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Passava já da meia-noite quando Rita
saiu da delegacia. Ela havia pedido a Fátima que orientasse os
filhos a manterem a casa trancada, e que, em qualquer emergência, a
chamassem. Rita Preta também estaria com o telefone para
monitorá-los à distância. Sentou-se no mesmo canto do dia anterior
— próximo à porta — e, por horas, viu uma procissão de pessoas
registrarem novas ocorrências. Num dia qualquer, estaria faminta e
exausta. Mas, curiosamente, não sentia fome ou fraqueza. Tinha a
energia infatigável das urgências, precisava encontrar o filho,
saber o que havia acontecido e prosseguir com a vida já afetada por
aquele grande problema. Por fim, Rita conseguiu concluir o boletim.
Também pediu para assinalarem a informação de que o filho tinha
sido levado numa abordagem policial, embora não tivesse qualquer
prova — a escrivã usaria um código para pontuar a questão —, e
perguntou se teria como saber se a entrada de Cid constava no sistema
de segurança pública.
“Não temos como verificar”, disse
a atendente, sem se dirigir em nenhum momento a Rita, apenas olhando
para o terminal de computador. “A senhora precisa ir até este
endereço aqui”, continuou, apontando para um pequeno cartão de
papel com a unidade policial de destino.
Ao chegar em casa, Rita nota que a luz
está acesa. Juca dorme, mas Cainho ainda está acordado. Quer saber
se a mãe tem notícia do irmão e se os comentários sobre a polícia
eram verdade. Rita confirma. Ela contou, durante o registro da
ocorrência, sobre a abordagem, e a atendente resistiu a anotar. A
mulher sugeriu que era um boato — e, por enquanto, era somente isso
mesmo —, mas orientou Rita a procurar na unidade do cartão onde
poderia obter mais notícias sobre a suposta abordagem e o
recolhimento.
“Não levaram seu irmão para uma
delegacia ou prisão. Recolheram ele para outro lugar. Ele é menor
de idade.”
“Eu vou com a senhora.”
“Não. Prefiro que você cuide do
Juca. Preciso de você em casa.”
Rita Preta entende que Cainho é
apenas um adolescente de catorze anos. Desajeitado, imaturo, talvez o
que menos soubesse lidar com a vida para além das paredes de casa.
Passava o tempo com livros e caderno na mão escrevendo anotações
sem serventia — era assim que pensava —, rabiscando, e por vezes
pouco atento, a cabeça no mundo da imaginação. Rita não
considerava o filho do meio um jovem estudioso. Ele tirava notas
medianas na escola, suficientes para ser aprovado. Ainda assim se
saía melhor que os irmãos. Nem sempre ela conseguia acompanhar, mas
vez ou outra procurava pelos títulos e pelos textos das capas de
livros para saber o que ele andava lendo. As leituras escolhidas não
tinham relação com as matérias que ele estudava. Eram romances,
livros de conhecimentos gerais, além de jornais velhos e folhetos
religiosos talvez úteis para outras atividades, mas não para a
escola. No entanto, apesar da aparente imaturidade, Rita Preta o
considerava plenamente capaz de cuidar do irmão e da casa, e
ajudá-la naquele momento. Afinal, ela não tinha começado a
trabalhar para uma família ainda mais nova? Rita confiava que ele
pudesse desenvolver habilidades para a vida resolvendo problemas
cotidianos e tomando decisões sem sua intermediação. A partir
daquele dia, ele seria muitas vezes convocado a assumir o posto de
responsável pela casa em sua ausência.
Rita sai cedo de casa para continuar
sua busca. Decide não ir ao supermercado onde trabalha, preferindo
inventar uma desculpa. Se contasse a verdade, achariam que ela era
mãe de um drogado ou arruaceiro, ou que seu filho estivesse
envolvido com atividades ilícitas. Precisava manter o emprego —
não se imaginava procurando trabalho outra vez por meses ou mesmo
anos, como via acontecer com muita gente, de todas as idades. Mas, ao
mesmo tempo, Rita precisava encontrar Cid, saber o que tinha
acontecido, ajudá-lo a sair de onde estivesse, trazê-lo de volta
para casa, desfazer as diferenças persistentes para se perdoarem
mutuamente. Sobretudo, precisava ajudá-lo a reencontrar seu caminho
na vida.
Nome completo. Data de nascimento.
Número do documento de identidade.
