04/03/2019

O projeto Gilgamesh

De todos os problemas visivelmente insolúveis da humanidade, um continuou sendo o mais intrigante, interessante e importante: o problema da morte propriamente dita. Antes do fim da era moderna, a maioria das religiões e ideologias aceitava que a morte era nosso destino inevitável. Além disso, a maioria dos credos fazia da morte a principal fonte de significado em vida. Tente imaginar o islamismo, o cristianismo ou a antiga religião egípcia em um mundo sem morte. Esses credos ensinavam às pessoas que elas deviam acertar as contas com a morte e apostar suas fichas na vida após a morte, em vez de procurar superá-la e viver para sempre aqui na Terra. As mentes mais brilhantes estavam ocupadas dando significado à morte, e não tentando fugir dela.
Esse é o tema do mito mais antigo a chegar até nós – o mito de Gilgamesh, da antiga Suméria. Seu herói é o homem mais forte e mais capaz em todo o mundo, o rei Gilgamesh de Uruk, que poderia vencer qualquer batalha. Um dia, o melhor amigo de Gilgamesh, Enkidu, morreu. Gilgamesh se sentou ao lado do corpo e o observou por muitos dias, até que viu um verme saindo da narina do amigo. Nesse momento, Gilgamesh foi tomado por um grande horror e decidiu que jamais morreria. De algum modo, ele encontraria uma forma de derrotar a morte. Então Gilgamesh empreendeu uma jornada até o fim do universo, matando leões, enfrentando homens-escorpiões e encontrando seu caminho até o submundo. Lá, ele destruiu as misteriosas “coisas de pedra” de Urshanabi, o balseiro do rio dos mortos, e encontrou Utnapishtim, o último sobrevivente da inundação primordial. Mas Gilgamesh fracassou em sua busca. Ele voltou para casa de mãos vazias, mortal como sempre, mas com um novo conhecimento. Gilgamesh aprendeu que, quando criaram o homem, os deuses estipularam que a morte é seu destino inevitável e que o homem precisa aprender a conviver com isso.
Os discípulos do progresso não partilham dessa atitude derrotista. Para os homens da ciência, a morte não é um destino inevitável, mas meramente um problema técnico. As pessoas morrem não porque os deuses o decretaram, mas em decorrência de uma série de falhas técnicas: um ataque do coração, um câncer, uma infecção. E cada problema técnico tem uma solução técnica. Se o coração palpita, pode ser estimulado por um marca-passo ou substituído por um coração novo. Se o câncer se espalha, pode ser destruído com medicamentos ou radiação. Se bactérias se proliferam, podem ser controladas com antibióticos. É verdade, hoje não somos capazes de resolver todos os problemas técnicos. Mas estamos trabalhando para isso. Nossas mentes mais brilhantes não estão desperdiçando tempo tentando dar significado à morte. Em vez disso, estão ocupadas investigando os sistemas fisiológico, hormonal e genético responsáveis pelas doenças e pela velhice. Estão desenvolvendo novos medicamentos, tratamentos revolucionários e órgãos artificiais que prolongarão nossa vida e, talvez, um dia vencerão a própria Morte.
Até recentemente, você não teria escutado cientistas, ou qualquer outra pessoa, falando de maneira tão direta. “Derrotar a morte?! Que absurdo! Só estamos tentando curar o câncer, a tuberculose e a doença de Alzheimer”, insistiam. As pessoas evitavam a questão da morte porque o objetivo parecia demasiado ilusório. Por que criar expectativas pouco razoáveis? Agora, no entanto, estamos em um ponto em que podemos ser francos a esse respeito. O principal projeto da Revolução Científica é dar à humanidade a vida eterna.

Mesmo que derrotar a morte pareça um objetivo distante, já alcançamos coisas que eram inconcebíveis há alguns séculos. Em 1199, o rei Ricardo Coração de Leão foi atingido por uma flecha em seu ombro esquerdo. Hoje diríamos que sofreu um ferimento sem importância. Mas, em 1199, na ausência de antibióticos e métodos de esterilização eficazes, essa pequena ferida se infectou e a gangrena se instalou. No século XII, a única maneira de impedir que a gangrena se instalasse era amputar o membro infectado, algo impossível quando a infecção era em um ombro. A gangrena se espalhou pelo corpo do rei e ninguém pôde ajudá-lo. Ele morreu agonizando duas semanas depois.
Mesmo no século XIX, os melhores médicos ainda não sabiam como evitar a infecção e impedir a putrefação de tecidos. Nos hospitais dos campos de batalha, os médicos rotineiramente amputavam mãos e pernas de soldados que eram vítimas até mesmo de ferimentos menores, temendo a gangrena. Essas amputações, bem como todos os outros procedimentos médicos (como a extração de um dente), eram feitas sem anestesia. A primeira anestesia – éter, clorofórmio e morfina – só passou a ser usada regularmente na medicina ocidental em meados do século XIX. Antes do advento do clorofórmio, era preciso que quatro soldados segurassem um companheiro ferido enquanto o médico amputava o membro atingido. Na manhã após a batalha de Waterloo (1815), viam-se montes de mãos e pernas amputados ao lado dos hospitais nos campos de batalha. Naqueles dias, carpinteiros e açougueiros que se alistavam no exército muitas vezes eram enviados para servir no batalhão médico, porque a cirurgia requeria pouco mais do que saber usar serras e facas.
Nos dois séculos que se passaram desde Waterloo, as coisas mudaram completamente. Comprimidos, injeções e operações sofisticadas nos salvam de uma enxurrada de doenças e ferimentos que um dia significaram uma inevitável sentença de morte. Também nos protegem de inúmeras dores e males cotidianos que os indivíduos pré-modernos simplesmente aceitavam como parte da vida. A expectativa de vida média saltou de 25-40 anos para 67 no mundo inteiro e para cerca de 80 anos nos países desenvolvidos.
A morte sofreu seus piores golpes na arena da mortalidade infantil. Até o século XX, entre um quarto e um terço das crianças das sociedades agrícolas jamais chegavam à vida adulta. A maioria delas sucumbia a doenças infantis como difteria, rubéola e varíola. Na Inglaterra do século XVII, 150 de cada mil recém-nascidos morriam no primeiro ano de vida, e um terço de todas as crianças morriam antes de completar 15 anos. Hoje, apenas cinco de cada mil bebês ingleses morrem no primeiro ano de vida, e apenas sete de cada mil morrem antes de completar 15 anos.
Podemos entender melhor o impacto desses números deixando de lado as estatísticas e contando algumas histórias. Um bom exemplo é a família do rei Eduardo I da Inglaterra (1237-1307) e sua esposa, a rainha Leonor (1241-1290). Seus filhos desfrutavam das melhores condições e viviam no ambiente mais próspero possível da Europa medieval. Viviam em palácios, comiam o quanto quisessem, tinham inúmeras roupas quentes, lareiras bem abastecidas, a água mais pura disponível, um exército de servos e os melhores médicos. As fontes mencionam 16 filhos que a rainha Leonor deu à luz entre 1255 e 1284:

1. uma filha sem nome, nascida em 1255, morreu durante o nascimento;
2. uma filha, Catarina, morreu com 1 ou 3 anos;
3. uma filha, Joana, morreu com 6 meses;
4. um filho, João, morreu com 5 anos;
5. um filho, Henrique, morreu com 6 anos;
6. uma filha, Leonor, morreu com 29 anos;
7. uma filha anônima morreu com 5 meses;
8. uma filha, Joana, morreu com 35 anos;
9. um filho, Afonso, morreu com 10 anos;
10. uma filha, Margarida, morreu com 58 anos;
11. uma filha, Berengária, morreu com 2 anos;
12. uma filha sem nome morreu logo após o nascimento;
13. uma filha, Maria, morreu com 53 anos;
14. um filho sem nome morreu logo após o nascimento;
15. uma filha, Isabel, morreu com 34 anos;
16. um filho, Eduardo.

O mais jovem, Eduardo, foi o primeiro dos garotos a sobreviver aos anos perigosos da infância e, quando seu pai morreu, ele subiu ao trono inglês como rei Eduardo II. Em outras palavras, Leonor fez 16 tentativas até cumprir a missão mais fundamental de uma rainha inglesa: proporcionar um herdeiro ao marido. A mãe de Eduardo II deve ter sido uma mulher de paciência e fortaleza excepcionais. Já não se pode dizer o mesmo da mulher que Eduardo escolheu como esposa, Isabela da França. Ela mandou assassiná-lo quando ele tinha 43 anos.
Até onde sabemos, Leonor e Eduardo I eram um casal saudável e não transmitiram nenhuma doença hereditária fatal a seus filhos. No entanto, 10 dos 16 – 62% – morreram durante a infância. Apenas 6 conseguiram viver além dos 11 anos, e apenas três – meros 18% – viveram mais de 40. Além desses nascimentos, Leonor provavelmente teve uma série de gestações que terminaram em aborto. Em média, Eduardo e Leonor perderam um filho a cada três anos, dez filhos um após outro. Nos dias de hoje, é quase impossível para um pai conceber tal perda.
Quanto tempo tardará o Projeto Gilgamesh? Cem anos? Quinhentos anos? Mil anos? Quando lembramos o pouco que sabíamos sobre o corpo humano em 1900 e quanto conhecimento adquirimos em um único século, há motivo para otimismo. Engenheiros genéticos recentemente prolongaram em seis vezes a expectativa de vida média dos vermes Caenorhabditis elegans. Por que não fazer o mesmo pelo Homo sapiens? Especialistas em nanotecnologia estão desenvolvendo um sistema imunológico biônico composto de milhões de nanorobôs, que habitariam nossos corpos, abririam vasos sanguíneos obstruídos, combateriam vírus e bactérias, eliminariam células cancerosas e até mesmo reverteriam processos de envelhecimento. Alguns pesquisadores sérios sugerem que, por volta de 2050, alguns humanos terão se tornados amortais (não imortais, porque ainda poderiam morrer em decorrência de algum acidente, mas amortais, o que significaria que, na ausência de um trauma fatal, suas vidas poderiam ser indefinidamente extendidas).
Independentemente de o Projeto Gilgamesh vir a se concretizar ou não, de uma perspectiva histórica é fascinante ver que a maioria das religiões e ideologias do fim da era moderna já tiraram a morte e a vida após a morte da equação. Até o fim do século XVIII, a maioria das religiões concebia a morte e o que vem depois dela como fundamentais para o significado da vida. Começando no século XVIII, religiões e ideologias como o liberalismo, o socialismo e o feminismo perderam todo o interesse na vida após a morte. O que, exatamente, acontece com um comunista depois que morre? O que acontece com um capitalista? O que acontece com uma feminista? Não faz sentido procurar a resposta nos escritos de Marx, Adam Smith ou Simone de Beauvoir. A única ideologia moderna que ainda reserva um papel central à morte é o nacionalismo. Em seus momentos mais poéticos e desesperados, o nacionalismo promete que os que morrerem pela nação viverão para sempre na memória coletiva. Mas essa promessa é tão difusa que nem mesmo os mais nacionalistas sabem o que pensar dela.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

