Sua primeira menção, um tanto
confusa, foi em qualquer manhã, pelo telefone. Uma senhora, muito
velha e doente, pedia que o Cônsul lhe fosse à casa, para assunto
de testamento. Frau Wetterhuse.
O recado se perdia, obrigação
abstrata, no tumulto diário de casos, o Consulado invadindo-se de
judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso,
em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto
prometendo-se a coativa esperança final do suicídio. Vê-los, vinha
à mente a voz de Hitler ao rádio — rouco, raivoso. Contra esses,
desde novembro, se implacara mais desbordada e atroz a perseguição,
dosada brutal. Viesse a guerra, a primeira ordem seria matá-los?
O nome Wetterhuse extinguia-se num
zumbido, com o que o Norte tem de mais brumoso. Mas, seguinte, na
semana, voltava, a súplica, embaixada-de-jó, apelo insistido.
Prometi-me de ir lá. Fazia todo o frio.
Sumia-se no dia noturno a bela, grande
cidade hanseática, nem se avistavam seu céu de ferro molhado e as
silhuetas das cinco igrejas, suas torres de cobre em azinhavre.
Dava-se, que nem caudas de cobras, delgados glaciais chicotes —
nevando, fortes flocos — o vento mordaz. Saindo para o
Glockengiesserwall, se bem que abafado em roupas, eu tivera que me
enregemer, ao resfrio cravador e à umidade, que transia. Via-se, a
cada canto, o emblema: pousada num círculo, onde cabia oblíqua a
suástica, a águia de abertas asas. A fora, as sombras dos troncos
de árvores, na neve, e as curvas dos corvos, o corvo da desdita.
Dizia-se que, este, muitos anos faz, seria o mais duro inverno, de
concumulados gelos: morriam muitos pássaros. O coração daquela
natureza era manso, era mau? Sentia-se um, ao meio de tal ponte, à
face do caos e espírito de catástrofe, em tempo tão ingeneroso,
ante o critério último — o pecado de nascer — na tese
anaximândrica. Todos pertencíamos, assim, mesmo, à vida.
A casa era no Harvesterhude, umbrosa,
meio a um jardim que no verão teria sido amável, com seus olmos e
os maciços de tuias e rododendros. Toquei e levaram-me ao salão —
como se subterrâneo. Havia lá uma invernia de austeridade, o cheiro
de irrenovável mofo e de humanidade macerada. Tapeçarias,
reposteiros de falbalás, muito antigos móveis, tudo se unia num
esfumado: as cinzas da neve. Assustava a esdruxularia daquele
ambiente solífugo e antimundano, de sopor e semiviver, o sentido de
solidão; circunstando um ar frio. Tinham acendido lareira. Dos
lustres descia uma luz, de velas, era luz em cemitério. Esperava-se
encontrar, em torno, duendes e lêmures. Encontravam-se criaturas —
ao todo cinco mulheres, todas velhas, que se retraíam,
estafermáticas, estornicadas nas vestes de veludo ou gorgorão de
lã, de golas altas, longas mangas, terrível decoro.
Ao centro, numa poltrona em estrado —
deveria ficar mais alta que nós, segundo um rito — a mais anciã.
Era extraordinária de velha, exaustamente o rosto, todo angulado,
cavado de sulcos, e em cujo esqualor olhos havia, ex-azuis, sem íris,
de despupilada estátua. Passaria dos noventa, parecia centenária.
Desde as aparências, porém, sabia-se que a gentil-dama, feita às
sociais sobrancerias e ao comando íntimo, e a quem o recato levara a
levantar-se do leito de semiparalítica, e ser vestida e colocada
ali, em elevado assento, de mágoa hirta, de sua lívida vontade. E
precisava de ser ouvida. Beijei-lhe a mão, os trêmulos dedos
definhados.
Era a Dame Verônika. Dame
Angélika, sua filha, e três parentas, as outras, ressemblantes,
com, que nem que perucas, os tão brancos cabelos, que teriam sido
amarelo-palha. Ordenadamente se sentavam, cada qual com mal pegado
sorriso, prontas a conservar-se de parte, sentindo-se demasiado
presentes ao versar do assunto conspirável. O qual, a justo ver,
elas desconheciam.
Desfez-se um silêncio. Dame Verônika
tomou a voz. Dissesse tão-só frases de polidez; repetia-as, balbuz,
sob algum afrontamento, com um arrulha de asma. Ora fechava os olhos,
sacudia, levíssima, a cabeça em frinas, reprincipiava. Devia de
estar repassando-se de algo, muito passado, trazido de um túnel,
relutante na resistência à evocação, fato de estrangulada
memória. Confundia-se; eu tinha de prestar ouvidos. De repente,
encarou-me mais, dava-me o todo gris dos olhos. E começara a falar
em português.