Rita tenta não parecer distraída, mãe relapsa, e procura informar
tudo que lhe é solicitado. Não pode falhar. Fotografia atual? Não,
só a do documento e mais algumas tiradas num celular de baixa
qualidade. Numa delas, Cid aparece sem camisa e com uma corrente
dourada de bijuteria escurecida. Ao fundo, um muro mal-acabado de
tijolos cerâmicos vermelhos à mostra e alguns pontos de limo. Os
dedos em “V”, o sinal da vitória. Em outra foto, Cid esconde o
rosto, não quer aparecer. Está deitado no sofá, a capa de tecido
sintético verde fluorescente está desajustada. O ambiente parece
escuro, embora fosse dia, Rita recorda; mas sobretudo era um dia
descontraído. Ela consegue vislumbrar o sorriso do filho por trás
das mãos enquanto tenta esconder o rosto. Em outra imagem, ele está
de costas, o cabelo recém-cortado, desenhos nas laterais feitos a
navalha. A imagem está desfocada, mas Rita se reprime e decide não
mostrá-la na delegacia. Poderiam pensar o pior. Ela mesma havia
censurado o filho, externara o próprio preconceito dizendo que
parecia corte de malandro, bandido. Quando ele fosse trabalhar — e
não faltava muito tempo —, não poderia ostentar cortes de cabelo
como aquele nem tatuagens no rosto, nas mãos, no pescoço. E o
serviço obrigatório do Exército? Daqui a dois anos, Cid precisaria
se alistar — quem sabe não é convocado? Pode ser um bom emprego.
Enquanto aguarda o atendimento, Rita seleciona as fotografias que
poderá mostrar como eventual fonte de reconhecimento, porém elas
começam a retroceder no tempo e já não serão tão úteis. Fato
inegável: Cid era o filho que mais havia mudado nos últimos dois
anos. Cresceu, o rosto parecia o de um adulto, mesmo pontilhado de
acne. Já retirava os pelos ao redor da boca. Explorando os arquivos
do celular, das últimas imagens para as primeiras, Rita vê a vida
em retrospectiva: uma selfie com Jorge na praia, ela com o corpo
bronzeado, óculos escuros e tranças afro que sempre a deixavam mais
jovem; em outra imagem ela surge de olhos fechados com os filhos à
sua volta. Parecem felizes, mesmo quando Cainho se mostrava sério,
sem achar graça das piadas e situações em que todos riam. Em outra
imagem, Juca aparece menor, um menino engraçado com uma espada de
plástico nas mãos e sentado nos ombros de Cid. O mais velho está
sem camisa, seu corpo adolescente à mostra, a bermuda caída abaixo
da cintura. Em outra fotografia, algo escuro num canto da parede e
uma vassoura ao lado caída no chão. Rita aumenta a imagem e vê o
que parece ser uma ratazana morta. Mais adiante, a foto de um vestido
branco e decotado na vitrine de uma loja — talvez quisesse copiar o
modelo para a costureira do bairro reproduzir um igual, para dançar
numa noite de encontro e festa.
A primeira vez que Cid suga seu seio
para se saciar da fome mais antiga, Rita o observa com verdadeira
curiosidade e sente sua alma em estado de graça. Quando a criança
caiu da escada e a fez correr para a emergência de um hospital.
Cinco pontos no queixo. Quando se alfabetizou, Cid passou a ler as
sílabas de trás para a frente. As horas de parto quando sofreu todo
tipo de violência num hospital público; um enfermeiro se sentou na
sua barriga para forçar a expulsão da criança, que, por fim, foi
retirada a fórceps. A criança era um sobrevivente e sorriu e correu
e brincou, resistindo à sentença que toda violência carrega.
Cainho escorregou como um quiabo por entre as pernas de Rita no
caminho para a sala de parto, e por pouco — muito pouco — não
foi ao chão. O mais novo subiu na porta do forno do fogão e
derrubou o almoço quente, que poderia tê-lo ferido com gravidade.
Porém essas fotografias não estão materializadas e arquivadas em
seu aparelho celular. São vistas em perspectiva na memória, sem a
ajuda de uma máquina, mas com o sangue correndo como rio em suas
veias.
Rita Preta responde com ênfase que
Cid não tem envolvimento com atividade ilícita. É um adolescente
como muitos, gosta de futebol, quer namorar, quer o tênis da moda e
sonha com uma vida melhor. Ela retira da bolsa a camisa encontrada no
dia anterior. Afirma que pode ser do filho e mostra para quem realiza
o atendimento.
“Vocês não precisam examinar?”
“Não, senhora. Não é necessário.”
“Ele estava a caminho da casa da
namorada. Deve ter saído com a camisa no ombro e outra vestida por
baixo. Alguém o levou, porque ele não deixaria a camisa em qualquer
lugar sabendo que eu ia ficar uma fera se descobrisse.”
A mulher não está interessada na
história que Rita conta e assinala que falta pouco para finalizar o
atendimento. Rita Preta guarda a camisa de volta na bolsa. Pergunta
se terá logo o resultado da pesquisa do sistema de segurança, se o
filho foi recolhido e se está em alguma unidade de correção. A
atendente diz que não, o prazo é de setenta e duas horas. Ela
precisará voltar ali para saber o resultado.
Registrado o desaparecimento e feita a
solicitação para tentar localizar Cid — se ele tinha sido ou não
abordado por policiais, como seu Aranha havia escutado —, Rita
Preta caminha até o ponto de ônibus, procura organizar as ideias em
meio ao caos daqueles dias. Não consegue pensar em nada que não
seja encontrar o filho mais velho, e segue sua intuição sobre quais
caminhos deve continuar a trilhar.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem Medo

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