domingo, 15 de março de 2026

Factótum



11

No dia seguinte, depois que meus pais saíram, voltei para ficar mais um pouco na cama. Quando me levantei, fui para a sala e dei uma olhada, por entre as cortinas, lá para fora. A dona de casa estava sentada de novo na escada do outro lado da rua. Ela usava um vestido diferente, mais sexy. Fiquei bastante tempo olhando para ela. Aí me masturbei devagar e à vontade.
Tomei banho e me vesti. Achei umas garrafas vazias na cozinha e fiz uns trocados na mercearia. Encontrei um bar na avenida, entrei e pedi um chope. Tinha uma penca de bêbados mexendo na jukebox, rindo e falando alto. De vez em quando, um chope chegava para mim. Alguém estava pagando. Eu bebia. Comecei a conversar com as pessoas.
Aí olhei para fora. Já estava escurecendo. Os chopes continuavam chegando. A mulher gorda, que era dona do bar, e o namorado eram simpáticos.
Fui lá para fora uma vez para brigar com alguém. Não foi uma briga boa. A gente estava muito bêbado e tinha uns buracões no asfalto do estacionamento que dificultavam o equilíbrio. Desistimos…

***

Acordei muito tempo depois em um banco acolchoado e vermelho no fundo do bar. Me levantei e dei uma olhada ao redor. Todo mundo já tinha ido. O relógio marcava três e quinze da madrugada. Tentei a porta, mas estava trancada. Fui para trás do balcão e peguei uma garrafa de cerveja, abri, voltei e me sentei. Depois fui atrás de um charuto e um saco de batatas fritas. Terminei minha cerveja, levantei e encontrei uma garrafa de vodca, outra de uísque, e me sentei de novo. Misturei tudo com água; fumei cigarros e comi carne seca, batatas fritas e ovos cozidos.
Fiquei bebendo até as cinco da manhã. Dei uma limpada no bar, guardei tudo, fui até a porta e caí fora. Assim que saí, vi um carro com policiais se aproximando. Eles vinham devagar atrás de mim enquanto eu caminhava.
Depois de uma quadra, pararam do meu lado. Um policial colocou a cabeça para fora.
Ei, companheiro!
Os faróis estavam na minha cara.
O que você está fazendo?
Indo para casa.
Você mora por aqui?
Sim.
Onde?
Na Longwood Avenue, 2.122.
O que você estava fazendo, saindo daquele bar?
Eu sou o zelador.
E quem é o dono?
Uma senhora chamada Jewel.
Entre no carro.
Entrei.
Mostra para a gente onde você mora.
Eles me levaram para casa.
Agora vai lá e toca a campainha.
Fui até a entrada. Entrei na varanda, toquei a campainha. Ninguém atendeu.
Toquei de novo, várias vezes. Enfim a porta abriu. Meus pais estavam de pijama e roupão.
Você está bêbado! — gritou meu pai.
Estou mesmo.
Onde você arruma dinheiro para beber? Você não tem nada!
Vou arrumar um emprego.
Você está bêbado! Bêbado! Meu filho é um bebum! Um maldito bebum imprestável!
Os cabelos do meu pai estavam em pé, em tufos espetados. As sobrancelhas estavam arrepiadas, o rosto inchado e corado de sono.
Você age como se eu tivesse matado alguém.
É tão ruim quanto!
— …Ai, merda…De supetão, vomitei no tapete persa com o desenho de uma árvore da vida. Minha mãe gritou. Meu pai pulou para cima de mim.
Sabe o que a gente faz com um cachorro quando ele caga no tapete?
Sei sim.
Ele pegou na parte de trás do meu pescoço. Pressionou para baixo, me forçando a me curvar. Ele estava tentando me fazer ajoelhar.
Vou te mostrar.
Não….
Meu rosto estava quase encostando no vômito.
Vou te mostrar o que a gente faz com cachorro!
Eu me levantei do chão com o punho em riste. Foi um soco perfeito. Ele cambaleou para trás até chegar ao outro lado da sala e sentou no sofá. Eu fui junto.
Levanta.
Ele ficou lá sentado. Ouvi minha mãe:
Você bateu no seu pai! No seu pai! Você bateu no seu pai!
Ela deu um berro, e com as próprias unhas rasgou um lado do meu rosto.
Levanta — falei para o meu pai.
Você bateu no seu pai!
Ela arranhou meu rosto de novo. Virei para olhar. Ela rasgou o outro lado. Sangue escorria pelo meu pescoço, encharcando camisa, calça, sapatos e tapete. Ela baixou as mãos e me encarou.
Deu?
Ela nem respondeu. Voltei para o quarto pensando que era melhor mesmo arrumar um emprego.

Charles Bukowski, em Factótum

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