18/09/2026

Correnteza


4

Rita Preta abre a porta de casa e encontra Cid de pé, próximo à entrada do quarto. Ela não tem oportunidade de pensar no que precisa ser dito e se deixa guiar pelo instinto. Enquanto se aproxima, diz frases como “faz dois dias que te procuro” e “você quer me enlouquecer?”. A luz do dia não parece ser suficiente para dissipar a penumbra que envolve a casa e a imagem do filho. “Sabe aonde eu fui ontem?”, continua, “fui à delegacia registrar seu sumiço.” Rita está furiosa, mas se sente ao mesmo tempo aliviada. “Seus irmãos, os vizinhos, todos estão preocupados.” Em circunstâncias normais, ela reagiria com promessas de castigos e punições. Contudo, as horas de angústia só lhe permitem repreender com moderação. Cid permanece em silêncio e, estranhamente, aparenta ser menor do que de fato é. De início, não expressa qualquer emoção. Depois, apenas parece assustado. Rita caminha em sua direção, tenta alcançá-lo, mas tem a estranha impressão de que a sala se expande ao tentar se aproximar do filho. Por fim, ao chegar perto o suficiente para constatar se ele estava bem (corpo e olhos íntegros, pôde verificar num primeiro instante), lembra-se da sacola que segura nas mãos. “Tome”, Rita a estende para o filho. Ele levanta a mão direita para recebê-la. Ela afirma que é, sim, para ele, entre uma inspiração e uma expiração mais profunda.
Ele segura o volume e pergunta: “O que é isso?”.
“Gelo”, ela responde, sorrindo, como se portasse algo realmente valioso. “Eu trouxe do trabalho.”
Cid abre a sacola e percebe que está vazia. Não há indício de gelo ou de água ou de umidade. Um volume oco e sem conteúdo. Rita arregala os olhos com espanto, tenta compreender o que aconteceu, e o vazio começa a consumir tudo ao seu redor.
Rita Preta se levanta do sofá, assustada, o coração acelerado. Acende a luz do ambiente. Após uma noite em claro e avançando noutra, ela acabou por cochilar enquanto esperava por Cid. Dirige-se ao quarto dos filhos — ele passou por aqui? — e deixa que a luz da sala o ilumine o suficiente para que seja possível ver quem está dormindo. Juca está deitado, o lençol pendendo da cama ao chão. Cainho também dorme, e um livro emprestado — reconhece a marca da biblioteca da escola — repousa sobre seu peito, subindo e descendo com o movimento de sua respiração. A cama de cima do beliche permanece vazia. Rita recolhe e fecha o livro. Retira o lençol do chão para que nenhum inseto suba na cama do mais novo.
Estavam exaustos pelas horas de espera para registrar o desaparecimento. Rita tinha a sensação de que a energia de todos se esvaiu enquanto aguardavam atendimento, de pé ou sentados, acomodados por algum tempo nas poucas cadeiras que vagavam. Isso não se devia apenas à frustração por não ter conseguido fazer o registro, mas também à forma como fora recebida pela equipe na delegacia. Ela não teve contato direto nem com o delegado nem com o escrivão, apenas com colaboradores sentados em terminais de computadores, que registravam uma infinidade de problemas enfrentados pelos que vivem numa cidade grande. Por quase uma hora e meia repetiram que o sistema estava “fora do ar”. Ainda assim, Rita continuou a aguardar sua vez. Enquanto isso, ela percebia a maresia penetrando no ambiente sempre que a porta de vidro se abria e se fechava para aqueles que procuravam respostas às suas questões. Ameaças de morte. Roubos. Violência doméstica. Em algumas ocasiões, os envolvidos estavam presentes, juntos, e era necessário que alguém levantasse a voz para apaziguar os ânimos. Aquela pequena sala representava um microcosmo de diversos planos: uma comunidade, um bairro, uma cidade.
Do outro lado da avenida, o oceano e a escuridão prevaleciam onde nada se via, por causa da parca iluminação dos postes distantes. Rita Preta sabia com exatidão os traços daquela paisagem que costumava frequentar, embora nos últimos anos as idas tivessem se tornado mais escassas. O cheiro do mar estava mais acentuado, o que a fazia imaginar que talvez fosse o sargaço acumulado na beira da praia se misturando à água salgada. Foram muitas as vezes em que ela havia se banhado naquela praia, nos dias de genuína liberdade, com ou sem os filhos, nos braços dos amantes ou não, e, certamente, umas poucas vezes com Fátima.
