Martín de Porres
Tocam fúnebres os sinos das igrejas
de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín
de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio
com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e
Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma
caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a
sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um
lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma
escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar
espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim
para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são
iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao
convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e
milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando
com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a
enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do
convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de
alecrim.
Quando soube que o convento sofria
penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato
cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos
ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava
branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu
rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino
meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas
com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os
anjos o acompanhavam ao côro levando luzes nas mãos. Sem sair de
Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas,
China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus.
Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó
de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo
roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as
feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios
com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem
autorização.
Depois das matinas se despia e
açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi
amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue
gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando
vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes,
sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele
escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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