Eu já tinha visto várias vezes a
Loja Mágica, a distância; já tinha passado diante da sua vitrine
cheia de objetos curiosos, bolas mágicas, galinhas mágicas, cones
coloridos, bonecos de ventríloquo, material para mágicas usando
cestos, baralhos que pareciam comuns, todo tipo de coisa; mas nunca
me ocorrera entrar ali até que um dia, quase sem aviso, Gip me puxou
pelo dedo até aquela vitrine, e se comportou de tal forma que não
tive escolha senão entrar ali com ele. Eu não lembrava que a loja
ficava justamente ali, para falar a verdade — uma fachada de
tamanho modesto em Regent Street, entre uma loja de fotografias e uma
loja cheia de pintos recém-saídos das incubadoras. Mas lá estava
ela. Eu tinha imaginado que ela ficava mais perto de Piccadilly
Circus, ou depois da esquina, em Oxford Street, ou mesmo em Holborn;
sempre a vira do outro lado da rua e um pouco inacessível, com algo
em sua posição que lembrava uma miragem; mas aqui estava ela,
agora, sem nenhuma dúvida, e a ponta do dedinho gordo de Gip batia
com ruído na vitrine.
— Se eu fosse rico — disse Gip,
apontando para o Ovo Que Desaparece — eu compraria aquele ali para
mim. E aquele. — Era o Bebê Que Chora, Muito Humano. — E aquele
também. — Este último era uma coisa misteriosa, e se chamava, de
acordo com um cartãozinho pregado sobre a caixa, “Compre Um e
Deixe Seus Amigos Espantados”.
— Qualquer coisa — explicou Gip —
desaparece embaixo de um desses cones. Li isso num livro. E ali, pai,
está a Moeda Que Desaparece... só que eles a colocaram com o outro
lado para cima, para ninguém perceber como é feito.
Gip, bom menino, herdou as boas
maneiras de sua mãe, e não pediu para entrar na loja nem me
aborreceu em qualquer sentido; mas, sabem como é, de maneira
inconsciente ele puxava meu dedo na direção da porta e suas
intenções eram muito claras.
— Olhe aquilo — disse, apontando a
Garrafa Mágica.
— E se você tivesse uma dessas? —
perguntei, e ele me olhou radiante, ao ouvir uma pergunta tão
promissora.
— Eu ia mostrá-la a Jessie —
respondeu ele, como sempre pensando nos outros.
— Faltam menos de cem dias para seu
aniversário, Gibbles — falei, pousando minha mão na maçaneta.
Gip não respondeu, mas agarrou meu
dedo com mais força, e assim entramos na loja.
Não era uma loja como as outras; era
um bazar mágico, e toda a desenvoltura que Gip iria assumir se se
tratasse de uma simples loja de brinquedos ia fazer-lhe falta agora.
Ele deixou a conversação por minha
conta.
A loja era pequena, estreita, não
muito bem-iluminada, e os sininhos presos à porta tintinaram
novamente sua musiquinha plangente quando ela se fechou às nossas
costas. Por alguns instantes ficamos ali sozinhos e pudemos olhar à
nossa volta. Havia um tigre de papel machê sobre a tampa de vidro
que cobria um balcão não muito alto: um tigre sério, com olhos
bondosos, que agitava a cabeça metodicamente; havia uma porção de
bolas de cristal, uma mão de porcelana segurando cartas de um
baralho mágico, um bom estoque de aquários mágicos de variados
tamanhos, e uma cartola que exibia suas molas internas com pouca
modéstia. No chão estavam pousados espelhos mágicos: um que nos
reproduzia longos e finos, um que inchava nossas cabeças e sumia com
nossas pernas, e um que nos tornava atarracados e gordos como peças
do jogo de damas; e enquanto ríamos diante deles o lojista, suponho,
entrou no aposento.
De qualquer modo, em certo momento ali
estava ele atrás do balcão: um homem moreno, de aspecto curioso,
pele macilenta, com uma orelha maior que a outra e um queixo como o
bico de uma bota.
— Em que posso ajudá-los? — disse
ele, abrindo os seus dedos longos e mágicos sobre o tampo de vidro
do balcão; e com um sobressalto percebemos sua presença ali.
— Gostaria de comprar alguns truques
simples para o meu filho — respondi.
— De prestidigitação? —
perguntou ele. — Mecânicos? Domésticos?
— Tem alguma coisa divertida? —
perguntei.
