Viviam
na cidade de Verona dois jovens cavalheiros, Valentim e Proteu, entre
os quais havia muito se estabelecera uma firme e ininterrupta
amizade. Estudavam juntos e sempre passavam suas horas de folga em
companhia um do outro, exceto quando Proteu ia avistar-se com uma
dama a quem amava. Essas visitas de Proteu e sua paixão pela bela
Júlia eram o único ponto em que os dois amigos discordavam. Como
Valentim não amasse a ninguém, enfadava-se de ouvir o amigo sempre
a falar de sua Júlia. Ria então de Proteu, ridicularizando seu amor
e garantindo que aquelas ociosas fantasias nunca lhe afetariam o
juízo, pois preferia a livre e venturosa vida que levava às
ansiosas esperanças e temores do namorado Proteu.
Certa
manhã, Valentim comunicou a Proteu que deviam separar-se por algum
tempo, pois estava de viagem para Milão. Não querendo afastar-se do
amigo, Proteu usou inúmeros argumentos para induzir Valentim a não
deixá-lo.
— Basta,
meu caro Proteu. Não quero, como um ocioso, desperdiçar
preguiçosamente a minha juventude em casa. Se não estivesses preso
aos doces olhares de tua Júlia, eu te convidaria a me acompanhar
para ver as maravilhas do mundo. Mas já que estás amando, continua,
e que sejas muito feliz!
Despediram-se
com mútuas expressões de fiel amizade.
— Querido
Valentim, adeus! Pensa em mim, quando vires alguma coisa digna de
atenção em tuas viagens e faze-me comparsa de tua felicidade.
Valentim
partiu nesse mesmo dia para Milão. Depois que o amigo o deixou,
Proteu sentou-se para escrever uma carta a Júlia, entregando-a a
Lucetta, criada desta, para que a levasse à sua ama.
Júlia
amava a Proteu tanto quanto este lhe queria, mas era uma dama de
nobre espírito e achava que não ficava bem à sua dignidade de
donzela deixar-se seduzir muito facilmente. Afetava, assim, ser
insensível à paixão dele, causando-lhe não poucos dissabores.
Quando
Lucetta apresentou a carta a Júlia, esta não quis recebê-la e
ralhou com a criada por aceitar cartas de Proteu, ordenando-lhe que
se retirasse. Mas tanto desejava ver o que estava escrito na carta
que logo chamou de volta a criada. Assim que Lucetta reapareceu, ela
indagou que horas eram. Sabendo bem que sua senhora mais desejava ver
a carta do que saber as horas, Lucetta não respondeu e lhe ofereceu
de novo a carta rejeitada. Furiosa de ver que a criada tomava a
liberdade de se mostrar ciente do que ela realmente queria, Júlia
rasgou a carta em pedaços e atirou-os ao chão, expulsando novamente
a criada do quarto.
Antes
de se retirar, Lucetta parou para apanhar os fragmentos da carta
rasgada. Mas Júlia, que não queria separar-se deles, disse,
fingindo cólera:
— Anda,
vai-te embora e deixa os papéis onde estão; ias juntá-los para me
aborreceres.
Júlia
então começou a unir o melhor que podia os fragmentos de papel.
Primeiro, conseguiu compor as palavras: “Proteu ferido de amor”.
Lastimando estas e outras palavras de amor que ia compondo, apesar de
estarem todas em pedacinhos — ou, como ela dizia, feridas (fora a
expressão “Proteu ferido de amor” que lhe sugerira tal ideia) —,
pôs-se a falar àquelas amorosas palavras, dizendo-lhes que as
aconchegaria no seio como em um leito, até que seus ferimentos
sarassem, e que beijaria cada pedacinho, em reparação ao que fizera
primeiro.
Assim
prosseguiu nessas femininas puerilidades, até que, vendo-se incapaz
de reconstituir toda a carta e aborrecida com a própria ingratidão
em destruir tão doces e apaixonadas palavras, ela escreveu a Proteu
uma carta muito mais terna que todas as anteriores.
Proteu
ficou radiante ao receber tão favorável resposta e, enquanto a lia,
exclamava:
— Doce
amor, doces linhas, doce vida!
Em
meio a esse enlevo, foi interrompido por seu velho pai, que lhe
disse:
— Então,
que é isso? Que carta estás a ler?
