sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Os dois cavalheiros de Verona


Viviam na cidade de Verona dois jovens cavalheiros, Valentim e Proteu, entre os quais havia muito se estabelecera uma firme e ininterrupta amizade. Estudavam juntos e sempre passavam suas horas de folga em companhia um do outro, exceto quando Proteu ia avistar-se com uma dama a quem amava. Essas visitas de Proteu e sua paixão pela bela Júlia eram o único ponto em que os dois amigos discordavam. Como Valentim não amasse a ninguém, enfadava-se de ouvir o amigo sempre a falar de sua Júlia. Ria então de Proteu, ridicularizando seu amor e garantindo que aquelas ociosas fantasias nunca lhe afetariam o juízo, pois preferia a livre e venturosa vida que levava às ansiosas esperanças e temores do namorado Proteu.
Certa manhã, Valentim comunicou a Proteu que deviam separar-se por algum tempo, pois estava de viagem para Milão. Não querendo afastar-se do amigo, Proteu usou inúmeros argumentos para induzir Valentim a não deixá-lo.
Basta, meu caro Proteu. Não quero, como um ocioso, desperdiçar preguiçosamente a minha juventude em casa. Se não estivesses preso aos doces olhares de tua Júlia, eu te convidaria a me acompanhar para ver as maravilhas do mundo. Mas já que estás amando, continua, e que sejas muito feliz!
Despediram-se com mútuas expressões de fiel amizade.
Querido Valentim, adeus! Pensa em mim, quando vires alguma coisa digna de atenção em tuas viagens e faze-me comparsa de tua felicidade.
Valentim partiu nesse mesmo dia para Milão. Depois que o amigo o deixou, Proteu sentou-se para escrever uma carta a Júlia, entregando-a a Lucetta, criada desta, para que a levasse à sua ama.
Júlia amava a Proteu tanto quanto este lhe queria, mas era uma dama de nobre espírito e achava que não ficava bem à sua dignidade de donzela deixar-se seduzir muito facilmente. Afetava, assim, ser insensível à paixão dele, causando-lhe não poucos dissabores.
Quando Lucetta apresentou a carta a Júlia, esta não quis recebê-la e ralhou com a criada por aceitar cartas de Proteu, ordenando-lhe que se retirasse. Mas tanto desejava ver o que estava escrito na carta que logo chamou de volta a criada. Assim que Lucetta reapareceu, ela indagou que horas eram. Sabendo bem que sua senhora mais desejava ver a carta do que saber as horas, Lucetta não respondeu e lhe ofereceu de novo a carta rejeitada. Furiosa de ver que a criada tomava a liberdade de se mostrar ciente do que ela realmente queria, Júlia rasgou a carta em pedaços e atirou-os ao chão, expulsando novamente a criada do quarto.
Antes de se retirar, Lucetta parou para apanhar os fragmentos da carta rasgada. Mas Júlia, que não queria separar-se deles, disse, fingindo cólera:
Anda, vai-te embora e deixa os papéis onde estão; ias juntá-los para me aborreceres.
Júlia então começou a unir o melhor que podia os fragmentos de papel. Primeiro, conseguiu compor as palavras: “Proteu ferido de amor”. Lastimando estas e outras palavras de amor que ia compondo, apesar de estarem todas em pedacinhos — ou, como ela dizia, feridas (fora a expressão “Proteu ferido de amor” que lhe sugerira tal ideia) —, pôs-se a falar àquelas amorosas palavras, dizendo-lhes que as aconchegaria no seio como em um leito, até que seus ferimentos sarassem, e que beijaria cada pedacinho, em reparação ao que fizera primeiro.
Assim prosseguiu nessas femininas puerilidades, até que, vendo-se incapaz de reconstituir toda a carta e aborrecida com a própria ingratidão em destruir tão doces e apaixonadas palavras, ela escreveu a Proteu uma carta muito mais terna que todas as anteriores.
Proteu ficou radiante ao receber tão favorável resposta e, enquanto a lia, exclamava:
Doce amor, doces linhas, doce vida!
Em meio a esse enlevo, foi interrompido por seu velho pai, que lhe disse:
Então, que é isso? Que carta estás a ler?
