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Rita Preta abre a porta de casa e
encontra Cid de pé, próximo à entrada do quarto. Ela não tem
oportunidade de pensar no que precisa ser dito e se deixa guiar pelo
instinto. Enquanto se aproxima, diz frases como “faz dois dias que
te procuro” e “você quer me enlouquecer?”. A luz do dia não
parece ser suficiente para dissipar a penumbra que envolve a casa e a
imagem do filho. “Sabe aonde eu fui ontem?”, continua, “fui à
delegacia registrar seu sumiço.” Rita está furiosa, mas se sente
ao mesmo tempo aliviada. “Seus irmãos, os vizinhos, todos estão
preocupados.” Em circunstâncias normais, ela reagiria com
promessas de castigos e punições. Contudo, as horas de angústia só
lhe permitem repreender com moderação. Cid permanece em silêncio
e, estranhamente, aparenta ser menor do que de fato é. De início,
não expressa qualquer emoção. Depois, apenas parece assustado.
Rita caminha em sua direção, tenta alcançá-lo, mas tem a estranha
impressão de que a sala se expande ao tentar se aproximar do filho.
Por fim, ao chegar perto o suficiente para constatar se ele estava
bem (corpo e olhos íntegros, pôde verificar num primeiro instante),
lembra-se da sacola que segura nas mãos. “Tome”, Rita a estende
para o filho. Ele levanta a mão direita para recebê-la. Ela afirma
que é, sim, para ele, entre uma inspiração e uma expiração mais
profunda.
Ele segura o volume e pergunta: “O
que é isso?”.
“Gelo”, ela responde, sorrindo,
como se portasse algo realmente valioso. “Eu trouxe do trabalho.”
Cid abre a sacola e percebe que está
vazia. Não há indício de gelo ou de água ou de umidade. Um volume
oco e sem conteúdo. Rita arregala os olhos com espanto, tenta
compreender o que aconteceu, e o vazio começa a consumir tudo ao seu
redor.
Rita Preta se levanta do sofá,
assustada, o coração acelerado. Acende a luz do ambiente. Após uma
noite em claro e avançando noutra, ela acabou por cochilar enquanto
esperava por Cid. Dirige-se ao quarto dos filhos — ele passou por
aqui? — e deixa que a luz da sala o ilumine o suficiente para que
seja possível ver quem está dormindo. Juca está deitado, o lençol
pendendo da cama ao chão. Cainho também dorme, e um livro
emprestado — reconhece a marca da biblioteca da escola — repousa
sobre seu peito, subindo e descendo com o movimento de sua
respiração. A cama de cima do beliche permanece vazia. Rita recolhe
e fecha o livro. Retira o lençol do chão para que nenhum inseto
suba na cama do mais novo.
Estavam exaustos pelas horas de espera
para registrar o desaparecimento. Rita tinha a sensação de que a
energia de todos se esvaiu enquanto aguardavam atendimento, de pé ou
sentados, acomodados por algum tempo nas poucas cadeiras que vagavam.
Isso não se devia apenas à frustração por não ter conseguido
fazer o registro, mas também à forma como fora recebida pela equipe
na delegacia. Ela não teve contato direto nem com o delegado nem com
o escrivão, apenas com colaboradores sentados em terminais de
computadores, que registravam uma infinidade de problemas enfrentados
pelos que vivem numa cidade grande. Por quase uma hora e meia
repetiram que o sistema estava “fora do ar”. Ainda assim, Rita
continuou a aguardar sua vez. Enquanto isso, ela percebia a maresia
penetrando no ambiente sempre que a porta de vidro se abria e se
fechava para aqueles que procuravam respostas às suas questões.
Ameaças de morte. Roubos. Violência doméstica. Em algumas
ocasiões, os envolvidos estavam presentes, juntos, e era necessário
que alguém levantasse a voz para apaziguar os ânimos. Aquela
pequena sala representava um microcosmo de diversos planos: uma
comunidade, um bairro, uma cidade.
Do outro lado da avenida, o oceano e a
escuridão prevaleciam onde nada se via, por causa da parca
iluminação dos postes distantes. Rita Preta sabia com exatidão os
traços daquela paisagem que costumava frequentar, embora nos últimos
anos as idas tivessem se tornado mais escassas. O cheiro do mar
estava mais acentuado, o que a fazia imaginar que talvez fosse o
sargaço acumulado na beira da praia se misturando à água salgada.
