mas mesmo virei sendo o Urutú-Branco, por demais.
Somente que me valessem, indas que só em breves e poucos, na ideia do sentir, uns lembrares e sustâncias. Os que, por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigrí minha mãe me ralhando; os buritís dos buritís ― assim aos cachos; o existir de Diadorim, a bizarrice daquele pássaro galante: o manuelzinho-da-crôa; a imagem de minha Nossa Senhora da Abadia, muito salvadora; os meninos pequenos, nuzinhos como os anjos não são, atrás das mulheres mães deles, que iam apanhar água na praia do Rio de São Francisco, com bilhas na rodilha, na cabeça, sem tempo para grandes tristezas; e a minha Otacília.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Nenhum comentário:

Postar um comentário