Meu senhor — replicou Proteu —, é uma carta de meu amigo Valentim, que se acha em Milão.
Dá-me a carta. Quero saber as notícias.
Nada de novo, meu senhor — disfarçou Proteu, grandemente alarmado. — Ele conta apenas o quanto é estimado pelo duque de Milão, que diariamente o cumula de favores. Termina dizendo que desejaria ter-me em sua companhia, para compartilhar de sua sorte.
E como correspondes a esse desejo? — inquiriu o pai.
Como quem se confia à vontade paterna, sem depender de desejos de amigos.
Acontecia que o pai de Proteu acabava justamente de falar com um amigo sobre aquele assunto. Espantava-se o amigo de que ele deixasse o filho passar a juventude em casa, enquanto a maioria dos nobres mandava os filhos conhecerem o mundo.
Alguns — dizia o amigo — tentam a sorte nas guerras, outros vão descobrir ilhas remotas e outros partem para estudar nas universidades estrangeiras. Aí tens o exemplo de Valentim, que foi para a corte do duque de Milão. Teu filho é capaz de fazer qualquer dessas coisas e será mais tarde uma grande desvantagem para ele não haver viajado na mocidade.
O pai de Proteu achara excelente o conselho do amigo. Assim, quando o filho lhe disse que Valentim o convidara a partilhar de sua sorte, o velho logo resolveu mandá-lo para Milão. Sem dar a Proteu nenhum motivo para essa súbita resolução, pois costumava dar ordens ao filho e não discutir com este, declarou:
Meu desejo é o mesmo de Valentim. — Ante o olhar atônito do filho, acrescentou: — Não te espantes que eu tenha tão de repente resolvido mandar-te passar algum tempo na corte do duque de Milão. É o que eu quero mesmo e está acabado! Apronta-te para partir amanhã e nada de pretextos. Bem sabes que as minhas resoluções são irrevogáveis.
Agora que sabia que perderia Proteu por um longo tempo, Júlia já não fingia indiferença. Fizeram uma triste despedida, com juras de amor e fidelidade. Trocaram anéis, que ambos prometeram usar sempre, como mútua recordação. E assim, cheio de pesar, seguiu Proteu para Milão, residência do amigo Valentim.
Como dissera Proteu ao pai, Valentim captara realmente as graças do duque de Milão. E outra coisa lhe acontecera, com que Proteu nem sonhava: Valentim perdera a liberdade de que tanto jactava-se e tornara-se tão apaixonado quanto Proteu.
Fora Sílvia, filha do duque de Milão, quem operara tão maravilhosa mudança em Valentim, que era correspondido por ela. Mas ambos ocultavam seu amor, pois o duque, embora fosse amável com Valentim e o convidasse diariamente ao palácio, escolhera como marido para a filha um jovem cortesão chamado Thurio. Sílvia desprezava o rapaz, que nada tinha do fino espírito e das excelentes qualidades de Valentim.
Os dois rivais, Thurio e Valentim, achavam-se um dia em visita a Sílvia. Valentim divertia-a, transformando em ridículo tudo quanto Thurio dizia, quando o próprio duque entrou na sala e deu-lhe a boa-nova da chegada de seu amigo Proteu.
Se eu desejasse mais alguma coisa — exclamou Valentim —, seria vê-lo aqui. — E fez ao duque os maiores elogios de Proteu: — Meu senhor, embora eu tenha esbanjado meu tempo, soube o meu amigo tirar vantagem do dele e tem, no seu espírito e pessoa, todos os predicados próprios de um cavalheiro.
Acolhei-o, pois, de acordo com seu merecimento — disse o duque. — Sílvia, eu falo a ti, e a vós, Thurio. Quanto a Valentim, não é preciso fazer-lhe recomendação alguma.
Foram interrompidos pela entrada de Proteu, e Valentim apresentou-o a Sílvia:
Encantadora dama, aqui tendes mais um servidor a vossas ordens.
Quando Valentim e Proteu terminaram a visita e se viram a sós, disse Valentim:
Dize agora como vai tudo na nossa terra. Como vai tua dama? Tem progredido teu amor?
Antes te aborreciam as minhas histórias de amor — replicou Proteu. — Sei que não te interessam tais assuntos.
