22
Depois de chegar na Filadélfia, eu
achei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar
mais próximo já estava lá havia cinquenta anos. Dava para sentir o
cheiro de urina, fezes e vômito de meio século subindo pelo chão
do bar, vindo dos banheiros lá de baixo.
Eram quatro e meia da tarde. Dois
homens estavam brigando no meio do bar.
O cara da minha direita disse que se
chamava Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny tinha um cigarro na boca, a
ponta brilhava. Uma garrafa de cerveja vazia passou voando e por
pouco não acertou o nariz e o cigarro dele. Ele não se mexeu, nem
olhou em volta, só bateu as cinzas no cinzeiro.
— Quase, seu desgraçado! Tenta de
novo para você ver!
O bar estava lotado. Tinha mulheres,
algumas donas de casa gordas e um pouco burras, e duas ou três
senhoras que estavam passando por alguma barra. Enquanto eu estava
sentado, uma garota se levantou e saiu com um homem. Ela voltou em
cinco minutos.
— Helen! Helen! Como você consegue?
Ela riu.
Outro pulou em cima dela.
— Deve ser boa. Também quero!
Saíram juntos. De novo, Helen voltou
em cinco minutos.
— Ela deve ter uma bomba de sucção
no lugar da vagina!
— Preciso experimentar — disse um
coroa lá no fundo do bar. — Eu não fico de pau duro desde que
Teddy Roosevelt conquistou a última colina dele.
Com esse, Helen levou dez minutos.
— Eu quero um sanduíche — disse
um cara gordo. — Quem vai me fazer o favor de ir buscar um
sanduíche?
Eu disse que iria.
— Rosbife no pão, com tudo que tem
direito. — Me deu dinheiro. — Pode ficar com o troco.
Eu fui até o lugar do sanduíche. Um
velhote com uma barriga grande se aproximou.
— Um sanduíche de rosbife no
capricho, com tudo que tem direito. E uma garrafa de cerveja enquanto
eu espero.
Bebi a cerveja, levei o sanduíche
para o cara gordo no bar e encontrei outro lugar para sentar. Um copo
de uísque apareceu. Bebi em um gole só. Outro surgiu. Bebi tudo de
novo. A jukebox tocava.
Lá de trás do bar, um guri de uns
vinte e quatro anos veio até mim.
— Eu preciso que limpem as persianas
— falou para mim.
— Com certeza!
— O que você faz?
— Nada. Bebo. Os dois.
— E as cortinas?
— Cinco contos.
— Contratado.
Chamavam ele de Billy-Boy. Billy era
casado com a dona do bar. Ela tinha quarenta e cinco anos.
Ele me trouxe dois baldes, uns pedaços
de sabão, trapos e esponjas. Eu baixei as persianas, tirei as
lâminas e comecei a limpar.
— A bebida é por conta da casa —
disse Tommy, que era o atendente da noite — enquanto você estiver
trabalhando.
— Manda uma dose de uísque, Tommy.
Trabalho demorado esse; a poeira
estava endurecida, virou sujeira incrustada. Eu cortei as mãos
várias vezes nas lâminas das persianas de metal. A água com sabão
ardia.
— Tommy, me vê uma dose de uísque
aí. — Terminei uma parte das persianas e pendurei de volta. A
galera do bar se virava para ver meu trabalho.
— Tá bom, hein!
— Com certeza melhora o ambiente.
— Assim é provável que aumentem o
preço das bebidas.
— Dá uma dose de uísque, Tommy —
falei.
Peguei mais um conjunto de persianas e
tirei as lâminas. Ganhei do Jim no pinball por uma moeda,
depois esvaziei os baldes no vaso sanitário e fui pegar água limpa.
O segundo conjunto foi mais difícil.
Minhas mãos ganharam novos cortes. Eu duvido que aquelas janelas
tenham sido limpas nos últimos dez anos. Ganhei mais uma moeda no
pinball e aí o Billy-Boy gritou para eu voltar ao trabalho.
Helen passou por ali a caminho da
latrina das mulheres.
— Helen, te dou cinco contos quando
eu terminar aqui. Tem jeito?
— Claro, mas depois de tanto
trabalho você não vai conseguir subir o amiguinho.
— Eu subo, sim.
— Estarei aqui até fechar. Se você
ainda conseguir ficar de pé, aí pode levar de graça!
— Vou estar firme e forte,
baby.
Helen voltou para a latrina.
— Uma dose de uísque, Tommy.
— Ei, vai com calma — disse
Billy-Boy —, senão você não vai terminar esse trabalho hoje.
— Billy, se eu não terminar, você
fica com os cincão.
— Negócio fechado. Vocês todos
ouviram isso?
— Ouvimos, Billy, seu pão-duro.
— Mais um pra viagem, Tommy.
Tommy mandava o uísque. Eu bebia e
seguia com o trabalho. Enchi a cara. Depois de algumas doses eu já
estava com todas as persianas limpas e brilhando.
— Beleza, Billy, pode me pagar.
— Você não terminou.
— Quê?
— Tem mais três janelas nos fundos.
— Nos fundos?
— Isso. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o tal salão.
Tinha mais três janelas, mais três conjuntos de persianas.
— Eu topo por dois e cinquenta,
Billy.
— Não, ou você limpa todas ou não
ganha nada.
Peguei os baldes, joguei fora a água
suja, coloquei água limpa, sabão, aí peguei um conjunto de
persianas. Tirei as lâminas, coloquei em uma mesa e fiquei
encarando.
Jim parou a caminho da latrina.
— Qual é o problema?
— Eu não aguento mais essas
lâminas.
Quando Jim saiu do banheiro, ele
passou no bar para trazer a cerveja dele. Começou a limpar as
persianas.
— Jim, deixa isso para lá.
Fui até o bar, peguei outro uísque.
Quando voltei, uma das garotas estava pegando um conjunto de
persianas.
— Cuidado para não se cortar —
falei para ela.
Em poucos minutos, já tinha quatro ou
cinco pessoas lá atrás conversando e rindo, incluindo Helen. Todas
estavam limpando as persianas. Logo depois, toda a galera do bar
estava lá. Trabalhei com mais duas doses de uísque. Enfim, todas as
persianas estavam limpas e penduradas. Não levou muito tempo. Elas
brilhavam. Billy-Boy entrou:
— Eu não vou te pagar.
— O trabalho está terminado.
— Mas não foi você que terminou.
— Não seja mão de vaca, Billy —
alguém falou.
Billy-Boy desenterrou os cinco
dólares, e eu peguei. Fomos para o bar.
— Uma dose para todo mundo! —
Deitei os cinco dólares na mesa. — E uma para mim também.
Tommy serviu as bebidas.
Bebi a minha e ele pegou os cinco
dólares.
— Você deve três dólares e quinze
centavos ao bar.
— Pendura aí.
— Ok, qual é o teu sobrenome?
— Chinaski.
— Já ouviu aquela do polonês que
foi ao banheiro?
— Já.
As bebidas chegaram para mim até a
hora de fechar. Depois da última, eu olhei ao redor. Helen tinha
picado a mula. Ela mentiu.
Que piranha, pensei, com
medo de uma longa e dura aventura…
Levantei e fui caminhando de volta até
a pensão. A luz da lua estava forte. Meus passos ecoavam na rua
vazia e parecia que alguém estava me seguindo. Olhei em volta. Me
enganei, estava sozinho por completo.
Charles Bukowski, em Factótum

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