“Deus é inglês”,
disse o piedoso John Aylmer, pastor de
almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da
baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das
terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os
sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este
povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem
propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no
Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.
O reverendo John Cotton despediu os
peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os
conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra,
terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no
alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella
chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses,
ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia.
As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás
os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das
ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de
Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais
santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de
todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos
e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma
ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens
brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas
canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram
varíola.
A varíola arrasou comunidades índias
e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo
de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui
viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi
enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras
limpas pela peste.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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