Ah, Proteu! — exclamou Valentim. — A vida agora está mudada. Fiz penitência por haver desprezado o amor. Em vingança ao meu desdém, o amor expulsou o sono dos meus olhos escravizados. Ó querido Proteu, o amor é um despótico senhor e tanto me tem subjugado que confesso que não há dor que se assemelhe à dos seus castigos, nem alegria neste mundo que se compare às alegrias que ele nos dispensa. Agora, não gosto de conversar sobre coisa alguma que não seja o amor.
A transformação que o amor operara em Valentim constituiu um grande triunfo para seu amigo Proteu. Mas de “amigo” é que Proteu não devia mais ser chamado, pois o mesmo poderoso deus do amor, de quem falavam (e no mesmo instante em que se referiam à mudança que ele operara em Valentim), agia também no coração de Proteu. Aquele que, até então, fora um modelo de verdadeiro amor e perfeita amizade tornava-se agora, a partir da curta visita a Sílvia, um falso amigo e um namorado infiel. Logo que viu Sílvia, todo seu amor por Júlia se desvaneceu como um sonho e nem a velha amizade a Valentim pôde impedir-lhe o desejo de suplantá-lo no coração dela. E, como sempre sucede quando uma pessoa naturalmente boa torna-se indigna, lutou Proteu com muitos escrúpulos antes de resolver abandonar Júlia e tornar-se rival de Valentim. Mas, por fim, ele abafou o senso do dever e entregou-se, quase sem remorsos, à sua nova e infeliz paixão.
Valentim confidenciou-lhe toda a história de seu amor, que tão cuidadosamente ocultava do duque. Contou-lhe que, sem esperanças de algum dia obter o consentimento deste último, convencera Sílvia a abandonar naquela noite o palácio paterno e fugir com ele para Mântua. Mostrou então a Proteu uma escada de corda, por meio da qual pretendia ajudar Sílvia a sair por uma das janelas do palácio, assim que escurecesse.
Depois de ouvir essa fiel narrativa dos mais caros segredos do amigo — é duro de acreditar, mas é verdade —, Proteu resolveu contar tudo ao duque.
O falso amigo começou sua história ao duque com muitos rodeios. Disse que, pelas leis da amizade, devia guardar segredo, mas que os favores que o duque lhe dispensava e o dever a que se sentia obrigado para com este levavam-no a contar aquilo que, de outro modo, por preço algum revelaria. Contou então tudo o que ouvira do amigo, sem omitir a escada de corda e a maneira como Valentim pretendia ocultá-la sob uma comprida capa.
O duque considerou Proteu como um milagre de integridade, visto que preferia denunciar os intentos do amigo a ocultar uma ação indigna, e encheu-o de elogios. Prometeu não revelar a Valentim quem o desmascarara, pois o obrigaria, por algum artifício, a trair ele próprio seu segredo. Nesse intuito, o duque esperou à noite a chegada de Valentim, a quem viu dirigir-se apressadamente às proximidades do palácio. Percebendo alguma coisa oculta sob sua capa, concluiu que devia ser a escada de corda. Então, fê-lo parar, dizendo:
Aonde vai com tanta pressa, Valentim?
Perdoai-me — retrucou Valentim —, é que tenho um mensageiro à espera, para levar cartas minhas aos amigos.
Mas tal mentira não teve melhor sucesso que a de Proteu a seu pai.
Mas são de tanta importância assim? — inquiriu o duque.
Não, meu senhor, apenas para dizer a meu pai que estou bem e me sinto feliz na vossa corte.
Então, não importa. Demora-te um pouco mais. Desejo aconselhar-me contigo sobre uns assuntos íntimos.
Engendrou então uma história, com o intuito de lhe arrancar o segredo. Disse que, como Valentim bem sabia, desejava casar sua filha com Thurio, mas esta era por demais teimosa e desobediente às suas ordens:
Nem considera que é minha filha, nem me teme como a um pai. Mas afianço-te que esse seu orgulho só serviu para afastar dela o meu amor. Eu pensava que minha velhice teria os seus cuidados de filha. Mas agora estou resolvido a casar-me e entregá-la a quem quer que pretenda casar com ela. E sua beleza há de ser seu único dote.