O traço sarcástico do iraniano Mana Neyestani


Para buchos e neurônios

Por que não agilizar aquela minha ideia do Esquadrão Geriátrico de Extermínio, o muy conocido EGE, muy conocido em mi casa, velhinhas contundentes com suas bengalas em ponta de estilete, estilete lambuzado de curare, e iríamos lá no Congresso, e faríamos parcas perguntas antes de espetar-lhes a bunda: então não se lembra da compra de uma fazenda de um milhão e seiscentos mil dólares? Não lembra mesmo, negão? E aí, a espetada fatal na gorda ilharga. E o senhor, seu dotô, não lembra de nada, nem onde a enterrou? E com facas de prata e frigideiras com azeite besuntadas, teríamos miúdos de anões (ao ponto, à marsala, aux fines herbes), meros tostões para a fome da plebe. Por que ao invés de comermos belíssimos faisões, doces rãzinhas, delicados coelhos, não fazemos “o rango do anão”, assim grosso e curto, para o gáudio e a delícia dos glutões? E, se insistirem em várias CPIs, teremos iguanas estocadas até o fim dos dias. E me vem de novo à memória aquele japonês que comeu a amantezinha holandesa, comeu literalmente, e quando saiu do manicômio (ninguém sabe por que saiu), comentou: “Fui mal interpretado”. Nós, os brasileiros, jamais responderíamos assim. Inclusive porque ninguém de bom senso iria nos perguntar o porquê de comermos literalmente os anões. E é sempre um alívio viver sem perguntar. Quando se pergunta, por exemplo, de onde vem o mal, é aquela lengalenga sem fim, e ouvimos bocejantes e abestados o cara espumando seu texto chinfrim. Frente a frente com Deus, serei aquele amontoado de perguntas e já posso lhe ver a língua longa, dourada, e perdigotos azuis roçando-nos com suas diminutas asas. E o trono de fogo, e o telefone celular, ali, telefone de Deus, de todo e de tudo desligado. “Objetos estéticos”, há de me responder como um elegante filósofo requintado. E eu, aos trinta, era tão bela, ingênua e finda — “mas as coisas findas, muito mais que lindas…” (Drummond) —, que me permite pensar também Deus.
Hilda Hilst, in Crônica publicada originalmente no jornal Correio Popular em 1993

Que coisa, não?!

E uma vez os dois foram ao Jardim Zoológico, ela pagando a própria entrada. Teve muito espanto ao ver os bichos. Tinha medo e não os entendia: por que viviam? Mas quando viu a massa compacta, grossa, preta e roliça do rinoceronte que se movia em câmara lenta, teve tanto medo que se mijou toda. O rinoceronte lhe pareceu um erro de Deus, que me perdoe por favor, sim? Mas não pensara em Deus nenhum, era apenas um modo de. Com a graça de alguma divindade Olímpico nada percebeu e ela disse a ele:
Estou molhada porque me sentei no banco molhado. E ele nada percebeu. Ela rezou automaticamente em agradecimento. Não era agradecimento a Deus, só estava repetindo o que aprendera na infância.
A girafa é tão elegante, não é?
Besteira, bicho não é elegante.
Ela teve inveja da girafa que pairava tão longe no ar. Tendo visto que seus comentários sobre bichos não agradavam Olímpico, procurou outro assunto:
Na Rádio Relógio disseram uma palavra que achei meio esquisita: mimetismo.
Olímpico olhou-a desconfiado:
Isso é lá coisa para moça virgem falar? E para que serve saber demais? O Mangue está cheio de raparigas que fizeram perguntas demais.
Mangue é um bairro?
É lugar ruim, só pra homem ir. Você não vai entender mas eu vou lhe dizer uma coisa: ainda se encontra mulher barata. Você me custou pouco, um cafezinho. Não vou gastar mais nada com você, está bem?
Ela pensou: eu não mereço que ele me pague nada porque me mijei.
Depois da chuva do Jardim Zoológico, Olímpico não foi mais o mesmo: desembestara. E sem notar que ele próprio era de poucas palavras como convém a um homem sério, disse-lhe:
Mas puxa vida! Você não abre o bico e nem tem assunto!
Então aflita ela lhe disse:
Olhe, o Imperador Carlos Magno era chamado na terra dele de Carolus! E você sabia que a mosca voa tão depressa que se voasse em linha reta ela ia passar pelo mundo todo em 28 dias?
Isso é mentira!
Não é não, juro pela minha alma pura que aprendi isso na Rádio Relógio!
Pois não acredito.
Quero cair morta neste instante se estou mentindo. Quero que meu pai e minha mãe fiquem no inferno, se estou lhe enganando.
Vai ver que cai mesmo morta. Escuta aqui: você está fingindo que é idiota ou é idiota mesmo?
Não sei bem o que sou, me acho um pouco... de quê? ...Quer dizer não sei bem quem eu sou.
Mas você sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso?
É verdade. Mas não sei o que está dentro do meu nome. Só sei que eu nunca fui importante...
Pois fique sabendo que meu nome ainda será escrito nos jornais e sabido por todo o mundo.
Ela disse para Olímpico:
Sabe que na minha rua tem um galo que canta?
Por que é que você mente tanto?
Juro, quero ver minha mãe cair morta se não é verdade!
Mas sua mãe já não morreu?
Ah, é mesmo... que coisa…
Clarice Lispector, in A hora da estrela