— Meu
senhor — replicou Proteu —, é uma carta de meu amigo Valentim,
que se acha em Milão.
— Dá-me
a carta. Quero saber as notícias.
— Nada
de novo, meu senhor — disfarçou Proteu, grandemente alarmado. —
Ele conta apenas o quanto é estimado pelo duque de Milão, que
diariamente o cumula de favores. Termina dizendo que desejaria ter-me
em sua companhia, para compartilhar de sua sorte.
— E
como correspondes a esse desejo? — inquiriu o pai.
— Como
quem se confia à vontade paterna, sem depender de desejos de amigos.
Acontecia
que o pai de Proteu acabava justamente de falar com um amigo sobre
aquele assunto. Espantava-se o amigo de que ele deixasse o filho
passar a juventude em casa, enquanto a maioria dos nobres mandava os
filhos conhecerem o mundo.
— Alguns
— dizia o amigo — tentam a sorte nas guerras, outros vão
descobrir ilhas remotas e outros partem para estudar nas
universidades estrangeiras. Aí tens o exemplo de Valentim, que foi
para a corte do duque de Milão. Teu filho é capaz de fazer qualquer
dessas coisas e será mais tarde uma grande desvantagem para ele não
haver viajado na mocidade.
O
pai de Proteu achara excelente o conselho do amigo. Assim, quando o
filho lhe disse que Valentim o convidara a partilhar de sua sorte, o
velho logo resolveu mandá-lo para Milão. Sem dar a Proteu nenhum
motivo para essa súbita resolução, pois costumava dar ordens ao
filho e não discutir com este, declarou:
— Meu
desejo é o mesmo de Valentim. — Ante o olhar atônito do filho,
acrescentou: — Não te espantes que eu tenha tão de repente
resolvido mandar-te passar algum tempo na corte do duque de Milão. É
o que eu quero mesmo e está acabado! Apronta-te para partir amanhã
e nada de pretextos. Bem sabes que as minhas resoluções são
irrevogáveis.
Agora
que sabia que perderia Proteu por um longo tempo, Júlia já não
fingia indiferença. Fizeram uma triste despedida, com juras de amor
e fidelidade. Trocaram anéis, que ambos prometeram usar sempre, como
mútua recordação. E assim, cheio de pesar, seguiu Proteu para
Milão, residência do amigo Valentim.
Como
dissera Proteu ao pai, Valentim captara realmente as graças do duque
de Milão. E outra coisa lhe acontecera, com que Proteu nem sonhava:
Valentim perdera a liberdade de que tanto jactava-se e tornara-se tão
apaixonado quanto Proteu.
Fora
Sílvia, filha do duque de Milão, quem operara tão maravilhosa
mudança em Valentim, que era correspondido por ela. Mas ambos
ocultavam seu amor, pois o duque, embora fosse amável com Valentim e
o convidasse diariamente ao palácio, escolhera como marido para a
filha um jovem cortesão chamado Thurio. Sílvia desprezava o rapaz,
que nada tinha do fino espírito e das excelentes qualidades de
Valentim.
Os
dois rivais, Thurio e Valentim, achavam-se um dia em visita a Sílvia.
Valentim divertia-a, transformando em ridículo tudo quanto Thurio
dizia, quando o próprio duque entrou na sala e deu-lhe a boa-nova da
chegada de seu amigo Proteu.
— Se
eu desejasse mais alguma coisa — exclamou Valentim —, seria vê-lo
aqui. — E fez ao duque os maiores elogios de Proteu: — Meu
senhor, embora eu tenha esbanjado meu tempo, soube o meu amigo tirar
vantagem do dele e tem, no seu espírito e pessoa, todos os
predicados próprios de um cavalheiro.
— Acolhei-o,
pois, de acordo com seu merecimento — disse o duque. — Sílvia,
eu falo a ti, e a vós, Thurio. Quanto a Valentim, não é preciso
fazer-lhe recomendação alguma.
Foram
interrompidos pela entrada de Proteu, e Valentim apresentou-o a
Sílvia:
— Encantadora
dama, aqui tendes mais um servidor a vossas ordens.
Quando
Valentim e Proteu terminaram a visita e se viram a sós, disse
Valentim:
— Dize
agora como vai tudo na nossa terra. Como vai tua dama? Tem progredido
teu amor?
— Antes
te aborreciam as minhas histórias de amor — replicou Proteu. —
Sei que não te interessam tais assuntos.