Sem saber onde o duque queria chegar, Valentim indagou:
E que deseja vossa graça de mim, nesse caso?
Sucede que a dama que pretendo desposar é bela e recatada e não preza minha eloquência de velho. Por outro lado, a maneira de cortejar mudou muito desde os meus tempos de rapaz, e eu desejava que me instruísses sobre o que devo fazer.
Valentim deu-lhe uma ideia geral da maneira como procediam os jovens quando desejavam conquistar o amor de uma linda dama, tais como presentes, visitas constantes e coisas parecidas.
Replicou o duque que a dama em questão havia recusado um presente que ele lhe mandara e que era de tal modo vigiada pelo pai que nenhum homem podia falar com ela durante o dia.
Então — disse Valentim —, deveis visitá-la à noite.
Mas, à noite — replicou o duque, que estava chegando onde queria —, suas portas estão solidamente fechadas.
Valentim teve então a infeliz ideia de aconselhar o duque a subir à noite ao quarto de sua dama, por meio de uma escada de corda. Prontificou-se ainda a lhe arranjar uma e recomendou-lhe que escondesse a referida escada sob uma capa longa, igual à sua.
Empresta-me tua capa — pediu o duque, que arquitetara aquela longa história para ter um pretexto de se apossar da capa de Valentim.
E dizendo tais palavras, abriu a capa do jovem, descobrindo, não só a escada de corda, mas também uma carta de Sílvia, que ele no mesmo instante abriu e leu. Tal carta continha um plano completo da projetada fuga.
O duque, depois de exprobrar Valentim por sua ingratidão em retribuir daquele modo a acolhida que ele lhe dispensara, expulsou-o para sempre da corte e da cidade de Milão. Valentim foi forçado a partir naquela mesma noite, sem ao menos rever Sílvia.
Enquanto Proteu em Milão assim traía a Valentim, Júlia em Verona chorava a ausência de Proteu. E seu amor, por fim, suplantou de tal modo o senso das conveniências que ela resolveu deixar Verona para ir em busca do seu amado. Ela e sua criada Lucetta vestiram-se de homem para se prevenirem contra os perigos do caminho e, assim disfarçadas, chegaram a Milão pouco depois de Valentim ter sido banido da cidade.
Júlia chegou a Milão por volta do meio-dia, hospedando-se numa estalagem. E com todos os pensamentos dirigidos para seu querido Proteu, ela travou conversa com o estalajadeiro, ansiosa por descobrir alguma novidade de seu amor.
O hospedeiro ficou lisonjeado por aquele distinto jovem (que lhe parecia de elevada posição) lhe falar com tanta familiaridade e, sendo homem de boa índole, penalizou-se por vê-lo tão melancólico. A fim de distrair o jovem hóspede, convidou-o para uma serenata que naquela noite um cavalheiro ia oferecer à sua dama.
O motivo da melancolia de Júlia era não saber o que diria Proteu do imprudente passo que ela acabava de dar. Sabia bem que Proteu a amava por seu nobre orgulho virginal e dignidade de caráter e temia, com aquele passo, baixar no conceito dele.
Com a secreta esperança de encontrar Proteu, ela de bom grado aceitou o convite do estalajadeiro.
Mas quando chegaram diante do palácio a que o hospedeiro a conduzira, o efeito foi muito diferente daquele que o bom homem esperava. Ali, para sua mágoa, Júlia encontrou seu amado, o inconstante Proteu, oferecendo uma serenata a Sílvia e dirigindo-lhe palavras de amor e admiração. Júlia ouviu ainda Sílvia falar, de uma janela, a Proteu, censurando-o por haver esquecido seu verdadeiro amor e por sua ingratidão para com Valentim. Dito isto, Sílvia deixou a janela, sem querer ouvir sua música nem suas bonitas palavras, pois era fiel a Valentim e abominava o traiçoeiro procedimento de Proteu.
Apesar de desesperada com o que acabava de presenciar, Júlia continuava a amar o volúvel Proteu. E, sabendo que ele ultimamente despedira um criado, planejou, com o auxílio do hospedeiro, oferecer-se para seu pajem.
