126.
Tenho grandes estagnações. Não é
que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num
postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém,
adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é
agradável. Há mais subtileza na minha desinteligência comigo.
Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da
emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a
vida vegetativa da alma — a palavra, o gesto, o hábito — me
exprimem eu para os outros, e, através deles, para mim.
Nesses períodos da sombra, sou
incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que
algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia
a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não
posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os
meus actos certos, não fossem mais que uma respiração periférica,
instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem
sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado
assim. As vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim,
talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes
impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira;
ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações,
perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade
perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao
deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a
sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

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