— Ah,
Proteu! — exclamou Valentim. — A vida agora está mudada. Fiz
penitência por haver desprezado o amor. Em vingança ao meu desdém,
o amor expulsou o sono dos meus olhos escravizados. Ó querido
Proteu, o amor é um despótico senhor e tanto me tem subjugado que
confesso que não há dor que se assemelhe à dos seus castigos, nem
alegria neste mundo que se compare às alegrias que ele nos dispensa.
Agora, não gosto de conversar sobre coisa alguma que não seja o
amor.
A
transformação que o amor operara em Valentim constituiu um grande
triunfo para seu amigo Proteu. Mas de “amigo” é que Proteu não
devia mais ser chamado, pois o mesmo poderoso deus do amor, de quem
falavam (e no mesmo instante em que se referiam à mudança que ele
operara em Valentim), agia também no coração de Proteu. Aquele
que, até então, fora um modelo de verdadeiro amor e perfeita
amizade tornava-se agora, a partir da curta visita a Sílvia, um
falso amigo e um namorado infiel. Logo que viu Sílvia, todo seu amor
por Júlia se desvaneceu como um sonho e nem a velha amizade a
Valentim pôde impedir-lhe o desejo de suplantá-lo no coração
dela. E, como sempre sucede quando uma pessoa naturalmente boa
torna-se indigna, lutou Proteu com muitos escrúpulos antes de
resolver abandonar Júlia e tornar-se rival de Valentim. Mas, por
fim, ele abafou o senso do dever e entregou-se, quase sem remorsos, à
sua nova e infeliz paixão.
Valentim
confidenciou-lhe toda a história de seu amor, que tão
cuidadosamente ocultava do duque. Contou-lhe que, sem esperanças de
algum dia obter o consentimento deste último, convencera Sílvia a
abandonar naquela noite o palácio paterno e fugir com ele para
Mântua. Mostrou então a Proteu uma escada de corda, por meio da
qual pretendia ajudar Sílvia a sair por uma das janelas do palácio,
assim que escurecesse.
Depois
de ouvir essa fiel narrativa dos mais caros segredos do amigo — é
duro de acreditar, mas é verdade —, Proteu resolveu contar tudo ao
duque.
O
falso amigo começou sua história ao duque com muitos rodeios. Disse
que, pelas leis da amizade, devia guardar segredo, mas que os favores
que o duque lhe dispensava e o dever a que se sentia obrigado para
com este levavam-no a contar aquilo que, de outro modo, por preço
algum revelaria. Contou então tudo o que ouvira do amigo, sem omitir
a escada de corda e a maneira como Valentim pretendia ocultá-la sob
uma comprida capa.
O
duque considerou Proteu como um milagre de integridade, visto que
preferia denunciar os intentos do amigo a ocultar uma ação indigna,
e encheu-o de elogios. Prometeu não revelar a Valentim quem o
desmascarara, pois o obrigaria, por algum artifício, a trair ele
próprio seu segredo. Nesse intuito, o duque esperou à noite a
chegada de Valentim, a quem viu dirigir-se apressadamente às
proximidades do palácio. Percebendo alguma coisa oculta sob sua
capa, concluiu que devia ser a escada de corda. Então, fê-lo parar,
dizendo:
— Aonde
vai com tanta pressa, Valentim?
— Perdoai-me
— retrucou Valentim —, é que tenho um mensageiro à espera, para
levar cartas minhas aos amigos.
Mas
tal mentira não teve melhor sucesso que a de Proteu a seu pai.
— Mas
são de tanta importância assim? — inquiriu o duque.
— Não,
meu senhor, apenas para dizer a meu pai que estou bem e me sinto
feliz na vossa corte.
— Então,
não importa. Demora-te um pouco mais. Desejo aconselhar-me contigo
sobre uns assuntos íntimos.
Engendrou
então uma história, com o intuito de lhe arrancar o segredo. Disse
que, como Valentim bem sabia, desejava casar sua filha com Thurio,
mas esta era por demais teimosa e desobediente às suas ordens:
— Nem
considera que é minha filha, nem me teme como a um pai. Mas
afianço-te que esse seu orgulho só serviu para afastar dela o meu
amor. Eu pensava que minha velhice teria os seus cuidados de filha.
Mas agora estou resolvido a casar-me e entregá-la a quem quer que
pretenda casar com ela. E sua beleza há de ser seu único dote.
