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Começa por procurar entre os meninos
que jogam bola nas ruas do bairro. Os relatos indicavam que eles
teriam visto Cid ser abordado e levado por policiais. Rita Preta
segue de novo até a casa de dona Conceição, faz a mulher repetir o
que já havia contado, tentando retirar alguma informação que
pudesse ter passado despercebida. Mas tudo o que ela sabe já tinha
sido dito: os meninos viram Cid ser parado por um grupo de policiais
— Quantos? Dois? Três? Quatro? — e depois desaparecer. “Mas
quem são esses meninos?”, Rita insiste. A mulher não os conhece.
Confessa que vive sozinha naquela casa, evitando conversar com
qualquer pessoa. Bastavam os vizinhos barulhentos com o aparelho de
som nas alturas nos fins de semana.
“Só quero paz”, dona Conceição
diz. “Recebo o benefício do meu marido. Sou viúva. Não conheço
quase ninguém por aqui. É só bom
dia e boa
tarde para essa gente
porque não quero intimidade. Conheço seu Aranha porque de vez em
quando preciso de serviço de conserto de casa. Sabe como é.”
Havia um certo exagero em sua recusa, uma distorção no que contava.
Os vizinhos sabiam que dona Conceição é intrometida, espalha
boatos, fala da vida alheia.
Rita sai pelas ruas do bairro. Ela
veio viver na vila depois que o deslizamento de uma encosta condenou
a casa onde morava, e a defesa civil da cidade interditou os imóveis
situados na área de risco. Coube a ela procurar um aluguel que
pudesse ser pago com o salário da loja de móveis, onde começou
cuidando da limpeza e depois, como era curiosa e proativa, aprendeu a
montar e desmontar armários. Só deixou esse emprego porque o
proprietário ficou inválido após um acidente vascular e a família
se desfez do negócio. Três filhos para criar e o imprestável do
pai do Juca, Wilson, atormentando sua vida. Como ele não se mexia
para resolver os problemas da casa, Rita Preta teve que se virar
sozinha para encontrar outra casa. Em dias de chuva forte, a sirene
tocava pedindo que os moradores se dirigissem a um local seguro —
na comunidade onde morava era uma escola municipal —, mas Rita
nunca deixou a casa, sempre com medo de perder para os bandidos o
pouco que tinha. Não queria se sentir miserável em meio a colchões
e cobertores mofados, uma multidão que gritava e se desesperava,
enquanto outras pessoas aguardavam resilientes o tempo melhorar.
Naquela hora, ela se apegava aos santos e encantados, pedia
misericórdia por sua família. Não conseguia dormir e atravessava a
noite em claro. Vez ou outra conseguia escutar o ruído da terra
deslizando em pequenas porções, levando arbustos e mato e tudo que
encontrava pelo caminho. Outras vezes as coisas permaneciam
inalteradas, apenas a chuva caía sem interrupções, embora os sons
ecoassem incessantes em seu corpo.
Então, ela se sentiu aliviada quando
por fim encontrou a casa atual. Poderia pagar o aluguel, mesmo que o
valor continuasse alto para seu orçamento. Estava muito longe de ter
a dignidade das casas onde havia trabalhado ou mesmo da casa simples
de sua avó na roça. Mofo em alguns pontos das paredes, o banheiro
acessado depois de atravessar a cozinha, o teto baixo que tornava o
ambiente ainda mais quente. A vizinhança barulhenta e o medo quando
relatavam que o tráfico estava em guerra. Não era muito diferente
da comunidade onde tinha morado, mas a constância da vida na casa
anterior criara o hábito, e o fato de estar lá havia algum tempo a
deixava segura. Quando olhava para Wilson deitado no sofá assistindo
televisão, enquanto ela precisava sair com uma caixa de ferramentas
para armar os móveis baratos de fibra de madeira — os
recém-chegados e os vendidos —, além de limpar a loja, se enchia
de raiva. Considerava que a exploração não estava apenas com os
superiores, mas também habitava as quatro paredes de uma casa.
Rita conhecia de forma razoável o
bairro, os pequenos comércios, boa parte das mudanças vividas nos
últimos anos. Aquela era a quarta casa em que morava na comunidade —
e quando contava as quase três décadas em Salvador, as casas onde
residiu haviam passado de dez, sendo a primeira moradia a dependência
de empregada no apartamento dos patrões.
Então ela anda por calçadas
estreitas, desviando dos postes de energia elétrica instalados no
meio do caminho, a rede elétrica sobrecarregada de fios, poluindo o
horizonte daquela paisagem. Rita não consegue encontrar nenhuma
criança capaz de responder à sua pergunta e que talvez estivesse
brincando na rua quando Cid desapareceu. Somente mulheres carregando
sacolas, estudantes passeando de uniforme escolar — matando aula —,
bicicletas com cestos de pão, motocicletas, trabalhadores entrando e
saindo do bairro, descendo e subindo dos poucos ônibus que fazem
rotas nas vias estreitas.
Rita Preta precisa perguntar e parece
não sentir vergonha, mesmo ciente de que as pessoas podem julgá-la.
Retira a foto três por quatro da bolsa — não tem certeza de que
era a mais recente, apesar de achar que, nela, Cid está sem as
expressões do rosto quase adulto que tem agora. Ela entra num bar. O
proprietário para de secar o balcão, fita a fotografia para repetir
com paciência que não o vira. Rita entra numa mercearia, pergunta
outra vez. A fotografia está levemente úmida, suas mãos estão
suadas pela combinação de ansiedade e calor. Não, ninguém tinha
visto. Ela aborda duas testemunhas de Jeová paradas na esquina
ofertando publicações, com sombrinhas nas mãos para se proteger do
sol. Também não tinham visto. Antes que a convidassem para um
estudo bíblico, Rita se põe a caminhar sem encontrar sombra onde
possa se proteger do calor difícil de suportar.
