Para dizer adeus
Lua após lua, passou o tempo. É
muito o que Francisco escutou e aprendeu nestes meses de cativeiro.
Conheceu, e algum dia a escreverá, a outra versão desta longa
guerra do Chile, justa guerra que os índios moveram contra os que
os enganaram e ofenderam e tiveram como escravos, e pior ainda.
No bosque, ajoelhado na frente de uma
cruz feita de galhos, Francisco reza orações de gratidão. Esta
noite empreenderá o caminho até o forte do Nascimento. Lá será
trocado por três chefes araucanos prisioneiros. Viajará protegido
por cem lanças.
Caminha, agora, até o rancho. Debaixo
do cipoal, o espera um círculo de ponchos esfarrapados e rosto de
barro. De boca em boca anda a chicha de morango ou de maçã.
O venerável Tereupillán recebe o
galho de canela, que é a palavra, e erguendo-o dedica uma longa
alabanca a cada um dos caciques presentes. Elogia depois Maulicán,
guerreiro bravio, que na batalha obteve um preso tão valioso e soube
guardá-lo vivo.
– Não é de corações generosos
– diz Tereupillán –
tomar a vida a sangue-frio. Quando nós tomamos as armas contra os
espanhóis tiramos que perseguidos e vexados nos tinham, só nas
batalhas não senti compaixão por eles. Mas depois, quando cativos
os via, grande dor e pena me causavam e machucada a alma me tinham,
que verdadeiramente não odiávamos suas pessoas. Suas cobiças, sim.
Suas crueldades, sim. Suas soberbas, sim.
E virando para Francisco, diz:
– E tu, capitão, amigo e
companheiro, que te ausentas de nós e nos deixas machucados, tristes
e sem consolo, não nos esqueça.
Tereupillán deixa cair o ramo de
canela no centro do círculo e os araucanos despertam a terra,
golpeando-a com os pés.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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