22/08/2026

Factótum


22

Depois de chegar na Filadélfia, eu achei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo já estava lá havia cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, fezes e vômito de meio século subindo pelo chão do bar, vindo dos banheiros lá de baixo.
Eram quatro e meia da tarde. Dois homens estavam brigando no meio do bar.
O cara da minha direita disse que se chamava Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny tinha um cigarro na boca, a ponta brilhava. Uma garrafa de cerveja vazia passou voando e por pouco não acertou o nariz e o cigarro dele. Ele não se mexeu, nem olhou em volta, só bateu as cinzas no cinzeiro.
— Quase, seu desgraçado! Tenta de novo para você ver!
O bar estava lotado. Tinha mulheres, algumas donas de casa gordas e um pouco burras, e duas ou três senhoras que estavam passando por alguma barra. Enquanto eu estava sentado, uma garota se levantou e saiu com um homem. Ela voltou em cinco minutos.
— Helen! Helen! Como você consegue?
Ela riu.
Outro pulou em cima dela.
— Deve ser boa. Também quero!
Saíram juntos. De novo, Helen voltou em cinco minutos.
— Ela deve ter uma bomba de sucção no lugar da vagina!
— Preciso experimentar — disse um coroa lá no fundo do bar. — Eu não fico de pau duro desde que Teddy Roosevelt conquistou a última colina dele.
Com esse, Helen levou dez minutos.

— Eu quero um sanduíche — disse um cara gordo. — Quem vai me fazer o favor de ir buscar um sanduíche?
Eu disse que iria.
— Rosbife no pão, com tudo que tem direito. — Me deu dinheiro. — Pode ficar com o troco.
Eu fui até o lugar do sanduíche. Um velhote com uma barriga grande se aproximou.
— Um sanduíche de rosbife no capricho, com tudo que tem direito. E uma garrafa de cerveja enquanto eu espero.
Bebi a cerveja, levei o sanduíche para o cara gordo no bar e encontrei outro lugar para sentar. Um copo de uísque apareceu. Bebi em um gole só. Outro surgiu. Bebi tudo de novo. A jukebox tocava.
Lá de trás do bar, um guri de uns vinte e quatro anos veio até mim.
— Eu preciso que limpem as persianas — falou para mim.
— Com certeza!
— O que você faz?
— Nada. Bebo. Os dois.
— E as cortinas?
— Cinco contos.
— Contratado.
Chamavam ele de Billy-Boy. Billy era casado com a dona do bar. Ela tinha quarenta e cinco anos.
Ele me trouxe dois baldes, uns pedaços de sabão, trapos e esponjas. Eu baixei as persianas, tirei as lâminas e comecei a limpar.
— A bebida é por conta da casa — disse Tommy, que era o atendente da noite — enquanto você estiver trabalhando.
— Manda uma dose de uísque, Tommy.

Trabalho demorado esse; a poeira estava endurecida, virou sujeira incrustada. Eu cortei as mãos várias vezes nas lâminas das persianas de metal. A água com sabão ardia.
— Tommy, me vê uma dose de uísque aí. — Terminei uma parte das persianas e pendurei de volta. A galera do bar se virava para ver meu trabalho.
— Tá bom, hein!
— Com certeza melhora o ambiente.
— Assim é provável que aumentem o preço das bebidas.
— Dá uma dose de uísque, Tommy — falei.
Peguei mais um conjunto de persianas e tirei as lâminas. Ganhei do Jim no pinball por uma moeda, depois esvaziei os baldes no vaso sanitário e fui pegar água limpa.
O segundo conjunto foi mais difícil. Minhas mãos ganharam novos cortes. Eu duvido que aquelas janelas tenham sido limpas nos últimos dez anos. Ganhei mais uma moeda no pinball e aí o Billy-Boy gritou para eu voltar ao trabalho.
Helen passou por ali a caminho da latrina das mulheres.
— Helen, te dou cinco contos quando eu terminar aqui. Tem jeito?
— Claro, mas depois de tanto trabalho você não vai conseguir subir o amiguinho.
— Eu subo, sim.
— Estarei aqui até fechar. Se você ainda conseguir ficar de pé, aí pode levar de graça!
— Vou estar firme e forte, baby.
Helen voltou para a latrina.
— Uma dose de uísque, Tommy.
— Ei, vai com calma — disse Billy-Boy —, senão você não vai terminar esse trabalho hoje.
— Billy, se eu não terminar, você fica com os cincão.
— Negócio fechado. Vocês todos ouviram isso?
— Ouvimos, Billy, seu pão-duro.
— Mais um pra viagem, Tommy.
Tommy mandava o uísque. Eu bebia e seguia com o trabalho. Enchi a cara. Depois de algumas doses eu já estava com todas as persianas limpas e brilhando.
— Beleza, Billy, pode me pagar.
— Você não terminou.
— Quê?
— Tem mais três janelas nos fundos.
— Nos fundos?
— Isso. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o tal salão. Tinha mais três janelas, mais três conjuntos de persianas.
— Eu topo por dois e cinquenta, Billy.
— Não, ou você limpa todas ou não ganha nada.
Peguei os baldes, joguei fora a água suja, coloquei água limpa, sabão, aí peguei um conjunto de persianas. Tirei as lâminas, coloquei em uma mesa e fiquei encarando.
Jim parou a caminho da latrina.
— Qual é o problema?
— Eu não aguento mais essas lâminas.
Quando Jim saiu do banheiro, ele passou no bar para trazer a cerveja dele. Começou a limpar as persianas.
— Jim, deixa isso para lá.
Fui até o bar, peguei outro uísque. Quando voltei, uma das garotas estava pegando um conjunto de persianas.
— Cuidado para não se cortar — falei para ela.
Em poucos minutos, já tinha quatro ou cinco pessoas lá atrás conversando e rindo, incluindo Helen. Todas estavam limpando as persianas. Logo depois, toda a galera do bar estava lá. Trabalhei com mais duas doses de uísque. Enfim, todas as persianas estavam limpas e penduradas. Não levou muito tempo. Elas brilhavam. Billy-Boy entrou:
— Eu não vou te pagar.
— O trabalho está terminado.
— Mas não foi você que terminou.
— Não seja mão de vaca, Billy — alguém falou.
Billy-Boy desenterrou os cinco dólares, e eu peguei. Fomos para o bar.
— Uma dose para todo mundo! — Deitei os cinco dólares na mesa. — E uma para mim também.
Tommy serviu as bebidas.
Bebi a minha e ele pegou os cinco dólares.
— Você deve três dólares e quinze centavos ao bar.
— Pendura aí.
— Ok, qual é o teu sobrenome?
— Chinaski.
— Já ouviu aquela do polonês que foi ao banheiro?
— Já.
As bebidas chegaram para mim até a hora de fechar. Depois da última, eu olhei ao redor. Helen tinha picado a mula. Ela mentiu.
Que piranha, pensei, com medo de uma longa e dura aventura…
Levantei e fui caminhando de volta até a pensão. A luz da lua estava forte. Meus passos ecoavam na rua vazia e parecia que alguém estava me seguindo. Olhei em volta. Me enganei, estava sozinho por completo.

Charles Bukowski, em Factótum

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