domingo, 15 de outubro de 2023

Inimigos literários

Suponho que os conflitos de maior ou menor importância entre os escritores existiram e continuarão existindo em todas as regiões do mundo.
Na literatura do continente americano proliferam os grandes suicidas. Na Rússia revolucionária, Maiakovski foi encurralado até o disparo pelos invejosos.
Os pequenos rancores se exacerbam na América Latina. A inveja chega às vezes a ser uma profissão. Diz-se que esse sentimento nós o herdamos da gasta Espanha colonial. A verdade é que em Quevedo, em Lope e em Gôngora encontramos com frequência as feridas que mutuamente se causaram. No que pese seu fabuloso esplendor intelectual, o Século de Ouro foi uma época infeliz, com a fome rondando em torno dos palácios.
Nos últimos anos, a novela tomou uma nova dimensão em nossos países. Os nomes de García Márquez, Juan Rulfo, Vargas Llosa, Sábato, Cortázar, Carlos Fuentes, o chileno Donoso, são ouvidos e lidos em toda parte. A alguns deles batizaram com o nome de boom. É corrente também ouvir dizer que eles formam um grupo de autopromoção.
Conheci-os quase todos e acho-os notavelmente saudáveis e generosos. Compreendo – cada dia com maior clareza – que alguns tenham tido que emigrar de seus países em busca de uma maior tranquilidade para o trabalho, longe da má vontade política e da inveja pululante. As razões de seus exílios são irrefutáveis: seus livros têm sido cada vez mais essenciais na verdade e no sonho de nossas Américas.
Não queria falar de minhas experiências pessoais nesse extremo da inveja. Não desejava aparecer como egocêntrico, como excessivamente preocupado comigo mesmo. Mas cruzaram meu caminho invejosos tão persistentes e pitorescos que vale a pena contar.
É possível que em certas ocasiões essas sombras persecutórias me irritassem. No entanto, a verdade é que cumpriam involuntariamente um estranho dever propagandístico, tal como se fizessem parte de uma empresa especializada em fazer divulgar meu nome.

