24/09/2026

Correnteza


5

“O pessoal está falando do menino, Rita.”
Rita Preta ouve a voz de Fátima. Emudece ao telefone. O mesmo arrepio que percorreu seu corpo dias antes a eletriza com intensidade. Quer saber o que aconteceu com o filho. “A polícia”, Fátima responde. Como de costume, escutou quando chegou do trabalho mais cedo. Ouviu o burburinho ao tentar encurtar o caminho passando pela rua de cima. Dona Conceição, uma senhora que mora perto da entrada da vila, ouviu de alguém, que por sua vez ouviu dos meninos que brincavam de futebol na rua. Quando seu Aranha passou pelo mesmo caminho uma hora depois, a mulher comentou com ele “à boca miúda”, para não causar alvoroço e ser chamada de X-9. De pronto, ele se dirigiu à casa de Rita Preta, mas não encontrou ninguém. Os filhos estavam na escola. Enquanto seu Aranha batia na porta de Rita, Fátima abria o portão de ferro para entrar em sua casa, com os cachorros festejando sua chegada. “É com Rita? É urgente?”, quis saber. O pedreiro se pôs a falar com reserva, receoso da lei que rege a comunidade. Tem as roupas sujas de cimento, está trabalhando na construção de um muro e, apesar da fama de bêbado, aparenta estar sóbrio. Mesmo sem querer se intrometer, decidiu procurar por Rita. Algo o toca naquela história: pensa nos próprios filhos e gostaria que lhe informassem se algo parecido acontecesse.
Procurou Rita porque ela era a mãe. Saberia o que fazer.
Fátima se certificou de que estava sozinha, com portão e porta fechados e de que ninguém a observava. Queria ter certeza de que não seria ouvida. Telefonou para Rita Preta, uma, duas, três vezes.
O telefone vibrou de forma insistente no bolso da calça. Rita está em seu turno no supermercado e registra item por item de uma compra. Depois de duas noites sem dormir, estava insustentável esconder dos colegas na loja seu cansaço e o tormento que a acompanha desde que o filho não voltou para casa. Ao finalizar aquela tarefa, equilibrando o inventário com a disposição dos itens em oito sacolas plásticas, ela retirou o telefone do bolso como se fosse se certificar da hora. Viu as chamadas de Fátima. “Deve ser urgente”, pensou, “ela quase não me telefona.” Precisa deixar o caixa para tentar falar com a comadre e saber do que se trata. Um fio de esperança indica que Cid voltou para casa. Ela pediu à supervisora para ir ao banheiro e aguarda por exatos quinze minutos para a plaquinha “caixa encerrado” ser colocada na esteira.
“Como assim a polícia? O que ele fez?”
Fátima fica muda, não sabe o que responder. Diz que seu Aranha não contou mais nada. Evoca os medos de Rita ao dizer que todos temem os “caras” e a polícia.
Contudo, apesar da aflição inicial, Rita Preta deixa crescer um sentimento de raiva pelo filho. Se pergunta sobre o que ele deve ter aprontado para ter sido levado à delegacia. Enumera seus problemas: faltar às aulas, o namoro, ficar de bobeira pela rua. Conclui que deve ter aprontado algo. Em meio ao turbilhão, desperta para o fato de que precisa deixar o supermercado naquele instante. Por vergonha, omitirá que Cid foi levado pela polícia e que precisa deixar o trabalho em busca de informações. Rita Preta então alega um mal súbito, enjoo e indisposição que só poderiam ser resolvidos num posto de saúde.
“Temos uma farmacinha no RH”, escuta da supervisora. Não resolveria nem uma fração de sua angústia no setor de recursos humanos — só se ganhasse na loteria dinheiro suficiente para ir até lá pedir demissão. Então, Rita finge tontura e esbarra de maneira proposital no extintor de incêndio. A supervisora é chamada de novo e a olha de cima a baixo. Rita Preta transpira mais que o normal, passa uma toalhinha no rosto. A supervisora decide liberá-la, fazendo contudo um breve histórico da falta de funcionários na equipe. Precisará encerrar o caixa que Rita opera naquele turno, já que não há substituto para o trabalho. Pede que Rita registre a saída antecipada no relógio de ponto e enfatiza que terá que voltar com um atestado médico.
Rita aparenta estar agradecida, mas em pensamento manda a mulher para um lugar sujo e lhe deseja o pior. Sai em disparada pelo salão do supermercado para pegar sua bolsa no armário individual. Não passa no vestiário para retirar o uniforme e deseja nunca mais voltar. Na portaria, abre a bolsa para que o segurança possa revistá-la e ter certeza de que não está levando algo da loja, enquanto ela própria observa ao seu lado uma pequena fila com três homens, o primeiro em posição de revista, braços abertos e pernas esticadas, sendo examinado por outro segurança.
Rita se dirige de imediato para o ponto de ônibus e, enquanto aguarda, decide telefonar para Jorge. Não faz ideia de onde ele esteja. Estiveram juntos há dois dias e recorda apenas que combinaram de se encontrar dali a uma semana. Sabe que se estiver com a mulher e os filhos não atenderá o telefone nem chamará de volta na hora. Se estiver dirigindo o caminhão na estrada, talvez atenda, mas pouco poderá fazer. Por sorte, ele atende. Está abastecendo o veículo.
“Levaram o menino.”
“Que menino?”
“Levaram Cid. Faz dois dias que ele não dorme em casa. Estão dizendo que foi a polícia.”
“O que ele aprontou?”
Rita se dá conta de que talvez tenha se precipitado ao telefonar para Jorge. Ele não pode fazer nada e ainda se acha no direito de duvidar de Cid — “O que ele aprontou?”. Ela é mãe e conhece bem cada um dos filhos — ou pelo menos acha que os conhece —, mas apenas ela poderia duvidar deles. Não admitiria que ninguém sugerisse algum desvio.
Uma hora e meia se passa no trajeto do supermercado até sua casa. Rita anda por ruas e vielas sem levantar a cabeça. Passa também por Fátima, que abre a porta no exato instante em que a comadre chega. Diz algo de que já não consegue se lembrar no segundo seguinte. Rita Preta entra em casa e encontra Juca escutando música no celular. Puxa os fones que ele tem no ouvido de forma abrupta, enquanto caminha para a cozinha. Pergunta se ele ouviu falar algo sobre o irmão. Não, foi a resposta. Vê a louça suja na pia, mas não consegue praguejar ou amaldiçoar a vida como faria num dia qualquer. Segue para o quarto sem janelas onde os filhos dormem e tudo está desarrumado, como sempre. Camas desfeitas, uniformes escolares dispostos numa cadeira de plástico branca ao lado da cama. Menos a de Cid. Rita Preta precisa pensar rápido por onde começar. Decide se dirigir à escola, ainda que não tenha certeza de que será atendida. Fátima continua na porta, à sua espera. Pergunta se ela precisa de ajuda e, mesmo sem resposta, se junta a Rita naquele início de busca.
“Se esse menino fez coisa errada, Fátima, ele vai me pagar.”

