29/08/2026

Fragmento de uma elegia

Naquela face, redonda e cálida,
Corriam livres, em claro friso
De força e graça, de terno e turvo,
Os jogos deleitosos de Jacinto
E as aventuras de Jasão.
Era uma face redonda e cálida
Que transformara em carne e dança
A pedra obscura que a contemplasse,
Tão criadora essa medusa
Fora, ostentada pelos cabelos,
Pelas serpentes que deitariam
Semente sempre, veneno nunca...

Naquele corpo, bizarro e tenro,
Hermes se via, quando Afrodite
Lhe dava forma. E a terra, amante
Dos pés dormentes
Que lhe deixavam nas rochas-ubres,
Nas praias-colos, nos campos-ventres
Marcas de macho de asas cortadas,
Abriu-lhe as coxas de pedra ao tenro
Bizarro corpo que gera em sonho
Que, morto, engendra: nada se perde
Na natureza —
alas!
Transforma-se.

Mário Faustino, em O homem e sua hora

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