sábado, 23 de maio de 2026

Gabriel

Não consigo refrear a tentação de puxar conversa com uma criança que não conheço. Se tem uma criança no elevador cheio, eu me agacho para que meus olhos fiquem na altura dos seus. Deve ser muito estranho olhar em volta e só ver fivela de cintos e bolsas. Olhando­-se para cima, os adultos têm a aparência de gigantes.
Na sala de espera do consultório médico estava o menino com seu pai. Calculei, 9 ou 10 anos. Puxei conversa. Ele ficou encabulado. Virou de lado. Mas eu não desisto. Gosto de conversar com crianças. É fácil. E só falar de igual para igual, sem voz melosa e sem usar diminutivos. Ele falou de futebol. Eu disse que não torcia por nenhum time, mas havia escrito um livro, Futebol levado a riso. E lhe contei várias estórias divertidas do futebol. A conversa rolou fácil. Ficamos amigos. Disse­-lhe que escrevi estórias para crianças. Pedi o endereço dele para lhe enviar uns livrinhos. Ele me deu. Mandei os livros. Passados uns dias, ele me mandou um presente: um livro de poesias, raridade literária, data de 1892­-1903. Tão divertida a forma como se escrevia! No meio dos poemas encontrei um que mexeu comigo: “Embala­-me, balanço da mangueira,/ Embala­-me, que enquanto vou contigo e contigo venho, o meu pesar esqueço...”. O presente veio com uma carta dele, assinada Gabriel Quevedo. Disse a ele que Gabriel é nome de anjo! Ele se espantou. E me disse que já estava lendo o livro Lagartixas e dinossauros. Na carta, ele escreveu que o presente era uma prova de gratidão. Mas não precisava ter gratidão por tão pouco. Gostei, Gabriel.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Nenhum comentário:

Postar um comentário