02/10/2026

Correnteza



7

Começa por procurar entre os meninos que jogam bola nas ruas do bairro. Os relatos indicavam que eles teriam visto Cid ser abordado e levado por policiais. Rita Preta segue de novo até a casa de dona Conceição, faz a mulher repetir o que já havia contado, tentando retirar alguma informação que pudesse ter passado despercebida. Mas tudo o que ela sabe já tinha sido dito: os meninos viram Cid ser parado por um grupo de policiais — Quantos? Dois? Três? Quatro? — e depois desaparecer. “Mas quem são esses meninos?”, Rita insiste. A mulher não os conhece. Confessa que vive sozinha naquela casa, evitando conversar com qualquer pessoa. Bastavam os vizinhos barulhentos com o aparelho de som nas alturas nos fins de semana.
“Só quero paz”, dona Conceição diz. “Recebo o benefício do meu marido. Sou viúva. Não conheço quase ninguém por aqui. É só bom dia e boa tarde para essa gente porque não quero intimidade. Conheço seu Aranha porque de vez em quando preciso de serviço de conserto de casa. Sabe como é.” Havia um certo exagero em sua recusa, uma distorção no que contava. Os vizinhos sabiam que dona Conceição é intrometida, espalha boatos, fala da vida alheia.
Rita sai pelas ruas do bairro. Ela veio viver na vila depois que o deslizamento de uma encosta condenou a casa onde morava, e a defesa civil da cidade interditou os imóveis situados na área de risco. Coube a ela procurar um aluguel que pudesse ser pago com o salário da loja de móveis, onde começou cuidando da limpeza e depois, como era curiosa e proativa, aprendeu a montar e desmontar armários. Só deixou esse emprego porque o proprietário ficou inválido após um acidente vascular e a família se desfez do negócio. Três filhos para criar e o imprestável do pai do Juca, Wilson, atormentando sua vida. Como ele não se mexia para resolver os problemas da casa, Rita Preta teve que se virar sozinha para encontrar outra casa. Em dias de chuva forte, a sirene tocava pedindo que os moradores se dirigissem a um local seguro — na comunidade onde morava era uma escola municipal —, mas Rita nunca deixou a casa, sempre com medo de perder para os bandidos o pouco que tinha. Não queria se sentir miserável em meio a colchões e cobertores mofados, uma multidão que gritava e se desesperava, enquanto outras pessoas aguardavam resilientes o tempo melhorar. Naquela hora, ela se apegava aos santos e encantados, pedia misericórdia por sua família. Não conseguia dormir e atravessava a noite em claro. Vez ou outra conseguia escutar o ruído da terra deslizando em pequenas porções, levando arbustos e mato e tudo que encontrava pelo caminho. Outras vezes as coisas permaneciam inalteradas, apenas a chuva caía sem interrupções, embora os sons ecoassem incessantes em seu corpo.
Então, ela se sentiu aliviada quando por fim encontrou a casa atual. Poderia pagar o aluguel, mesmo que o valor continuasse alto para seu orçamento. Estava muito longe de ter a dignidade das casas onde havia trabalhado ou mesmo da casa simples de sua avó na roça. Mofo em alguns pontos das paredes, o banheiro acessado depois de atravessar a cozinha, o teto baixo que tornava o ambiente ainda mais quente. A vizinhança barulhenta e o medo quando relatavam que o tráfico estava em guerra. Não era muito diferente da comunidade onde tinha morado, mas a constância da vida na casa anterior criara o hábito, e o fato de estar lá havia algum tempo a deixava segura. Quando olhava para Wilson deitado no sofá assistindo televisão, enquanto ela precisava sair com uma caixa de ferramentas para armar os móveis baratos de fibra de madeira — os recém-chegados e os vendidos —, além de limpar a loja, se enchia de raiva. Considerava que a exploração não estava apenas com os superiores, mas também habitava as quatro paredes de uma casa.
Rita conhecia de forma razoável o bairro, os pequenos comércios, boa parte das mudanças vividas nos últimos anos. Aquela era a quarta casa em que morava na comunidade — e quando contava as quase três décadas em Salvador, as casas onde residiu haviam passado de dez, sendo a primeira moradia a dependência de empregada no apartamento dos patrões.
Então ela anda por calçadas estreitas, desviando dos postes de energia elétrica instalados no meio do caminho, a rede elétrica sobrecarregada de fios, poluindo o horizonte daquela paisagem. Rita não consegue encontrar nenhuma criança capaz de responder à sua pergunta e que talvez estivesse brincando na rua quando Cid desapareceu. Somente mulheres carregando sacolas, estudantes passeando de uniforme escolar — matando aula —, bicicletas com cestos de pão, motocicletas, trabalhadores entrando e saindo do bairro, descendo e subindo dos poucos ônibus que fazem rotas nas vias estreitas.
Rita Preta precisa perguntar e parece não sentir vergonha, mesmo ciente de que as pessoas podem julgá-la. Retira a foto três por quatro da bolsa — não tem certeza de que era a mais recente, apesar de achar que, nela, Cid está sem as expressões do rosto quase adulto que tem agora. Ela entra num bar. O proprietário para de secar o balcão, fita a fotografia para repetir com paciência que não o vira. Rita entra numa mercearia, pergunta outra vez. A fotografia está levemente úmida, suas mãos estão suadas pela combinação de ansiedade e calor. Não, ninguém tinha visto. Ela aborda duas testemunhas de Jeová paradas na esquina ofertando publicações, com sombrinhas nas mãos para se proteger do sol. Também não tinham visto. Antes que a convidassem para um estudo bíblico, Rita se põe a caminhar sem encontrar sombra onde possa se proteger do calor difícil de suportar.
Encontra uma borracharia funcionando num barraco de madeira tão pequeno quanto uma cabine de banheiro químico. Faz a mesma pergunta ao homem de macacão azul-marinho sujo e puído. Ele não examina a foto, como Rita gostaria que tivesse feito. Está ocupado com a reparação de um pneu furado, mergulhando-o na água imunda armazenada numa banheira velha à procura de sinais de bolhas de ar para saber se a força foi feita. Ela espera mais um pouco e pergunta sobre os meninos que brincam de futebol. “É para o lado de lá”, o homem aponta sem olhar, na “travessa Maravilha.” Perto da casa de Daiane, Rita pensa, e agradece ao borracheiro pela informação.
Enxuga o suor que lhe escorre do rosto e se põe a caminhar. Naquela primeira hora não há crianças ou adolescentes brincando de futebol. Rita resolve voltar para casa por caminhos alternativos, adentrando áreas novas, becos, casebres, algumas casas melhores, perguntando a um e outro. Encontra carros abandonados, pequenos montes de lixo, vasos de plantas. Está disposta a perguntar a quem atravessar seu caminho, do pastor ao traficante. Rita verifica o celular: chamadas perdidas do supermercado — querem a justificativa de sua ausência naquele turno e, pelo número, deve ser da sala de recursos humanos; aviso de cobrança do novo cartão de crédito com fatura em atraso; nenhuma chamada dos filhos. Ela telefona de novo para o celular de Cid — a chamada é encaminhada para a caixa postal. Olha para a tela do aparelho com os olhos marcados pelas noites maldormidas, o semblante envelhecido. Guarda-o na bolsa e continua a caminhar.

