Gloria in excelsis deo
O bicho-de-pé é menor que uma pulga
e mais feroz que um tigre. Se mete pelos pés e derruba quem se coça.
Não ataca os índios, mas não perdoa os estrangeiros.
Dois meses passou em guerra o padre
Thomas Gage, deitado em uma cama, e enquanto celebra sua vitória
contra o bicho-de-pé, faz um balanço do tempo vivido na Guatemala.
A não ser pelo bicho-de-pé, não pode se queixar. Nos povoados o
recebem ao som das trombetas, debaixo de um pálio de ramagens e
flores. Tem os criados que quer e um palafreneiro que leva seu cavalo
pelo bridão.
Cobra seu salário, pontualmente, em
prata, trigo, milho, cacau e galinhas. As missas que oferece aqui em
Pinola e em Mixco, são pagas por separado, e por separado os
batismos, matrimônios e enterros, e as orações que reza por conta
para conjurar gafanhotos, pestes ou terremotos se incluem as
oferendas aos santos a seus cuidados, que são muitos, e as da Noite
de Natal e da Semana Santa, o padre Gage recebe mais de dois mil
escudos por ano, livres, limpinhos, além do vinho e da batina
grátis.
O salário do padre vem dos tributos
que pagam os índios a dom Juan de Guzmán, dono desses homens e
destas terras. Como só pagam tributo os casados, e os índios são
rápidos no saber e na malícia, os funcionários obrigam ao
casamento os meninos de doze e treze anos e o padre os casa enquanto
lhes cresce o corpo.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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