A morte trágica de um desses sombrios opositores deixou uma espécie de vazio em minha vida. Tantos anos manteve sua beligerância contra tudo que eu fazia que, ao perdê-la, estranho sua falta.
Quarenta anos de perseguição literária é algo fenomenal. Com certo gozo me ponho a ressuscitar esta solitária batalha que foi a de um homem contra sua própria sombra, já que nunca tomei parte nela.
Vinte e cinco revistas foram publicadas por um diretor invariável (que sempre era ele), destinadas a destruir-me literariamente, a me atribuir toda sorte de crimes, traições, esgotamento poético, vícios públicos e secretos, plágio, sensacionais aberrações do sexo. Apareceram também panfletos que eram distribuídos com assiduidade, e reportagens não desprovidas de humor, e finalmente um volume inteiro intitulado Neruda e eu, livro abundante, recheado de insultos e imprecações.
Meu opositor era um poeta chileno mais velho que eu, acérrimo e absolutista, mais gesticulador que intrínseco. Esta classe de escritores, dotados de ferocidade egocêntrica, prolifera nas Américas; adotam diversas formas de aspereza e de autossuficiência, mas sua ascendência d'annunziana é tragicamente verdadeira.
Em nossas pobres latitudes, nós – poetas quase esfarrapados e famintos – vagávamos nas madrugadas impiedosas, entre o vômito dos bêbados. Nesses ambientes miseráveis, a literatura produzia insolitamente tipos fanfarrões, espectros da sobrevivência picaresca. Um grande niilismo, um falso cinismo nietzchiano levava muitos dos nossos a se ocultarem com máscaras de delinquentes. Não poucos desviaram sua vida por esse atalho até o delito ou até a própria destruição.
Meu legendário antagonista surgiu desse cenário. Primeiro tratou de me seduzir, de me fazer entrar nas regras de seu jogo. Tal coisa era inadmissível para meu provincianismo pequeno-burguês. Não me atrevia e não me agradava viver de expediente. Nosso protagonista, em troca, era um expert em aproveitar ao máximo as circunstâncias. Vivia num mundo de farsa contínua, dentro do qual enganava a si mesmo inventando para uso próprio uma personalidade ameaçadora que lhe servia de profissão de fé e de proteção.
Já é hora de dar o nome ao personagem. Chamava-se Perico de Palothes. Era um homem forte e peludo que tratava de impressionar tanto com sua retórica como com sua catadura. Em certa ocasião, quando eu tinha só dezoito ou dezenove anos, propôs-me que publicássemos uma revista literária. A revista constaria somente de duas seções: uma na qual ele, em diversos tons, prosas e metros, afirmaria que eu era um poeta poderoso e genial; e outra na qual eu sustentaria aos quatro ventos que ele era o possuidor da inteligência absoluta, do talento sem limites. Assim tudo ficava arranjado.
Ainda que eu fosse jovem demais, aquele projeto me parecia exagerado. Não obstante, custou-me dissuadi-lo. Ele era um portentoso editor de revistas. Era assombroso observar como arrebanhava fundos para manter sua perpetuidade panfletária.
Nas isoladas províncias invernais traçava um plano preciso de ação. Tinha fabricado para si uma longa lista de médicos, advogados, dentistas, agrônomos, professores, engenheiros, chefes de serviços públicos, etc. Aureolado pelo halo de suas volumosas publicações, revistas, obras completas, panfletos épicos e líricos, nosso personagem chegava como mensageiro da cultura universal. Tudo aquilo era oferecido pontualmente aos confusos homens a quem visitava, para depois se dignar a lhes cobrar alguns miseráveis escudos. Diante de sua palavra grandiloquente, a vítima ia diminuindo até ficar do tamanho de uma mosca. Em geral de Palothes saía com os escudos no bolso e deixava a mosca entregue à grandeza da Cultura Universal.
Outras vezes Perico de Palothes se apresentava como expert de publicidade agrícola e propunha aos rústicos agricultores sulistas realizar luxuosas monografias de suas fazendas, com fotografias dos proprietários e de suas vacas. Era um espetáculo vê-lo chegar com calças de montaria e botas de explorador, envolto em uma magnífica túnica de procedência exótica. Entre adulações e oblíquas ameaças de publicações contrárias, nosso homem saía dos fundos com alguns cheques. Os proprietários, tacanhos porém realistas, estendiam-lhe algumas notas para se livrarem dele.
A característica suprema de Perico de Palothes, filósofo nietzchiano e grafômano irredimível, era sua blasonaria intelectual e física. Fez-se de fanfarrão na vida literária do Chile, tendo por muitos anos uma pequena corte de pobres-diabos que o incensavam. Mas a vida costuma desinflar de maneira implacável estas pessoas circunstanciais.
O trágico final de meu iracundo antagonista – suicidou-se já velho – fez-me vacilar antes de escrever estas lembranças. Faço-o finalmente, obedecendo a um imperativo de época e de localidade. Uma grande cordilheira de ódio atravessa os países de língua espanhola, corrói o trabalho do escritor com laboriosa inveja. A única maneira de terminar com tão destrutiva ferocidade é exibir publicamente suas ocorrências.
Tão insana e igualmente persistente tem sido a folhetinesca perseguição lítero-política desatada contra minha pessoa e minha obra por certo uruguaio ambíguo de sobrenome galego, algo assim como Ribeyro. O sujeito publica há vários anos, em espanhol e em francês, panfletos em que me retalha. O sensacional é que suas proezas antinerudianas não só transbordam do papel de imprensa que ele mesmo custeia, como também financiou para si mesmo custosas viagens com o propósito implacável de me destruir.
Este curioso personagem empreendeu uma ida à sede universitária de Oxford quando se anunciou que ali me seria outorgado o título de Doutor Honoris Causa. Até lá chegou o poetinha uruguaio com suas fantásticas incriminações, disposto ao meu esquartejamento literário. Os Dones comentaram comigo, divertidos, as acusações feitas contra mim quando eu ainda estava vestido com a toga escarlate, depois de ter recebido a honorifica distinção, enquanto bebíamos o vinho do Porto ritual.
Mais inconcebível e mais imprevista ainda foi a viagem a Estocolmo deste mesmo uruguaio, no ano de 1963. Murmurava-se que eu obteria o Prêmio Nobel naquela ocasião. Pois bem, o sujeito visitou os acadêmicos, deu entrevistas para a imprensa, falou pelo rádio para assegurar que eu era um dos assassinos de Trotsky. Com essa manobra pretendia me impossibilitar de receber o prêmio.
Com o correr do tempo foi comprovado que o homem andou sempre com má sorte e que, tanto em Oxford como em Estocolmo, perdeu tristemente seu dinheiro e sua oposição.

Pablo Neruda, in Confesso que Vivi

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