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Chegara o sábado. Ricardo e Roberto
só trabalhavam meio expediente e aproveitavam um pedaço da tarde
para ver a beleza do Rio. Aquela beleza que nunca antes os
entusiasmara tanto. Mas o Rio, quando os ardores de verão
desapareciam, quando o céu se vestia daquele azul de fim de abril e
que aumentava ainda mais de azul saudando o mês de maio... Ah! O Rio
de Janeiro em toda a sua beleza e esplendor. O mar emborcando de
verde nas bordas da cidade. O verde mais verde e luminoso das
montanhas. O encantamento dos jardins. A delícia suave da Gávea
guardando a umidade das suas matas e dos seus parques. A elegância
de Laranjeiras com os seus solares tradicionais. E por cima de tudo a
dignidade do Pão de Açúcar, levando turistas e gente dos outros
estados (dos outros estados porque eles como bons cariocas nunca
tinham subido nem sequer até à Urca) para descortinar a magia da
Guanabara, espojando-se aos revérberos do sol. E ainda por cima o
Cristo de braços abertos, como se fosse uma grande pomba da paz,
abençoando e se extasiando ante tanta maravilha.
Almoçaram quietamente em um
restaurante agradável na rua São José e retornavam, como Ricardo
dizia, à realidade do nosso mundo. Um mundo que começava na Central
do Brasil. Na estação D. Pedro Segundo, coroado pela singularidade
da favela e pela pedreira de São Diogo. Depois caminharia até a
ponte de Lauro Miller, onde rezava a lenda que o engenheiro se
suicidara com medo que a ponte desabasse com o correr dos trens e do
tempo. Ele se fora, mas a ponte continuava viva e continuaria ainda
por muitos anos...
Aos sábados até os trens pareciam
conhecer o dia. Não enchiam tanto. Ou porque o regresso era mais
cedo ou porque muita gente continuasse com o mesmo horário de
trabalho. Para eles não, eram uns favorecidos pela sorte.
Conseguiram sentar-se calmamente num
Campo Grande. Pena que não fosse horário do Mangaratiba, que ia
direto a Deodoro e de lá até Bangu.
Vinha a invasão dos vendedores de
tudo.
– Sorte grande, minha gente. Cobra,
jacaré, elefante.
A mulher caminhava entre os bancos,
pelo corredor vazio. Falara sardonicamente para um rapazola:
– Veado, moço?
Mas ouvira a resposta que não
esperava.
– Vaca, dona.
Disfarçava ante o riso dos outros e
procurava entre os bilhetes.
– Vaca não tem.
– Pensei que tinha.
Os jornais apareciam aos borbotões.
Os menos afamados no meio dos outros, os mais baratos também no meio
dos outros.
– O Globo, A Noite e O Diário.
Mas a voz do homem forçava o Radical,
porque os grandes crimes vinham cheirando a sangue no Radical e na
Vanguarda.
– Pentes, agulhas, carretel de
linhas e espelhos.
Até santinhos e santões apareciam
nessa hora antes de o trem apitar a partida. São Jorge no seu cavalo
matando o seu dragão, pequeno. Santa Luzia carregando a travessa com
os olhos, grande. São João com os seus cabelos bem encaracolados e
com o carneirinho no ombro, pequeno. Santa Terezinha do Menino Jesus
carregando rosas, bem grande...
– Cosme e Damião a senhora tem?
– Puxa, com o diabo de tanto santo a
senhora vem procurar logo um que não tem.
Ricardo falou, olhando a paisagem
humana, e sorriu com bondade.
– Essa gente é gente, Roberto. Essa
gente sabe viver e sabe sofrer. É gente de carne mesmo. E eu gosto
da vida deles. A verdade é essa.
Seu olhar adquiriu um tom melancólico
e ao mesmo tempo profundamente cismativo.
– Sei. Mas hoje é o dia. Não se
esqueça, sábado. Nós combinamos que uma resposta será dada.
– Eu sei. Eles vão embora na
segunda-feira. Voltarão segunda-feira...
O trem apitou e foi uma correria de
gente que vendia procurando as plataformas para descer.
Mal as rodas deram aquele canto de
viagem, um menino de três anos, feinho de doer, vestido
grotescamente, imitando o trajar de menino rico, abriu num berreiro
danado.
– Água, mamãe. Tou cum sede...
A humanidade se comoveu. Sede já é
uma coisa horrível em gente grande, quanto mais numa criancinha.
O menino esganiçava.
Alguém perguntou piedosamente.
– Por que não foi no varejo, dona?
Lá, se não dessem água, tinha refresco de limão, laranja,
groselha e tamarindo.
– Não deu nem tempo. Eu não podia
perder esse trem. Já vinha numa agonia danada, quando saltei na
Praça Quinze. Nunca que chegava um bonde “Barcas”. Cheguei aqui
estrebuchando. Esse meu filho pesava como chumbo.
A criança aumentava o berreiro. Todo
mundo tentava consolar a criança. Que esperasse um pouquinho. Quando
chegasse em Engenho de Dentro, pediriam ao fiscalpara demorar a
apitar. Teriam tempo de correr no varejo e trazer um copo de qualquer
coisa.
Mas o menino arroxeava de gritar. A
mãe não sabia que fazer com a criança no colo. Ninava-a, falava
doçura, prometia, mas nada. O barulho era de desenvolver ao máximo
qualquer pequena dor de cabeça provocada pelo abafamento.
Conseguiram falar com o cobrador,
combinaram demorar dois minutos a mais em Engenho de Dentro. Todo
mundo se ligando naquela infelicidade comum.
