123.
A renúncia é a libertação. Não
querer é poder.
Que me pode dar a China que a minha
alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar,
como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a
vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma,
porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem
Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é incapaz
de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de
experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação
de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos
pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a
estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição,
forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver.
Somos todos míopes, exceto para
dentro. Só o sonho vê com o olhar.
No fundo, há na nossa experiência da
terra duas coisas só — o universal e o particular. Descrever o
universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a
experiência humana — o céu vasto, com o dia e a noite que
acontecem dele e nele; o correr dos rios — todos da mesma água
sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas,
guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos,
as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos;
o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem
forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é
tudo... Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo
com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que
todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu
quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os
calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em
Trás-os-Montes? Estas coisas são acidentes da superfície; podem
sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de
Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na
Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a
majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da
profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é
a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma
simplicidade social que é no seu modo uma nova nudez. O que nas
pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de
gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a
sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a
vasta variedade das nações.
Transeuntes eternos por nós mesmos,
não há paisagem senão o que somos.
Nada possuímos, porque nem a nós
possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para
que universo? O universo não é meu: sou eu.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

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