03/03/2019

Um Café Lá em Casa com Benjamim Taubkin e Nelson Faria

A gorjeta é livre

Confesso que sou um constrangido diante do garçom, qualquer garçom. Se for garção, então, é pior. Garçom é uma coisa pouco natural. Uma coisa antiga. Aquele homem ali, de gravatinha, nos servindo. Às vezes com idade bastante para ser nosso pai... É embaraçoso, para ele e para nós. A gorjeta voluntária é uma espécie de taxa-vexame que você paga ao garçom por ainda existir. Um suborno para ele esquecer tudo e você aplacar sua consciência. É como dizer “eu sei, eu mesmo devia me levantar e ir à cozinha buscar meu prato como mamãe me ensinou, sou uma besta, o mundo é injusto, toma aí para uma cervejinha”. Quanto mais servil o garçom, mais você se constrange e maior a gorjeta. É o remorso. Ou a consciência social, que é a mesma coisa.
A gorjeta obrigatória desobriga as duas partes, o garçom de babar no seu pescoço e você de ter remorso. Mas também leva a exageros, como a desatenção completa do garçom pelo mundo em geral e pela sua mesa em particular. Quer dizer, somos pela igualdade universal, o fim do servilismo e a fraternidade entre os homens, mas olha o serviço, pô! E quem nunca teve que passar pelo vexame de atrair a atenção de um garçom que insiste em não olhar para cá? É dos piores momentos da humanidade.
Você levanta o braço para um aceno, o garçom não olha e você tem que improvisar: passa a mão no cabelo, coça a nuca, finge que está espantando uma mosca ou que viu um conhecido lá no fundo. “Oi, tudo certinho?” Tenta outra vez, o garçom continua não olhando, e é outro conhecido que você descobre no restaurante. Até que:
Qual é?
Qual é o que, cavalheiro?
É a terceira vez que você abana para a minha mulher e ela jura que nunca viu você na vida.
Sua mulher? Não, não, por amor de Deus, eu estava espantando uma mosca.
Tou sabendo. Que não aconteça outra vez.
Pode deixar. E me faça um favor. Na volta para a sua mesa, diga ao garçom que preciso falar com ele. É urgente. Espero ele aqui mesmo, mais ou menos a esta hora, com o braço levantado que é para ele me identificar. Diz para ele trazer a nota. A nota. Ele compreenderá.
Pior é quando você chama e ele não ouve. Você tenta o tom jovial — “ó comandante” — depois o falso íntimo — “meu chapinha!” — depois o formal com alguma autoridade — “quer fazer o favor?” — e finalmente a linguagem internacional do “psiu!”. Se tudo falhar, atira um garfo na cabeça dele. Mas tem que pagar a gorjeta, está incluída.
E o maître? O maître é o terror. O maître já foi garçom, já passou por tudo que um garçom passa, e hoje é um ressentido no poder. Trata os garçons como uma subespécie e você como um garçom. Não sei se sou só eu, mas sempre tenho a impressão de que o maître desaprova o meu pedido, o vinho que escolhi, o jeito que pego na faca e o tom dos meus sapatos. E também não está muito entusiasmado com a minha existência.
Mesa para quantos?
Do-dois... Se o senhor não se importar. Mas se preferir, eu vou embora. E desculpe qualquer coisa!
Na primeira vez em que pedi ostras num restaurante em Paris, conta ele só para dizer que já esteve em Paris, encarei o maître pronto para exorcizar de uma vez todos os meus terrores. Se conseguisse enfrentar um maître de Montparnasse, na língua dele (cada vez que eu falo francês, Racine morre mais um pouco), estaria salvo. Olhei o maître nos olhos e disse, a voz firme como a saúde do Pompidou, que estava à morte na ocasião:
Des huîtres.
Monsieur?
Des huîtres — repeti, já pensando em abandonar a ideia, a mesa e a cidade.
Sim, monsieur, mas de qualidade? Que número?
Ele me mostrou o cardápio. Havia 17 categorias diferentes de ostras, e cada categoria tinha vários números, correspondentes ao tamanho.
A claire número 3, evidentemente — disse eu, dando a entender que um bom maître veria na minha cara que eu era um homem de claire número 3.
Mais tarde, consumidas as ostras, ele trouxe uma tigela de prata com água morna e uma rodela de limão. E ficou por perto, na certa antecipando que eu beberia a água em vez de lavar os dedos. Mas não lhe dei esse prazer.
O diabo é que depois disso, em qualquer restaurante do mundo em que entro, noto um brilho de divertido reconhecimento nos olhos do maître. Ah, esse é o tal das ostras em Paris... Uma alucinação, claro. É o terror.
Sempre dou gorjeta para o garçom, apesar do constrangimento. Mas para o maître nunca. Conheço os meus inimigos.
Luís Fernando Veríssimo, in A mesa voadora

