Não traem seus mortos
Durante quase dois anos tinha
predicado frei Francisco Bravo neste povoado de Motocintle.
Um dia anunciou aos índios que tinha
sido chamado da Espanha. Ele queria regressar à Guatemala, disse, e
ficar para sempre aqui junto a seu querido rebanho, mas lá na
Espanha seus superiores lhe negariam a permissão.
– Somente o ouro poderá
convencê-los – advertiu frei Francisco.
– Ouro não temos – disseram os
índios.
– Sim, têm – desmentiu o padre. –
Eu sei que existe um criadeiro de ouro escondido em Motocintle.
– Esse ouro não nos pertence –
explicaram eles. – Esse ouro é de nossos antepassados. Nós só
estamos cuidando dele. Se faltar alguma coisa, o que lhes diremos
quando voltem ao mundo?
– Eu só sei o que dirão meus
superiores na Espanha. Me dirão: Se tanto te amam os índios desse
povo onde queres ficar, como estás tão pobre?”
Se reuniram os índios em assembleia
para discutir o assunto.
Um domingo, depois da missa, vendaram
os olhos de Frei Francisco e o fizeram dar voltas até ficar tonto.
Todos foram atrás dele, dos velhos às crianças de peito. Ao chegar
ao fundo de uma gruta, tiraram-lhe a venda. O padre piscava os olhos,
machucados pelo fulgor do ouro, mais ouro que o de todos os tesouros
das mil e uma noites, e suas mãos trêmulas não sabiam por onde
começar. Transformou em saco a sua batina e carregou o que pôde.
Depois jurou por Deus e os santos evangelhos que jamais revelaria o
segredo e recebeu uma mula e comida para a viagem.
Com o tempo, chegou à Real Auditoria
da Guatemala uma carta de frei Francisco Bravo do porto de Veracruz.
Com grande dor na alma cumpria o sacerdote seu dever, no ato de
serviço ao rei por tratar-se de importante e esmerado negócio.
Dava notícias do possível rumo do ouro: “Creio ter andado a
escassa distância da aldeia. Corria à esquerda um arroio...”
Enviava algumas pepitas como amostra e prometia empregar o resto em
devoções a um santo de Málaga.
Agora aparecem a cavalo em Motocintle
o juiz e os soldados. Vestindo túnica vermelha e com uma vara branca
pendurada no peito, o juiz Juan Maldonado trata de convencer os
índios a entregar o ouro.
Promete e garante bom tratamento.
Ameaça com rigores e castigos.
Tranca uns quantos na prisão.
A outros aplica cepo e dá tormento.
Outros faz subir as escadas do
patíbulo.
E não adianta.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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