— Hmmm... — disse o lojista, e
coçou a cabeça por um instante, pensativo. Então, com um gesto bem
visível, retirou da cabeça uma bola de vidro. — Alguma coisa
assim? — perguntou, estendendo a bola.
Aquilo foi inesperado. Eu já tinha
visto esse truque em parques de diversões inúmeras vezes — faz
parte do repertório de qualquer mágico — mas não estava
esperando por ele ali.
— Muito bom — falei, com uma
risada.
— Não é mesmo? — disse o
lojista.
Gip estendeu a mão que estava livre
para receber o objeto... e achou apenas uma mão aberta e vazia.
— Está no seu bolso — disse o
lojista. E lá estava mesmo!
— Quanto custa? — perguntei.
— Não cobramos pelas bolas de vidro
— disse o lojista, com cortesia. — Elas vêm para nós... —
tirou mais uma, agora do cotovelo — ... de graça. — Tirou mais
uma bola da nuca, e a colocou em cima do balcão, junto da outra. Gip
examinou sua bola de vidro com olhar esperto, depois observou as duas
sobre o balcão, e finalmente encarou o lojista, que estava sorrindo.
— Pode ficar com estas também —
disse o lojista — e, se não se incomodar, fique com esta,
da minha boca. Olhe aí!
Gip me olhou calado em busca de
orientação, e com um silêncio profundo separou para si as quatro
bolas, agarrou de novo meu dedo, e preparou-se para o prodígio
seguinte.
— É assim que obtemos nosso
material mais barato — observou o lojista.
Dei aquela risada de quem soube
entender a piada.
— Em vez de ir ao armazém de
atacado — falei. — Claro que fica bem mais em conta.
— De certa forma, sim — disse o
lojista. — Embora sempre acabemos pagando. Mas não pagamos tão
caro quanto as pessoas imaginam. Nossos equipamentos maiores, nossas
provisões diárias e todas as outras coisas de que precisamos vêm
todas de dentro dessa cartola. E, sabe, cavalheiro, se me permite
dizê-lo, não existe uma grande loja de atacado, não para
artigos de Mágica Genuína. Não sei se reparou no nosso letreiro: A
GENUÍNA LOJA MÁGICA. — Ele puxou um cartão de visita da bochecha
e o estendeu para mim. — Genuína — repetiu, apontando a palavra
com o dedo. — Não há o menor engano, cavalheiro.
Pensei que ele estava mantendo a piada
com bastante seriedade.
Ele se virou para Gip com o mais
afável dos sorrisos.
— E você, sabia? É o Tipo Certo de
Garoto.
Fiquei surpreso com o fato de ele
saber disso, porque, no interesse da disciplina, nós mantemos isto
em segredo, em nossa casa; mas Gip recebeu a informação com um
sólido silêncio, mantendo os olhos fitos no homem.
— Somente o Tipo Certo de Garoto
consegue entrar por aquela porta.
E então, como que para ilustrar o que
ele dizia, ouviu-se um barulho na porta, e uma voz de criança quase
guinchando se ouviu do lado de fora.
— Nãããão... Eu quero
entrar lá dentro, papai, eu QUERO entrar lá! Nããão...
E depois a voz cansada de um pai,
cheia de consolos e promessas.
— Está fechada, Edward — dizia
ele.
— Mas não está! — disse eu.
— Está, senhor — disse o lojista.
— Sempre está, para esse tipo de criança.
Enquanto ele falava tive pela vitrine
o vislumbre do rosto do menino, um rosto branco, miúdo, pálido de
tanto comer doces e comidas açucaradas, distorcida por maus
sentimentos; um pequeno e implacável egoísta, batendo no vidro
mágico.
— Não adianta, senhor — disse o
lojista quando eu, com meu impulso instintivo para ajudar, fui na
direção da porta. Logo o garoto mimado foi levado para longe, aos
berros.
— Como consegue fazer isto? —
perguntei, já mais à vontade.
— Mágica! — disse o lojista,
fazendo um gesto descuidado com a mão, e, presto! Faíscas de um
fogo multicor brotaram dos seus dedos e sumiram por entre as sombras
da loja.
— Você estava dizendo — falou
ele, virando-se para Gip —, antes de entrar, que gostaria de ter
uma caixinha dos nossos “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”?
Gip, com um valoroso esforço,
respondeu:
— Sim.
— Está no seu bolso.
E inclinando-se sobre o balcão —
ele tinha um corpo extraordinariamente longo — aquele sujeito
incrível produziu o objeto no estilo habitual dos mágicos.