Sem desconfiar que se tratava de Júlia, Proteu enviou-a com cartas e presentes à sua rival Sílvia, mandando até, por seu intermédio, o anel que ela própria lhe dera em Verona, como prenda de despedida.
Chegando com o anel ao palácio, Júlia ficou radiante ao ver Sílvia rejeitar redondamente a corte de Proteu. E Júlia, ou o pajem Sebastião, como agora se chamava, pôs-se a conversar com Sílvia acerca do primeiro amor de Proteu, a abandonada Júlia. Disse conhecê-la muito bem — e era verdade. Narrou-lhe o quanto Júlia queria a Proteu e como o desprezo deste a fazia sofrer. Continuando sua graciosa farsa, informou:
Júlia tem minha altura e o meu corpo. Seus olhos e cabelos são da mesma cor dos meus.
Na verdade, Júlia parecia um bonito rapaz.
Sílvia se compadeceu da pobre moça a quem se referiam, tão cruelmente abandonada pelo homem que tanto amava. E, quando Júlia lhe ofereceu o anel mandado por Proteu, recusou-o:
É uma vergonha ele me mandar este anel. Não o quero, pois muitas vezes ouvi dizer que foi Júlia quem o deu. Gosto de ti, meu bom rapazinho, por te compadeceres daquela pobre menina. Aqui tens uma bolsa. Aceita-a, por amor de Júlia.
Essas confortadoras palavras da boca de sua rival reanimaram o coração de Júlia.
Mas voltemos a Valentim, que não sabia qual caminho tomar, já que não queria voltar à casa paterna como um eLivros. Estando a vaguear por uma floresta solitária, próxima ainda da cidade onde deixara o tesouro de seu coração, a querida Sílvia, foi atacado por ladrões, que lhe exigiram dinheiro.
Valentim lhes disse que era um homem perseguido pela adversidade, a caminho do exílio, e que não possuía dinheiro, sendo a roupa que vestia a sua única riqueza.
Ouvindo que ele era um homem caído em desgraça e impressionados com seu ar nobre e sua varonil atitude, os bandidos disseram que, se quisesse viver com eles e ser seu chefe, ou capitão, colocar-se-iam sob seu comando; em compensação, caso ele recusasse a oferta, o matariam.
Valentim, que pouco se importava com o que lhe acontecesse, consentiu em viver com eles e ser seu capitão, sob a condição de se comprometerem a não atacar mulheres nem viajantes pobres.
Assim, o nobre Valentim tornou-se, como o Robin Hood de que nos falam as baladas, capitão de ladrões e bandidos. Foi nessa situação que Sílvia veio a encontrá-lo, como veremos adiante.
Para evitar o casamento com Thurio, em que o pai continuava insistindo, Sílvia resolveu ir ter com Valentim em Mântua, onde soubera haver-se refugiado seu amor. Tal informação, porém, era falsa, pois Valentim ainda vivia na floresta, como capitão de bandidos, mas sem tomar parte nas suas depredações. Só usava a autoridade que lhe haviam imposto para compeli-los a se mostrarem compassivos em relação aos viajantes a quem saqueavam.
Sílvia fugira do palácio paterno em companhia de um digno ancião chamado Eglamour, que levara consigo para lhe servir de proteção no caminho. Teve de atravessar a floresta onde vivia Valentim com os bandidos. Um deles se apoderou de Sílvia, ao passo que Eglamour conseguiu fugir.
Vendo o terror em que Sílvia se achava, o bandido que a aprisionou disse-lhe que não se alarmasse, pois ia apenas levá-la à caverna onde morava seu capitão e que ela não devia ter medo, pois o capitão possuía espírito nobre e sempre se compadecia das mulheres. Pouco consolou Sílvia saber que seria levada, como prisioneira, perante o chefe dos bandidos.
Oh, Valentim! — exclamou ela. — Tudo isso eu suporto por tua causa!
Quando o ladrão a conduzia para a caverna, no entanto, foi detido por Proteu, que tendo sabido da fuga de Sílvia lhe seguira os passos até aquela floresta, ainda acompanhado por Júlia disfarçada de pajem.