Jorge Amado

Arte: Kaleb de Carvalho

Peri, Iracema, a escrava Isaura, o alemão Lenz, o Timbira — como essa gente era complicada e falava difícil! Na floresta bruta ou pelas vizinhanças da senzala, adotavam sintaxe encrencadíssima, ideias e sentimentos que os gringos manifestam nos livros. Todos os heróis, que deliciaram, ou chatearam, nossos pais, eram falsos, contrafeitos, mal traduzidos do francês e pessimamente arrumados numa terra que ninguém estudava convenientemente. Os escritores nacionais viviam no mundo da lua, isto é, viviam aqui na cidade, cavando qualquer coisa na política, na burocracia ou na imprensa, mendigando pistolões e artigos. Ainda há poucos anos era comum ver alguns gesticulando na porta do Garnier, vermelhos, suados, embromadores e famintos de elogios. Esses homens criavam um mundo absurdo, os seus personagens mexiam-se em regiões desconhecidas, porque às vezes os autores se envergonhavam de localizá-los em Santa Rita de Passa Quatro ou Jacaré dos Homens. Ou penetravam o sertão brasileiro, mas um sertão irreal, caluniado, acanalhado. Felizmente Peri, Iracema e os alemães do Sr. Graça Aranha estão mortos. Temos é uma quantidade razoável de sujeitos bem-intencionados que se propuseram examinar cuidadosamente o que se passa nas plantações de cacau, nos engenhos, nas repartições, nas casas de cômodos, nos bordéis, nas favelas, nas cadeias, nos colégios, homens que abandonaram os salões e as florestas de pano pintado, foram ver como se comportavam os trabalhadores do eito, os presos, os retirantes, os vagabundos, os criminosos, as prostitutas, os funcionários públicos e as crianças das escolas. Um desses observadores, e dos melhores, é incontestavelmente Jorge Amado. A sua galeria de tipos, já bem vasta, cada vez mais se enriquece com figuras que ele vai arrancar à vida no Recôncavo e no interior da Bahia. São criaturas admiráveis, definitivamente incorporadas ao nosso minguado patrimônio literário, pretos e mulatos habitantes dos morros e dos saveiros, pequena humanidade que se move numa luz muito forte, Guma, Antonio Balduíno, mestre Manuel, Lívia, Maria Clara, crianças perdidas e malandros, mendigos e contrabandistas, ladrões e macumbeiros, a professora cheia de sonhos indefinidos, a moça de azul que passa a distância, imprecisa e nebulosa, todos mais ou menos resignados, mais ou menos fatalistas, agitando-se às vezes em revoltas bruscas, mas confiantes de ordinário, à espera de um milagre que endireite as coisas. Nada de comum entre essas criaturas e os heróis do romance antigo, convencionais e arbitrários, híbridos de selvagem e cristão, vazios e enfeitados, absolutamente bons ou absolutamente maus. Os mestiços de Jorge Amado não são bons nem maus, ou antes são as duas coisas ao mesmo tempo — e por isso confundem-se com os brasileiros de carne e osso, que são assim mesmo, bebem e jogam, vão à sessão espírita, acreditam em sonhos, conversam putaria e desejam que falem deles nas folhas. É verdade que os nossos amigos do morro do Capa Negro, do cais, da ladeira do Pelourinho ainda não chegaram ao espiritismo e à literatura das revistas, mas aproximam-se disso: amam as macumbas e desejam ser adulados por poetas bisonhos, em folhetos de capa vistosa, que se vendem por um níquel nas feiras. A miséria aqui não nos aparece de punhos cerrados e rangendo dentes: encolhe-se com doçura, espera que as coisas melhorem e acabem por arranjar-se, confia no feitiço, na sorte, na proteção de divindades bárbaras e terríveis. Um sopro de poesia varre todas as imundices, perfuma esse monturo social. O próprio vício tem aparência amável. Uma prostituta sacia o desejo do vagabundo sem dinheiro, a mulata Esmeralda engana o amante inocentemente, alegremente, livre de pecados, um brilho de triunfo nos olhos verdes. Muitos crimes circulam nas páginas do escritor baiano, mas circulam discretamente, sem a carranca trágica do dramalhão, sem o adjetivo campanudo que deforma os atos simples e naturais. Furtos, roubos, contrabandos, navalhas e punhais, brigas em quantidade. Para que dar excessivo relevo a fatos ordinários? A gente lastima. É o diabo. Mas que se há de fazer? Estava escrito. A embarcação bateu na coroa e afundou, um homem nada algum tempo e acaba comido pelo tubarão. Naturalmente a viúva chora, lamenta-se, cobre-se de luto. Mas é isso mesmo, tinha de ser, o que tem de ser tem muita força. Coisa estranha. O mundo que Jorge Amado nos revela é tão nosso que nos espanta. Vivemos nele, sentimos em nós essas forças misteriosas de raças diferentes. E no entretanto como ainda o conhecemos pouco! É que nos esforçamos por saber o que se passa na Europa e percorremos o nosso caminho com os olhos fechados.
Graciliano Ramos, in Garranchos

Sermão do bom ladrão (trecho)

O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que, entre os tais reinos e as covas dos ladrões — a que o santo chama latrocínios — só há uma diferença. E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos: Sublata justitia, quid sunt regna, nisi magna latrocinia? Quia et latrocinia quid sunt, nisi parva regna? É o que disse o outro pirata a Alexandre Magno. Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.
Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos, em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam, que com o que disserem, porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. Mas passemos brevemente à terceira e última suposição, que todas três são necessárias para chegarmos ao ponto.
Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam. O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.
Declarado assim por palavras não minhas, senão de muito bons autores, quão honrados e autorizados sejam os ladrões de que falo, estes são os que disse e digo que levam consigo os reis ao inferno. Que eles fossem lá sós, e o diabo os levasse a eles, seja muito na má hora, pois assim o querem; mas que hajam de levar consigo os reis é uma dor que se não pode sofrer, e por isso nem calar. Mas se os reis tão fora estão de tomar o alheio, que antes eles são os roubados, e os mais roubados de todos, como levam ao inferno consigo estes maus ladrões a estes bons reis? Não por um só, senão por muitos modos, os quais parecem insensíveis e ocultos, e são muito claros e manifestos. O primeiro, porque os reis lhes dão os ofícios e poderes com que roubam; o segundo, porque os reis os conservam neles; o terceiro, porque os reis os adiantam e promovem a outros maiores; e, finalmente, porque, sendo os reis obrigados, sob pena de salvação, a restituir todos estes danos, nem na vida, nem na morte os restituem. E quem diz isto já se sabe que há de ser Santo Tomás. Faz questão Santo Tomás, se a pessoa que não furtou, nem recebeu ou possui coisa alguma do furto, pode ter obrigação de o restituir. E não só resolve que sim, mas, para maior expressão do que vou dizendo, põe o exemplo nos reis. Vai o texto: Tenetur ille restituere, qui non obstat, cum obstare teneatur. Sicut principes, qui tenentur custodire justitiam in terra, si per eorum defectum latrones increscant, ad restitutionem tenentur, quia redditus, quos habent, sunt quasi stipendia ad hoc instituta, ut justitiam conservent in terra: Aquele que tem obrigação de impedir que se não furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição, porquanto as rendas, com que os povos os servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham em justiça. — É tão natural e tão clara esta teologia, que até Agamenão, rei gentio, a conheceu, quando disse: Qui non vetat peccare, cum possit, jubet.
Padre Antônio Vieira, in Sermão do bom ladrão

