03/07/2026

O império das formigas




2.

Na manhã seguinte, Holroyd ficou sabendo que já estavam a quarenta quilômetros de Badama, e isto aumentou sua atenção para o que acontecia nas margens. Ele não perdia nenhuma oportunidade de examinar as redondezas. Não se via qualquer sinal de ocupação humana, com exceção das ruínas de uma casa, tomadas pelo mato bravio, e da fachada manchada de verde do mosteiro de Moju, abandonado havia muitos anos, no qual uma árvore brotava através da abertura de uma janela, e pesadas lianas se entrecruzavam diante dos portais. Revoadas de estranhas borboletas de asas amarelas, semitransparentes, cruzaram o rio naquela manhã; muitas pousaram no barco e foram mortas pelos homens. Foi apenas à tarde que se aproximaram da cuberta abandonada.
À primeira vista não parecia abandonada, pois ambas as suas velas estavam içadas e pendiam frouxas no ar imóvel daquela tarde; e via-se um homem sentado nas pranchas da parte dianteira, ao lado dos pesados remos. Outro homem parecia adormecido, deitado de bruços numa espécie de ponte longitudinal que esses barcos têm na parte do meio. Mas logo ficou aparente, pelo modo como o leme oscilava à toa e o barco parecia vagar de encontro à canhoneira, que alguma coisa ali estava errada. Gerilleau examinou o barco com o binóculo, e pareceu especialmente interessado no rosto escurecido do homem sentado, um indivíduo de pele avermelhada que parecia não ter nariz; estava mais agachado do que sentado, e quanto mais o capitão o examinava menos gostava do que estava vendo, e mais aplicava o olho às lentes.
Mas por fim ele conseguiu afastar a vista e caminhou até Holroyd. Depois voltou à proa e gritou na direção do barco. Gritou algumas vezes sem resposta até que as duas embarcações se cruzaram. Santa Rosa era o nome da cuberta que vinha à deriva, claramente visível.
Quando ela passou, oscilou um pouco ao ser atingida pelas ondas do barco maior, e nesse momento o homem agachado desmoronou no chão como se todas as suas juntas tivessem se desfeito ao mesmo tempo. Seu chapéu tombou, e sua cabeça não era algo agradável de se ver; o corpo descaiu, frouxo, e rolou pelo chão até ficar oculto pelo parapeito.
Caramba! — gritou Gerilleau, e apressou-se a chamar Holroyd, que já tinha ido ao seu encontro. — Viu aquela coisa? — disse o capitão.
Está morto! — exclamou Holroyd. — Claro que sim. É melhor mandar um bote com alguém para subir a bordo. Alguma coisa está errada.
Você por acaso viu o rosto dele?
Como era?
Era... ugh... não tenho palavras.
E o capitão, dando as costas a Holroyd, assumiu o papel estridente e atarefado de comandante.
A canhoneira se aproximou, resfolegando, até emparelhar com a cuberta, e desceu à água um bote com o tenente Da Cunha e três marujos para a abordagem. A curiosidade do capitão o fez levar a canhoneira mais para perto enquanto o tenente subia a bordo, de modo que todo o convés do Santa Rosa e a parte inferior eram visíveis a Holroyd.
Agora ele podia ver claramente que os únicos tripulantes do barco abandonado eram os dois homens mortos, e embora não conseguisse ver seus rostos, podia perceber, vendo suas mãos abertas, com as carnes dilaceradas, que os dois pareciam ter passado por algum excepcional processo de apodrecimento. Por um instante sua atenção se concentrou naqueles dois montes enigmáticos de roupas sujas e membros desconjuntados. Então, seu olhar percebeu o porão escancarado, revelando as pilhas de caixas e de baús, e logo adiante a cabine, inexplicavelmente vazia. Percebeu a seguir que as tábuas do meio do convés estavam cheias de pequenos pontos negros que se moviam.
Sua atenção se fixou nesses pontos. Todos se movimentavam em diferentes direções a partir do corpo do homem caído, parecendo — a imagem lhe veio à mente de maneira desconfortável — uma multidão que se dispersa depois de assistir a uma tourada.
Percebeu que Gerilleau estava ao seu lado, e pediu:
Capitão, tem seu binóculo aí? Pode focalizar aquelas tábuas, ali no meio?
Gerilleau obedeceu, soltou um grunhido, e passou-lhe o binóculo. Seguiu-se um longo momento de escrutínio.
Formigas — disse o inglês, e devolveu o binóculo, devidamente focado, a Gerilleau.
A impressão que tivera fora a de uma multidão de grandes formigas negras, muito parecidas com as formigas comuns a não ser pelo tamanho, e pelo fato de que algumas das maiores entre elas pareciam envoltas numa espécie de tecido cinza. Mas o exame que fizera tinha sido muito rápido para estudar esses detalhes, e já a cabeça do tenente Da Cunha aparecia sobre o parapeito, para um breve diálogo.
É preciso subir a bordo — disse Gerilleau.
O tenente objetou que o barco estava coberto de formigas.
Você está de botas — disse Gerilleau.
O tenente mudou de assunto.
Como foi que morreram esses homens? — perguntou.
O capitão Gerilleau enveredou por uma especulação que Holroyd não conseguiu acompanhar, e os dois começaram a discutir com certa veemência. Holroyd pegou de volta o binóculo e retomou seu escrutínio, primeiro das formigas, e depois do corpo tombado no convés.
Ele me fez uma descrição bastante precisa das formigas.
