Dioguinho
Há poucos dias, o padre Thomas Gage
aprendeu a escapar dos jacarés. Se a gente foge em zig-zag,
os jacarés ficam desnorteados. Eles só sabem correr em linha reta.
Em compensação ninguém ensinou-o a
escapar dos piratas. Mas, será que alguém conhece a maneira de
fugir de dois bons navios holandeses em uma fragata lenta e sem
canhões?
Recém-saída ao mar Caribe, a fragata
arria as velas e se rende.
Mais desinflada que as velas, rola
pelo chão a alma do padre Gage. Viaja com ele todo o dinheiro que
juntou na América durante os doze anos que passou salvando
sacrílegos e arrancando mortos do inferno.
Os esquifes vão e vêm. Os piratas
levam o toucinho, a farinha, o mel, as galinhas, a banha e os couros.
Também quase toda a fortuna que o padre trazia em pérolas e em
ouro. Não toda, porque respeitaram a sua cama e ele tinha costurado
no colchão boa parte de seus bens.
O capitão dos piratas, um mulato
fornido, o recebe em seu camarote. Não lhe dá a mão, mas
oferece-lhe assento e um jarro de rum com pimenta. Um suor frio brota
da nuca do padre e percorre as suas costas. Toma o trago depressa. O
capitão Diogo Grillo é conhecido, o padre ouviu falar dele. Sabe
que pirateava sob as ordens do terrível Perna de Pau e que agora
rouba por conta própria, com patente de corsário dos holandeses.
Dizem que Dioguinho mata para não perder a pontaria.
O padre implora, balbucia que não lhe
deixaram nada além da batina que veste. Enquanto enche o jarro, o
pirata conta, surdo, sem pestanejar, os maus-tratos que sofreu quando
era escravo do governador de Campeche.
– Minha mãe ainda é escrava, em
Havana. Não conheces minha mãe? É tão boa, a coitada, que dá
vergonha.
– Eu não sou espanhol – geme
baixinho o padre. – Eu sou inglês – diz e repete, em vão. –
Minha nação não é inimiga da vossa. Não são boas amigas, a
Inglaterra e a Holanda?
– Hoje ganho, amanhã perco – diz
o corsário. Retém um gole de rum, o envia pouco a pouco à
garganta.
– Olhe – ordena, e arranca a
casaca. Mostra as costas, as costuras dos açoites.
Escutam-se ruídos que chegam da
coberta. O sacerdote os agradece, porque ocultam as batidas de seu
coração desbocado.
– Eu sou Inglês...
Uma veia lateja, desesperada, na testa
do padre Gage. A saliva se nega a passar por sua garganta.
– Levai-me à Holanda. Vos rogo,
senhor, levai-me à Holanda. Por favor! Não pode um homem generoso
abandonar-me assim, despido e sem...
De um puxão, o capitão solta seu
braço das mil mãos do padre no chão com uma bengala e acodem dois
homens.
– Fora com ele!
Despede-se de costas, enquanto se olha
no espelho.
– Se passas por Havana – diz –,
não deixes de visitar minha mãe. Mande-lhe lembranças. Diga-lhe...
diga-lhe que as coisas estão indo muito bem para mim.
Enquanto regressa para a sua fragata,
o padre Gage sente câimbras na barriga. Andam fortes as ondas e o
padre amaldiçoa quem lhe disse, lá em Jerez de la Frontera, há
doze anos, que a América estava com as ruas cobertas de ouro e de
prata, e que era preciso caminhar com cuidado para não tropeçar com
os diamantes.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Nenhum comentário:
Postar um comentário