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“Dona Rita!”
Rita Preta se vira para identificar
quem a chamara enquanto retirava o cadeado do portão. Ela reconhece
a moça, que exibe a indiferença dos adolescentes. Pela primeira vez
olha de frente para Daiane. Talvez já a tenha visto circulando pelo
bairro com outras garotas, com Cid. Tinha traços quase infantis,
como se tivesse acabado de chegar à adolescência.
“Minha mãe me contou que a senhora
esteve lá em casa procurando por mim.”
Rita Preta segura o cadeado, deixa o
portão entreaberto. Confirma que tinha ido atrás de informações.
Cid não havia passado a noite em casa, por isso ela a procurou, mas
a mãe lhe informou que ela estava dormindo.
“Eu não estava dormindo”, revelou
sem nenhum constrangimento por desmentir a mãe, “estava acordada,
mas minha mãe brigou comigo e me proibiu de falar com qualquer
pessoa.” Daiane conta que esteve na casa de Rita querendo notícias
de Cid, mas a encontrou fechada.
“Ele esteve com você?”
“Não. Sim.” Daiane responde,
tentando encontrar a melhor maneira de expressar o que tinha a dizer.
Ele havia combinado de passar em sua casa.
Antes que consiga concluir a frase,
Rita pergunta outra vez se ele tinha ido ao encontro da moça.
“Foi”, a garota responde,
acrescentando que a mãe dissera que ela não estava. Cid foi embora
e a garota continuou sem conseguir falar com ele. Ligou para o
celular e as chamadas caíram todas na caixa postal. Continuou sem
informar se eles flertavam ou namoravam. Manteve-se evasiva quanto ao
relacionamento que tinham. “Minha mãe não quer que eu namore de
jeito nenhum.”
No entanto, ela estava na casa de Rita
movida pela mesma intenção que levou aquela mãe à sua: queria
encontrar Cid.
O coração de Rita Preta se acelera.
Uma corrente elétrica percorre seu corpo, da planta dos pés ao
couro cabeludo. Ela termina de abrir o portão, convida a garota para
entrar. Daiane recusa. A mãe não quer que ela entre na casa de
estranhos. Rita, impaciente, percorre os poucos cômodos, abre a
porta estreita do quintal, chama pelos filhos, um a um pelo nome.
Somente Juca aparece.
“Seu irmão?”, pergunta, se
referindo a Cid.
O menino faz sinal de que não, não
tem notícias do irmão. Depois ele retorna à televisão para
assistir a uma animação japonesa. Rita volta para o portão e
responde. Agora são duas à procura de um rapaz, ambas contendo a
frustração derivada da longa espera. Rita aproveita para perguntar
se Daiane faz ideia de onde ele possa estar.
“Não”, responde, “mas se a
senhora souber de algo, pede para ele falar comigo.”
Rita percebe uma verdadeira
preocupação no semblante da jovem. Elas não se despedem. Enquanto
Rita fecha o portão e fica pensando por onde deveria começar,
Cainho atravessa a passagem, vindo para a casa. Pergunta se a mãe
tem alguma notícia. Mais um dia, ele nunca ficou fora de casa por
tanto tempo. Rita Preta pede a Cainho que tente ligar outra vez para
o irmão.
Depois, sai em direção à casa de
Fátima.
Fátima retirava as roupas penduradas
num varal improvisado no pátio externo. Havia acabado de chegar, nem
tinha tido tempo de abrir a casa.
“O menino sumiu”, Rita Preta
dispara num tom de inquietação.
Ela deixa a vizinha a par de tudo o
que fizera nas últimas horas: fala da briga que tiveram, das horas
sem dormir, da descoberta da namorada, da falta de informação, do
telefone que está desligado, das chamadas encaminhadas para a caixa
postal, da cama intacta. Do silêncio crescente que promete
enlouquecê-la.
“Não deve ter ido muito longe”,
Fátima pondera. “Quando a fome apertar, ele volta correndo.”
“Eu preciso avisar à polícia sobre
o desaparecimento.”
“É necessário?”, Fátima
pergunta.
Ele nunca tinha ficado tanto tempo
longe de casa.
