11
No dia seguinte, depois que meus pais
saíram, voltei para ficar mais um pouco na cama. Quando me levantei,
fui para a sala e dei uma olhada, por entre as cortinas, lá para
fora. A dona de casa estava sentada de novo na escada do outro lado
da rua. Ela usava um vestido diferente, mais sexy. Fiquei bastante
tempo olhando para ela. Aí me masturbei devagar e à vontade.
Tomei banho e me vesti. Achei umas
garrafas vazias na cozinha e fiz uns trocados na mercearia. Encontrei
um bar na avenida, entrei e pedi um chope. Tinha uma penca de bêbados
mexendo na jukebox, rindo e falando alto. De vez em quando, um
chope chegava para mim. Alguém estava pagando. Eu bebia. Comecei a
conversar com as pessoas.
Aí olhei para fora. Já estava
escurecendo. Os chopes continuavam chegando. A mulher gorda, que era
dona do bar, e o namorado eram simpáticos.
Fui lá para fora uma vez para brigar
com alguém. Não foi uma briga boa. A gente estava muito bêbado e
tinha uns buracões no asfalto do estacionamento que dificultavam o
equilíbrio. Desistimos…
***
Acordei muito tempo depois em um banco
acolchoado e vermelho no fundo do bar. Me levantei e dei uma olhada
ao redor. Todo mundo já tinha ido. O relógio marcava três e quinze
da madrugada. Tentei a porta, mas estava trancada. Fui para trás do
balcão e peguei uma garrafa de cerveja, abri, voltei e me sentei.
Depois fui atrás de um charuto e um saco de batatas fritas. Terminei
minha cerveja, levantei e encontrei uma garrafa de vodca, outra de
uísque, e me sentei de novo. Misturei tudo com água; fumei cigarros
e comi carne seca, batatas fritas e ovos cozidos.
Fiquei bebendo até as cinco da manhã.
Dei uma limpada no bar, guardei tudo, fui até a porta e caí fora.
Assim que saí, vi um carro com policiais se aproximando. Eles vinham
devagar atrás de mim enquanto eu caminhava.
Depois de uma quadra, pararam do meu
lado. Um policial colocou a cabeça para fora.
— Ei, companheiro!
Os faróis estavam na minha cara.
— O que você está fazendo?
— Indo para casa.
— Você mora por aqui?
— Sim.
— Onde?
— Na Longwood Avenue, 2.122.
— O que você estava fazendo, saindo
daquele bar?
— Eu sou o zelador.
— E quem é o dono?
— Uma senhora chamada Jewel.
— Entre no carro.
Entrei.
— Mostra para a gente onde você
mora.
Eles me levaram para casa.
— Agora vai lá e toca a campainha.
Fui até a entrada. Entrei na varanda,
toquei a campainha. Ninguém atendeu.
Toquei de novo, várias vezes. Enfim a
porta abriu. Meus pais estavam de pijama e roupão.
— Você está bêbado! —
gritou meu pai.
— Estou mesmo.
— Onde você arruma dinheiro para
beber? Você não tem nada!
— Vou arrumar um emprego.
— Você está bêbado! Bêbado!
Meu filho é um bebum! Um maldito bebum imprestável!
Os cabelos do meu pai estavam em pé,
em tufos espetados. As sobrancelhas estavam arrepiadas, o rosto
inchado e corado de sono.
— Você age como se eu tivesse
matado alguém.
— É tão ruim quanto!
— …Ai, merda…De supetão,
vomitei no tapete persa com o desenho de uma árvore da vida. Minha
mãe gritou. Meu pai pulou para cima de mim.
— Sabe o que a gente faz com um
cachorro quando ele caga no tapete?
— Sei sim.
Ele pegou na parte de trás do meu
pescoço. Pressionou para baixo, me forçando a me curvar. Ele estava
tentando me fazer ajoelhar.
— Vou te mostrar.
— Não….
Meu rosto estava quase encostando no
vômito.
— Vou te mostrar o que a gente faz
com cachorro!
Eu me levantei do chão com o punho em
riste. Foi um soco perfeito. Ele cambaleou para trás até chegar ao
outro lado da sala e sentou no sofá. Eu fui junto.
— Levanta.
Ele ficou lá sentado. Ouvi minha mãe:
— Você bateu no seu pai! No seu
pai! Você bateu no seu pai!
Ela deu um berro, e com as próprias
unhas rasgou um lado do meu rosto.
— Levanta — falei para o meu pai.
— Você bateu no seu pai!
Ela arranhou meu rosto de novo. Virei
para olhar. Ela rasgou o outro lado. Sangue escorria pelo meu
pescoço, encharcando camisa, calça, sapatos e tapete. Ela baixou as
mãos e me encarou.
— Deu?
Ela nem respondeu. Voltei para o
quarto pensando que era melhor mesmo arrumar um emprego.
Charles Bukowski, em Factótum

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