A gente ainda estava em Louisiana.
Tínhamos que encarar uma longa viagem de trem pelo Texas. Nos deram
latas de comida, mas nada de abridores. Deixei minhas latas no chão
e me estiquei no banco de madeira. Os outros homens estavam reunidos
na parte da frente do vagão, rindo e conversando. Fechei os olhos.
Depois de uns dez minutos, senti uma
poeira subindo pelas fendas do banco. Era uma poeira muito velha,
poeira de caixão, e fedia a morte, a algo que já estava morto havia
muito tempo. Ela entrava pelas minhas narinas, se assentava nas
minhas sobrancelhas e tentava invadir minha boca. Depois, ouvi sons
de uma respiração ofegante. Pelas fendas pude ver um homem
acocorado atrás do banco, soprando a poeira no meu rosto. Me sentei.
O homem se esgueirou para fora do espaço atrás do banco e correu
para a frente do vagão. Limpei meu rosto e o encarei. Era difícil
acreditar.
— Se ele partir pra cima, quero que
vocês me ajudem — ouvi ele dizer. — Prometam que vão me ajudar…
O bando me deu uma olhada. Me estiquei
no banco de novo. Eu podia ouvi-los conversando:
— O que esse cara tem?
— Quem ele pensa que é?
— Não fala com ninguém.
— Só fica lá atrás, sozinho.
— Quando a gente levar ele lá para
fora, vamos cuidar disso. Desgraçado.
— Você acha que consegue pegar ele,
Paul? Para mim ele parece um maluco.
— Se eu não conseguir, alguém
consegue. Ele vai comer formiga na nossa mão.
Passado um tempo, fui até a frente do
vagão para beber água. Quando passei por eles, pararam de falar e
me observaram em silêncio enquanto eu bebia do copo. Então, quando
me virei e voltei para o meu canto, eles retomaram a conversa.
O trem fez muitas paradas, noite e
dia. Em cada uma onde havia um pouco de área verde e uma cidade
pequena por perto, um ou dois dos homens saltavam.
— Ei, o que aconteceu com o Collins
e o Martinez?
O encarregado ia pegar a prancheta e
riscar o nome deles da lista. Ele veio até mim.
— Quem é você?
— Chinaski.
— Vai continuar com a gente?
— Eu preciso do emprego.
— Ok. — E saiu.
Em El Paso, o encarregado veio e disse
que íamos trocar de trem. Ganhamos um vale para uma noite em um
hotel próximo e um de refeição para usar em uma lanchonete local;
também nos deram instruções sobre como, quando e onde pegar o
próximo trem na manhã seguinte.
Esperei do lado de fora da lanchonete
enquanto os homens comiam e só entrei quando eles saíram limpando
os dentes e conversando.
— Vamos dar um jeito nele, esse
filho da mãe!
— Cara, eu odeio esse filhote de
cruz-credo.
Entrei e pedi um bife de hambúrguer
com cebola e feijão. Não tinha manteiga para o pão, mas o café
estava bom. Eles já tinham ido embora quando eu saí. Um mendigo
estava caminhando pela calçada em minha direção. Dei para ele o
meu vale do hotel.
Passei aquela noite no parque. Parecia
mais seguro. Eu estava cansado, e aquele banco duro nem me incomodou.
Dormi.
Algum tempo depois, fui acordado pelo
que parecia ser um rugido. Eu nem sabia que jacarés rugiam. Para ser
mais exato, eram várias coisas: um rugido, uma respiração agitada
e um sibilar. Também ouvi o som de mandíbulas estalando. Um
marinheiro bêbado estava no centro da lagoa, segurando um dos
jacarés pelo rabo. A criatura tentava se torcer e alcançar o
marinheiro, mas não era fácil. As mandíbulas eram horripilantes,
mas também lentas e descoordenadas. Outro marinheiro e uma jovem
observavam e riam. Logo depois, o marinheiro deu um beijo na garota e
ambos foram embora juntos, deixando o outro lutando com o jacaré…
Em seguida foi a vez do sol me
acordar. Minha camisa estava quente, quase pegando fogo. O marinheiro
tinha desaparecido. O jacaré também. Em um banco do meu lado
direito estavam uma garota e dois caras jovens. Era óbvio que os
três também tinham dormido no parque naquela noite. Um dos rapazes
se levantou.
— Mickey — disse a garota —,
você tá de pau duro!
Riram.
— Quanto dinheiro a gente tem?
Puxaram os bolsos para fora. Tinham
uma moeda.
— E aí, o que a gente vai fazer?
— Sei lá. Vamos dar uma volta.
Fiquei observando o trio sair do
parque e entrar na cidade.
Charles Bukowski, em Factótum

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