06/09/2026

Correnteza




2

Cainho atravessa a porta do quarto para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem — olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta, estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho, Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”, Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa, sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.

Ele contra-argumenta dizendo que já fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará, pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol, muito cedo, já se exibe abrasador.

A casa onde a garota mora fica na base de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz, esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa, mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados, como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias do filho junto aos colegas.

Enquanto espera pela condução, sente na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros, ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar — andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente, ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”, ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”, Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos, um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo, para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia. “Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse, enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada, cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou, “então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra, ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele desaparecesse.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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