domingo, 15 de outubro de 2023

As cercanias


Então lá estava ela, nossa mãe.
Gelo e neve, e todos aqueles anos atrás.
E eis aqui Clay, no futuro remoto.
O que podemos dizer sobre ele?
Onde e como a vida recomeçou no dia seguinte?
Foi bem simples, na verdade, com uma multidão de perguntas à espreita:
Ele acordou no maior quarto da cidade.

***

Para Clay, era perfeito, outro lugar estranho e ainda assim sagrado: uma cama no meio de um campo abandonado, a luz incandescente da alvorada e telhados distantes; ou, mais precisamente, um colchão velho e desbotado, largado na terra.
Ele frequentava bastante o local (sempre aos sábados à noite), mas fazia um bom tempo que não varava a madrugada no campo atrás da nossa casa. Mesmo assim, era um privilégio curiosamente reconfortante; aquele colchão sobreviveu por muito mais tempo do que tinha direito.
Por isso, tudo parecia normal quando ele abriu os olhos. O mundo estava em silêncio, estático como uma pintura.
Mas então tudo cambaleou e ruiu.
O que foi que fui e fiz?

***

O nome oficial do lugar era Cercanias.
Uma pista de treino com uma cocheira do lado.
Mas isso foi anos atrás, outra vida.
Na época, era onde todos os proprietários falidos, os treinadores mal das pernas e os jóqueis baratos iam trabalhar e rezar:
Um veloz preguiçoso. Um lento honesto. Por favor, pelo amor de Deus, que pelo menos um deles consiga dar a volta por cima.
O que receberam foi um presente especial do Jóquei Clube Nacional.
Falência decretada. Devastação.
O plano era vender a propriedade, mas os trâmites demoraram mais de meia década e, como era comum na cidade, não deram em nada. Tudo que restou foi um vazio — um prado enorme, acidentado, e um jardim de esculturas de lixo domiciliar.
TVs problemáticas. Máquinas de lavar surradas.
Micro-ondas catapultados.
Um colchão duradouro.
Tudo isso e muito mais se esparsava pelo terreno, e embora a maioria das pessoas visse o lugar apenas como mais um cenário de abandono urbano, para Clay era recordação, memória. Afinal, foi aquele lugar que Penélope espiou por uma cerca quando decidiu morar na rua Archer. Foi ali que todos ficamos parados certo dia, com um fósforo aceso sendo soprado pelo vento oeste.

Outro ponto digno de nota é que, desde que foi abandonado, o gramado do lugar não tinha crescido muito; era a antítese do parque Bernborough: baixo e devastado em algumas áreas, na altura do joelho e viscoso em outras, e foi nessa parte que Clay tinha acabado de acordar.
Anos depois, quando o questionei a respeito disso, ele permaneceu um bom tempo em silêncio. Sentado a esta mesa, apenas encarou o horizonte e disse:
Não sei, talvez a grama estivesse tão triste que não tinha forças para crescer.
Mas depois cortou a hipótese pela raiz.
Para ele, era um sentimentalismo ridículo.
Nossa, esquece que eu disse isso.
Mas não consigo.
Não consigo esquecer, porque jamais entenderei:
Uma noite ele viria a encontrar a mais pura beleza ali.
E cometer seu maior erro.

***

Mas voltemos àquela manhã; o primeiro dia depois do retorno do Assassino. Clay deitado todo encolhido, depois estirado. O sol não só nasceu, como colheu o garoto, e havia algo leve e fino no bolso esquerdo de seu short jeans, junto ao pregador quebrado. Ele decidiu ignorar isso por ora.
Estava atravessado no colchão.
Pensou ter escutado a voz dela...
Mas é de manhã, pensou ele, e é quinta-feira.
Em momentos como aquele, pensar nela doía.
O cabelo dela no pescoço dele.
A boca.
Os ossos, os peitos e, por fim, a respiração.
Clay. — Um pouco mais alto então. — Sou eu.
Mas ele teria que esperar até sábado.

Markus Zusak, in O construtor de pontes

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