sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O império das formigas



1.

Quando o capitão Gerilleau recebeu instruções para conduzir sua nova canhoneira, a Benjamin Constant, até Badama, situada no rio Batemo, afluente do Guaramadema, para ajudar a população local a combater uma praga de formigas, ele desconfiou que as autoridades estavam zombando dele. Sua promoção se deu por motivos tanto românticos quanto irregulares; a afeição de uma proeminente dama brasileira e os líquidos olhos do capitão tinham desempenhado um papel decisivo nesse processo, e tanto O Diário quanto O Futuro haviam sido pouco respeitosos em seus comentários. Ele sentiu que em breve daria motivos para novas manifestações de desrespeito.
Era um mestiço, e suas concepções de etiqueta e disciplina eram de puro sangue português. Ele abria o coração apenas com Holroyd, o maquinista de Lancashire que viera com o barco, e apenas para praticar sua pronúncia do inglês, que era deficiente com os sons de “th”.
Isto é com efeito para me tornar absurdo! — disse ele. — O que um homem pode fazer contra formigas? Elas vêm e elas vão.
O que se diz — respondeu Holroyd — é que estas não vão. Aquele sujeito que o senhor chamou de Sambo…
Zambo. É uma espécie de pessoa de sangue misturado.
Sim, Sambo. Ele diz que as pessoas é que estão indo embora.
O capitão ficou algum tempo soltando baforadas inquietas. Por fim continuou:
Essas coisas precisam acontecer. O que é isso? Pragas de formigas e coisas assim, pela vontade de Deus. Houve uma praga em Trinidad, de formigas que carregam folhas. Todas as árvores de laranjas, todas as de mangas! O que importa? Às vezes chegam exércitos de formigas em nossas casas; formigas guerreiras; diferente tipo. Você se ausenta e elas fazem limpeza na casa. Então você volta e a casa está limpa, como nova! Nada de baratas, de pulgas, de carrapatos pelo chão.
O tal Sambo — disse Holroyd — diz que elas são um tipo diferente de formiga.
O capitão encolheu os ombros, soltou uma baforada, e concentrou sua atenção no cigarro. Daí a pouco voltou à carga.
Caro Holroyd, o que devo fazer a respeito das malditas formigas? — Ficou refletindo mais um pouco, e murmurou: — É ridículo.
À tarde, ele vestiu o uniforme completo e desceu à terra. Jarros e caixotes foram trazidos para o barco, e daí a pouco ele os acompanhou. Holroyd sentou no convés, aproveitando a temperatura amena do entardecer, fumando com gosto e pensando com admiração no Brasil. Estavam havia cinco dias subindo o Amazonas, já a algumas centenas de milhas do oceano, e a leste e a oeste dele via-se apenas um horizonte como o do mar alto, e ao sul nada além de uma ilha com encostas de areia e alguns arbustos.
A água fluía lenta como a de um canal, suja, espessa, agitada pela presença de crocodilos e de pássaros planadores, e alimentada de troncos de árvores produzidos por alguma fonte inexaurível; e aquele desperdício, aquele impetuoso desperdício, preenchia a alma de Holroyd. A vila de Alemquer, com sua igrejinha dilapidada, suas casas e cabanas cobertas de palha, suas ruínas descoloridas de uma época mais próspera, parecia uma coisa minúscula perdida na selvageria da Natureza, uma moedinha caída num Saara. Holroyd era jovem, esta era sua primeira missão nos trópicos, e ele vinha direto da Inglaterra, onde a Natureza é submetida a cercas, a valas, a drenos, até atingir uma submissão perfeita; e agora ele descobria de súbito a insignificância do ser humano. Por seis dias ele e seu barco tinham resfolegado através de canais pouco frequentados, onde o homem era tão raro quanto a mais rara das borboletas. Num dia avistava-se uma canoa, noutro uma estação distante, no seguinte nem uma pessoa sequer.
Ele começou a perceber que o ser humano é de fato um animal escasso, e que mantém uma posse precária sobre a terra.