Encontra uma borracharia funcionando
num barraco de madeira tão pequeno quanto uma cabine de banheiro
químico. Faz a mesma pergunta ao homem de macacão azul-marinho sujo
e puído. Ele não examina a foto, como Rita gostaria que tivesse
feito. Está ocupado com a reparação de um pneu furado,
mergulhando-o na água imunda armazenada numa banheira velha à
procura de sinais de bolhas de ar para saber se a força
foi feita. Ela espera mais um pouco e pergunta sobre os meninos que
brincam de futebol. “É para o lado de lá”, o homem aponta sem
olhar, na “travessa Maravilha.” Perto da casa de Daiane, Rita
pensa, e agradece ao borracheiro pela informação.
Enxuga o suor que lhe escorre do rosto
e se põe a caminhar. Naquela primeira hora não há crianças ou
adolescentes brincando de futebol. Rita resolve voltar para casa por
caminhos alternativos, adentrando áreas novas, becos, casebres,
algumas casas melhores, perguntando a um e outro. Encontra carros
abandonados, pequenos montes de lixo, vasos de plantas. Está
disposta a perguntar a quem atravessar seu caminho, do pastor ao
traficante. Rita verifica o celular: chamadas perdidas do
supermercado — querem a justificativa de sua ausência naquele
turno e, pelo número, deve ser da sala de recursos humanos; aviso de
cobrança do novo cartão de crédito com fatura em atraso; nenhuma
chamada dos filhos. Ela telefona de novo para o celular de Cid — a
chamada é encaminhada para a caixa postal. Olha para a tela do
aparelho com os olhos marcados pelas noites maldormidas, o semblante
envelhecido. Guarda-o na bolsa e continua a caminhar.
Antes do pôr do sol, Rita sai outra
vez. Anda de novo pelo bairro. Mesmo morando há anos naquela fração
da cidade, sente-se agora conhecendo-a um pouco mais pela exploração
realizada nos últimos dias, em particular nas últimas horas.
Continua a mostrar a fotografia e tem certeza de que àquela altura
todos sabem de quem ela está falando. Todos sabem que Cid, filho
mais velho de Rita Preta, moradora da travessa Angélica,
desapareceu. Todos têm repetido entre si que ele foi levado pela
polícia, mas as mesmas pessoas têm sonegado informações
reiteradas vezes a Rita por medo, e o medo parece servir à
autoproteção. Não porque a conheçam bem. Eles não sabem de sua
determinação. Os vizinhos mais próximos até a acham um tanto
descuidada com os filhos por passar longos períodos do dia fora de
casa, seja trabalhando, seja na companhia de seus amantes.
Ela se cansa daquela caminhada sem
rumo. Cansada não é bem a palavra, mas o corpo pede que se deixe
sentar no meio-fio quente de fim de tarde para recuperar a energia
despendida entre o estado de tensão permanente, o calor, as
caminhadas e as noites sem dormir. Rita reflete sobre o tempo passado
naquela busca. Ansiosa por natureza, sente-se como se estivesse perto
de gritar. Está magoada e com raiva do filho por fazê-la padecer de
preocupação. Se a história da polícia for verdadeira, ela se
sentirá ainda pior. Mas não quer supor nada que não seja
encontrá-lo. As diferenças serão acertadas depois.
Levanta-se e segue adiante. Está
vestida com uma blusa sem mangas para suportar a umidade e, com um
pouco de dificuldade, volta a colocar o celular no bolso da bermuda
jeans. Nos últimos meses seu corpo se tornou mais volumoso — gorda
é a palavra que quer evitar por puro preconceito. Não se sente mal
por isso, pelo contrário, acha que atrai olhares para suas formas, o
que não é nada ruim para alguém que chegou aos quarenta anos.
Desviando do caminho mais curto para a
entrada da vila, ela encontra crianças jogando futebol no asfalto, e
espera com certa ingenuidade que sejam “os meninos” do relato de
dona Conceição. As sandálias se transformaram em marcações das
traves e eles correm descalços, sem camisa, colidindo uns com os
outros na disputa pela bola. Rita espera paciente por uma interrupção
do jogo. Quando por fim param para discutir uma penalidade, ela se
aproxima sem cumprimentá-los, mostra a fotografia do filho.
Embora todos aparentem ter uma idade
próxima à de Juca, alguns dizem que conhecem Cid — assim como
conhecem o mais novo —, por estudarem na mesma escola. Os garotos
se olham, como se não estivessem entendendo do que Rita fala. Ela
compreende que não queiram dizer nada, a família deve ter incutido
medo neles. Alguns daqueles meninos viviam com o pai e a mãe.
Outros, apenas com as mães. Alguns, na ausência dos pais, moravam
com as avós. Ela pergunta se viram um carro da polícia alguns dias
atrás. Uns confirmam, outros não. Uns dizem que estavam presentes,
outros permanecem em silêncio.
Rita percebe que o interrogatório
dirigido aos garotos pode não resultar em nada. Resolve não
insistir. Ela se despede pedindo que, se alguém souber de
informações sobre Cid, por favor a avise, ela tem uma recompensa em
dinheiro — mente, não tem um centavo no bolso, e o salário a ser
creditado na conta bancária no começo da próxima semana está
comprometido com pagamentos. Dois garotos se entreolham. A troca de
olhares, depois de tantas horas de perguntas e buscas, soa como um
sinal de esperança.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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