02/03/2019

Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
Adélia Prado

Schmidt no balé

A leitura de Os melhores poemas de Augusto Frederico Schmidt (Global Editora, seleção de Ivan Marques) me lança de volta a uma imagem que não me abandona. Ao contrário dos que acreditam que a literatura é um espelho, que reflete e reproduz ponto a ponto as coisas do mundo, prefiro pensar que ela é uma lanterna, antiga e inconstante, que, só muito precariamente, derrama um facho de luz sobre o real.
Quanto mais aposto nessa distinção entre o espelho e a lanterna, mais me convenço de que, sem essa lâmpada, talvez não se possa fazer poesia. Leio os poemas de Schmidt e eles, mais uma vez, me levam a encarar a escuridão que cerca os poetas. Define-se, em geral, Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) como um “poeta católico”. Tal simplificação – a troca de uma poética por uma crença – se comete também quando se fala de Adélia Prado. Prefiro pensar como o próprio Schmidt, que definiu a poesia, ao contrário, como “a imagem de um desespero sem forma”. Essa ideia reforça a hipótese da lanterna, turva e imprecisa, que estilhaça a arrogância do espelho.
A claridade explosiva dos dias mata o poema. Isso não significa dizer que a poesia é um universo fechado ou indevassável. Schmidt tinha uma fórmula discreta: “A poesia é simples”. Certa piedade cristã, assim como a noção de que a poesia se abriga no natural e no espontâneo, aí, de fato, se esconde. Simplicidade, sim, mas qual simplicidade? Nunca é demais interrogar as palavras, revirá-las como roupas que já cansamos de usar, mas que, um dia, expostas no varal, revelam um avesso que nos surpreende.
A defesa da simplicidade como condição da poesia abre a “Mensagem aos poetas novos”, que Schmidt publicou em 1950. Ele a apresenta aos jovens como o início de tudo. “A poesia é simples”, o poeta simplesmente diz. Poucas linhas depois, contudo, amplia e corrói essa definição: a poesia é simples porque é “livre e indiferente”. Aqui, Schmidt luta contra os “poetas que sofrem” – aqueles que, dizia Pessoa, fingem a dor que deveras sentem. Afirma: “Simples é o mar, e não soturno/ e curvo como o enfermo poeta”. Mas não é uma saúde fácil a que ele afirma. Tanto que, para chegar a ela, o poeta precisa atravessar – e livrar-se – do desespero. A poesia é o foco precário que o poeta sustenta enquanto faz sua travessia. Nas trevas, agarra-se à luz vacilante de sua lanterna.
Não há piedade, mas indiferença. Não há verdade, mas invenção. Ao fazer a defesa da simplicidade, o severo Augusto Frederico Schmidt lutava contra os restos do Simbolismo que ainda o cercavam e afirmava, ao mesmo tempo, uma visão singular da modernidade. Não a modernidade feérica e rebelde dos modernistas de 1922, cheia de cores, palavras fortes e de holofotes; mas outra, livre “dos tumultos e inúteis agonias”. Sutil feição moderna, cujos traços provinham, Schmidt acreditava, dos restos da infância.
Infância, simplicidade: ainda parece tudo muito idealizado. Melhor recorrer, aqui, ao “Poema de Natal”, de 1958, no qual Schmidt toma o exemplo (novo espelho traiçoeiro) do poeta italiano Giuseppe Ungaretti (1888-1970), com quem ele conviveu nos anos 1930, quando o italiano passou uma temporada em São Paulo. Schmidt observa a figura impassível de Ungaretti não na USP, mas em sua casa da Via Remuria, 3, Roma. “O rosto difícil de florir um sorriso” – um homem trancado em si. A tristeza converte seu semblante em uma máscara, disfarce que, repetindo Pessoa, se transforma no próprio rosto. Não é, porém, uma tristeza refém das circunstâncias, não é um sentimento irremediável; mas os últimos sinais de um esforço que o reconduz “à cidade da infância”.
Novo alerta: não se empolguem, aqui, os defensores da “autenticidade”. Nem Schmidt e tampouco Ungaretti celebravam a infância como um tesouro mágico de “emoções verdadeiras” ou de quaisquer outras relíquias sagradas. Carregar no rosto as sobras da infância é, diz Schmidt, um sinal de quem “possui a sua própria dor a queimar-lhe o peito e a acompanhá-lo”. Não é só possuir a própria dor; mais que possuir, é iluminá-la com o facho sutil de uma lanterna. Qual lanterna? A poesia.
Mais uma vez, os realistas (que deveriam reler com mais atenção as cartas de Flaubert) se apressam a dizer: “Schmidt, poeta da luz”. Sim, de certa forma, como negar? Mas de que luz? Até hoje vivemos com o rosto chamuscado pelos flashes do iluminismo. No mundo contemporâneo, de brilho, transparência e imagens, uma luz feroz nos rói a face. Ela nos empurra e apequena. Schmidt, em vez disso, fala de outra luz, bem mais fraca: “a luz doce da poesia”, como ele a define em um dos poemas de “Fonte invisível”, de 1949.
Ela contrasta com a “sombra da manhã” – em que tudo é claro e luminoso, em que todas as coisas estão em seu devido lugar, mas onde tudo é absolutamente igual. Revela Schmidt que só nas entrelinhas e nas nuances, só nas sombras, um homem chega a ter “o perdão de ser quem é”. Em outras palavras: chega a ser quem é. Existe melhor definição para a poesia senão esse encontro definitivo que um homem tem com sua voz?
Em outro poema, Schmidt compara a luz da poesia à da lua, das estrelas e do céu aceso. Em vez de esfaquear e definir, ela faz uma leve carícia no rosto do observador. Tudo muito breve, quase sem rastos. Quase nada podemos ver. Tudo muito imperfeito e – agora, sim, uso a palavra com mais convicção – “simples”. Por isso, em um poema decisivo como “Ars poética”, ele reclama dos que procuram conceituar a poesia para, com isso, velá-la (matá-la) com a perfeição. Afasta-se, ainda, dos que delimitam “com sinais agudos as fronteiras do domínio poético”. Na poesia, o único gesto claro é o silêncio.
Nenhuma nitidez, nada muito definido. Já Bandeira nos falava da “inutilidade dos esforços” que caracteriza a arte poética. Poesia: o fazer (o movimento) como seu próprio objeto. A indiferença à limpidez das avaliações e dos resultados. Define Schmidt: a poesia “é o grande engano que dança”. O poeta é um dançarino que ronda a realidade. E que, com seus movimentos frágeis, desenha algumas palavras.
José Castello, in Sábados inquietos