— Papel! — disse ele, e tirou uma
folha de papel de embrulho da cartola que exibia suas molas. —
Barbante! — e vejam só, sua boca tornou-se um estojo oco de onde
ele começou a puxar um interminável fio de barbante, que cortou com
os dentes depois de amarrar o pacote (e, ao que me pareceu, engoliu o
rolo).
Depois ele acendeu uma vela no nariz
de um dos bonecos de ventríloquo, colocou um dos dedos (que tinha se
transformado num bastão de cera de lacrar) na chama, e selou o
pacote.
— E há também o Ovo Que Desaparece
— lembrou ele, e, retirando um exemplar do bolso do meu casaco, fez
outro pacote, e depois repetiu tudo com o Bebê Que Chora, Muito
Humano. Quando todos os pacotes ficaram prontos, entreguei-os a Gip,
que os apertou de encontro ao peito.
Ele quase não disse nada, mas seu
olhar era eloquente; o modo como apertava os pacotes nos braços era
eloquente. Naquele instante ele era um playground de emoções
indizíveis. Aquilo, sim, era Mágica verdadeira.
Então, com um sobressalto, senti
alguma coisa se movendo dentro do meu chapéu, alguma coisa macia e
irrequieta. Ergui-o, e um pombo com as penas eriçadas — um
cúmplice, sem dúvida — saltou sobre o balcão e correu a se
esconder, pelo que pude ver, dentro de uma caixa de papelão por trás
do tigre.
— Ora, ora! — exclamou o lojista,
tomando meu chapéu com um gesto hábil. — Que pássaro descuidado,
e ainda por cima chocando!
Ele balançou meu chapéu e derramou
na mão estendida dois ou três ovos, uma bola de gude, um relógio,
mais uma meia dúzia das inevitáveis bolinhas de vidro, e pedaços
de papel amassado, cada vez mais e mais e mais, falando o tempo
inteiro de como as pessoas esquecem de limpar os seus chapéus pelo
lado de dentro do mesmo modo como o fazem por fora, falando
com polidez, é claro, mas com certa determinação pessoal.
— Todo tipo de coisa se acumula,
cavalheiro... Não no seu caso particular, é claro... Mas
quase todo cliente... Incrível as coisas que conduzem consigo...
O monte de papel amassado acumulava-se
e erguia-se em cima do balcão até que ele ficou praticamente
oculto, menos sua voz, que prosseguia.
— Nenhum de nós sabe na verdade o
que se oculta por trás de nossa aparência de seres humanos,
cavalheiro. Será que não somos mais do que fachadas limpas,
sepulcros caiados por fora...
Sua voz parou, exatamente como quando
a gente alveja o gramofone de um vizinho com um tijolo e boa
pontaria; o mesmo silêncio instantâneo, e o roçagar do papel se
interrompeu, e tudo ficou muito calmo...
— Ainda precisa do meu chapéu? —
perguntei, após um intervalo.
Não houve resposta.
Olhei para Gip, e Gip olhou para mim,
e ali estavam nossas imagens distorcidas nos espelhos mágicos, com
uma aparência muito esquisita, e grave, e quieta...
— Acho que vamos embora agora —
falei. — Pode me dizer quanto foi? — E depois de uma pausa, num
tom mais alto: — Quero a conta, por favor, e também o meu chapéu.
Pensei ter ouvido um fungado por trás
da pilha de papel amassado.
— Vamos olhar atrás do balcão, Gip
— falei. — Ele está brincando conosco.
Conduzi Gip e demos uma volta em torno
do tigre, que ainda agitava a cabeça, e quem acha que estava atrás
do balcão? Ninguém! Somente meu chapéu caído no chão, e um
coelho de longas orelhas, o típico coelhinho dos mágicos, perdido
em meditação, e com uma aparência tão amarfanhada e boba como só
os coelhos de mágico têm. Recuperei meu chapéu, e o coelho se
afastou dando pulinhos.
— Pai! — disse Gip, com um
sussurro culpado.
— O que é, Gip?
— Eu gosto desta loja, pai.
“Eu também deveria estar gostando”,
pensei comigo mesmo, “se este balcão não tivesse se alongado até
barrar o nosso acesso à porta de saída”. Mas não chamei a
atenção de Gip para esse detalhe.
— Coelhinho! — disse ele,
estendendo a mão para o coelho, que passou por nós pulando. —
Coelhinho, faça uma mágica para Gip!