O trem parou. O fiscal combinou. O
apito atrasou dois minutos e um voluntário correu até o varejo e
veio voando com um copo de refresco de tamarindo. Aproximou-se
ofegante e quis ser ele mesmo o intérprete da sua boa ação. Levou
o copo à boca da criança e surpresa imensa apareceu: o menino bateu
no copo, empurrou a mão e vociferou:
– Num quero.
Aí a coisa mudou.
– Ah!, você não quer? Pois bebo
eu.
Virou o copo goela abaixo. Correu a
devolver no varejo e só teve tempo de escutar o trem apitar e
começar a andar. Pulou na plataforma e foi ajudado por mãos de boa
vontade.
O menino chorava ainda.
Um bombeiro gordo e moreno, que devia
pelo menos ter vinte anos de serviços prestados à coletividade,
inclinou-se para a mulher e aconselhou:
– Tenho visto de tudo na vida, dona.
Incêndio, afogamento e naufrágio, mas... mas... se fosse meu
filho...
Foi o que fez a mãe. Debruçou o
menino feio no colo e sapecou-lhe duas imorredouras palmadas.
Naquelas palmadas se traduzia a vontade de pelo menos duzentas mãos
naquele carro.
Aí o menino choramingou, choramingou,
foi fechando os olhos e, para alívio de todos, adormeceu.
– Ricardo, você prometeu. Hoje é
sábado.
Ricardo riu e bateu de leve nos ombros
de Roberto, acalmando-o.
– Você vai se espantar com a minha
decisão. Eu não voltarei com eles. Eu vou permanecer.
– Mas como? Nós seremos ricos de
novo, Ricardo.
– Não. Não irei. Eu descobri a
verdade e vou trabalhar para essa gente.
– Mas de que maneira?
– Não sei. Na hora Deus me indicará
um jeito.
– Você está brincando, Ricardo. E
eu?
Ricardo olhou estranhamente para o
irmão, mas mesmo assim nos seus olhos existiam um mundo de ternura e
compreensão.
– Pois você volta com eles. Só
isso.
– Você vai preferir ficar nesse
mundo de sacrifícios? Nesse mundo de viagens intermináveis, num
universo de uma casinha modesta e apertada, em vez de...
– Certo. Em vez de um mundo egoísta
e falso. Cínico e de desamor. Vou ficar. E quando vocês partirem,
claro que sentirei a sua falta.
– E Mabel? Mabel é nossa mãe.
– Mabel será feliz. Vai esquecer
tudo que passou e voltar ao seu modo de olhar a felicidade. O tempo
milagroso tudo apaga, menos as rugas da velhice.
– Você crê, Ricardo?
– Mas o tempo ameniza as rugas da
velhice.
Fez uma pausa e foi tomado de uma
certa emoção.
– E quando todos partirem, deixarei
até o emprego. Não vou mais trabalhar. Só minha alma trabalhará.
Vou viver mais próximo dessa gente e ajudá-la.
– De que modo?
– Na hora resolveremos: Deus e eu.
– Ricardo, Ricardo! Como poderá
você viver sem nada?
– É suficiente a base. Pedirei que
me deixem a casa em troca do bem a que terei direito. Tendo essa base
tudo se resolverá.
– E se eu quiser ficar? Eu não o
deixarei por nada. Você foi a única pessoa naminha vida que
significou carinho para mim. E se eu quiser ficar?
Ricardo sentiu um nó na garganta.
– Não exigiria tanto de você. Mas
se você ficasse seria uma festa no meu coração.
– E não sentiremos falta de nada do
que já tivemos?
– Eu nunca mais senti falta. Desde o
primeiro dia que fugi obrigatoriamente daquela fatuidade. Nunca mais
eu voltaria a defrontar-me com aquela que foi o meu amor. Você sabe
que estou falando a verdade...
Roberto meneou a cabeça, incrédulo.
– Estranho deixar o mundo de ricos
para experimentar um mundo, ao que me parece, de renúncias.
– Estranho, por que, meu irmão? Faz
muito tempo um homem chamado Gotama, o Buda, abandonou as pompas e
riquezas do seu palácio para viver entre os pobres... e foi feliz.
Mais tarde outro homem, Francisco de Assis, também deixou o mundo do
luxo para conviver com os menos favorecidos, não é verdade?
– Mas eles eram santos!
– Em suas épocas não o foram
considerados como tal. Pelo menos no princípio.
Calaram-se. Entretanto, Ricardo fez
renascer a conversa.
– Enquanto sobrar o resto do nosso
último ordenado, já que a família não precisará dispor dele
agora, viveremos humildemente. E quando acabar Deus nos ajudará.
Creia. “Os lírios não tecem, nem bordam. Os pássaros do Senhor
enchem o mundo apenas com a beleza dos seus cantos...”
Roberto decidira.
– Juro que eu ficarei com você, meu
irmão. Será o meu acompanhamento na mais estranha de todas as
aventuras.
– Você verá que não. Que tudo é
tão simples. Vamos deixar que cresçam nossos cabelos e nossas
barbas. Andaremos como dois velhinhos, na calma absoluta. Eu terei
noventa e seis e você oitenta e seis. Só isso. E na maior ternura
nos aproximaremos da bondade do coração humano. E essa bondade só
existe nas mãos de Deus. E todos podem tocar nas mãos de Deus,
contanto que haja a sinceridade no âmago do coração.
José Mauro de Vasconcelos, em Rua Descalça

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