Em que momento — em que fração de tempo, em que ponto do espaço — o corpo de Rita foi atravessado por um arrepio? Talvez tenha sido caminhando pelos becos estreitos enquanto as sombras dos sobrados sem reboco se projetavam no chão. Ou ao chegar ao ponto de ônibus e ser tomada de assalto pela dúvida, se tinha ou não trancado a porta de casa para impedir um furto ou algo pior. Talvez tenha sido ao recordar que não passara no quarto sem janelas para se certificar de que os filhos dormiam e saber se haviam retornado para casa. Ou ainda foi quando disse sem motivo aparente, “Meu Deus”, distraída de tudo, mas surpreendida por um sopro carregado de sentidos capazes de fazer estremecer qualquer coisa viva.
A razão desse arrepio foi tragada pelas distrações de um dia comum: pelo barulho do velho motor do ônibus apinhado de gente, vencendo as lombadas no asfalto e fazendo com que os corpos se movimentassem mais do que deveriam; o telefonema que não foi atendido e a imaginação vagando à procura do que o amante estaria fazendo naquele instante; as contas das despesas domésticas que nunca fecham no fim do mês. A recordação desse leve tremor foi ofuscada pela velocidade da caminhada de Rita e pelo cartão de registro de ponto do supermercado. A memória do arrepio foi obliterada pelas máquinas registradoras e pela esteira rolante emperrada com as compras dos clientes. Pelos conflitos e queixas compartilhados com os outros trabalhadores. Pelos clientes que exigiam as compras ensacadas com zelo e rigor, e por sua supervisora pedindo mais celeridade no escaneamento dos alimentos. Pela repetição sem fim dos movimentos que a faziam se sentir distante da terra, um pássaro sem local para pousar.
Não saberia mais dizer se foi depois do arrepio que pediu para ir ao banheiro e esperou com paciência por minutos a fio. Se foi depois de lavar o rosto e escapar para a área de desembarque de mercadorias onde havia um telefone público sem uso. Com certeza, isso ocorreu antes de telefonar de volta para Fátima, e depois para Cainho, e, por fim, para o número de telefone de Cid que permanecia desligado.
Contudo, o mal-estar veio junto com a sensação de que o chão sob seus pés desmoronava. Rita já tinha experimentado aquela agitação outras vezes, uma combinação de aflição e de espanto. A primeira foi quando sua mãe saiu de casa dizendo que iria trabalhar na cidade e que voltaria quando encontrasse um lugar para abrigar os filhos. Nunca mais voltou. Aquela ausência fez Rita encontrar seu primeiro desamparo. Depois, o rio, a morte, e a vida se segurando numa ilha de mato, resistindo à correnteza brutal. A segunda foi quando uma mulher bem-vestida apareceu à porta da casa da fazenda, a casa perdida num grotão do campo vasto, onde o vento se transmutava em sons e as folhas dos juazeiros resistiam, formando uma sinfonia com os chocalhos das mirradas reses. Rita seria levada para trabalhar na cidade. Mas, por ironia, no dia em que ela deixou a casa onde havia morado desde o nascimento, o vento era uma aragem e as folhas das árvores permaneciam imóveis e o gado jazia morto e sem os sons de seus chocalhos. Semanas antes, sua avó Carmelita havia amaldiçoado o rio, e depois de sua partida salgaria a terra, deixando que o céu desabasse sobre sua existência.
A terceira vez era o agora, a memória se fazendo no exato instante em que as coisas estão acontecendo. Foi quando chegou a casa onde vivia, incrustada no apinhado de outras casas na cidade. Anos e anos separam o primeiro evento desse outro, mas o sentimento de que o chão sob seus pés continua instável permanece o mesmo.
Todas as vezes anteriores que o chão parecia ter ruído sob seus pés vagavam longe em sua memória. Converteram-se em pequenos abalos diante da magnitude dos novos eventos.