Percebeu isto com mais clareza à medida que os dias foram passando, e eles percorriam o trajeto tortuoso que os conduzia ao rio Batemo, na companhia daquele extraordinário comandante que tinha apenas um canhão sob suas ordens e estava proibido de desperdiçar munição. Holroyd estudava o espanhol com toda aplicação, mas ainda estava naquele estágio feito apenas de substantivos e verbos no presente, e a única outra pessoa que sabia algumas palavras em inglês era um negro que trabalhava na fornalha e não conseguia pronunciá-las direito. O imediato, Da Cunha, era português de nascimento e falava francês, mas um francês diferente daquele que Holroyd tinha aprendido em Southport, de modo que o diálogo dos dois se limitava a cumprimentos e a comentários básicos sobre bom ou mau tempo. E o clima dali, como tudo o mais naquele extraordinário mundo novo, não tinha qualquer consideração humana: era quente de noite e quente de dia, o ar fumegava, até mesmo o vento era um vapor escaldante, cheirando a vegetação apodrecida; e os jacarés e os pássaros estranhos, as moscas de todos os tipos e tamanhos, os besouros, as formigas, as cobras e os macacos, todos pareciam espantados sem saber o que o homem ia fazer numa atmosfera cujo sol não tinha alegria e cuja noite não refrescava. Usar roupas era insuportável, mas tirá-las significava ser assado pelo sol durante o dia e expor uma área maior aos mosquitos durante a noite; subir ao tombadilho durante o dia era ficar cego pela luz do sol, e ficar embaixo era sufocar. E durante o dia apareciam certas moscas extremamente espertas, e nocivas aos pulsos e tornozelos. O capitão Gerilleau, a única distração capaz de desviar a mente de Holroyd dessas desventuras físicas, acabou se revelando um sujeito insuportavelmente tedioso, contando o dia inteiro histórias de suas aventuras sentimentais, uma série interminável de mulheres anônimas, que ele desfiava como contas de um rosário. Às vezes propunha um pouco de esporte e os dois atiravam em jacarés; de vez em quando chegavam a aglomerados humanos nos confins da floresta e ficavam por um dia ou dois bebendo, sem fazer nada; uma noite dançaram com garotas mestiças, que acharam o parco espanhol de Holroyd, cujos verbos não tinham passado nem futuro, mais do que suficiente para os seus propósitos. Mas estes eram meros lampejos luminosos na longa e acinzentada travessia do caudaloso rio, daquela correnteza contra a qual as máquinas vibravam e latejavam. Uma certa divindade pagã e liberal, em forma de garrafão, era quem governava o barco da popa à proa.
Mas Gerilleau aprendia coisas sobre as formigas, cada vez mais coisas, em cada parada que faziam ao longo do trajeto, e ia ficando mais interessado em sua missão.
Elas são nova espécie de formigas — disse ele. — Precisamos ser... como mesmo se diz? Entomologia? Grandes. Cinco centímetros! Muito grandes. É ridículo. Somos como macacos, enviados para apanhar insetos. Mas elas estão comendo o país. — Ele explodiu de indignação. — Suponha, de repente, que existem complicações com a Europa. Aqui estou eu, perto de chegar ao Rio Negro, e meu canhão está inútil!
Ele afagou o joelho e continuou resmungando.
Aquelas pessoas, que estavam no local de dançar, vieram de lá. Perderam tudo que tinham. Formigas chegaram na casa deles uma tarde. Tudo destruído. Você sabe que quando formigas chegam a gente foge. Todos fogem e elas ocupam a casa. Se você ficasse seria comido. Está vendo? Bem, depois eles voltam, eles dizem: “As formigas foram embora.” As formigas não foram embora! Eles tentam entrar. O filho entra. As formigas brigam.
Elas o atacaram?
Morderam. Rapidamente ele sai de novo, gritando e correndo. Corre para o rio. Está vendo? Entra na água e afoga as formigas. — Gerilleau fez uma pausa, virou seus olhos líquidos para o rosto de Holroyd, e bateu no joelho dele com os nós dos dedos. — Naquela noite ele morre, como se tivesse sido picado por uma cobra.
