Uma tarde de música no convento da
Conceição
No jardim do convento, Juana canta e
tange o alaúde. Luz verde, troncos verdes, verde brisa: estava morto
o ar até que ela o tocou com as palavras e a música.
Juana é filha do juiz Maldonado, que
distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De
mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento
seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias
ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja,
não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre
o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e
dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de
expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa
cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas
pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura,
trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou
melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde
vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas
plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na
ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se
aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz
menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha
fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo
fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a
sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o
inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão
de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela
boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em
tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a
pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte
mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo
contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que
os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem
lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória
desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas
vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena
missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um
mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não
contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O
bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de
cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o
bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma
auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O
anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto
aplaudir.
– Farei de ti superiora! – geme. –
Farei de ti abadessa!
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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