Sem
saber onde o duque queria chegar, Valentim indagou:
— E
que deseja vossa graça de mim, nesse caso?
— Sucede
que a dama que pretendo desposar é bela e recatada e não preza
minha eloquência de velho. Por outro lado, a maneira de cortejar
mudou muito desde os meus tempos de rapaz, e eu desejava que me
instruísses sobre o que devo fazer.
Valentim
deu-lhe uma ideia geral da maneira como procediam os jovens quando
desejavam conquistar o amor de uma linda dama, tais como presentes,
visitas constantes e coisas parecidas.
Replicou
o duque que a dama em questão havia recusado um presente que ele lhe
mandara e que era de tal modo vigiada pelo pai que nenhum homem podia
falar com ela durante o dia.
— Então
— disse Valentim —, deveis visitá-la à noite.
— Mas,
à noite — replicou o duque, que estava chegando onde queria —,
suas portas estão solidamente fechadas.
Valentim
teve então a infeliz ideia de aconselhar o duque a subir à noite ao
quarto de sua dama, por meio de uma escada de corda. Prontificou-se
ainda a lhe arranjar uma e recomendou-lhe que escondesse a referida
escada sob uma capa longa, igual à sua.
— Empresta-me
tua capa — pediu o duque, que arquitetara aquela longa história
para ter um pretexto de se apossar da capa de Valentim.
E
dizendo tais palavras, abriu a capa do jovem, descobrindo, não só a
escada de corda, mas também uma carta de Sílvia, que ele no mesmo
instante abriu e leu. Tal carta continha um plano completo da
projetada fuga.
O
duque, depois de exprobrar Valentim por sua ingratidão em retribuir
daquele modo a acolhida que ele lhe dispensara, expulsou-o para
sempre da corte e da cidade de Milão. Valentim foi forçado a partir
naquela mesma noite, sem ao menos rever Sílvia.
Enquanto
Proteu em Milão assim traía a Valentim, Júlia em Verona chorava a
ausência de Proteu. E seu amor, por fim, suplantou de tal modo o
senso das conveniências que ela resolveu deixar Verona para ir em
busca do seu amado. Ela e sua criada Lucetta vestiram-se de homem
para se prevenirem contra os perigos do caminho e, assim disfarçadas,
chegaram a Milão pouco depois de Valentim ter sido banido da cidade.
Júlia
chegou a Milão por volta do meio-dia, hospedando-se numa estalagem.
E com todos os pensamentos dirigidos para seu querido Proteu, ela
travou conversa com o estalajadeiro, ansiosa por descobrir alguma
novidade de seu amor.
O
hospedeiro ficou lisonjeado por aquele distinto jovem (que lhe
parecia de elevada posição) lhe falar com tanta familiaridade e,
sendo homem de boa índole, penalizou-se por vê-lo tão melancólico.
A fim de distrair o jovem hóspede, convidou-o para uma serenata que
naquela noite um cavalheiro ia oferecer à sua dama.
O
motivo da melancolia de Júlia era não saber o que diria Proteu do
imprudente passo que ela acabava de dar. Sabia bem que Proteu a amava
por seu nobre orgulho virginal e dignidade de caráter e temia, com
aquele passo, baixar no conceito dele.
Com
a secreta esperança de encontrar Proteu, ela de bom grado aceitou o
convite do estalajadeiro.
Mas
quando chegaram diante do palácio a que o hospedeiro a conduzira, o
efeito foi muito diferente daquele que o bom homem esperava. Ali,
para sua mágoa, Júlia encontrou seu amado, o inconstante Proteu,
oferecendo uma serenata a Sílvia e dirigindo-lhe palavras de amor e
admiração. Júlia ouviu ainda Sílvia falar, de uma janela, a
Proteu, censurando-o por haver esquecido seu verdadeiro amor e por
sua ingratidão para com Valentim. Dito isto, Sílvia deixou a
janela, sem querer ouvir sua música nem suas bonitas palavras, pois
era fiel a Valentim e abominava o traiçoeiro procedimento de Proteu.
Apesar
de desesperada com o que acabava de presenciar, Júlia continuava a
amar o volúvel Proteu. E, sabendo que ele ultimamente despedira um
criado, planejou, com o auxílio do hospedeiro, oferecer-se para seu
pajem.