A cabeça de Rita Preta estava realmente ocupada com o sumiço do filho rebelde, mas, se fosse um dia comum, ela poderia ter recordado a primeira vez que avistou o mar. Foi pouco depois de chegar à baía e num dia em que ela carregava como parte do trabalho diversos utensílios com os quais gostaria de brincar: baldes, regadores e pás de plástico dos filhos de seus patrões. Naquela época, Rita ainda não tinha atingido seu pleno crescimento, aumentaria mais doze centímetros nos dois anos seguintes. Ainda não era a Rita Preta, a alcunha surgiria algum tempo depois. Enquanto tentava equilibrar tudo de que precisava cuidar, enquanto o casal à frente se ocupava das crianças que corriam em direção às ondas, sua atenção estava focada nos brinquedos que tinha nos braços para não deixá-los cair. Com os pés e as sandálias afundando na areia, ela olhava para os objetos sob sua guarda, sem perceber que se aproximava do mar. De repente, uma espuma branca cobriu seus pés e, ao olhar para o horizonte vasto, o grande rio, se sentiu mortificada com sua imensidão e sonoridade. Mais uma onda veio e ela deixou tudo cair das mãos antes de correr de volta para a calçada.
“Que idiota”, teria ouvido da patroa se o som das ondas não tivesse abafado a voz dela. A mulher lamentou que ela própria tivesse de correr para tentar impedir que os brinquedos fossem levados pelas ondas. Uma das crianças, o menino, começou a gritar ao ver o mar engolir a pá e a peneira colorida, antes que a mãe pudesse alcançar os objetos. Rita tremia dos pés à cabeça, com um gosto amargo na boca, o medo conhecido. A mulher fazia gestos para que ela voltasse para a areia e a ajudasse com as crianças, que riam e choravam ao mesmo tempo, corriam e esperneavam. Ela também começou a temer as expressões severas da patroa e então se viu obrigada a retornar pé ante pé, atenta ao horizonte, para que, diante de qualquer perigo, pudesse voltar para a calçada acima do nível das águas.
“Começou bem”, teria dito a mulher, caso a memória de Rita não a traísse anos mais tarde — e completou dizendo que precisaria descontar o prejuízo com os brinquedos de seu salário. Mas isso realmente pouco importava a Rita. Meses antes tinha sobrevivido a uma tromba-d’água que devastou a vida de todos à sua volta. Ela continuava atenta ao mar, aflita, temerosa, mas também enfeitiçada, porque passaria a guardar essa experiência íntima como um recomeço. O início de sua vida naquela cidade, para onde sua mãe tinha migrado anos antes prometendo voltar; a vida que conheceria e desbravaria ainda muito nova; e também algo além e que não conseguia explicar, mas que talvez algum dia pudesse compreender: a pedra fundamental, a primeira onda, o prelúdio de algo maior. A história que não era apenas sua, mas de todos, e que não era apenas uma retórica, mas revelava quem exatamente ela era.
Rita Preta atende ao chamado e se senta diante da escrivã responsável pelo registro. Uma mulher de meia-idade, usando óculos e camisa polo azul, com os cabelos crespos tingidos que ainda refletem o brilho do creme para pentear. Ela não dirige o olhar a Rita; está concentrada, como se o próprio corpo fosse uma extensão da máquina, e faz perguntas enquanto percorre o teclado com alguma dificuldade. Pede que se identifique e informe por que se encontra numa delegacia. “Preciso registrar o desaparecimento do meu filho.” A partir daí, inicia uma série de outras perguntas para preencher o formulário à sua frente. Há quanto tempo ele desapareceu. Local. Filiação. Data de nascimento. “A senhora trouxe seu documento? O dele?” “Trouxe a certidão de nascimento”, explica, não havia encontrado a identidade. Acredita que está com ele. “A senhora não sabe nem mesmo o número?” Rita começa a revirar os papéis na bolsa em busca de anotações que possam ajudar, mas não encontra nada. Enquanto isso, a mulher continua as perguntas: onde mora; bairro; número; casa ou apartamento; raça; cor. “Moreno”, responde Rita, e a mulher que se afirma como negra desvia o olhar da tela para encarar Rita melhor. Ela contempla seu rosto por cima dos óculos antes de voltar à tela do computador.