Envenenado? Pelas formigas?
Quem sabe? — Gerilleau encolheu os ombros. — Talvez o morderam demais. Quando eu entrei para o serviço eu vim para combater homens. Essas coisas, essas formigas, elas vêm e vão. Não é um trabalho para um homem.
Depois disso ele falou frequentemente das formigas para Holroyd, e, onde quer que eles se aproximassem de qualquer aglomerado humano naquela vastidão de água e luz solar e árvores distantes, Holroyd punha em prática seu domínio crescente do idioma para reconhecer a palavra “saúba”, e perceber o quanto ela se tornava predominante nas conversas.
Ele achou que as formigas estavam ficando interessantes; e quanto mais chegavam perto mais interessantes elas se tornavam. Gerilleau deixou de lado seus antigos temas quase de repente, e o tenente português tornou-se mais aberto ao diálogo; ele tinha algumas informações a respeito da formiga cortadora de folhas, e compartilhava seus conhecimentos. Gerilleau às vezes reproduzia para Holroyd o que ele tinha para contar. Ele falou das pequenas operárias que trabalhavam e lutavam em grupo, e as grandes operárias que lideravam e comandavam, e como estas últimas quase sempre subiam na direção do pescoço, e como suas picadas tiravam sangue. Contou como elas cortavam folhas e com elas preparavam leitos de fungos, e como em Caracas os seus formigueiros chegam a ter centenas de metros de diâmetro. Durante dois dias inteiros os três homens debateram a questão de as formigas terem olhos ou não. A discussão tornou-se perigosamente acalorada na segunda tarde, e Holroyd salvou a situação indo de bote até a margem e trazendo algumas formigas para examinar. Capturou vários espécimes e os trouxe. Algumas tinham olhos e outras não. Outra discussão entre eles era: as formigas mordem ou picam?
Essas formigas — disse Gerilleau, depois de se informar numa fazenda — têm grandes olhos. Elas não correm cegas como a maioria das formigas fazem. Não! Elas ficam nos cantos e olham o que você faz.
E elas picam? — perguntou Holroyd.
Sim. Elas picam. Existe veneno na picada delas. — Ele meditou. — Eu não sei o que os homens podem fazer contra formigas. Elas vêm e vão.
Mas estas não vão.
Elas vão ir — disse Gerilleau.
Depois de Tamandu, há uma longa costa de baixios ao longo de oitenta milhas, totalmente desabitada, e depois dela chega-se à confluência entre o grande rio e o Batemo, a qual é como um imenso lago; e então a floresta se aproxima, chegando a uma distância quase íntima. O caráter da correnteza muda, os troncos submersos tornam-se abundantes. O Benjamin Constant atracou durante aquela noite preso a um mourão, sob a sombra profunda das árvores. Pela primeira vez em muitos dias foi sentida uma rajada de vento fresco, e Holroyd e Gerilleau sentaram-se até tarde, fumando charutos e curtindo aquela sensação deliciosa. A mente de Gerilleau estava ocupada pelas formigas e pelo que elas eram capazes de fazer. Finalmente ele resolveu dormir, e deitou-se num colchão ali no próprio convés, um homem desesperadamente perplexo; suas últimas palavras, quando já parecia adormecido, foram para perguntar, num acesso de ansiedade:
O que se pode fazer com formigas? Toda essa coisa é absurda.
Holroyd ficou coçando os pulsos cobertos de mordidas, e meditando a sós.