Foram muitas as vezes em que ela havia se banhado naquela praia, nos
dias de genuína liberdade, com ou sem os filhos, nos braços dos
amantes ou não, e, certamente, umas poucas vezes com Fátima.
A cabeça de Rita Preta estava
realmente ocupada com o sumiço do filho rebelde, mas, se fosse um
dia comum, ela poderia ter recordado a primeira vez que avistou o
mar. Foi pouco depois de chegar à baía e num dia em que ela
carregava como parte do trabalho diversos utensílios com os quais
gostaria de brincar: baldes, regadores e pás de plástico dos filhos
de seus patrões. Naquela época, Rita ainda não tinha atingido seu
pleno crescimento, aumentaria mais doze centímetros nos dois anos
seguintes. Ainda não era a Rita Preta, a alcunha surgiria algum
tempo depois. Enquanto tentava equilibrar tudo de que precisava
cuidar, enquanto o casal à frente se ocupava das crianças que
corriam em direção às ondas, sua atenção estava focada nos
brinquedos que tinha nos braços para não deixá-los cair. Com os
pés e as sandálias afundando na areia, ela olhava para os objetos
sob sua guarda, sem perceber que se aproximava do mar. De repente,
uma espuma branca cobriu seus pés e, ao olhar para o horizonte
vasto, o grande rio, se sentiu mortificada com sua imensidão e
sonoridade. Mais uma onda veio e ela deixou tudo cair das mãos antes
de correr de volta para a calçada.
“Que idiota”, teria ouvido da
patroa se o som das ondas não tivesse abafado a voz dela. A mulher
lamentou que ela própria tivesse de correr para tentar impedir que
os brinquedos fossem levados pelas ondas. Uma das crianças, o
menino, começou a gritar ao ver o mar engolir a pá e a peneira
colorida, antes que a mãe pudesse alcançar os objetos. Rita tremia
dos pés à cabeça, com um gosto amargo na boca, o medo conhecido. A
mulher fazia gestos para que ela voltasse para a areia e a ajudasse
com as crianças, que riam e choravam ao mesmo tempo, corriam e
esperneavam. Ela também começou a temer as expressões severas da
patroa e então se viu obrigada a retornar pé ante pé, atenta ao
horizonte, para que, diante de qualquer perigo, pudesse voltar para a
calçada acima do nível das águas.
“Começou bem”, teria dito a
mulher, caso a memória de Rita não a traísse anos mais tarde — e
completou dizendo que precisaria descontar o prejuízo com os
brinquedos de seu salário. Mas isso realmente pouco importava a
Rita. Meses antes tinha sobrevivido a uma tromba-d’água que
devastou a vida de todos à sua volta. Ela continuava atenta ao mar,
aflita, temerosa, mas também enfeitiçada, porque passaria a guardar
essa experiência íntima como um recomeço. O início de sua vida
naquela cidade, para onde sua mãe tinha migrado anos antes
prometendo voltar; a vida que conheceria e desbravaria ainda muito
nova; e também algo além e que não conseguia explicar, mas que
talvez algum dia pudesse compreender: a pedra fundamental, a primeira
onda, o prelúdio de algo maior. A história que não era apenas sua,
mas de todos, e que não era apenas uma retórica, mas revelava quem
exatamente ela era.
Rita Preta atende ao chamado e se
senta diante da escrivã responsável pelo registro. Uma mulher de
meia-idade, usando óculos e camisa polo azul, com os cabelos crespos
tingidos que ainda refletem o brilho do creme para pentear. Ela não
dirige o olhar a Rita; está concentrada, como se o próprio corpo
fosse uma extensão da máquina, e faz perguntas enquanto percorre o
teclado com alguma dificuldade. Pede que se identifique e informe por
que se encontra numa delegacia. “Preciso registrar o
desaparecimento do meu filho.” A partir daí, inicia uma série de
outras perguntas para preencher o formulário à sua frente. Há
quanto tempo ele desapareceu. Local. Filiação. Data de nascimento.
“A senhora trouxe seu documento? O dele?” “Trouxe a certidão
de nascimento”, explica, não havia encontrado a identidade.
Acredita que está com ele. “A senhora não sabe nem mesmo o
número?” Rita começa a revirar os papéis na bolsa em busca de
anotações que possam ajudar, mas não encontra nada. Enquanto isso,
a mulher continua as perguntas: onde mora; bairro; número; casa ou
apartamento; raça; cor. “Moreno”, responde Rita, e a mulher que
se afirma como negra desvia o olhar da tela para encarar Rita melhor.
