Perfurei um veio de ressentimentos
quando me pronunciei contra a salsinha. Muito mais gente do que se
imaginava é contra a salsinha, e só não tinha se manifestado antes
pela falta de um pioneiro que desse o primeiro grito. Não sei se por
acaso ou determinismo histórico — quem sabe como nascem os
líderes? — me vejo à frente de uma rebelião cuja hora,
aparentemente, chegou.
Não reivindicamos o fim da salsinha.
O movimento é novo e ainda não se fragmentou em alas, mas não me
alinharei com nenhuma facção radical que pregue a erradicação da
salsinha. Sou pelo gradualismo. A salsinha é uma tradição milenar,
e todos sabemos como as velhas ordens custam a morrer. E há quem
goste, por alguma razão. O que queremos, já, é o direito de
escolher. Nosso lema é: não está escrito em lugar algum que um
prato só pode ir para a mesa depois de espalharem salsinha por cima
de tudo! O lema talvez precise ser melhorado, mas a idéia é esta.
Contra a ditadura do supérfluo verde!
O sentimento anti-salsinha é forte.
Uma leitora escreveu para dizer que aprendeu o nome de salsinha em
várias línguas — espanhol (perejil), francês (persil),
alemão (petersile), inglês (parsley), tcheco
(petergel) e russo (petruchka, claro) — só para
poder recusá-la em todas. Outros leitores querem aderir ao movimento
mas pedem para saber se “salsinha” é só salsa picada ou um nome
genérico para tudo que num prato é puro adorno, como o enfeite no
palito do club sanduíche. No meu conceito amplo, “salsinha”
inclui até o cravo no doce de coco, que só está ali para a gente
morder sem querer.
Os defensores da salsinha dizem que
ela existe para bonito, o que só confirma nossa posição: o enfeite
não serve para nada e rouba espaço da comida. Mas na cozinha mais
preocupada com estética do mundo, a japonesa, é raro se ver
salsinha. Você encontra pássaros diáfanos feitos de nabo ou
pagodes de gengibre na beira dos pratos, é verdade, mas aí não é
mais salsinha. Aí é filosofia.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

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