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“O pessoal está falando do menino,
Rita.”
Rita Preta ouve a voz de Fátima.
Emudece ao telefone. O mesmo arrepio que percorreu seu corpo dias
antes a eletriza com intensidade. Quer saber o que aconteceu com o
filho. “A polícia”, Fátima responde. Como de costume, escutou
quando chegou do trabalho mais cedo. Ouviu o burburinho ao tentar
encurtar o caminho passando pela rua de cima. Dona Conceição, uma
senhora que mora perto da entrada da vila, ouviu de alguém, que por
sua vez ouviu dos meninos que brincavam de futebol na rua. Quando seu
Aranha passou pelo mesmo caminho uma hora depois, a mulher comentou
com ele “à boca miúda”, para não causar alvoroço e ser
chamada de X-9. De pronto, ele se dirigiu à casa de Rita Preta, mas
não encontrou ninguém. Os filhos estavam na escola. Enquanto seu
Aranha batia na porta de Rita, Fátima abria o portão de ferro para
entrar em sua casa, com os cachorros festejando sua chegada. “É
com Rita? É urgente?”, quis saber. O pedreiro se pôs a falar com
reserva, receoso da lei que rege a comunidade. Tem as roupas sujas de
cimento, está trabalhando na construção de um muro e, apesar da
fama de bêbado, aparenta estar sóbrio. Mesmo sem querer se
intrometer, decidiu procurar por Rita. Algo o toca naquela história:
pensa nos próprios filhos e gostaria que lhe informassem se algo
parecido acontecesse.
Procurou Rita porque ela era a mãe.
Saberia o que fazer.
Fátima se certificou de que estava
sozinha, com portão e porta fechados e de que ninguém a observava.
Queria ter certeza de que não seria ouvida. Telefonou para Rita
Preta, uma, duas, três vezes.
O telefone vibrou de forma insistente
no bolso da calça. Rita está em seu turno no supermercado e
registra item por item de uma compra. Depois de duas noites sem
dormir, estava insustentável esconder dos colegas na loja seu
cansaço e o tormento que a acompanha desde que o filho não voltou
para casa. Ao finalizar aquela tarefa, equilibrando o inventário com
a disposição dos itens em oito sacolas plásticas, ela retirou o
telefone do bolso como se fosse se certificar da hora. Viu as
chamadas de Fátima. “Deve ser urgente”, pensou, “ela quase não
me telefona.” Precisa deixar o caixa para tentar falar com a
comadre e saber do que se trata. Um fio de esperança indica que Cid
voltou para casa. Ela pediu à supervisora para ir ao banheiro e
aguarda por exatos quinze minutos para a plaquinha “caixa
encerrado” ser colocada na esteira.
“Como assim a polícia? O que ele
fez?”
Fátima fica muda, não sabe o que
responder. Diz que seu Aranha não contou mais nada. Evoca os medos
de Rita ao dizer que todos temem os “caras” e a polícia.
Contudo, apesar da aflição inicial,
Rita Preta deixa crescer um sentimento de raiva pelo filho. Se
pergunta sobre o que ele deve ter aprontado para ter sido levado à
delegacia. Enumera seus problemas: faltar às aulas, o namoro, ficar
de bobeira pela rua. Conclui que deve ter aprontado algo. Em meio ao
turbilhão, desperta para o fato de que precisa deixar o supermercado
naquele instante. Por vergonha, omitirá que Cid foi levado pela
polícia e que precisa deixar o trabalho em busca de informações.
Rita Preta então alega um mal súbito, enjoo e indisposição que só
poderiam ser resolvidos num posto de saúde.
“Temos uma farmacinha no RH”,
escuta da supervisora. Não resolveria nem uma fração de sua
angústia no setor de recursos humanos — só se ganhasse na loteria
dinheiro suficiente para ir até lá pedir demissão. Então, Rita
finge tontura e esbarra de maneira proposital no extintor de
incêndio. A supervisora é chamada de novo e a olha de cima a baixo.
Rita Preta transpira mais que o normal, passa uma toalhinha no rosto.
A supervisora decide liberá-la, fazendo contudo um breve histórico
da falta de funcionários na equipe. Precisará encerrar o caixa que
Rita opera naquele turno, já que não há substituto para o
trabalho. Pede que Rita registre a saída antecipada no relógio de
ponto e enfatiza que terá que voltar com um atestado médico.
Rita aparenta estar agradecida, mas em
pensamento manda a mulher para um lugar sujo e lhe deseja o pior. Sai
em disparada pelo salão do supermercado para pegar sua bolsa no
armário individual. Não passa no vestiário para retirar o uniforme
e deseja nunca mais voltar. Na portaria, abre a bolsa para que o
segurança possa revistá-la e ter certeza de que não está levando
algo da loja, enquanto ela própria observa ao seu lado uma pequena
fila com três homens, o primeiro em posição de revista, braços
abertos e pernas esticadas, sendo examinado por outro segurança.