Disse que eram tão grandes quanto as maiores que ele já tinha visto; eram negras, e moviam-se com uma firme deliberação, não da maneira mecânica e confusa como se movem as formigas comuns. Cerca de uma em cada vinte era bem maior que as demais, e tinha uma cabeça excepcionalmente volumosa. Elas lhe lembraram as formigas líderes que supervisionam o trabalho das operárias, nas espécies cortadoras de folhas; tal como aquelas, pareciam estar dirigindo e coordenando o movimento coletivo do grupo. Empinavam o corpo para trás de modo singular, como se estivessem usando as patas da frente para algum outro propósito. E ele teve a impressão, mesmo estando demasiado distante para comprovar, que a maioria dessas formigas, de ambos os tipos, estava usando equipamentos, ou seja, trazia algumas coisas amarradas ao corpo com o que lhe pareceu serem fios brancos de metal.
Holroyd abaixou o binóculo de repente, ao perceber que a relação disciplinar entre o capitão e seu subordinado estava chegando a um ponto perigoso.
O seu dever — dizia o capitão — é subir a bordo. Minhas instruções são essas.
O tenente parecia a ponto de recusar-se. A cabeça de um dos marinheiros mulatos apareceu ao lado dele.
Acho que esses homens foram mortos pelas formigas — disse Holroyd abruptamente em inglês.
O capitão teve uma explosão de raiva. Não se dignou responder a Holroyd.
Eu lhe ordenei para ir a bordo! — gritou em seu português na direção do subordinado. — Se não for para bordo agora mesmo considerarei um motim, motim da tropa. Motim e covardia! Onde está a coragem que deveria nos inspirar?! Vou colocar vocês a ferros, vou matá-los a tiros como cachorros!
E prorrompeu numa saraivada de insultos e maldições, movendo-se de um lado para o outro. Brandiu os punhos, e comportou-se como se estivesse possesso de raiva, enquanto o tenente o olhava, muito pálido e tenso. A tripulação aproximou-se, com os rostos cheios de espanto.
De repente, numa pausa do desabafo, o tenente tomou uma decisão heroica e, reunindo todas as suas forças, içou-se por cima do parapeito do barco.
Ah! — exclamou Gerilleau; e sua boca fechou-se como um alçapão.
Holroyd viu as formigas recuando diante das botas de Da Cunha. O português caminhou devagar até o corpo do homem caído, inclinou-se, hesitou, agarrou o capote do morto e virou-o de rosto para cima. Uma multidão fervilhante de formigas saiu de dentro das roupas, e Da Cunha recuou às pressas, batendo com os pés nas tábuas do convés.
Holroyd ergueu o binóculo. Viu as formigas espalhadas em torno dos pés do invasor, e fazendo o que ele nunca antes tinha visto formigas fazerem. Elas não tinham nada dos movimentos cegos da formiga comum; olhavam para o homem, assim como uma multidão humana fitaria um monstro gigantesco que acabasse de dispersá-la.
Como foi que ele morreu? — gritou o capitão.
Holroyd entendeu, na resposta do português, que o homem estava muito devorado e não havia como saber.
O que há ali na frente? — perguntou Gerilleau.
O tenente caminhou alguns passos, e começou a responder em português. Parou de súbito e deu algumas batidas no lado da perna. Depois deu uns passos esquisitos, como se estivesse tentando pisar em alguma coisa invisível, e caminhou depressa para a lateral do barco. Em seguida pareceu controlar-se, deu meia-volta, caminhou com firmeza na direção da abertura do porão, e subiu para a parte superior do convés, no lugar onde são manejados os remos; inclinou-se por alguns instantes sobre o segundo cadáver, soltou um grunhido bastante audível, e depois voltou até a cabine, movendo-se com alguma rigidez. Virou-se e começou uma conversa com o capitão, num tom frio e respeitoso de parte a parte, num vívido contraste com a raiva e os insultos de pouco antes. Holroyd captou apenas fragmentos do conteúdo da conversa.
Voltou a concentrar a atenção no binóculo, e surpreendeu-se ao ver que as formigas tinham desaparecido de todas as áreas expostas do convés. Apontou as lentes para a parte escura por baixo da coberta, e teve a impressão de que ela estava cheia de olhos vigilantes.
Todos concordaram que o barco estava de fato abandonado, mas demasiadamente cheio de formigas para que alguns homens pudessem ocupá-lo e dormir dentro dele; teriam que rebocá-lo. O tenente foi até a proa para receber e ajustar o cabo, e os homens no bote ficaram prontos para ajudá-lo quando necessário. O binóculo de Holroyd continuou investigando o barco.
Ele tinha a impressão, cada vez mais forte, de que uma grande atividade, ainda que minúscula e furtiva, estava ocorrendo ali. Viu certo número de formigas enormes, que parecem ter umas duas polegadas de comprimento, carregando pacotes de formato esquisito — cuja utilidade ele não conseguia imaginar — de uma zona mergulhada na escuridão até outra. Não se moviam em colunas ao longo dos trechos iluminados, mas em linhas abertas, espaçadas, que sugeriam estranhamente as linhas de avanço de uma infantaria moderna sob fogo inimigo. Muitas das formigas estavam se abrigando por baixo das roupas do homem morto, e uma grande quantidade delas estava se aglomerando justamente no lado para onde Da Cunha se dirigia.
Ele não as viu avançar para o tenente quando ele voltou para lá, mas não teve a menor dúvida de que tinha acontecido um ataque planejado. De repente o tenente estava gritando e soltando maldições e dando pancadas nas pernas.
Fui picado! — gritou ele, voltando para Gerilleau um rosto cheio de ódio e de acusação.
Depois saltou por sobre a lateral do barco, caiu dentro do bote, e dali pulou para dentro d’água. Holroyd ouviu o espadanar da queda.
Os três homens conseguiram puxá-lo para dentro do bote e o trouxeram de volta para bordo; e na mesma noite ele morreu.

[...]

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

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