Calvin e Haroldo


Desespero

Não há nada mais triste do que o grito de um trem no silêncio noturno. É a queixa de um estranho animal perdido, único sobrevivente de alguma espécie extinta, e que corre, corre, desesperado, noite em fora, como para escapar à sua orfandade e solidão de monstro.
Mário Quintana, in Sapato florido

O abraço da serpente

A notícia da Rádio falava na imprecisa morte de Acubar Aboobacar, encontrado em jeito de total falecimento no vasto cadeirão de sua sala. E assim: pelo aspecto do malogrado suspeita-se que a causa da morte tenha sido mordedura de cobra. Contudo, não foram encontrados nem o animal nem sinais dos dentes no corpo do falecido. A esposa disse à Rádio que Aboobacar vinha denotando um comportamento estranho e lhe dirigia frequentes ameaças. Suspeitava, sem fundamento, de infidelidade conjugal.
Segue-se a composta versão dos factos e personagens, irrepetidamente sempre outros como o rio em que ninguém se banha nenhuma vez.
Mintoninho saiu de casa correndo por verdanias, escancarados capinzais. Ia chamar o pai, Acubar Aboobacar. O menino não queria que sua mãe, vendedeira no bazar, desencontrasse o marido ao regressar a casa. O miúdo se cansara das brigas caseiras que, a cada bebedeira do pai, sempre se recomplicavam.
Naquela tarde, Mintoninho, correnteiro, esperava prevenir desgraça. Ao pisar a estrada, porém, ele estacou. No chão se exibia, arrogante, uma boina azul, dessas. Teria tombado dos carros das Nações Unidas? Seria desses soldados que exercem a exclusiva profissão da Paz e que dão ao mundo mais notícia que sossego? Por momentos, Mintoninho hesitou: se poderia assenhorar do achado, já que ninguém ali presenciava? Ficou com a boina rodando nos indecisos dedos, entre devaneios de sinceros usos e abusos. Depois, optou: iria entregar o chapéu, mais tarde, lá no quartel dos boinistas. Por agora, ele apenas o arrumaria em casa.
E voltou atrás para depositar a azulíssima boina, em pacífico repouso, no armário da entrada. No seguinte, ele redesatou pernas pela estrada. Mas nem precisou de chegar ao bar. O pai já vinha de volta, cambalinhando no passeio, cervejeiro andante. Olhando aquela figura, o menino sentiu saudade do pai que ele tinha sido antes da guerra. Como se fora um órfão e aquele que ia achegando fosse um mero padrasto, passageiro e passeante.
Os dois, pai e filho, se saudaram em partilhados silêncios e caminharam como se não houvesse casa que neste mundo lhes competisse. E foi logo-logo ali na entrada: por cima do armário a boina azul prendeu os espantos do homem.
Quem é isto?
Acubar Aboobacar nem cabia nos universos. A vasta admiração dele sobrava, descomposta, de todos seus nervos. O homem se inacreditava. Podia a mulher, certificada esposa, ter escolhido outros sabores entre os estrangeiros fardados, testemunhas dessa transição da desgraça da guerra para a miséria da paz? Perguntar é vergonha, duvidar é fraqueza. O caso exigia inadiáveis machices, espertezas e concertezas. Sem a luz da dúvida, o ódio cresce melhor. À beira-mágoa, a suspeita tomava a medida do facto. Mintoninho ainda quis explicar ao pai os motivos da boina. Mas nem teve ocasião. O pai deitou as ordens: o garoto que se retirasse, imediato como a estrela-cadente. Fosse para a varanda que os ares estavam escasseando naquele lugar.
Acubar Aboobacar ficou sentado à espera da mulher, boina vinagrando-lhe no colo. Aquele amargo do ciúme lhe crescia no todo corpo como um fermento deixado em forno. Mas era como se lhe soubesse bem a visita daquele outro eu, ele que, antes da guerra, jamais havia cuidado de perder Sulima. O ciúme dá ao homem a sua feminina estatura?
E Acubar, sentado e raso, esperava mais que a esposa a chegada de terríveis presságios. A morte tem sempre onde cair em nós. Boina no colo, ele se socorreu do sono. E assim dormindo lhe foram divulgados os segredos. Lhe vieram imagens de uma cobra gorda, trajada de humanas vestes. Envergava capulana, azulinha cor das Nações e lenço na cabeça. Em lentos talentos, o bicho se chegou a ele e lhe cocegou todo, com sua língua bífida. A cobra é bilingue para mostrar que todo o animal esconde sempre outra criatura. E o ofídio reptou por suas pernas, se enroscou na cintura e se zaragatinhou pelo peito. Quando lhe chegou ao pescoço Acubar ouviu os olhos dela: eram os de Sulima, sem falta nem acréscimo. Eram olhos terrestres, poeirados, descalços. Nele se fixavam como o ópio olha o pulmão. Então, a cobra falou-lhe:
Será assim, presos um em outro, será assim que vamos viver em diante.
Acubar sentiu o ar exilar-se do peito. Encerrado como um parágrafo, ainda pensou em gritar, chamar o socorro. Mas lhe veio a lembrança, em reminisciência. O avesso da vida não é a morte mas uma outra dimensão da existência. A serpente, diz-se, nasceu junto com a alma humana. Sim, a cobra é feita de enganos tal igual a mulher. As garras de uma estão na boca da outra. Sulima lhe estava ali convidando para entrar dentro dele.
Cada homem tem suas paixões viscerando-lhe dentro. Eu entrarei em ti para que não haja despedida, carne em carne.
Acubar abriu a boca, mandibularmente. Fosse pelo apelo da serpente, fosse pela asfixia que começava a lhe apertar. Despertou, transpirado, transpálido. Ele sempre dizia: quando eu morrer há-de ser só para dar saudade nos ausentes. E agora, ao sentir-se desfalecer chamou pelo filho, o mais presente desses ausentes. Filho, estou a começar a desviver. Sofro de um frio que me está vir de dentro. Parece é um bicho lagarteando a minha barriga, malvoraçando-me os sangues, nem sei se sonhei se é coisa que realmente me sucede. Mintoninho fez atenção em lhe cobrir. O pai negou:
Deixe. Meu lençol é a cerveja.
Então, o miúdo viu o pai transitando de derme para epiderme, lhe aparecendo visíveis umas escamas verdes-esverdeadas. Parecia que outro ser, monstriforme, roubava o desenho do seu velho. Mesmo a voz se irreconhecia:
Já nem me tenho para a frente, filho. Foi a cobra que matou-me.
A cobra? Onde?
Me mordeu por dentro. Me entrou aqui.
O menino, primeiro, acreditou ser fingimento de bebedeira. Mas, depois, em face das novas aparências do pai ele se afligiu. Quis partir em socorro. Mas o braço paterno lhe impediu.
Deixa filho: ferida da boca se cura com a própria saliva. E estou me curando é da vida, dessa vida que não soube gostar como era devido.
Dizem foi nesse instante que ele terminou, encolhido e tão miúdo que o filho o tomou pela primeira vez num inteiro abraço. A mãe encontrou os dois assim estatuados em lembrança. Estranho foi que ela, mal entendeu a visão, em apressado gesto retirou a boina azul do colo do marido. Depois, amarfanhou-a disfarçadamente em sua bolsa. Dizem.
Mia Couto, in Estórias abensonhadas