Ela contempla seu rosto por cima dos óculos antes de voltar à tela
do computador.
“A senhora poderia descrever o que
sabe sobre o desaparecimento? Ele estava em casa? Tinha saído?”
Rita tenta rememorar o que sabe.
Explica que estava no trabalho e chegou no início da noite, mas não
o encontrou em casa. Tentou telefonar, mas a chamada caía direto na
caixa postal. A mulher pergunta se ela fizera buscas pela rua, pelo
bairro. Se alguém poderia ter mais informações. Rita responde que
não naquele momento. “Eu tinha um compromisso e precisei sair.
Achei que ele estivesse com alguém, talvez com a namorada, e que
voltaria para casa como sempre fazia.” “E ele estava?”, a
escrivã questiona, mantendo uma postura distante, como uma atendente
de telemarketing, voz robótica, digitando as informações
lentamente. “Que horas a senhora deu pela falta dele?” Rita Preta
tem medo de ser censurada pela escrivã e acaba mentindo. Afirma que
voltou à meia-noite, quando na realidade eram duas da manhã. “E
ele não estava lá”, deduz a mulher. “Não, ele não estava.”
Relata que no dia seguinte foi trabalhar preocupada, e ainda assim
continuou a acreditar que ele poderia ter chegado. Quando constatou
que ele não chegou, decidiu ir até a casa da namorada dele.
“Namorada não, a moça com quem ele está ficando”, se corrige,
“é assim que eles dizem.”
A funcionária pergunta se ele
frequentou a escola naquele dia, mas Rita não tem certeza da
resposta. Ela menciona que Cid vinha faltando às aulas. Depois, a
moça indaga se ele fazia uso de alguma droga ou estava envolvido em
atividades ilegais. Rita responde, categórica: “Nunca. Nunca
soube. É respondão. Rebelde. Gosta das coisas do jeito dele. Mas
nunca usou nada não, senhora”. É questionada se as pessoas com
quem ele andava eram usuários. Ela revela que conhece a maioria das
mães e não tinha informações sobre nada ilícito. Contou que
sabia que havia tráfico em sua comunidade — “Mas eles estão lá
e a gente cá. Não mexem conosco”.
“A senhora tem algo mais a
acrescentar?”
Sim. Rita tinha algumas perguntas: O
que a senhora acha que deve ter acontecido? A polícia vai procurar
por ele?
“O boletim será enviado ao setor
competente. Abrirão um processo para realizar as diligências
necessárias.”
Rita Preta quer perguntar mais, mas
sabe que é bastante tarde. Tem os olhos secos de cansaço e aflição.
A atendente troca um olhar com outra
próxima, como se quisesse dizer: “Olha como as coisas são. Não
cuidam dos filhos e ainda esperam que a polícia os procure na hora
que querem”. Rita mantém o olhar firme, determinada a concluir o
registro, mas não vai suportar desdém de ninguém. Ela precisa
aturar a indiferença, pelo menos naquele momento, para cumprir o que
tinha ido fazer. No fundo, sua vontade era dizer à mulher que ela
também poderia não viver num bom lugar e que poderia ter um
sobrinho, um vizinho, ou mesmo um filho perdido e conhecer uma mãe
passando pelo mesmo problema. Queria expressar — e talvez tenha
feito isso, já que se espera que as mães sempre confessem seu
irrenunciável altruísmo — que estava sem dormir direito havia
mais de vinte e quatro horas, que não podia faltar ao trabalho para
procurá-lo, pois isso significaria ter descontado do salário o
dinheiro do aluguel e até da alimentação da família. Queria dizer
que a atendente se demonstrava pouco solidária e que não se
importava com sua fadiga nem com a má sorte que a levara àquela
delegacia.
“Ah, não”, um homem que também
fazia um registro e estava sentado três cadeiras à frente lamenta,
“o sistema caiu.”
A mulher que atende Rita ajeita os
óculos e ao mesmo tempo demonstra que está aliviada com a pausa que
faria, afinal a recepção está apinhada de gente — “O sistema
caiu. Se a senhora precisar do boletim e do número do seu processo,
é preciso aguardar”.
“Vai demorar muito?”
“Não temos previsão.”
Rita olha para os filhos e os sente
impacientes com a espera. Se levanta mais uma vez e se deixa envolver
de novo pela maresia invadindo o ambiente quando a porta se abre para
uma mulher que segura um pano ensopado de sangue próximo à testa.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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