Rita se aproximou de Fátima quando os
filhos ainda eram pequenos, e um pouco antes de se mudarem para o
endereço atual. Residiam na mesma comunidade, em ruas próximas,
onde havia esgoto a céu aberto e as casas alagavam com frequência
na estação das chuvas. Apesar disso, como o local era mais próximo
do ponto de ônibus, o aluguel continuava a aumentar, tornando-se
incompatível com o salário que recebiam. Fátima encontrou uma casa
onde passou a morar, fez a mudança primeiro. Em seguida, indicou
para Rita um imóvel perto do lugar em que vivia, com um valor mais
acessível. As duas tinham muito em comum: eram trabalhadoras e mães
solteiras: Rita, mãe de três filhos; Fátima, de dois, um homem e
uma mulher. As duas trabalharam como empregadas domésticas; Rita
deixou a função, mas Fátima continua trabalhando para a mesma
família. Com o passar dos anos, a amizade se firmou, e Fátima se
tornou a pessoa mais próxima de Rita, com quem ela compartilha os
altos e baixos vividos em seus relacionamentos. Foi a amiga que a
ajudou a elaborar o plano para tirar o pai de Juca de casa. Da mesma
maneira, Fátima dividiu com Rita as frustrações e humilhações
passadas na casa onde trabalha. Compartilhavam também os problemas
relacionados aos filhos, aos preços praticados pelas mercearias do
bairro, às chuvas que transtornavam a vida de todos, aos vizinhos,
às companhias de abastecimento de água e energia, ao tráfico e à
polícia, que aparecia de tempos em tempos para espalhar o terror.
Fátima aconselha Rita Preta a esperar
um pouco mais. Cid haveria de aparecer. Era jovem, estava magoado,
quantos fugiam de casa depois de uma briga para assustar a família?,
pergunta. Rita conta que pensa em telefonar para o pai dele. Reluta,
é verdade, mas a gravidade do ocorrido a faria deixar de lado o
próprio orgulho. Quem sabe ele não tinha ido procurá-lo para não
ficar na rua? Ela sabia que o ex-marido não se interessava pelo
filho. Nunca oferecera qualquer ajuda para atender a suas
necessidades. Mas era possível que Cid tivesse procurado pelo pai e
talvez estivesse com ele? Rita sabe que Evilásio se casou outra vez,
que tem uma família.
Evilásio estranha a chamada
telefônica da ex-mulher e, ciente da falta de cordialidade entre
eles, ela vai direto ao assunto. Antes que terminasse de contar sobre
o desaparecimento do filho, ele a interrompe para perguntar se o
garoto estava implicado em algo errado, se estava usando drogas.
Rita considera a pergunta ofensiva.
Não responde. Repete que o telefonema era para saber se Cid estava
na casa do pai. O filho sabia onde ele morava — se é que ainda
residia no mesmo lugar.
Evilásio então passa a acusar Rita
de ser irresponsável e permissiva, por ter deixado o garoto se
envolver com “coisas erradas”. Acusou-a de telefonar só para
dizer que algo tinha dado errado; ele a interrompe antes que ela
própria finalize o que gostaria de responder.
Rita está tomada pela raiva, mas
decide ouvir o que Evilásio tem a dizer. Em seguida, desabafa:
repete que ele, o pai, a abandonou antes que a criança completasse
um ano. Que nunca se preocupou com o filho. Que durante quinze anos
apareceu apenas três vezes: no primeiro ano após a separação,
depois aos sete e finalmente quando o menino completou dez anos.
Afirma que, se o filho cruzasse com ele na rua, não o reconheceria,
assim como Evilásio também não o reconheceria. Grita, se revolta,
cospe todos os xingamentos que estão engasgados.
Os filhos a observam, tentam descobrir
com quem ela está falando, mas Rita está tão transtornada que nem
percebe quando a ligação é interrompida.
Evilásio tinha desligado.
Rita diz que telefonou para saber se o
filho estava lá, justifica para os outros.
Ela passa a mão pela cabeça, retira
a faixa que segura o cabelo crespo e o mantém volumoso no topo. Dá
alguns passos até a cozinha para depois voltar. Ordena aos dois que
se vistam. Precisam acompanhá-la até a delegacia para registrar o
desaparecimento do mais velho.
O mais novo desacredita que é hora de
procurar ajuda. O do meio parece assustado com a palavra delegacia,
com a palavra desaparecimento. Não compreendem muito bem a
gravidade da situação. Rita também não explica que aquele era o
protocolo. Apenas pega a bolsa de novo e repete que não quer voltar
muito tarde para casa. Está determinada a encontrar Cid, mas também
sabe que é preciso acordar cedo para trabalhar na manhã seguinte.
O relógio de registro de ponto não
costuma perdoar os atrasos.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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