14/09/2026

1639 – Potosí



O testamento do mercador

Entre as cortinas, aparece o nariz do escrivão. A alcova tem cheiro de cera e de morte. À luz da única vela, se adivinha a caveira debaixo da pele do moribundo.
– Que esperas, abutre?
Não abre os olhos o mercador, mas sua voz soa invicta.
– Minha sombra e eu discutimos e decidimos – diz. E suspira. E ordena ao tabelião:
– Não haverás de acrescentar ou tirar coisa alguma. Me ouves? Te pagarei duzentos pesos em aves, para que com suas plumas, e as que usas para escrever, voes aos infernos. Me estás ouvindo? Ai! Cada dia que vivo é um dia que alugo. Cada dia mais caro me custa. Escreve, anda! Depressa. Mando que com a quarta parte da prata que deixo se façam na pracinha da ponte umas grandes latrinas, para que nobres e plebeus de Potosí rendam homenagem ali, cada dia, à minha memória. Outra quarta parte de minhas barras e moedas haverão de enterrar-se no curral desta minha casa, e em suas portas se porão quatro cães dos mais bravos, para guardar este enterro.
Não enrola a língua e continua, sem tomar fôlego:
– E que com outra quarta parte de minhas riquezas se cozinhem os mais esplêndidos manjares e postos em minhas travessas de prata se metam em um barranco profundo, com todos os mantimentos de minha despensa, porque quero que se fartem os vermes, como farão comigo. E mando...
Agita o dedo indicador, que projeta uma sombra de bastão sobre o muro branco:
– E mando... que a meu próprio enterro não acuda pessoa alguma, e que acompanhem meu corpo todos os asnos que existam em Potosí, vestidos em riquíssimos vestidos e joias melhores, que serão compradas com o que reste de meus dinheiros.

Dizem os índios:

Que tem dono a terra? Como assim? Como se há de vender? Como se há de comprar? Se ela não nos pertence... Nós somos dela. Seus filhos somos. Assim sempre, sempre. Terra viva. Como cria os vermes, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Tem leite, e nos dá de mamar. Tem cabelos, pasto, palha, árvores. Ela sabe parir batatas. Faz nascer casas. Gente, faz nascer. Ela cuida de nós e nós cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita nosso convite. Filhos seus somos. Como há de vender-se? Como há de comprá-la?

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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