Na escola, ela busca por informações sobre os passos do filho. Precisa falar com algum responsável, no entanto não consegue encontrar ninguém. Em sua cabeça vagueiam mil situações sobre o que poderia ter acontecido a Cid. Em seu rosto ainda não há tristeza, tampouco revolta. Não há lágrima nem hesitação. Há apenas uma mãe querendo desfazer um mal-entendido e disposta a negociar com qualquer pessoa uma reparação pelo erro cometido. Depois ela mesma cuidaria da punição, exerceria ainda mais controle sobre os filhos, tentaria mantê-los no “rumo certo”, como as mães que conhece costumam se referir ao caminho de renúncia do que não se tem.
A inquietação se instaura no peito de Rita Preta, impedindo-a de esperar pelos funcionários da escola. Ela se exalta e reclama para o segurança. O homem continua imóvel, apenas escuta, mas parece concordar. Rita levanta a voz e diz que sempre que necessita de algo da escola é preciso esperar bastante tempo. Sai a passos firmes. Fátima apenas a segue. Ela se dá conta da companhia e pergunta de novo onde ele estava quando foi levado.
“Na saída da vila, antes de chegar ao largo.”
Rita saiu com tanta pressa que não tirou o uniforme amarelo do trabalho. Transpira, e por isso pega uma pequena toalha para enxugar o suor que tem no rosto. É uma noite sem vento e o céu está coberto de nuvens. Um estágio do tempo chamado de mormaço; umidade e calor intensos anunciando chuva nas próximas horas. É o momento de maior movimento diário na rua, quando os trabalhadores estão voltando para casa.
Dona Conceição deixa o interior da sua casa com telhado de amianto e um bom tanque de policarbonato para armazenar água. Encontra Rita e Fátima à sua porta. Repete o que foi dito por seu Aranha.
“A senhora se lembra quem eram os meninos que disseram que a polícia levou Cid?”
“Uns meninos que jogam bola na rua de baixo. Eles passam sempre por aqui, mas não sei o nome de ninguém.”
É como se cada passo, cada pergunta, cada rosto novo en­contrado fosse levá-la a uma revelação, que por sua vez a conduziria para mais perto ou mais longe do filho. Rita Preta continua sua caminhada disposta a perguntar sobre o ocorrido a quem encontrar durante o trajeto, antes de procurar de novo a delegacia para relatar o desaparecimento e a suposta abordagem. Acelera os passos e diz a Fátima para não se preocupar, ela pode voltar para casa. A comadre conhece bem as qualidades e os defeitos de Rita, por isso finge não escutar, apenas a acompanha. Elas passam por uma calçada rente a um muro que cerca uma casa desconhecida. Rita olha para um tecido branco em destaque, hasteado como uma bandeira na altura de seus olhos. Se afasta para não esbarrar no objeto, mas ao chegar mais perto descobre que é uma camisa de uniforme escolar. Como a da escola dos filhos.
Na camisa está uma nódoa conhecida, uma mancha de caneta que nenhum alvejante conseguiu retirar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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