domingo, 1 de março de 2026

Factótum



6

Na segunda-feira eu estava de ressaca. Fiz a barba e fui atrás de um anúncio que vi no jornal. Me sentei, e do outro lado estava o editor, um homem de mangas curtas e depressões profundas ao redor dos olhos. Parecia que ele não dormia há uma semana. Lá dentro era frio e escuro. Era a sala de montagem de um dos dois jornais da cidade, o menor deles. Homens estavam sentados em mesas sob lâmpadas de leitura, trabalhando com cópias.
Doze dólares por semana — propôs ele.
Tudo bem — respondi —, eu topo.
Eu trabalhava com um homenzinho gordo que tinha uma barriga nada saudável. Ele usava um relógio de bolso antiquado, preso em uma corrente dourada, vestia colete e um boné verde, tinha lábios grossos e uma expressão carnosa e sombria. As linhas do rosto não eram interessantes e sequer tinham personalidade; a cara parecia ter sido dobrada várias vezes e depois alisada, como se fosse um pedaço de papelão. Usava sapatos quadrados bregas e mascava tabaco, cuspindo o sumo em uma escarradeira no chão.
O sr. Belger — disse ele sobre o homem que precisava dormir — trabalhou duro para erguer este jornal. Ele é um bom homem. Estávamos à beira da falência até ele aparecer.
Ele me deu uma olhada. — Normalmente dão esse emprego para um estagiário.
Um sapo, pensei, é o que ele é, isso, sim.
Quero dizer — explicou —, esse trabalho costuma ser dado a um estudante. Ele pode estudar enquanto espera uma ligação. Você estuda?
Não.
Esse trabalho em geral é para quem estuda.
Voltei para a minha sala e sentei. Estava abarrotada de fileiras e fileiras de gavetas de metal, e dentro delas ficavam as gravuras em zinco que tinham sido usadas nos anúncios. Muitas dessas gravuras eram usadas inúmeras vezes. Havia também muitos tipos – com nomes de clientes e logomarcas. O gordo gritava “Chinaski!”, e eu ia ver qual anúncio ou que tipo ele queria. Muitas vezes eu era enviado ao jornal concorrente para pegar emprestado alguns dos tipos. Eles também pegavam os nossos. Era uma caminhada agradável, e eu achei um lugar em um beco onde podia tomar um copo de cerveja por alguns centavos. O gordo não me chamava muito, e o lugar da cerveja barata se tornou minha distração. O gordo começou a sentir minha falta. No começo, ele só me olhava com uma cara desagradável, até que um dia me perguntou:
Onde você estava?
Lá fora, tomando uma cerveja.
Este é um trabalho para estudantes.
Eu não sou estudante.
Vou ter que ter que mandá-lo embora. Preciso de alguém que esteja aqui com total disponibilidade.
O gordo me levou até o Belger, que parecia cansado como nunca.
Este é um trabalho para estudantes, sr. Belger. Receio que esse homem não se encaixe. Precisamos de um estudante.
Está bem — disse Belger. O gordo saiu todo estufado da sala.
Quanto te devemos? — perguntou Belger.
Cinco dias.
Certo, leve isso ao RH.
Ouça, Belger, aquele velho miserável é nojento.
Belger suspirou. — Jesus, não me diga?
Desci para o RH.

Charles Bukowski, em Factótum

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