O testamento do mercador
Entre as cortinas, aparece o nariz do
escrivão. A alcova tem cheiro de cera e de morte. À luz da única
vela, se adivinha a caveira debaixo da pele do moribundo.
– Que esperas, abutre?
Não abre os olhos o mercador, mas sua
voz soa invicta.
– Minha sombra e eu discutimos e
decidimos – diz. E suspira. E ordena ao tabelião:
– Não haverás de acrescentar ou
tirar coisa alguma. Me ouves? Te pagarei duzentos pesos em aves, para
que com suas plumas, e as que usas para escrever, voes aos infernos.
Me estás ouvindo? Ai! Cada dia que vivo é um dia que alugo. Cada
dia mais caro me custa. Escreve, anda! Depressa. Mando que com a
quarta parte da prata que deixo se façam na pracinha da ponte umas
grandes latrinas, para que nobres e plebeus de Potosí rendam
homenagem ali, cada dia, à minha
memória. Outra quarta parte de minhas barras e moedas haverão de
enterrar-se no curral desta minha casa, e em suas portas se porão
quatro cães dos mais bravos, para guardar este enterro.
Não enrola a língua e continua, sem
tomar fôlego:
– E que com outra quarta parte de
minhas riquezas se cozinhem os mais esplêndidos manjares e postos
em minhas travessas de prata se metam em um barranco profundo, com
todos os mantimentos de minha despensa, porque quero que se fartem os
vermes, como farão comigo. E mando...
Agita o dedo indicador, que projeta
uma sombra de bastão sobre o muro branco:
– E mando... que a meu próprio
enterro não acuda pessoa alguma, e que acompanhem meu corpo todos os
asnos que existam em Potosí, vestidos em riquíssimos vestidos e
joias melhores, que serão compradas com o que reste de meus
dinheiros.
Dizem os índios:
Que tem dono a terra? Como assim? Como
se há de vender? Como se há de comprar? Se ela não nos pertence...
Nós somos dela. Seus filhos somos. Assim sempre, sempre. Terra viva.
Como cria os vermes, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Tem leite, e
nos dá de mamar. Tem cabelos, pasto, palha, árvores. Ela sabe parir
batatas. Faz nascer casas. Gente, faz nascer. Ela cuida de nós e nós
cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita nosso convite. Filhos
seus somos. Como há de vender-se? Como há de comprá-la?
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:
Postar um comentário