08/07/2026

1629 – Comarca de Repocura



Para dizer adeus

Lua após lua, passou o tempo. É muito o que Francisco escutou e aprendeu nestes meses de cativeiro. Conheceu, e algum dia a escreverá, a outra versão desta longa guerra do Chile, justa guerra que os índios moveram contra os que os enganaram e ofenderam e tiveram como escravos, e pior ainda.
No bosque, ajoelhado na frente de uma cruz feita de galhos, Francisco reza orações de gratidão. Esta noite empreenderá o caminho até o forte do Nascimento. Lá será trocado por três chefes araucanos prisioneiros. Viajará protegido por cem lanças.
Caminha, agora, até o rancho. Debaixo do cipoal, o espera um círculo de ponchos esfarrapados e rosto de barro. De boca em boca anda a chicha de morango ou de maçã.
O venerável Tereupillán recebe o galho de canela, que é a palavra, e erguendo-o dedica uma longa alabanca a cada um dos caciques presentes. Elogia depois Maulicán, guerreiro bravio, que na batalha obteve um preso tão valioso e soube guardá-lo vivo.
Não é de corações generosos – diz Tereupillán – tomar a vida a sangue-frio. Quando nós tomamos as armas contra os espanhóis tiramos que perseguidos e vexados nos tinham, só nas batalhas não senti compaixão por eles. Mas depois, quando cativos os via, grande dor e pena me causavam e machucada a alma me tinham, que verdadeiramente não odiávamos suas pessoas. Suas cobiças, sim. Suas crueldades, sim. Suas soberbas, sim.
E virando para Francisco, diz:
E tu, capitão, amigo e companheiro, que te ausentas de nós e nos deixas machucados, tristes e sem consolo, não nos esqueça.
Tereupillán deixa cair o ramo de canela no centro do círculo e os araucanos despertam a terra, golpeando-a com os pés.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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