Não consigo refrear a tentação de
puxar conversa com uma criança que não conheço. Se tem uma criança
no elevador cheio, eu me agacho para que meus olhos fiquem na altura
dos seus. Deve ser muito estranho olhar em volta e só ver fivela de
cintos e bolsas. Olhando-se para cima, os adultos têm a
aparência de gigantes.
Na sala de espera do consultório
médico estava o menino com seu pai. Calculei, 9 ou 10 anos. Puxei
conversa. Ele ficou encabulado. Virou de lado. Mas eu não desisto.
Gosto de conversar com crianças. É fácil. E só falar de igual
para igual, sem voz melosa e sem usar diminutivos. Ele falou de
futebol. Eu disse que não torcia por nenhum time, mas havia escrito
um livro, Futebol levado a riso. E lhe contei várias estórias
divertidas do futebol. A conversa rolou fácil. Ficamos amigos.
Disse-lhe que escrevi estórias para crianças. Pedi o endereço
dele para lhe enviar uns livrinhos. Ele me deu. Mandei os livros.
Passados uns dias, ele me mandou um presente: um livro de poesias,
raridade literária, data de 1892-1903. Tão divertida a forma
como se escrevia! No meio dos poemas encontrei um que mexeu comigo:
“Embala-me, balanço da mangueira,/ Embala-me, que
enquanto vou contigo e contigo venho, o meu pesar esqueço...”.
O presente veio com uma carta dele, assinada Gabriel Quevedo. Disse a
ele que Gabriel é nome de anjo! Ele se espantou. E me disse que já
estava lendo o livro Lagartixas e dinossauros. Na carta, ele
escreveu que o presente era uma prova de gratidão. Mas não
precisava ter gratidão por tão pouco. Gostei, Gabriel.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
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