Seus olhos acompanharam o bichinho
enquanto este se esgueirava através de uma porta cuja existência
eu, com toda certeza, não tinha percebido até então. Essa porta
abriu-se, e através dela avistei o homem que tinha uma orelha maior
que a outra. Continuava sorrindo; seu olhar, ao cruzar com o meu,
tinha uma expressão divertida, mas com um quê de desafio.
— Acho que gostaria de ver a nossa
sala de demonstrações, cavalheiro — disse ele, com inocente
suavidade. Gip puxou meu dedo, querendo avançar. Olhei para o balcão
e olhei de novo o lojista. Eu estava começando a achar aquela mágica
genuína demais.
— Acho que não temos muito tempo —
falei. Mas antes que concluísse a frase já estávamos na tal sala
de demonstrações.
— Todo o material é da mesma
qualidade — disse o homem, esfregando suas mãos muito flexíveis.
— Ou seja, a melhor. Não existe nada aqui que não seja de Mágica
genuína, com todas as garantias. Se me der licença...
Ele estendeu a mão e puxou alguma
coisa agarrada à manga do meu casaco, e vi que era um pequeno
diabinho vermelho, que se contorcia, pendurado pela cauda. A
criaturinha mexia-se sem parar, tentando morder sua mão, mas ele
logo o atirou para trás de um balcão afastado. Claro que aquilo não
passava de um bonequinho de borracha, mas, por um instante...! E o
gesto dele foi exatamente o de quem pega a contragosto algum bichinho
repulsivo e que morde. Olhei para Gip, mas Gip estava com o olhar
pregado num cavalinho mágico. Alegrei-me por ele não ter visto
aquela coisa.
— Veja só — falei em voz baixa,
indicando Gip e depois o diabinho vermelho com o olhar —, vocês
não têm muitas dessas coisas por aqui, não?
— Não, não é nosso! Provavelmente
entrou aqui com o senhor — disse o lojista, também em voz baixa, e
com um sorriso mais desconcertante do que nunca. — É espantosa a
quantidade de coisas que conduzimos conosco sem perceber! — E
virando-se para Gip: — E então? Algo lhe interessou?
Muitas coisas ali tinham interessado
Gip.
Ele virou-se para o comerciante com
uma mistura de confidencialidade e respeito.
— Aquela é uma Espada Mágica? —
perguntou.
— Uma Espada Mágica de Brinquedo.
Ela não curva, não quebra, nem corta os dedos. Ela pode tornar
invisível durante uma batalha qualquer pessoa com menos de dezoito
anos. O preço vai de meia-coroa até sete coroas e seis pence, de
acordo com o tamanho. Aquelas panóplias são artigos para cavaleiros
andantes muito jovens, e são muito úteis: escudo de segurança,
sandálias de velocidade, elmo de invisibilidade.
— Oh, pai! — exclamou Gip.
Tentei me informar sobre o preço, mas
ele não me deu atenção. Tinha se voltado totalmente para Gip, o
qual já havia largado meu dedo, e agora estava lhe mostrando todo o
seu estoque como se nada pudesse impedi-lo. Daí a pouco percebi, com
alguma desconfiança e uma ponta de ciúme, que Gip estava segurando
o dedo daquele sujeito do modo como geralmente segura o meu. Sem
dúvida era um indivíduo interessante, pensei, e tinha um estoque
interessante de truques falsos, truques falsos muito bem-feitos,
mas mesmo assim...
Fui acompanhando os dois, falando
pouco, mas mantendo sempre um olho nas prestidigitações do sujeito.
Afinal, Gip estava se divertindo. E sem dúvida quando quiséssemos
ir embora poderíamos fazê-lo sem dificuldade.
Era um lugar enorme, desordenado, uma
espécie de galeria cujo espaço era dividido por barracas, estandes,
pilastras, e arcadas que conduziam a outras divisões, onde era
possível ver ajudantes de aparência esquisita vagabundeando e
olhando para nós; aqui e ali viam-se cortinas e espelhos de
aparência estranha. Tudo era tão fora do comum que acabei me vendo
incapaz de apontar a porta por onde tínhamos entrado.
O lojista mostrou a Gip trens mágicos
que se moviam sem usar vapor ou mecanismos de relojoaria, bastando
ligar o sinal; e algumas caixas muito valiosas de soldadinhos que
começavam a se movimentar assim que se erguia a tampa da caixa e
alguém dizia... bem, não tenho um ouvido muito bom, e era um som
que parecia um travalínguas, mas Gip, que tem o ouvido da mãe,
aprendeu bem rápido. “Bravo!”, exclamou o lojista, jogando os
soldados de volta à caixa sem a menor cerimônia, e entregando-a a
Gip. “Agora!”, disse e Gip fez com que voltassem a se mover.