Falava-o, tão perfeitamente, e não
mais naquela dicção fosca, mas ressurgida, anos d’ora-atrás. E
vi — que a voz pertence às estâncias da idade: que, bem assim,
nesse teor de tom, que eu jamais ouvira, conversar-se-ia, outro
tempo, em solar e saraus, em tertúlias, merendas e cavacos. Era como
se falasse figura, de um álbum desbotado.
— “Vivi em vosso país, vossa
pequena formosa cidade de Petropolyís... Conheci vosso bom Imperador
— ele estudava o hebraico. Vosso Imperador estimava meu marido,
Káspar... Dr. Káspar Eswepp, sabeis? Vosso Imperador nos convidava
ao paço...”
Relembrava — revocava — sorriu-se
a um persistir de imagens? E estremeceu. Voltava às brumas do
presente, à sua gélida pátria. Só então entrou a falar sob força
de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas
técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. Olhávamos, ali,
na parede, de corpo inteiro, o marido. — “Ele era judeu, sabeis?”
E — o retamente, o raso: a filha,
também tão idosa Dame Angélika, seria teuto-hebreia uma
mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código
hediondo. Dona Verônica o disse, de soçobro. A filha, por sua eiva
aboriginal, corria grave perigo. Ela, a Mãe, tinha de solicitar-se
daquilo.
Sofria, seca. Preparava-se? Para
desvendar-me seu motivo: o drama, sobreestranho, o coração da
coisa, vagarosíssima verdade:
— “Minha filha não é filha do
meu marido. Nem ela, nem ele jamais o souberam... Foi em vosso
país... O pai da minha filha era um amigo nosso, que nos
frequentava... O pai de minha filha não era de sangue judeu...”
Teve um sorrisinho titânico.
Endireitou o busto, alisava-se o rosto, num ademã de extrema
dignidade, fizera-se altiva. Num momento, ela precisara de profundar
um poço, arrancar em si o que tanto sepultara à força do tempo,
desistir do longo benefício do olvido. E já era a dor de dar, à
fé, uma sua turpitude secreta, exsuscitar um negrego, a fementira.
Seu coração não pesava um miligrama?
Ali, as outras quatro mulheres
permaneciam, salvaguardadas, em circunstância de surda sociedade,
sem participação emotiva. Aquelas meditavam o que não podiam
entender — Dame Angélika, damas Filippa, Osna e Alwyna.
Dona Verônica não se voltara para a
filha; só a mim encarava, ávida. Não sem intuito descobrira-me o
inarrável. Tinha de satisfazer o problema, intentar o sarcimento.
Sanar o obviável. — “Não? Sim?” E queria reforçar-se com
minha opinião, tomar conselho. A filha não tinha sangue da outra
raça. —“Por que, pois?” Pertencia-lhe, fidedigna,declarar
aquilo, fatal como o sol, verifazer o real, renegar o inautêntico.
Tomaria o grave passo. A tanto preço — o de se inquinar e
malsinar-se, para o pouco restante da vida. Em dizer, porém, que não
lhe era possível prestar fatos, produzir testemunhas, recorrer no
caso à prova de sangue, nem ao menos apelar para a razão pública.
Tão longe, tantos anos... Mas, quem sabe, poderia ter o apoio de um
grande, forte país, de gente tão fidalga, de tanta ponderância! —
“Sim. E?” Pegou o lenço, tivera um jacto de tosse. Ansiosa,
querulante: — “Foi em vossa formosa, pequena cidade de
Petropolyís...”
Não, em fato. Não. Tive de sacudir a
cabeça. Dame Angélika nem mesmo era brasileira. Tudo
indeterminado, sem fundamento certo, apenas o citar de um romance
perdido no antigo, tão esfiapável, pátina, voz para memória. Quem
iria querer crer? Ela mesma, Dona Verônica, não se lograva de
ilusões. Ah, vivera demasiado tempo, distanciara-se das
possibilidades manejáveis das coisas. Teve o chluque de um soluço.
Ofegou. Ia abater-se. Súbito, porém, rompendo-se do desalento, algo
flamejou nela, que nem um rebrilho de alma — uma glória — e
exclamou:
— “Ele foi um vosso
compatriota, um homem nobre... O amor de minha vida!...”
Sopitou-se, desopressa. Como poder
pagar sua dívida dourada? Levantei-me; eu nem era um cooperador
passivo do destino. Também aquelas senhoras presentes se levantaram,
em sincera, distinta cortesia. Ali, borbulhavam pensamentos.
Desfalecidos espíritos. Só silêncio. Dona Verônica mostrava-nos
seu comprido rosto, escalavrado, blafardo, diáfano pergaminho. Dona
Angélica passava-lhe meiga a mão por trás da cabeça. Todos nós
jazíamos de pé, em volta dela. A longa mulher. O sistema do mundo.
A velha vida.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

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