Rita se dirige de imediato para o
ponto de ônibus e, enquanto aguarda, decide telefonar para Jorge.
Não faz ideia de onde ele esteja. Estiveram juntos há dois dias e
recorda apenas que combinaram de se encontrar dali a uma semana. Sabe
que se estiver com a mulher e os filhos não atenderá o telefone nem
chamará de volta na hora. Se estiver dirigindo o caminhão na
estrada, talvez atenda, mas pouco poderá fazer. Por sorte, ele
atende. Está abastecendo o veículo.
“Levaram o menino.”
“Que menino?”
“Levaram Cid. Faz dois dias que ele
não dorme em casa. Estão dizendo que foi a polícia.”
“O que ele aprontou?”
Rita se dá conta de que talvez tenha
se precipitado ao telefonar para Jorge. Ele não pode fazer nada e
ainda se acha no direito de duvidar de Cid — “O que ele
aprontou?”. Ela é mãe e conhece bem cada um dos filhos — ou
pelo menos acha que os conhece —, mas apenas ela poderia duvidar
deles. Não admitiria que ninguém sugerisse algum desvio.
Uma hora e meia se passa no trajeto do
supermercado até sua casa. Rita anda por ruas e vielas sem levantar
a cabeça. Passa também por Fátima, que abre a porta no exato
instante em que a comadre chega. Diz algo de que já não consegue se
lembrar no segundo seguinte. Rita Preta entra em casa e encontra Juca
escutando música no celular. Puxa os fones que ele tem no ouvido de
forma abrupta, enquanto caminha para a cozinha. Pergunta se ele ouviu
falar algo sobre o irmão. Não, foi a resposta. Vê a louça suja na
pia, mas não consegue praguejar ou amaldiçoar a vida como faria num
dia qualquer. Segue para o quarto sem janelas onde os filhos dormem e
tudo está desarrumado, como sempre. Camas desfeitas, uniformes
escolares dispostos numa cadeira de plástico branca ao lado da cama.
Menos a de Cid. Rita Preta precisa pensar rápido por onde começar.
Decide se dirigir à escola, ainda que não tenha certeza de que será
atendida. Fátima continua na porta, à sua espera. Pergunta se ela
precisa de ajuda e, mesmo sem resposta, se junta a Rita naquele
início de busca.
“Se esse menino fez coisa errada,
Fátima, ele vai me pagar.”
Em que momento — em que fração de
tempo, em que ponto do espaço — o corpo de Rita foi atravessado
por um arrepio? Talvez tenha sido caminhando pelos becos estreitos
enquanto as sombras dos sobrados sem reboco se projetavam no chão.
Ou ao chegar ao ponto de ônibus e ser tomada de assalto pela dúvida,
se tinha ou não trancado a porta de casa para impedir um furto ou
algo pior. Talvez tenha sido ao recordar que não passara no quarto
sem janelas para se certificar de que os filhos dormiam e saber se
haviam retornado para casa. Ou ainda foi quando disse sem motivo
aparente, “Meu Deus”, distraída de tudo, mas surpreendida por um
sopro carregado de sentidos capazes de fazer estremecer qualquer
coisa viva.
A razão desse arrepio foi tragada
pelas distrações de um dia comum: pelo barulho do velho motor do
ônibus apinhado de gente, vencendo as lombadas no asfalto e fazendo
com que os corpos se movimentassem mais do que deveriam; o telefonema
que não foi atendido e a imaginação vagando à procura do que o
amante estaria fazendo naquele instante; as contas das despesas
domésticas que nunca fecham no fim do mês. A recordação desse
leve tremor foi ofuscada pela velocidade da caminhada de Rita e pelo
cartão de registro de ponto do supermercado. A memória do arrepio
foi obliterada pelas máquinas registradoras e pela esteira rolante
emperrada com as compras dos clientes. Pelos conflitos e queixas
compartilhados com os outros trabalhadores. Pelos clientes que
exigiam as compras ensacadas com zelo e rigor, e por sua supervisora
pedindo mais celeridade no escaneamento dos alimentos. Pela repetição
sem fim dos movimentos que a faziam se sentir distante da terra, um
pássaro sem local para pousar.
Não saberia mais dizer se foi depois
do arrepio que pediu para ir ao banheiro e esperou com paciência por
minutos a fio. Se foi depois de lavar o rosto e escapar para a área
de desembarque de mercadorias onde havia um telefone público sem
uso. Com certeza, isso ocorreu antes de telefonar de volta para
Fátima, e depois para Cainho, e, por fim, para o número de telefone
de Cid que permanecia desligado.
