Uma
vez há muito tempo encontrei numa fila qualquer um amigo e estávamos
conversando quando ele se espantou e me disse: olhe que coisa
esquisita. Olhei para trás e vi – da esquina para a gente – um
homem vindo com o seu tranquilo cachorro puxado pela correia.
Só
que não era cachorro. A atitude toda era de cachorro e a do homem
era a de um homem com o seu cão. Este é que não era. Tinha focinho
acompridado de quem pode beber em copo fundo, rabo longo, mas duro –
é verdade que poderia ser apenas uma variação individual da raça.
Pouco provável no entanto. Meu amigo levantou a hipótese de quati.
Mas achei o bicho com muito mais andar de cachorro para ser quati. Ou
seria o quati mais resignado e enganado que já vi. Enquanto isso o
homem calmamente se aproximando. Calmamente não. Havia certa tensão
nele. Era uma calma de quem aceitou a luta: seu ar era de um natural
desafiador. Não se tratava de um pitoresco: era por coragem que
andava em público com o seu estranho bicho. Meu amigo sugeriu a
hipótese de outro animal de que na hora não se lembrou o nome. Mas
nada me convencia. Só depois entendi que minha atrapalhação não
era propriamente minha: vinha de que aquele bicho ele próprio já
não sabia o que era, e não podia portanto me transmitir uma imagem
nítida.
Até
que o homem passou perto. Sem um sorriso, costas duras, altivamente
se expondo; não, nunca foi fácil ser julgado pela fila humana que
exige mais e mais. Fingia prescindir de admiração ou piedade. Mas
cada um de nós reconhece o martírio de quem está protegendo um
sonho.
– Que
bicho é esse? – perguntei-lhe e intuitivamente meu tom foi suave
para não feri-lo com uma curiosidade. Perguntei que bicho era aquele
mas na pergunta o tom talvez incluísse: por que você faz isso? Que
carência é essa que faz você inventar um cachorro? E por que não
um cachorro mesmo então? Pois se os cachorros existem! Ou você não
teve outro modo de possuir a graça desse bicho senão com uma
coleira? Mas você esmaga uma rosa se apertá-la com carinho demais.
Sei que o tom é uma unidade indivisível por palavras. Mas
estilhaçar o silêncio em palavras é um dos meus modos desajeitados
de amar o silêncio. E é quebrando o silêncio que muitas vezes
tenho matado o que compreendo. Se bem que – glória a Deus – sei
mais silêncio que palavras.
O
homem sem parar respondeu curto embora sem aspereza.
E
era quati mesmo. Ficamos olhando. Nem meu amigo nem eu sorrimos. Este
era o tom e esta era a intuição. Ficamos olhando.
Era
um quati que se pensava cachorro. Às vezes com seus gestos de
cachorro retinha o passo para cheirar coisas – o que retesava a
correia e retinha um pouco o dono na usual sincronização de homem e
cachorro. Fiquei olhando aquele quati que não sabia quem era.
Imagino: se o homem o leva para brincar na praça, tem uma hora que o
quati se constrange todo: “Mas santo Deus, por que é que os
cachorros me olham tanto e latem feroz para mim?” Imagino também
que depois de um perfeito dia de cachorro o quati se diga melancólico
olhando as estrelas: “Que tenho afinal? Que me falta? Sou tão
feliz como qualquer cachorro, por que então este vazio e esta
nostalgia? Que ânsia é esta, como se eu só amasse o que não
conheço?” E o homem – o único a poder de livrá-lo da pergunta –
este homem nunca lhe dirá quem ele é para não perdê-lo para
sempre.
Penso
também na iminência de ódio que há no quati. Ele sente amor e
gratidão pelo homem. Mas por dentro não há como a verdade deixar
de existir: e o quati só não percebe que o odeia porque está
vitalmente confuso.
Mas
se ao quati fosse de súbito revelado o mistério de sua verdadeira
natureza? Estremeço ao pensar no fatal acaso que fizesse esse quati
se deparar com outro quati, e neste reconhecer-se, ao pensar nesse
instante em que ele ia sentir o mais feliz pudor que nos é dado:
eu... nós... Bem sei que ele teria direito quando soubesse de
massacrar o homem com o ódio pelo que de pior um ser pode fazer a
outro ser: adulterar-lhe a essência a fim de usá-lo. Eu sou pelo
bicho e tomo o partido das vítimas do amor ruim. Mas imploro ao
quati que perdoe o homem e que o perdoe com muito amor. Antes de
abandoná-lo.
Clarice Lispector, in Toda as crônicas
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