Sem
desconfiar que se tratava de Júlia, Proteu enviou-a com cartas e
presentes à sua rival Sílvia, mandando até, por seu intermédio, o
anel que ela própria lhe dera em Verona, como prenda de despedida.
Chegando
com o anel ao palácio, Júlia ficou radiante ao ver Sílvia rejeitar
redondamente a corte de Proteu. E Júlia, ou o pajem Sebastião, como
agora se chamava, pôs-se a conversar com Sílvia acerca do primeiro
amor de Proteu, a abandonada Júlia. Disse conhecê-la muito bem —
e era verdade. Narrou-lhe o quanto Júlia queria a Proteu e como o
desprezo deste a fazia sofrer. Continuando sua graciosa farsa,
informou:
— Júlia
tem minha altura e o meu corpo. Seus olhos e cabelos são da mesma
cor dos meus.
Na
verdade, Júlia parecia um bonito rapaz.
Sílvia
se compadeceu da pobre moça a quem se referiam, tão cruelmente
abandonada pelo homem que tanto amava. E, quando Júlia lhe ofereceu
o anel mandado por Proteu, recusou-o:
— É
uma vergonha ele me mandar este anel. Não o quero, pois muitas vezes
ouvi dizer que foi Júlia quem o deu. Gosto de ti, meu bom rapazinho,
por te compadeceres daquela pobre menina. Aqui tens uma bolsa.
Aceita-a, por amor de Júlia.
Essas
confortadoras palavras da boca de sua rival reanimaram o coração de
Júlia.
Mas
voltemos a Valentim, que não sabia qual caminho tomar, já que não
queria voltar à casa paterna como um eLivros. Estando a vaguear por
uma floresta solitária, próxima ainda da cidade onde deixara o
tesouro de seu coração, a querida Sílvia, foi atacado por ladrões,
que lhe exigiram dinheiro.
Valentim
lhes disse que era um homem perseguido pela adversidade, a caminho do
exílio, e que não possuía dinheiro, sendo a roupa que vestia a sua
única riqueza.
Ouvindo
que ele era um homem caído em desgraça e impressionados com seu ar
nobre e sua varonil atitude, os bandidos disseram que, se quisesse
viver com eles e ser seu chefe, ou capitão, colocar-se-iam sob seu
comando; em compensação, caso ele recusasse a oferta, o matariam.
Valentim,
que pouco se importava com o que lhe acontecesse, consentiu em viver
com eles e ser seu capitão, sob a condição de se comprometerem a
não atacar mulheres nem viajantes pobres.
Assim,
o nobre Valentim tornou-se, como o Robin Hood de que nos falam as
baladas, capitão de ladrões e bandidos. Foi nessa situação que
Sílvia veio a encontrá-lo, como veremos adiante.
Para
evitar o casamento com Thurio, em que o pai continuava insistindo,
Sílvia resolveu ir ter com Valentim em Mântua, onde soubera
haver-se refugiado seu amor. Tal informação, porém, era falsa,
pois Valentim ainda vivia na floresta, como capitão de bandidos, mas
sem tomar parte nas suas depredações. Só usava a autoridade que
lhe haviam imposto para compeli-los a se mostrarem compassivos em
relação aos viajantes a quem saqueavam.
Sílvia
fugira do palácio paterno em companhia de um digno ancião chamado
Eglamour, que levara consigo para lhe servir de proteção no
caminho. Teve de atravessar a floresta onde vivia Valentim com os
bandidos. Um deles se apoderou de Sílvia, ao passo que Eglamour
conseguiu fugir.
Vendo
o terror em que Sílvia se achava, o bandido que a aprisionou
disse-lhe que não se alarmasse, pois ia apenas levá-la à caverna
onde morava seu capitão e que ela não devia ter medo, pois o
capitão possuía espírito nobre e sempre se compadecia das
mulheres. Pouco consolou Sílvia saber que seria levada, como
prisioneira, perante o chefe dos bandidos.
— Oh,
Valentim! — exclamou ela. — Tudo isso eu suporto por tua causa!
Quando
o ladrão a conduzia para a caverna, no entanto, foi detido por
Proteu, que tendo sabido da fuga de Sílvia lhe seguira os passos até
aquela floresta, ainda acompanhado por Júlia disfarçada de pajem.
