domingo, 8 de março de 2026

1616 – Madrid

Cervantes

Que novas trazes de nosso pai?
Jaz, senhor, entre lágrimas e rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.
Se tivesse eu o bálsamo de Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!
Aos setenta anos que quase tem, e em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria esse feio Brás.
Não digo dois goles. Duas gotas!
Tarde chegaria.
Morreu, dizes?
Morrendo está.
Descubra-se, Sancho. E tu, Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!
Sem ele, senhor, o que será de nós?
Nada haveremos de fazer que não seja em sua alabança.
Onde iremos parar, tão sozinhos?
Iremos onde ele quis e não pôde.
Onde, senhor?
A endireitar o que torto está na costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.
Para que nos moam por lá os ossos.
Hás de saber, Sancho, irmão meu de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...
Como foram poucas as chibatadas....
...e recebem os escudeiros, em recompensa, imensos reinos jamais explorados.
Não os haverá mais perto?
E tu, Rocinante, fique sabendo: nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por deuses!
Depois de mil tundas, mil e uma.
Cale-se, Sancho.
Não nos disse nosso pai que a América é refúgio de malandros e santuário de putas?
Cala, te digo!
Quem às Índias embarca, nos disse, no cais deixa a consciência.
Pois lá iremos, a lavar a honra de quem livres nos pariu no cárcere!
E se aqui o choramos?
Homenagem chamas semelhante traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao braço, Sancho! A lança!

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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