16/07/2026

1630 – Motocintle


Não traem seus mortos

Durante quase dois anos tinha predicado frei Francisco Bravo neste povoado de Motocintle.
Um dia anunciou aos índios que tinha sido chamado da Espanha. Ele queria regressar à Guatemala, disse, e ficar para sempre aqui junto a seu querido rebanho, mas lá na Espanha seus superiores lhe negariam a permissão.
Somente o ouro poderá convencê-los – advertiu frei Francisco.
Ouro não temos – disseram os índios.
Sim, têm – desmentiu o padre. – Eu sei que existe um criadeiro de ouro escondido em Motocintle.
Esse ouro não nos pertence – explicaram eles. – Esse ouro é de nossos antepassados. Nós só estamos cuidando dele. Se faltar alguma coisa, o que lhes diremos quando voltem ao mundo?
Eu só sei o que dirão meus superiores na Espanha. Me dirão: Se tanto te amam os índios desse povo onde queres ficar, como estás tão pobre?”
Se reuniram os índios em assembleia para discutir o assunto.
Um domingo, depois da missa, vendaram os olhos de Frei Francisco e o fizeram dar voltas até ficar tonto. Todos foram atrás dele, dos velhos às crianças de peito. Ao chegar ao fundo de uma gruta, tiraram-lhe a venda. O padre piscava os olhos, machucados pelo fulgor do ouro, mais ouro que o de todos os tesouros das mil e uma noites, e suas mãos trêmulas não sabiam por onde começar. Transformou em saco a sua batina e carregou o que pôde. Depois jurou por Deus e os santos evangelhos que jamais revelaria o segredo e recebeu uma mula e comida para a viagem.
Com o tempo, chegou à Real Auditoria da Guatemala uma carta de frei Francisco Bravo do porto de Veracruz. Com grande dor na alma cumpria o sacerdote seu dever, no ato de serviço ao rei por tratar-se de importante e esmerado negócio. Dava notícias do possível rumo do ouro: “Creio ter andado a escassa distância da aldeia. Corria à esquerda um arroio...” Enviava algumas pepitas como amostra e prometia empregar o resto em devoções a um santo de Málaga.
Agora aparecem a cavalo em Motocintle o juiz e os soldados. Vestindo túnica vermelha e com uma vara branca pendurada no peito, o juiz Juan Maldonado trata de convencer os índios a entregar o ouro.
Promete e garante bom tratamento.
Ameaça com rigores e castigos.
Tranca uns quantos na prisão.
A outros aplica cepo e dá tormento.
Outros faz subir as escadas do patíbulo.
E não adianta.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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