“A senhora poderia descrever o que sabe sobre o desaparecimento? Ele estava em casa? Tinha saído?”
Rita tenta rememorar o que sabe. Explica que estava no trabalho e chegou no início da noite, mas não o encontrou em casa. Tentou telefonar, mas a chamada caía direto na caixa postal. A mulher pergunta se ela fizera buscas pela rua, pelo bairro. Se alguém poderia ter mais informações. Rita responde que não naquele momento. “Eu tinha um compromisso e precisei sair. Achei que ele estivesse com alguém, talvez com a namorada, e que voltaria para casa como sempre fazia.” “E ele estava?”, a escrivã questiona, mantendo uma postura distante, como uma atendente de telemarketing, voz robótica, digitando as informações lentamente. “Que horas a senhora deu pela falta dele?” Rita Preta tem medo de ser censurada pela escrivã e acaba mentindo. Afirma que voltou à meia-noite, quando na realidade eram duas da manhã. “E ele não estava lá”, deduz a mulher. “Não, ele não estava.” Relata que no dia seguinte foi trabalhar preocupada, e ainda assim continuou a acreditar que ele poderia ter chegado. Quando constatou que ele não chegou, decidiu ir até a casa da namorada dele. “Namorada não, a moça com quem ele está ficando”, se corrige, “é assim que eles dizem.”
A funcionária pergunta se ele frequentou a escola naquele dia, mas Rita não tem certeza da resposta. Ela menciona que Cid vinha faltando às aulas. Depois, a moça indaga se ele fazia uso de alguma droga ou estava envolvido em atividades ilegais. Rita responde, categórica: “Nunca. Nunca soube. É respondão. Rebelde. Gosta das coisas do jeito dele. Mas nunca usou nada não, senhora”. É questionada se as pessoas com quem ele andava eram usuários. Ela revela que conhece a maioria das mães e não tinha informações sobre nada ilícito. Contou que sabia que havia tráfico em sua comunidade — “Mas eles estão lá e a gente cá. Não mexem conosco”.
“A senhora tem algo mais a acrescentar?”
Sim. Rita tinha algumas perguntas: O que a senhora acha que deve ter acontecido? A polícia vai procurar por ele?
“O boletim será enviado ao setor competente. Abrirão um processo para realizar as diligências necessárias.”
Rita Preta quer perguntar mais, mas sabe que é bastante tarde. Tem os olhos secos de cansaço e aflição.
A atendente troca um olhar com outra próxima, como se quisesse dizer: “Olha como as coisas são. Não cuidam dos filhos e ainda esperam que a polícia os procure na hora que querem”. Rita mantém o olhar firme, determinada a concluir o registro, mas não vai suportar desdém de ninguém. Ela precisa aturar a indiferença, pelo menos naquele momento, para cumprir o que tinha ido fazer. No fundo, sua vontade era dizer à mulher que ela também poderia não viver num bom lugar e que poderia ter um sobrinho, um vizinho, ou mesmo um filho perdido e conhecer uma mãe passando pelo mesmo problema. Queria expressar — e talvez tenha feito isso, já que se espera que as mães sempre confessem seu irrenunciável altruísmo — que estava sem dormir direito havia mais de vinte e quatro horas, que não podia faltar ao trabalho para procurá-lo, pois isso significaria ter descontado do salário o dinheiro do aluguel e até da alimentação da família. Queria dizer que a atendente se demonstrava pouco solidária e que não se importava com sua fadiga nem com a má sorte que a levara àquela delegacia.
“Ah, não”, um homem que também fazia um registro e estava sentado três cadeiras à frente lamenta, “o sistema caiu.”
A mulher que atende Rita ajeita os óculos e ao mesmo tempo demonstra que está aliviada com a pausa que faria, afinal a recepção está apinhada de gente — “O sistema caiu. Se a senhora precisar do boletim e do número do seu processo, é preciso aguardar”.
“Vai demorar muito?”
“Não temos previsão.”
Rita olha para os filhos e os sente impacientes com a espera. Se levanta mais uma vez e se deixa envolver de novo pela maresia invadindo o ambiente quando a porta se abre para uma mulher que segura um pano ensopado de sangue próximo à testa.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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