quinta-feira, 27 de março de 2025

A história do falecido sr. Elvesham

  

 

Contarei esta história por escrito, não na esperança de que alguém acredite nela, mas, se for possível, para dar uma chance de fuga à próxima vítima. Ela, talvez, possa lucrar alguma coisa com a minha desventura. Meu próprio caso é sem esperança, e agora eu estou, até certo ponto, resignado a aceitar o meu destino.

Meu nome é Edward George Eden. Nasci em Trentham, em Staffordshire, onde meu pai trabalhava como jardineiro. Perdi minha mãe aos três anos de idade e meu pai aos cinco; meu tio, George Eden, adotou-me como filho. Era um homem solteiro, autodidata, e bastante conhecido em Birmingham como jornalista bem-sucedido. Educou-me com generosidade, estimulou minha ambição para ir em busca do sucesso, e ao morrer, o que aconteceu quatro anos atrás, deixou para mim toda a sua fortuna, um total de cerca de quinhentas libras esterlinas, depois de pagos todos os impostos. Eu tinha dezoito anos. Ele me aconselhou, em seu testamento, a usar aquele dinheiro para completar minha educação. Eu já escolhera a medicina como minha carreira profissional, e graças à sua generosidade póstuma e à minha sorte em ser vencedor de um concurso de bolsas de estudo, tornei-me estudante do curso médico do University College, em Londres. Na época em que a presente história teve início, eu morava num pequeno quarto alugado no andar superior do 11-A na University Street, um quarto cheio de correntes de ar, com mobília modesta, que dava para os fundos das instalações da Shoolbred. Eu vivia e dormia naquele quartinho, porque estava ansioso para fazer render cada centavo dos meus recursos.

Estava levando um par de sapatos para consertar numa tenda de sapateiro em Tottenham Court Road quando encontrei pela primeira vez o homem baixinho, de rosto amarelado, com quem minha vida passaria a estar indissoluvelmente ligada. Ele estava parado no meio-fio, olhando para o número na porta, com ar dubitativo, quando a abri. Seus olhos — eram olhos cinzentos, inexpressivos, raiados de vermelho sob as pálpebras — pousaram no meu rosto, e suas feições imediatamente assumiram uma expressão de corrugada amabilidade.

O senhor surgiu no momento mais adequado — disse ele. — Eu havia esquecido o número de sua casa. Como vai, sr. Eden?

Fiquei um tanto surpreso em ser tratado com tamanha familiaridade, porque nunca antes tinha posto os olhos naquele homem. Fiquei contrariado, também, por ter sido surpreendido com um par de botas embaixo do braço. Ele percebeu minha falta de cordialidade.

Ah, está imaginando que diabo sou eu, não é mesmo? Sou um amigo, posso lhe garantir. Já o vi antes, embora o senhor não tenha me visto. Há algum lugar onde possamos conversar um pouco?

Hesitei. Meu quarto no andar de cima não era um lugar para onde se pudesse convidar um estranho.

Talvez — falei — possamos caminhar pela rua. Infelizmente não posso... — Meu gesto explicou tudo antes mesmo que eu completasse a frase.

Isso mesmo — disse ele, olhando a rua numa direção, depois na outra. — Pela rua? Para lá, ou para cá? — Guardei minhas botas na passagem, e ao sairmos ele falou: — Olhe só, este assunto que tenho com você é meio complicado de explicar. Venha almoçar comigo, sr. Eden. Sou um homem idoso, muito idoso, e não sou muito bom para dar explicações. Minha voz é fraca, e com este barulho do tráfego…

Ele pousou no meu braço uma mão magra e um pouco trêmula.

Eu não era tão velho que um homem mais idoso não pudesse me pagar um almoço. Mas ao mesmo tempo não me sentia à vontade com um convite tão abrupto.

Eu preferiria... — comecei a dizer.

Mas eu prefiro — disse ele, interrompendo-me. — E sem dúvida meus cabelos brancos merecem uma certa deferência.

