Poça D'água (1952), de Maurits Cornelis Escher
O senso comum identifica o “infantil”
com o “pueril”. Adulto no qual mora uma criança não é digno de
confiança. O ideal é o homem maduro, que abandonou as coisas de
criança, que trocou o brinquedo pelo trabalho. A psicanálise
concorda: o “infantil” é o regressivo, sintoma neurótico a ser
analisado.
Na minha psicanálise, os desejos
infantis são desejos eternos e divinos. O infantil não é o
regressivo: é o eterno, o que sempre foi, o que sempre será, o
objeto da saudade e da nostalgia, o objeto perdido que se espera
reencontrar no futuro. É dos desejos infantis que surge a poesia. A
criança e o poeta falam a mesma língua.
Lá vão pelo caminho a mãe e a
criança, que vai sendo arrastada pelo braço — segurar pelo braço
é mais eficiente que segurar pela mão. Vão as duas pelo mesmo
caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Pois eu digo que o caminho
por que anda a mãe não é o mesmo caminho por que anda a criança.
Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa,
para cima, para baixo, para os lados, tudo é espantoso, tudo é
divertido. Pena que a mãe não veja nada do que a criança vê
porque seus olhos desaprenderam a arte de ver como quem brinca, ela
tem muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu
pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando
safanões nervosos na criança... Olhando fixamente para o chão, ela
procura as pedras no meio do caminho, não por amor ao Drummond, mas
para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não
porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça
d’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu
azul e os ramos verdes dos pinheiros; ela procura as poças para não
sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher
os adultos não veem, só as crianças e os artistas.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

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