Sentou no parapeito e escutou as variações na respiração de Gerilleau até que este mergulhou num sono mais profundo; então, o chapinhar das ondas de encontro ao casco do navio ocupou seus sentidos e lhe trouxe de volta aquele senso de imensidão que o estava invadindo desde que deixaram para trás o Pará e mergulharam no rio. O barco mantinha apenas uma pequena luz acesa. Havia um murmúrio de conversação que logo foi seguido por um completo silêncio. Os olhos dele foram da silhueta sombria do barco até a margem do rio, e dali para a negra e esmagadora presença da floresta, iluminada aqui e ali pelo brilho de um vagalume, de onde emanava continuamente um murmúrio de estranhas e misteriosas atividades…
Era a imensidade inumana daquela terra que o assombrava e oprimia. Ele sabia que os céus eram desabitados, que as estrelas eram apenas pontos luminosos na incrível vastidão do espaço; sabia que o oceano era enorme e indomável, mas na Inglaterra ele se acostumara a pensar na terra como o domínio do ser humano. E na Inglaterra ela pertence ao homem, sem dúvida. As criaturas selvagens têm uma vida difícil, multiplicam-se onde são autorizadas, e por toda parte imperam as estradas, as cercas e a autoridade absoluta do homem. Num atlas, também, a terra é do homem, e as áreas são coloridas para assinalar sua posse, em vívido contraste com o azul universal do mar independente. Ele imaginara o dia em que todas as coisas da terra, as lavouras, as culturas, as vias férreas rápidas, as boas estradas, acabariam prevalecendo num clima de segurança e ordem. Agora, começava a duvidar disso.
A floresta era interminável, aparentava ser invencível, e o Homem parecia na melhor das hipóteses um intruso ocasional, em condições precárias. Era possível viajar muitas milhas no meio da silenciosa luta entre as árvores gigantescas, os cipós estranguladores, as flores onipresentes, e por toda parte surgiam o jacaré, a tartaruga, as incontáveis variedades de aves e os insetos que ali se sentiam em casa e com a certeza de não serem despejados; mas o Homem conseguia no máximo ocupar um pequeno espaço numa clareira, lutava contra o mato, disputava com os bichos e os insetos cada palmo de terreno, era vitimado pelas cobras, pelas feras, pela febre, e acabava sendo enxotado. De muitos lugares ao longo do rio ele já tinha sido visivelmente expulso, e um ou outro riacho deserto preservava o nome de uma casa, e aqui e ali apareciam ruínas de paredes brancas e torres desmoronadas para repetir essa lição. O puma e o jaguar eram mais senhores daquele espaço do que o ser humano.
Quem eram os verdadeiros senhores?
Em algumas poucas milhas quadradas de floresta devem existir mais formigas do que toda a população do mundo! Era uma ideia totalmente nova na mente de Holroyd. Em poucos milhares de anos o Homem tinha emergido da barbárie para um estágio de civilização que o fazia sentir-se como senhor do futuro e proprietário da Terra! Mas o que impedia as formigas de também evoluírem? As formigas que conhecemos vivem em pequenas comunidades de uns poucos milhares de indivíduos, e não ousam um enfrentamento maior com o mundo à sua volta. Mas elas tinham uma linguagem, tinham inteligência! Por que iriam se deter nesse ponto, se os homens não tinham se detido na sua fase de barbárie? Suponhamos que as formigas se tornassem capazes de armazenar conhecimentos, assim como o Homem fizera com seus livros e seus registros; capazes de usar armas, formar grandes impérios, sustentar uma guerra planejada e organizada?!
Lembrou de algumas informações, colhidas por Gerilleau, sobre as formigas que estavam indo enfrentar. Elas empregavam um veneno semelhante ao das serpentes. Obedeciam seus líderes, assim como as formigas cortadoras de folhas. Eram carnívoras, e quando ocupavam um lugar não o abandonavam mais...
A floresta estava tranquila. A água chapinhava incessantemente de encontro ao casco da canhoneira. Sobre a lanterna erguida lá no alto, via-se um torvelinho silencioso de mariposas fantasmas.
Gerilleau mudou de posição no sono, e soltou um suspiro. “O que se pode fazer?”, murmurou ele, e, virando-se para o outro lado, adormeceu novamente.
As meditações de Holroyd iam ficando cada vez mais sinistras, e ele foi arrancado delas pelo zumbido de um mosquito.

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

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