Antes do pôr do sol, Rita sai outra vez. Anda de novo pelo bairro. Mesmo morando há anos naquela fração da cidade, sente-se agora conhecendo-a um pouco mais pela exploração realizada nos últimos dias, em particular nas últimas horas. Continua a mostrar a fotografia e tem certeza de que àquela altura todos sabem de quem ela está falando. Todos sabem que Cid, filho mais velho de Rita Preta, moradora da travessa Angélica, desapareceu. Todos têm repetido entre si que ele foi levado pela polícia, mas as mesmas pessoas têm sonegado informações reiteradas vezes a Rita por medo, e o medo parece servir à autoproteção. Não porque a conheçam bem. Eles não sabem de sua determinação. Os vizinhos mais próximos até a acham um tanto descuidada com os filhos por passar longos períodos do dia fora de casa, seja trabalhando, seja na companhia de seus amantes.
Ela se cansa daquela caminhada sem rumo. Cansada não é bem a palavra, mas o corpo pede que se deixe sentar no meio-fio quente de fim de tarde para recuperar a energia despendida entre o estado de tensão permanente, o calor, as caminhadas e as noites sem dormir. Rita reflete sobre o tempo passado naquela busca. Ansiosa por natureza, sente-se como se estivesse perto de gritar. Está magoada e com raiva do filho por fazê-la padecer de preocupação. Se a história da polícia for verdadeira, ela se sentirá ainda pior. Mas não quer supor nada que não seja encontrá-lo. As diferenças serão acertadas depois.
Levanta-se e segue adiante. Está vestida com uma blusa sem mangas para suportar a umidade e, com um pouco de dificuldade, volta a colocar o celular no bolso da bermuda jeans. Nos últimos meses seu corpo se tornou mais volumoso — gorda é a palavra que quer evitar por puro preconceito. Não se sente mal por isso, pelo contrário, acha que atrai olhares para suas formas, o que não é nada ruim para alguém que chegou aos quarenta anos.
Desviando do caminho mais curto para a entrada da vila, ela encontra crianças jogando futebol no asfalto, e espera com certa ingenuidade que sejam “os meninos” do relato de dona Conceição. As sandálias se transformaram em marcações das traves e eles correm descalços, sem camisa, colidindo uns com os outros na disputa pela bola. Rita espera paciente por uma interrupção do jogo. Quando por fim param para discutir uma penalidade, ela se aproxima sem cumprimentá-los, mostra a fotografia do filho.
Embora todos aparentem ter uma idade próxima à de Juca, alguns dizem que conhecem Cid — assim como conhecem o mais novo —, por estudarem na mesma escola. Os garotos se olham, como se não estivessem entendendo do que Rita fala. Ela compreende que não queiram dizer nada, a família deve ter incutido medo neles. Alguns daqueles meninos viviam com o pai e a mãe. Outros, apenas com as mães. Alguns, na ausência dos pais, moravam com as avós. Ela pergunta se viram um carro da polícia alguns dias atrás. Uns confirmam, outros não. Uns dizem que estavam presentes, outros permanecem em silêncio.
Rita percebe que o interrogatório dirigido aos garotos pode não resultar em nada. Resolve não insistir. Ela se despede pedindo que, se alguém souber de informações sobre Cid, por favor a avise, ela tem uma recompensa em dinheiro — mente, não tem um centavo no bolso, e o salário a ser creditado na conta bancária no começo da próxima semana está comprometido com pagamentos. Dois garotos se entreolham. A troca de olhares, depois de tantas horas de perguntas e buscas, soa como um sinal de esperança.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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