— Vai levar esta caixa? —
perguntou o homem.
— Sim, vamos levar, a menos que você
cobre o preço total. Nesse caso vou precisar da ajuda de algum
magnata.
— Deus meu! Não! — exclamou o
lojista, voltando a guardar os soldadinhos e fechando a tampa. Ele
agitou a caixa no ar — e ali estava ela, envolta em papel pardo,
amarrada, e com o nome e o endereço completos de Gip!
O homem riu ao ver o meu espanto.
— Esta é a mágica genuína —
disse. — A coisa de verdade.
— É genuína demais para meu gosto
— falei novamente.
Depois ele se dedicou a mostrar outros
truques a Gip, truques bizarros, e feitos de um modo mais bizarro
ainda. Ele explicava o método, revirava os objetos, e lá estava o
meu garoto, abanando com firmeza a cabecinha, com ar de entendedor.
Eu não lhe dei a atenção que
deveria dar. O Lojista Mágico dizia: “Hey, presto!”, e eu
escutava sua voz de menino ecoando: “Hey, presto!” Mas minha
atenção estava voltada para outras coisas. Eu começava a ter uma
percepção mais clara do quanto aquele lugar era bizarro; ele era,
para falar a verdade, impregnado por uma impressão tremenda de
bizarrice. Havia algo de bizarro em sua própria aparência, no teto,
no piso, nas cadeiras distribuídas ao acaso. Eu tinha a sensação
esquisita de que quando não estava olhando diretamente para aquelas
coisas elas mudavam, moviam-se, ficavam silenciosamente brincando de
esconder às minhas costas. E a cornija era adornada por uma
guirlanda de máscaras, que eram muito mais expressivas do que era
possível a uma máscara de gesso.
De súbito, meu olhar foi atraído por
um daqueles estranhos assistentes. Estava um pouco afastado, e sem se
dar conta da minha presença — eu o avistava em diagonal, junto a
uma pilha de brinquedos e através de uma arcada; ele estava
encostado a um pilar numa atitude ociosa, e fazendo as coisas mais
horríveis com o rosto! A mais horrível de todas era algo que ele
fazia com o nariz. Fazia aquilo na atitude de quem não tem nenhuma
tarefa para cumprir e está apenas se divertindo à toa. No começo o
nariz era pequeno, bulboso, mas de repente ele se projetava para
diante como um telescópio, e ia se alongando e se afinando até
tornar-se uma espécie de chicote vermelho e flexível. Parecia uma
coisa de pesadelo! Ele ficava fazendo floreios e atirando aquilo para
diante, como um pescador que atira a linha de sua vara.
Pensei de imediato que Gip não
deveria ver aquilo. Virei-me, e vi que ele estava completamente
entretido pelo lojista, sem imaginar nada desagradável. Os dois
conferenciavam em voz baixa e olhavam na minha direção. Gip estava
de pé sobre um banquinho, e o lojista segurava na mão uma espécie
de barril grande.
— Vamos brincar de esconder, pai! —
gritou Gip. — Você me procura!
E, antes que eu pudesse fazer qualquer
coisa para evitá-lo, o lojista o cobriu com o barril enorme. Percebi
de imediato o que aconteceria.
— Tire isso daí! — ordenei. —
Agora! Vai assustar o menino. Tire-o daí!
O homem das orelhas desiguais me
obedeceu sem dizer nada, e virou o barril na minha direção,
mostrando que não havia nada dentro. E o banquinho também estava
vazio! Bastara um segundo para meu filho desaparecer?...
Vocês conhecem, talvez, aquela
sensação sinistra quando alguma coisa como uma mão enorme brota de
um lugar desconhecido e aperta nosso coração. Sabem, portanto, que
aquilo afasta de cena o Eu normal de um indivíduo e o deixa tenso,
decidido, nem lento nem apressado, nem enfurecido nem com medo. Foi o
que aconteceu comigo.
Fui na direção do lojista e dei um
chute no banquinho, jogando-o para longe.
— Pare com essa palhaçada —
disse. — Onde está meu filho?
— Está vendo? — disse ele, ainda
mostrando o interior do barril. — Não há ilusão alguma...
Estendi a mão para agarrá-lo pela
lapela, mas ele se esquivou, com um movimento ágil. Tentei de novo,
e ele voltou a me evitar, e abriu uma porta para fugir.
