Da mesma forma que os monumentos
históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés,
os parques e jardins – os casais de namorados são coisa que
pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados
públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris
costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em
suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em
Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda
desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte
margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais,
namorados que leem romances, namorados que dormem, namorados que
brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que
lhes vai em torno, – e o que é formidável – guardados da
curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja
função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com
uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É
claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de
superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em
beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão
por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o
outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes,
acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha
dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados
no tempo.
Ninguém pode dizer que o Rio não
seja uma cidade de namorados: ela o é. Seria difícil, aliás,
compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza, sem namorados. Mas
são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos que
parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza.
Grande culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de
costumes, que arrolava todas as carícias de namorados dentro de um
mesmo código moral, chegando até ao abuso de prender gente casada
que saía para namorar fora de casa. Não. Há carícias e carícias.
Que mal existe em se beijarem os namorados em praça pública ou nos
cantos de rua? Em que uma coisa dessas ofende a moral? Por que não
se poderão eles abraçar ternamente, quando tiverem vontade? Pois
parece incrível: outro dia um amigo meu contou que foi “apitado”
várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar dando um
“peguinha” na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que
se moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os
namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou
maltratar os animais, é indício de mau caráter. Que os namorados
se beijem à vontade nesta linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no
beijo dos namorados, como no amor dos pássaros. Deixai-os nos seus
parques, nas suas ruas escuras, nos seus portões de casa. Deixai-os
namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do Jardim Botânico,
deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir
esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que
em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa
liberdade, essa beleza, essa poesia, esse voo que há num beijo de
amor. Tréguas aos namorados!
Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor
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