2.
Na manhã seguinte, Holroyd ficou
sabendo que já estavam a quarenta quilômetros de Badama, e isto
aumentou sua atenção para o que acontecia nas margens. Ele não
perdia nenhuma oportunidade de examinar as redondezas. Não se via
qualquer sinal de ocupação humana, com exceção das ruínas de uma
casa, tomadas pelo mato bravio, e da fachada manchada de verde do
mosteiro de Moju, abandonado havia muitos anos, no qual uma árvore
brotava através da abertura de uma janela, e pesadas lianas se
entrecruzavam diante dos portais. Revoadas de estranhas borboletas de
asas amarelas, semitransparentes, cruzaram o rio naquela manhã;
muitas pousaram no barco e foram mortas pelos homens. Foi apenas à
tarde que se aproximaram da cuberta abandonada.
À primeira vista não parecia
abandonada, pois ambas as suas velas estavam içadas e pendiam
frouxas no ar imóvel daquela tarde; e via-se um homem sentado nas
pranchas da parte dianteira, ao lado dos pesados remos. Outro homem
parecia adormecido, deitado de bruços numa espécie de ponte
longitudinal que esses barcos têm na parte do meio. Mas logo ficou
aparente, pelo modo como o leme oscilava à toa e o barco parecia
vagar de encontro à canhoneira, que alguma coisa ali estava errada.
Gerilleau examinou o barco com o binóculo, e pareceu especialmente
interessado no rosto escurecido do homem sentado, um indivíduo de
pele avermelhada que parecia não ter nariz; estava mais agachado do
que sentado, e quanto mais o capitão o examinava menos gostava do
que estava vendo, e mais aplicava o olho às lentes.
Mas por fim ele conseguiu afastar a
vista e caminhou até Holroyd. Depois voltou à proa e gritou na
direção do barco. Gritou algumas vezes sem resposta até que as
duas embarcações se cruzaram. Santa Rosa era o nome da
cuberta que vinha à deriva, claramente visível.
Quando ela passou, oscilou um pouco ao
ser atingida pelas ondas do barco maior, e nesse momento o homem
agachado desmoronou no chão como se todas as suas juntas tivessem se
desfeito ao mesmo tempo. Seu chapéu tombou, e sua cabeça não era
algo agradável de se ver; o corpo descaiu, frouxo, e rolou pelo chão
até ficar oculto pelo parapeito.
— Caramba! — gritou Gerilleau, e
apressou-se a chamar Holroyd, que já tinha ido ao seu encontro. —
Viu aquela coisa? — disse o capitão.
— Está morto! — exclamou Holroyd.
— Claro que sim. É melhor mandar um bote com alguém para subir a
bordo. Alguma coisa está errada.
— Você por acaso viu o rosto dele?
— Como era?
— Era... ugh... não tenho palavras.
E o capitão, dando as costas a
Holroyd, assumiu o papel estridente e atarefado de comandante.
A canhoneira se aproximou,
resfolegando, até emparelhar com a cuberta, e desceu à água
um bote com o tenente Da Cunha e três marujos para a abordagem. A
curiosidade do capitão o fez levar a canhoneira mais para perto
enquanto o tenente subia a bordo, de modo que todo o convés do Santa
Rosa e a parte inferior eram visíveis a Holroyd.
Agora ele podia ver claramente que os
únicos tripulantes do barco abandonado eram os dois homens mortos, e
embora não conseguisse ver seus rostos, podia perceber, vendo suas
mãos abertas, com as carnes dilaceradas, que os dois pareciam ter
passado por algum excepcional processo de apodrecimento. Por um
instante sua atenção se concentrou naqueles dois montes enigmáticos
de roupas sujas e membros desconjuntados. Então, seu olhar percebeu
o porão escancarado, revelando as pilhas de caixas e de baús, e
logo adiante a cabine, inexplicavelmente vazia. Percebeu a seguir que
as tábuas do meio do convés estavam cheias de pequenos pontos
negros que se moviam.
