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Cainho atravessa a porta do quarto
para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e
a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem —
olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por
trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho
percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da
vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada
para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve
ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado
latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta
bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se
certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a
movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe
recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira
ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta,
estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor
sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho,
Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”,
Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e
verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a
garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com
pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a
maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o
trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em
minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais
de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará
quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte
para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela
estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para
se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma
intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa,
sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que
ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira
genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão
rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.
Ele contra-argumenta dizendo que já
fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos
havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada
sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação
superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos
não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa
e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não
parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela
estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as
punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará,
pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com
segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não
chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de
notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves
para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está
ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de
contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as
garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol,
muito cedo, já se exibe abrasador.
A casa onde a garota mora fica na base
de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que
corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de
casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta
entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona
do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher
parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem
está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se
ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz,
esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito
disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da
casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa,
mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim
o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso
imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher
inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu
pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a
deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se
afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados,
como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente
para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de
ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao
turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias
do filho junto aos colegas.
Enquanto espera pela condução, sente
na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo
parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter
repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros,
ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar —
andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez
não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina
quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam
discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou
dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid
estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com
os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou
ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente,
ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu
ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma
briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro
sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e
o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no
diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia
tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais
xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente
furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais
alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou
se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”,
ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”,
Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem
não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho
e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam
arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos,
um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma
energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela
intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente
com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas
Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo,
para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma
que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as
mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre
todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir
apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia.
“Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por
você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e
procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da
pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia
tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de
puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse,
enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o
travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda
grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se
proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe
e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único
movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar
como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou
e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder
aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para
longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no
quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada,
cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid
não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou,
“então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu
infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar
da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido
derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência
do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra,
ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou
permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não
poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num
momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas
seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele
desaparecesse.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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