Contudo, o mal-estar veio junto com a
sensação de que o chão sob seus pés desmoronava. Rita já tinha
experimentado aquela agitação outras vezes, uma combinação de
aflição e de espanto. A primeira foi quando sua mãe saiu de casa
dizendo que iria trabalhar na cidade e que voltaria quando
encontrasse um lugar para abrigar os filhos. Nunca mais voltou.
Aquela ausência fez Rita encontrar seu primeiro desamparo. Depois, o
rio, a morte, e a vida se segurando numa ilha de mato, resistindo à
correnteza brutal. A segunda foi quando uma mulher bem-vestida
apareceu à porta da casa da fazenda, a casa perdida num grotão do
campo vasto, onde o vento se transmutava em sons e as folhas dos
juazeiros resistiam, formando uma sinfonia com os chocalhos das
mirradas reses. Rita seria levada para trabalhar na cidade. Mas, por
ironia, no dia em que ela deixou a casa onde havia morado desde o
nascimento, o vento era uma aragem e as folhas das árvores
permaneciam imóveis e o gado jazia morto e sem os sons de seus
chocalhos. Semanas antes, sua avó Carmelita havia amaldiçoado o
rio, e depois de sua partida salgaria a terra, deixando que o céu
desabasse sobre sua existência.
A terceira vez era o agora, a memória
se fazendo no exato instante em que as coisas estão acontecendo. Foi
quando chegou a casa onde vivia, incrustada no apinhado de outras
casas na cidade. Anos e anos separam o primeiro evento desse outro,
mas o sentimento de que o chão sob seus pés continua instável
permanece o mesmo.
Todas as vezes anteriores que o chão
parecia ter ruído sob seus pés vagavam longe em sua memória.
Converteram-se em pequenos abalos diante da magnitude dos novos
eventos.
Na escola, ela busca por informações
sobre os passos do filho. Precisa falar com algum responsável, no
entanto não consegue encontrar ninguém. Em sua cabeça vagueiam mil
situações sobre o que poderia ter acontecido a Cid. Em seu rosto
ainda não há tristeza, tampouco revolta. Não há lágrima nem
hesitação. Há apenas uma mãe querendo desfazer um mal-entendido e
disposta a negociar com qualquer pessoa uma reparação pelo erro
cometido. Depois ela mesma cuidaria da punição, exerceria ainda
mais controle sobre os filhos, tentaria mantê-los no “rumo certo”,
como as mães que conhece costumam se referir ao caminho de renúncia
do que não se tem.
A inquietação se instaura no peito
de Rita Preta, impedindo-a de esperar pelos funcionários da escola.
Ela se exalta e reclama para o segurança. O homem continua imóvel,
apenas escuta, mas parece concordar. Rita levanta a voz e diz que
sempre que necessita de algo da escola é preciso esperar bastante
tempo. Sai a passos firmes. Fátima apenas a segue. Ela se dá conta
da companhia e pergunta de novo onde ele estava quando foi levado.
“Na saída da vila, antes de chegar
ao largo.”
Rita saiu com tanta pressa que não
tirou o uniforme amarelo do trabalho. Transpira, e por isso pega uma
pequena toalha para enxugar o suor que tem no rosto. É uma noite sem
vento e o céu está coberto de nuvens. Um estágio do tempo chamado
de mormaço; umidade e calor intensos anunciando chuva nas próximas
horas. É o momento de maior movimento diário na rua, quando os
trabalhadores estão voltando para casa.
Dona Conceição deixa o interior da
sua casa com telhado de amianto e um bom tanque de policarbonato para
armazenar água. Encontra Rita e Fátima à sua porta. Repete o que
foi dito por seu Aranha.
“A senhora se lembra quem eram os
meninos que disseram que a polícia levou Cid?”
“Uns meninos que jogam bola na rua
de baixo. Eles passam sempre por aqui, mas não sei o nome de
ninguém.”
É como se cada passo, cada pergunta,
cada rosto novo encontrado fosse levá-la a uma revelação, que
por sua vez a conduziria para mais perto ou mais longe do filho. Rita
Preta continua sua caminhada disposta a perguntar sobre o ocorrido a
quem encontrar durante o trajeto, antes de procurar de novo a
delegacia para relatar o desaparecimento e a suposta abordagem.
Acelera os passos e diz a Fátima para não se preocupar, ela pode
voltar para casa. A comadre conhece bem as qualidades e os defeitos
de Rita, por isso finge não escutar, apenas a acompanha. Elas passam
por uma calçada rente a um muro que cerca uma casa desconhecida.
Rita olha para um tecido branco em destaque, hasteado como uma
bandeira na altura de seus olhos. Se afasta para não esbarrar no
objeto, mas ao chegar mais perto descobre que é uma camisa de
uniforme escolar. Como a da escola dos filhos.
Na camisa está uma nódoa conhecida,
uma mancha de caneta que nenhum alvejante conseguiu retirar.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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