Então
lá estava ela, nossa mãe.
Gelo
e neve, e todos aqueles anos atrás.
E
eis aqui Clay, no futuro remoto.
O
que podemos dizer sobre ele?
Onde
e como a vida recomeçou no dia seguinte?
Foi
bem simples, na verdade, com uma multidão de perguntas à espreita:
Ele
acordou no maior quarto da cidade.
***
Para
Clay, era perfeito, outro lugar estranho e ainda assim sagrado: uma
cama no meio de um campo abandonado, a luz incandescente da alvorada
e telhados distantes; ou, mais precisamente, um colchão velho e
desbotado, largado na terra.
Ele
frequentava bastante o local (sempre aos sábados à noite), mas
fazia um bom tempo que não varava a madrugada no campo atrás da
nossa casa. Mesmo assim, era um privilégio curiosamente
reconfortante; aquele colchão sobreviveu por muito mais tempo do que
tinha direito.
Por
isso, tudo parecia normal quando ele abriu os olhos. O mundo estava
em silêncio, estático como uma pintura.
Mas
então tudo cambaleou e ruiu.
O
que foi que fui e fiz?
***
O
nome oficial do lugar era Cercanias.
Uma
pista de treino com uma cocheira do lado.
Mas
isso foi anos atrás, outra vida.
Na
época, era onde todos os proprietários falidos, os treinadores mal
das pernas e os jóqueis baratos iam trabalhar e rezar:
Um
veloz preguiçoso. Um lento honesto. Por favor, pelo amor de Deus,
que pelo menos um deles consiga dar a volta por cima.
O
que receberam foi um presente especial do Jóquei Clube Nacional.
Falência
decretada. Devastação.
O
plano era vender a propriedade, mas os trâmites demoraram mais de
meia década e, como era comum na cidade, não deram em nada. Tudo
que restou foi um vazio — um prado enorme, acidentado, e um jardim
de esculturas de lixo domiciliar.
TVs
problemáticas. Máquinas de lavar surradas.
Micro-ondas
catapultados.
Um
colchão duradouro.
Tudo
isso e muito mais se esparsava pelo terreno, e embora a maioria das
pessoas visse o lugar apenas como mais um cenário de abandono
urbano, para Clay era recordação, memória. Afinal, foi aquele
lugar que Penélope espiou por uma cerca quando decidiu morar na rua
Archer. Foi ali que todos ficamos parados certo dia, com um fósforo
aceso sendo soprado pelo vento oeste.
Outro
ponto digno de nota é que, desde que foi abandonado, o gramado do
lugar não tinha crescido muito; era a antítese do parque
Bernborough: baixo e devastado em algumas áreas, na altura do joelho
e viscoso em outras, e foi nessa parte que Clay tinha acabado de
acordar.
Anos
depois, quando o questionei a respeito disso, ele permaneceu um bom
tempo em silêncio. Sentado a esta mesa, apenas encarou o horizonte e
disse:
— Não
sei, talvez a grama estivesse tão triste que não tinha forças para
crescer.
Mas
depois cortou a hipótese pela raiz.
Para
ele, era um sentimentalismo ridículo.
— Nossa,
esquece que eu disse isso.
Mas
não consigo.
Não
consigo esquecer, porque jamais entenderei:
Uma
noite ele viria a encontrar a mais pura beleza ali.
E
cometer seu maior erro.
***
Mas
voltemos àquela manhã; o primeiro dia depois do retorno do
Assassino. Clay deitado todo encolhido, depois estirado. O sol não
só nasceu, como colheu o garoto, e havia algo leve e fino no bolso
esquerdo de seu short jeans, junto ao pregador quebrado. Ele decidiu
ignorar isso por ora.
Estava
atravessado no colchão.
Pensou
ter escutado a voz dela...
Mas
é de manhã, pensou ele, e é quinta-feira.
Em
momentos como aquele, pensar nela doía.
O
cabelo dela no pescoço dele.
A
boca.
Os
ossos, os peitos e, por fim, a respiração.
— Clay.
— Um pouco mais alto então. — Sou eu.
Mas
ele teria que esperar até sábado.
Markus Zusak, in O construtor de pontes

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