Dado esse material, o que pode ser
falado ou feito da maneira mais condizente com a razão? Seja o que
for, falar ou fazer depende de você. Não se justifique dizendo que
foi impedido.
Não suspenderá as lamentações até
que o material que lhe é submetido e apresentado seja tão
valorizado pela sua mente quanto o luxo o é pelos lascivos. Até que
julgue prazerosas as ações adequadas à sua constituição. O poder
de julgá-las assim o acompanha para todo canto.
Perceba: a escolha de se direcionar
não é dada a um cilindro, à água, ao fogo ou a quaisquer entes
governados só pela natureza ou por almas irracionais. São impedidos
de inúmeras maneiras. Por outro lado, a inteligência e a razão
podem escolher transpor os impedimentos, pois foram constituídas
para isso. Note como a razão os transpõe tão facilmente quanto o
fogo ascende, a pedra cai ou um cilindro desce por um plano
inclinado. Não busque mais nada.
Entraves impedem apenas o corpo — um
cadáver. Exceto se assim opinar ou se renunciar à razão, não
esmagam nem danificam. Se esmagassem, quem fosse danificado se
tornaria pior. Mas, ao passo que os demais entes pioram quando são
danificados, o homem se torna melhor e mais elogiável quando emprega
esse “dano” com destreza.
Por fim, recorde-se: se não deteriora
um cidadão genuíno, não deteriora o estado. Se não afeta o
estado, não afeta a lei. Nenhum entrave infringe a lei. Logo, se não
fere a lei, não fere o cidadão ou o estado.
Marco Aurélio, em Meditações
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