Dá-me tua mão, amor
a madrugada tem olhos que machucam
e as ruas estão cobertas de pequenas
estrelas
anunciando que o passado sombrio
caminha contra a liberdade do futuro.
A neblina tem olhos que delatam
e noites sem pão nem flores
querem de novo sentar à nossa mesa
já tão farta de antigas dores.
Corpos negros sangram nas calçadas
e enquanto o asfalto trama o fim da
paz,
o sangue dos famintos escorre surdo
no rap triste e nas filas dos
hospitais.
No calendário os dias marcham com
velhas botinas
é inverno em plena primavera, e o
outono não tem fim
deixando marcas profundas em nossos
corações
que sonharam ser orquídea com a mesma
força do capim.
Não te larga de mim, amor
entre cegos e tiranos modernos,
entre rosas e espinhos
de mãos dadas tenho força pra
caminhar.
O vento sopra os fantasmas para as
praças
o ódio com gás é servido nas mesas
dos bares
os lobos clamam a carne da desgraça,
e sorrir já não é permitido em
nossos lares.
Chama teu amigo, amor
a irmã do teu irmão
a amiga do teu amigo
do prédios altos às flores de
alvenaria
chama todo mundo
seja lá quem for.
Eles não sabem que de tanto sangrar
nessa pele dura de mãos calejadas
escorre vinho em nossas veias
e se servem na taça que a vida está
por um triz.
Cantemos em nossa festa:
bora lutar,
bora ser feliz.
Sérgio Vaz, em Flores de Alvenaria
Nenhum comentário:
Postar um comentário