domingo, 1 de março de 2026

Condizente com a razão

Dado esse material, o que pode ser falado ou feito da maneira mais condizente com a razão? Seja o que for, falar ou fazer depende de você. Não se justifique dizendo que foi impedido.
Não suspenderá as lamentações até que o material que lhe é submetido e apresentado seja tão valorizado pela sua mente quanto o luxo o é pelos lascivos. Até que julgue prazerosas as ações adequadas à sua constituição. O poder de julgá-las assim o acompanha para todo canto.
Perceba: a escolha de se direcionar não é dada a um cilindro, à água, ao fogo ou a quaisquer entes governados só pela natureza ou por almas irracionais. São impedidos de inúmeras maneiras. Por outro lado, a inteligência e a razão podem escolher transpor os impedimentos, pois foram constituídas para isso. Note como a razão os transpõe tão facilmente quanto o fogo ascende, a pedra cai ou um cilindro desce por um plano inclinado. Não busque mais nada.
Entraves impedem apenas o corpo — um cadáver. Exceto se assim opinar ou se renunciar à razão, não esmagam nem danificam. Se esmagassem, quem fosse danificado se tornaria pior. Mas, ao passo que os demais entes pioram quando são danificados, o homem se torna melhor e mais elogiável quando emprega esse “dano” com destreza.
Por fim, recorde-se: se não deteriora um cidadão genuíno, não deteriora o estado. Se não afeta o estado, não afeta a lei. Nenhum entrave infringe a lei. Logo, se não fere a lei, não fere o cidadão ou o estado.

Marco Aurélio, em Meditações

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