Proteu arrebatou-a das mãos do bandido. Porém, mal ela teve tempo de lhe agradecer e já ele começava a importuná-la com seus protestos de amor. Seu pajem (a desprezada Júlia) permanecia por perto, na maior ansiedade, temeroso de que o grande serviço que ele prestara a Sílvia a induzisse a retribuir-lhe os sentimentos.
Nisso, para grande surpresa de todos, apareceu de súbito Valentim, que, tendo sabido que seus homens haviam aprisionado uma dama, acorrera para confortá-la e tranquilizá-la.
Proteu, que estava a cortejar Sílvia, sentiu-se tão envergonhado por ser flagrado pelo amigo que logo foi acometido de profundo arrependimento e remorso. De tal modo expressou seu pesar pelo mal que fizera a Valentim que este, nobre e generoso por natureza, de uma maneira até romântica, não somente lhe perdoou restituindo-lhe o antigo lugar que ocupava na sua amizade, como também, num súbito arroubo de heroísmo, declarou:
Perdoo-te plenamente e cedo-te todo o interesse que tenho por Sílvia.
Ao ouvir tão estranho oferecimento e temendo que a recente virtude de Proteu não lhe bastasse para recusar Sílvia, o falso pajem perdeu os sentidos e todos se empenharam em fazê-lo voltar a si. A própria Sílvia sentiu-se ofendida, embora não acreditasse que Valentim perseverasse naquela exagerada demonstração de amizade.
Quando recuperou os sentidos, Júlia disse:
Ia-me esquecendo: meu amo encarregou-me de entregar este anel a Sílvia.
Olhando o anel, Proteu constatou que era o mesmo que dera a Júlia, em troca do que recebera dela e que ele mandara a Sílvia pelo suposto pajem.
Como? — indagou ele. — Este é o anel de Júlia. Como veio parar em tuas mãos, menino?
Foi a própria Júlia quem o deu a mim e a própria Júlia quem aqui o trouxe.
Olhando atentamente para ela, Proteu percebeu que não podia ser outra pessoa senão a própria Júlia. E tão comovido ficou com a prova que ela lhe dera de sua constância e devotamento que todo seu antigo amor lhe refluiu ao coração. Ficou de novo com sua própria amada, cedendo todas as suas pretensões sobre Sílvia a Valentim, que tanto a merecia.
Regozijavam-se Valentim e Proteu com sua reconciliação e a fidelidade de suas amadas, quando foram surpreendidos pela chegada do duque de Milão e de Thurio, vindos em perseguição de Sílvia.
Foi Thurio quem primeiro se aproximou, tentando apoderar-se de Sílvia e dizendo:
Sílvia é minha!
Cala-te! — retrucou Valentim, exaltado. — Se tornas a dizer que Sílvia é tua, a morte é o que tu terás. Aqui está ela: toca-a, se puderes. Não tocarás meu amor nem com tua respiração.
Diante da ameaça, Thurio, que era um grande poltrão, retirou-se, dizendo que não se interessava por ela e que tolo é quem se bate por uma mulher que não o ama.
O duque, que era um bravo, ficou encolerizado:
Que vil e degenerado és tu, que tanto querias obtê-la e tão facilmente a abandonas agora! — Voltando-se então para Valentim, disse: — Aplaudo a tua coragem, Valentim, e julgo-te digno do amor de uma imperatriz. Terás Sílvia, pois bem a mereceste.
Beijando humildemente a mão do duque, Valentim aceitou cheio de reconhecimento o nobre oferecimento que ele lhe fazia de sua filha. Aproveitou esse feliz ensejo, pedindo o perdão do duque para os bandidos que com ele viviam na floresta, assegurando-lhe que, quando reintegrados na sociedade, saberiam mostrar-se úteis e honrados. A maioria deles tinha sido banida, como Valentim, por crimes meramente políticos. O duque aquiesceu prontamente. Quanto a Proteu, o falso amigo, foi-lhe imposta a penitência de assistir, perante o duque, à narrativa completa dos seus amores e embustes. A vergonha que então experimentou foi julgada castigo suficiente.
Feito isso, regressaram os quatro namorados a Milão, onde suas núpcias foram celebradas em presença do duque, com magníficos festejos.

William Shakespeare, in Contos de Shakespeare

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