Sua atenção se fixou nesses pontos.
Todos se movimentavam em diferentes direções a partir do corpo do
homem caído, parecendo — a imagem lhe veio à mente de maneira
desconfortável — uma multidão que se dispersa depois de assistir
a uma tourada.
Percebeu que Gerilleau estava ao seu
lado, e pediu:
— Capitão, tem seu binóculo aí?
Pode focalizar aquelas tábuas, ali no meio?
Gerilleau obedeceu, soltou um
grunhido, e passou-lhe o binóculo. Seguiu-se um longo momento de
escrutínio.
— Formigas — disse o inglês, e
devolveu o binóculo, devidamente focado, a Gerilleau.
A impressão que tivera fora a de uma
multidão de grandes formigas negras, muito parecidas com as formigas
comuns a não ser pelo tamanho, e pelo fato de que algumas das
maiores entre elas pareciam envoltas numa espécie de tecido cinza.
Mas o exame que fizera tinha sido muito rápido para estudar esses
detalhes, e já a cabeça do tenente Da Cunha aparecia sobre o
parapeito, para um breve diálogo.
— É preciso subir a bordo — disse
Gerilleau.
O tenente objetou que o barco estava
coberto de formigas.
— Você está de botas — disse
Gerilleau.
O tenente mudou de assunto.
— Como foi que morreram esses
homens? — perguntou.
O capitão Gerilleau enveredou por uma
especulação que Holroyd não conseguiu acompanhar, e os dois
começaram a discutir com certa veemência. Holroyd pegou de volta o
binóculo e retomou seu escrutínio, primeiro das formigas, e depois
do corpo tombado no convés.
Ele me fez uma descrição bastante
precisa das formigas.
Disse que eram tão grandes quanto as
maiores que ele já tinha visto; eram negras, e moviam-se com uma
firme deliberação, não da maneira mecânica e confusa como se
movem as formigas comuns. Cerca de uma em cada vinte era bem maior
que as demais, e tinha uma cabeça excepcionalmente volumosa. Elas
lhe lembraram as formigas líderes que supervisionam o trabalho das
operárias, nas espécies cortadoras de folhas; tal como aquelas,
pareciam estar dirigindo e coordenando o movimento coletivo do grupo.
Empinavam o corpo para trás de modo singular, como se estivessem
usando as patas da frente para algum outro propósito. E ele teve a
impressão, mesmo estando demasiado distante para comprovar, que a
maioria dessas formigas, de ambos os tipos, estava usando
equipamentos, ou seja, trazia algumas coisas amarradas ao corpo com o
que lhe pareceu serem fios brancos de metal.
Holroyd abaixou o binóculo de
repente, ao perceber que a relação disciplinar entre o capitão e
seu subordinado estava chegando a um ponto perigoso.
— O seu dever — dizia o capitão —
é subir a bordo. Minhas instruções são essas.
O tenente parecia a ponto de
recusar-se. A cabeça de um dos marinheiros mulatos apareceu ao lado
dele.
— Acho que esses homens foram mortos
pelas formigas — disse Holroyd abruptamente em inglês.
O capitão teve uma explosão de
raiva. Não se dignou responder a Holroyd.
Eu lhe ordenei para ir a bordo! —
gritou em seu português na direção do subordinado. — Se não for
para bordo agora mesmo considerarei um motim, motim da tropa. Motim e
covardia! Onde está a coragem que deveria nos inspirar?! Vou colocar
vocês a ferros, vou matá-los a tiros como cachorros!
E prorrompeu numa saraivada de
insultos e maldições, movendo-se de um lado para o outro. Brandiu
os punhos, e comportou-se como se estivesse possesso de raiva,
enquanto o tenente o olhava, muito pálido e tenso. A tripulação
aproximou-se, com os rostos cheios de espanto.
De repente, numa pausa do desabafo, o
tenente tomou uma decisão heroica e, reunindo todas as suas forças,
içou-se por cima do parapeito do barco.