Concordei, e o acompanhei.

Ele me levou ao Blavitiski’s; tive que reduzir meu passo habitual para poder caminhar lado a lado com ele; e depois, durante um almoço que eu jamais provara igual, ele evitou minhas perguntas, e tive um pouco mais de tempo para observar melhor sua aparência. Seu rosto bem-barbeado era magro e cheio de rugas, seus lábios engelhados pousavam sobre uma dentadura postiça, e seu cabelo branco era ralo e um tanto comprido; ele me pareceu um homem pequeno, embora eu reconheça que a maior parte das pessoas me parece de baixa estatura; e seus ombros eram curvados. Olhando-o, não pude deixar de perceber que ele também me observava com um olhar avaliador; seus olhos corriam sobre mim com certa expressão de cobiça, indo dos meus ombros largos às minhas mãos bronzeadas, e erguendo-se novamente até meu rosto coberto de sardas.

E agora — disse ele, quando acendemos nossos cigarros — vamos ao assunto que nos trouxe aqui. — Ele fez uma pausa. — Devo dizer-lhe, em primeiro lugar, que sou um homem muito idoso. — Fez uma pausa. — E acontece que tenho bastante dinheiro, um dinheiro que terei de deixar para alguém, mas não tenho filhos que possa tornar meus herdeiros.

Comecei a pensar em algum conto do vigário, e decidi ficar em estado de alerta para proteger o que me restava de minhas quinhentas libras. Ele começou a falar longamente sobre sua vida solitária, e a dificuldade em dar um destino adequado ao seu dinheiro.

Examinei este e aquele plano — disse. — Organizações de caridade, instituições beneficentes, programas de bolsas de estudo, bibliotecas, e acabei chegando a uma conclusão. — Cravou os olhos no meu rosto. — Preciso encontrar um indivíduo jovem, ambicioso, de boas intenções, e pobre; mas sadio do corpo e da mente, e fazer deste jovem o meu herdeiro, deixar para ele tudo o que tenho. — Ele repetiu: — Deixar para ele tudo o que tenho. De modo que ele se veja livre de todas as ansiedades que ocuparam seu espírito até agora, e adquira liberdade e poder de influência.

Tentei parecer desinteressado. Com evidente hipocrisia, falei:

E o senhor quer minha ajuda, meus serviços profissionais talvez, para encontrar essa pessoa.

Ele sorriu, e me deu um tal olhar por cima do cigarro que soltei uma gargalhada diante do modo como desmascarou meu fingimento.

Que bela carreira um homem pode seguir nessas condições! — disse ele. — Sinto inveja ao pensar que tudo aquilo que acumulei vai ser gasto por outro homem. Mas há condições a cumprir, é claro. Ele deve, por exemplo, passar a usar meu próprio nome. Não se pode querer ganhar tudo sem dar alguma coisa em troca. E eu preciso conhecer a fundo todos os aspectos de sua vida antes de aceitá-lo como herdeiro. Ele deve ser sadio. Devo conhecer bem os seus traços hereditários, saber como morreram seus pais e seus avós, examinar a fundo sua vida privada e seu comportamento moral…

Isto começou a relativizar um pouco minhas comemorações íntimas.

Devo então presumir — falei — que eu...?

Sim — disse ele. — Você. Você.

Não falei nada. Minha imaginação estava dançando, arrebatada, e meu ceticismo inato estava impotente para controlar seus voos. Não havia uma só partícula de gratidão em minha mente; eu não sabia o que dizer nem como dizê-lo.

Mas por que eu, justamente eu? — perguntei finalmente.

Ele explicou que ouvira o professor Haslar falar a meu respeito, dizendo que me considerava um rapaz sadio e equilibrado, e que o seu desejo era, na medida do possível, deixar sua fortuna para alguém de comprovada saúde e integridade.