— Pare! — gritei, e ele recuou,
rindo. Saltei para agarrá-lo, e mergulhei na escuridão.
Thud!
— Meu Deus! Desculpe, senhor, não
vi que estava aí!
Eu estava em Regent Street, e tinha
acabado de esbarrar num operário, um homem de aparência decente; e
a um metro de distância, talvez, e também numa atitude perplexa,
estava Gip. Houve um rápido pedido de desculpas, e Gip virou-se para
mim com um sorriso radiante, como se por alguns instantes tivesse me
perdido de vista.
E carregava quatro pacotes embaixo do
braço!
Imediatamente apossou-se do meu dedo.
Por um segundo fiquei completamente
perdido. Olhei em redor à procura da porta da lojinha, e vejam só,
não havia porta nenhuma ali! Nenhuma loja, nada, apenas uma pilastra
comum separando a loja de fotografias e a loja com os pintos e as
incubadoras!...
Fiz a única coisa que me foi possível
no meio daquele tumulto mental. Fui direto até a beira da calçada e
ergui meu guarda-chuva, chamando um cabriolé.
— Vamos de carro! — exclamou Gip,
no auge da exultação.
Ajudei-o a subir; com algum esforço
lembrei-me do meu endereço para informar o cocheiro, e acomodei-me.
Alguma coisa inesperada proclamava sua presença no bolso do meu
casaco; extraí dele uma bola de vidro. Com um trejeito petulante,
joguei-a pela janela do carro.
Gip não disse nada.
Durante algum tempo nenhum de nós
falou.
— Pai! — disse ele daí a pouco. —
Aquela, sim, é que era uma loja!
Aquilo me serviu de deixa para começar
a examinar de que maneira ele tinha visto todo o episódio. Ele me
parecia ileso, e até aí, tudo bem; não estava assustado nem
desorientado, estava, sim, tremendamente satisfeito com as aventuras
daquela tarde, e trazia quatro pacotes apertados de encontro ao
peito.
Que diabos! O que poderia haver dentro
deles?
— Hmmm... — falei. — Garotos não
podem ir todos os dias a uma loja como aquela.
Ele recebeu isto com seu estoicismo
habitual, e por um momento lamentei ser seu pai e não sua mãe, e
não poder naquele mesmo instante, na rua, dentro do carro, dar-lhe
um beijo. Afinal, pensei, a coisa não tinha sido tão grave.
Mas foi somente quando começamos a
abrir os pacotes que me senti mais seguro. Três deles continham
caixas de soldados, soldadinhos de chumbo bem comuns, mas de tão boa
qualidade que Gip logo esqueceu terem sido eles, originalmente, parte
de um truque mágico do tipo mais genuíno; e o quarto pacote
continha um gatinho, um pequeno gatinho branco, vivo, com excelente
saúde, excelente temperamento e um notável apetite.
Acompanhei a abertura dos pacotes com
um alívio provisório, e fiquei por ali, pelo quarto do garoto,
durante um tempo maior que o normal.
Isto aconteceu há seis meses. E agora
estou começando a acreditar que tudo está bem. O gatinho tinha
apenas a mágica natural de todos os gatos, e os soldados formam uma
companhia tão confiável quanto a que qualquer coronel poderia
desejar. E Gip?
Os pais mais inteligentes devem
compreender que com Gip tenho que usar bastante cuidado.
O máximo que consegui, certo dia, foi
isto. Falei:
— Não gostaria que seus soldados
ficassem vivos, Gip, e pudessem marchar sozinhos?
— Os meus fazem isso — disse ele.
— Basta que eu diga uma palavra que sei, antes de abrir a caixa.
— E então eles marcham sozinhos por
aí?
— Oh, claro, pai. Eu não ia gostar
se não fosse assim.
Não externei nenhuma surpresa
inadequada, e desde então já por uma ou duas vezes me aproximei
dele, sem avisar, enquanto brincava com os soldadinhos, mas não os
vi se comportar magicamente.
É tão difícil perceber.
Há também a questão financeira.
Tenho o hábito incurável de pagar minhas contas. Tenho percorrido
Regent Street de cima a baixo, várias vezes, procurando a loja.
Estou inclinado a considerar que, da minha parte, minha obrigação
está cumprida, e, já que o nome e o endereço de Gip são
conhecidos, posso deixar que essas pessoas, sejam elas quem forem,
nos enviem a conta de acordo com a sua conveniência.
H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

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