— Ah! — exclamou Gerilleau; e sua
boca fechou-se como um alçapão.
Holroyd viu as formigas recuando
diante das botas de Da Cunha. O português caminhou devagar até o
corpo do homem caído, inclinou-se, hesitou, agarrou o capote do
morto e virou-o de rosto para cima. Uma multidão fervilhante de
formigas saiu de dentro das roupas, e Da Cunha recuou às pressas,
batendo com os pés nas tábuas do convés.
Holroyd ergueu o binóculo. Viu as
formigas espalhadas em torno dos pés do invasor, e fazendo o que ele
nunca antes tinha visto formigas fazerem. Elas não tinham nada dos
movimentos cegos da formiga comum; olhavam para o homem, assim como
uma multidão humana fitaria um monstro gigantesco que acabasse de
dispersá-la.
— Como foi que ele morreu? —
gritou o capitão.
Holroyd entendeu, na resposta do
português, que o homem estava muito devorado e não havia como
saber.
— O que há ali na frente? —
perguntou Gerilleau.
O tenente caminhou alguns passos, e
começou a responder em português. Parou de súbito e deu algumas
batidas no lado da perna. Depois deu uns passos esquisitos, como se
estivesse tentando pisar em alguma coisa invisível, e caminhou
depressa para a lateral do barco. Em seguida pareceu controlar-se,
deu meia-volta, caminhou com firmeza na direção da abertura do
porão, e subiu para a parte superior do convés, no lugar onde são
manejados os remos; inclinou-se por alguns instantes sobre o segundo
cadáver, soltou um grunhido bastante audível, e depois voltou até
a cabine, movendo-se com alguma rigidez. Virou-se e começou uma
conversa com o capitão, num tom frio e respeitoso de parte a parte,
num vívido contraste com a raiva e os insultos de pouco antes.
Holroyd captou apenas fragmentos do conteúdo da conversa.
Voltou a concentrar a atenção no
binóculo, e surpreendeu-se ao ver que as formigas tinham
desaparecido de todas as áreas expostas do convés. Apontou as
lentes para a parte escura por baixo da coberta, e teve a impressão
de que ela estava cheia de olhos vigilantes.
Todos concordaram que o barco estava
de fato abandonado, mas demasiadamente cheio de formigas para que
alguns homens pudessem ocupá-lo e dormir dentro dele; teriam que
rebocá-lo. O tenente foi até a proa para receber e ajustar o cabo,
e os homens no bote ficaram prontos para ajudá-lo quando necessário.
O binóculo de Holroyd continuou investigando o barco.
Ele tinha a impressão, cada vez mais
forte, de que uma grande atividade, ainda que minúscula e furtiva,
estava ocorrendo ali. Viu certo número de formigas enormes, que
parecem ter umas duas polegadas de comprimento, carregando pacotes de
formato esquisito — cuja utilidade ele não conseguia imaginar —
de uma zona mergulhada na escuridão até outra. Não se moviam em
colunas ao longo dos trechos iluminados, mas em linhas abertas,
espaçadas, que sugeriam estranhamente as linhas de avanço de uma
infantaria moderna sob fogo inimigo. Muitas das formigas estavam se
abrigando por baixo das roupas do homem morto, e uma grande
quantidade delas estava se aglomerando justamente no lado para onde
Da Cunha se dirigia.
Ele não as viu avançar para o
tenente quando ele voltou para lá, mas não teve a menor dúvida de
que tinha acontecido um ataque planejado. De repente o tenente estava
gritando e soltando maldições e dando pancadas nas pernas.
— Fui picado! — gritou ele,
voltando para Gerilleau um rosto cheio de ódio e de acusação.
Depois saltou por sobre a lateral do
barco, caiu dentro do bote, e dali pulou para dentro d’água.
Holroyd ouviu o espadanar da queda.
Os três homens conseguiram puxá-lo
para dentro do bote e o trouxeram de volta para bordo; e na mesma
noite ele morreu.
[...]
H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

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