Este foi o meu primeiro encontro com aquele homenzinho. Ele mantinha um certo mistério em torno de si; não quis me dizer como se chamava, e, depois que respondi mais algumas de suas perguntas, deixou-me parado na porta do Blavitiski. Percebi que, ao pagar o almoço, ele puxou do bolso um punhado de moedas de ouro. Sua insistência a respeito de uma perfeita saúde física era curiosa. Pelo acordo que firmamos naquele almoço, no dia seguinte fiz um vultoso seguro de vida na Loyal Insurance Company, e fui exaustivamente examinado pelos médicos dessa companhia durante a semana seguinte. Mesmo assim ele não ficou satisfeito, e insistiu que eu deveria ser reexaminado pelo famoso Dr. Henderson. Era a sexta-feira da semana de Pentecostes quando ele chegou a uma decisão. Foi à minha casa no começo da noite, pouco antes das nove, numa hora em que eu estava mergulhado em equações de químa, preparando-me para minha prova do Exame Preliminar. Desci ao seu encontro, eu encontrei no portal, iluminado pela luz fraca do lampião a gás, que projetava no seu rosto uma mistura grotesca de sombras. Parecia ainda mais encurvado do que na primeira vez em que eu o encontrara, e seu rosto estava mais fundo.

Sua voz vibrava de emoção.

Está tudo satisfatório, sr. Eden — disse ele. — Tudo muito, muito satisfatório. E nesta noite, nesta noite especial, o senhor vai jantar comigo, para celebrar seu... seu acesso. — Foi interrompido por um acesso de tosse. — Não vai ter que esperar muito, na verdade — continuou, passando um lenço sobre os lábios, e agarrando meu braço com a outra mão, uma mão longa e ossuda. — Certamente não vai ter muito que esperar.

Fomos até a rua e chamamos um cabriolé. Lembro vividamente cada detalhe daquele passeio, o nosso rápido avanço pelas ruas, o vívido contraste entre a iluminação a gás, as lâmpadas a óleo e as luzes elétricas, as multidões percorrendo as ruas, o local em Regent Street onde descemos, e o suntuoso jantar que nos foi servido ali. A princípio eu estava pouco à vontade, percebendo os olhares que os garçons, todos bem-vestidos, dirigiam às minhas roupas descuidadas; não sabia o que fazer com os caroços das azeitonas; mas aos poucos o champanhe foi me aquecendo o sangue, e minha autoconfiança ressurgiu. De início, o velho falou apenas de si mesmo. Já me dissera seu nome, durante o trajeto: era Egbert Elvesham, o grande filósofo, cujo nome me era familiar desde que eu era colegial. Parecia-me inacreditável que esse homem, cuja inteligência desde cedo tinha fascinado a minha, que essa abstração se erguesse de súbito à minha frente, nessa figura decrépita que agora já me era familiar. Atrevo-me a dizer que qualquer jovem que em certo momento se viu no meio de celebridades experimenta um pouco desse desapontamento. Ele me falou a respeito do futuro que a interrupção do fio de sua existência faria passar para as minhas mãos: casas, direitos autorais, investimentos; eu jamais imaginara que os filósofos fossem tão ricos. Ele me observava beber e comer, com um olhar de inveja.

Que capacidade de viver o senhor tem! — disse; e depois, com um suspiro, que me pareceu um suspiro de alívio: — Não vai demorar muito.

Oh, sim — falei, inebriado pelo champanhe. — Pode ser que eu tenha um futuro. Um futuro muito agradável, graças ao senhor. E terei a honra de herdar seu nome. Mas o senhor tem um passado. Esse passado vale por todo o meu futuro.

Ele balançou a cabeça e sorriu, pareceu-me então, agradecendo, com um laivo de tristeza, a admiração que eu manifestara.

Esse futuro — disse ele —, gostaria de trocá-lo? — O garçom aproximou-se trazendo o licor. — Não se incomodaria, talvez, de assumir não apenas meu nome, minha posição, mas seria capaz de por vontade própria assumir também a minha idade?

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

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