Opechancanough
Antes que um soldado inglês o fulmine
pelas costas, o chefe Opechancanough se pergunta: “Onde está o
guardião invisível de minhas viagens? Quem roubou-me a minha
sombra?”.
Aos cem anos, foi derrotado. Tinha ido
ao campo de batalha em uma liteira.
Faz mais de oitenta anos que o
almirante Pedro Menéndez de Avilés levou-o a Cadiz. Apresentou-o na
corte de Felipe II: Eis aqui um belo príncipe índio da Florida.
Puseram-lhe calças, gibão e gola. Em um convento dominicano de
Sevilha ensinaram-lhe a língua e a religião dos castelhanos.
Depois, no México, o vice-rei deu-lhe seu nome de presente e
Opechancanough passou a chamar-se Luis de Velasco. Ao mesmo tempo
regressou à terra de seus pais, como intérprete e guia dos
jesuítas. Sua gente achou que ele voltava da morte. Predicou o
cristianismo e depois despiu-se e degolou os jesuítas e tornou a
chamar-se como antes.
Desde aquele tempo, matou muito e viu
muito. Viu as chamas devorando aldeias e campos de cultivo e viu seus
irmãos vendidos a quem pagava mais, nesta região que os ingleses
batizaram de Virgínia em memória a uma rainha virgem de espírito.
Viu a varíola engolindo homens e o tabaco, faminto, devorando
terras. Viu como eram apagados do mapa dezessete das vinte e oito
comunidades que existiam aqui, e como as outras recebiam a
possibilidade de escolher entre a diáspora e a guerra. Trinta mil
índios deram as boas-vindas aos navegantes ingleses que chegaram à
baía de Chesapeake, em uma fresca manhã de 1607. Sobrevivem três
mil.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Nenhum comentário:
Postar um comentário