Proteu
arrebatou-a das mãos do bandido. Porém, mal ela teve tempo de lhe
agradecer e já ele começava a importuná-la com seus protestos de
amor. Seu pajem (a desprezada Júlia) permanecia por perto, na maior
ansiedade, temeroso de que o grande serviço que ele prestara a
Sílvia a induzisse a retribuir-lhe os sentimentos.
Nisso,
para grande surpresa de todos, apareceu de súbito Valentim, que,
tendo sabido que seus homens haviam aprisionado uma dama, acorrera
para confortá-la e tranquilizá-la.
Proteu,
que estava a cortejar Sílvia, sentiu-se tão envergonhado por ser
flagrado pelo amigo que logo foi acometido de profundo arrependimento
e remorso. De tal modo expressou seu pesar pelo mal que fizera a
Valentim que este, nobre e generoso por natureza, de uma maneira até
romântica, não somente lhe perdoou restituindo-lhe o antigo lugar
que ocupava na sua amizade, como também, num súbito arroubo de
heroísmo, declarou:
— Perdoo-te
plenamente e cedo-te todo o interesse que tenho por Sílvia.
Ao
ouvir tão estranho oferecimento e temendo que a recente virtude de
Proteu não lhe bastasse para recusar Sílvia, o falso pajem perdeu
os sentidos e todos se empenharam em fazê-lo voltar a si. A própria
Sílvia sentiu-se ofendida, embora não acreditasse que Valentim
perseverasse naquela exagerada demonstração de amizade.
Quando
recuperou os sentidos, Júlia disse:
— Ia-me
esquecendo: meu amo encarregou-me de entregar este anel a Sílvia.
Olhando
o anel, Proteu constatou que era o mesmo que dera a Júlia, em troca
do que recebera dela e que ele mandara a Sílvia pelo suposto pajem.
— Como?
— indagou ele. — Este é o anel de Júlia. Como veio parar em
tuas mãos, menino?
— Foi
a própria Júlia quem o deu a mim e a própria Júlia quem aqui o
trouxe.
Olhando
atentamente para ela, Proteu percebeu que não podia ser outra pessoa
senão a própria Júlia. E tão comovido ficou com a prova que ela
lhe dera de sua constância e devotamento que todo seu antigo amor
lhe refluiu ao coração. Ficou de novo com sua própria amada,
cedendo todas as suas pretensões sobre Sílvia a Valentim, que tanto
a merecia.
Regozijavam-se
Valentim e Proteu com sua reconciliação e a fidelidade de suas
amadas, quando foram surpreendidos pela chegada do duque de Milão e
de Thurio, vindos em perseguição de Sílvia.
Foi
Thurio quem primeiro se aproximou, tentando apoderar-se de Sílvia e
dizendo:
— Sílvia
é minha!
— Cala-te!
— retrucou Valentim, exaltado. — Se tornas a dizer que Sílvia é
tua, a morte é o que tu terás. Aqui está ela: toca-a, se puderes.
Não tocarás meu amor nem com tua respiração.
Diante
da ameaça, Thurio, que era um grande poltrão, retirou-se, dizendo
que não se interessava por ela e que tolo é quem se bate por uma
mulher que não o ama.
O
duque, que era um bravo, ficou encolerizado:
— Que
vil e degenerado és tu, que tanto querias obtê-la e tão facilmente
a abandonas agora! — Voltando-se então para Valentim, disse: —
Aplaudo a tua coragem, Valentim, e julgo-te digno do amor de uma
imperatriz. Terás Sílvia, pois bem a mereceste.
Beijando
humildemente a mão do duque, Valentim aceitou cheio de
reconhecimento o nobre oferecimento que ele lhe fazia de sua filha.
Aproveitou esse feliz ensejo, pedindo o perdão do duque para os
bandidos que com ele viviam na floresta, assegurando-lhe que, quando
reintegrados na sociedade, saberiam mostrar-se úteis e honrados. A
maioria deles tinha sido banida, como Valentim, por crimes meramente
políticos. O duque aquiesceu prontamente. Quanto a Proteu, o falso
amigo, foi-lhe imposta a penitência de assistir, perante o duque, à
narrativa completa dos seus amores e embustes. A vergonha que então
experimentou foi julgada castigo suficiente.
Feito
isso, regressaram os quatro namorados a Milão, onde suas núpcias
foram celebradas em presença do duque, com magníficos festejos.
William Shakespeare, in Contos de Shakespeare

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