O Silêncio das Estrelas - Lenine

01/03/2019

Sem acessórios nem som

Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato.
Armando Freitas Filho

Minha lei

Nenhum segue mais leis que as da conveniência própria. Imaginar o contrário é querer emendar o mundo, negar a experiência e esperar impossíveis.”
Padre Antônio Vieira

Sobre a criança na velhice

Um amigo que está sofrendo a tristeza de ir ficando velho me escreveu e fez esta pergunta: “O que fazer para permanecer jovem? O que fazer para, na velhice, continuar a ter o desejo de viver?”. Acho que essa é pergunta mais dolorosa que fazem aqueles que se veem envelhecer. É o tema do filme Morte em Veneza, baseado no livro de Thomas Mann: um homem maduro, na fronteira da velhice – seus bigodes já estão grisalhos e as rugas marcam o seu rosto –, num hotel de Veneza, vê um jovem adolescente que brinca na praia. Aquela imagem de juventude se apodera dele com uma força insuportável. A imagem do jovem o atormenta e ele dele se enamora. Não tem nada a ver com homossexualidade. Não é isso que está em jogo. Na imagem do jovem ele vê a sua própria juventude perdida. O espelho é um sofrimento. Especialmente quando o espelho são os olhos de uma jovem que se levanta e, com um sorriso, nos oferece o seu lugar no metrô... Continuar a ser jovem sendo velho? Eu acho isso é possível. O apóstolo Paulo, sentindo a mesma coisa, disse: “Embora o nosso homem exterior se corrompa, o nosso homem interior se renova dia a dia”. Claro, há coisas que são perdidas, definitivamente. A pele, por exemplo: as rugas, a flacidez, a secura. Mas, com a perda, há ganhos. Na juventude, a pele é a face exterior da musculatura. Ela nada revela, a não ser os músculos. Na velhice, a pele deixa de ser a superfície exterior dos músculos e passa a ser a superfície exterior da alma. Os músculos podem ser obstáculos à manifestação da alma. Na velhice, a pele é o meio através do qual a alma se torna visível. Especialmente o rosto. Livre das intermediações da musculatura, a alma pode então realizar sua função artística de esculpir o rosto. Ela aparece no rosto. Acontece, então, a ocasião para que se realize o prometido pelo evangelista João: “... e o Poema se faz carne”. Tudo, então, vai depender dos poemas que estão guardados na alma. Pois a alma é apenas isso: o lugar onde os poemas estão guardados. E o rosto vai então revelar uma beleza que a juventude não deixava ver. Ou, quem sabe, o inverso, uma feiura que a juventude não deixava ver. Velhice é o tempo da verdade da alma. Os velhos terão rosto de criança se a criança eterna continuar viva dentro deles. E a criança, como disse Zaratustra, é “inocência e esquecimento, um novo início, uma brincadeira, um moto­-contínuo, um primeiro movimento, um ‘Sim’ sagrado...” . As crianças jamais desejam ser aposentadas de ser crianças. O terrível e mortal é quando o homem se aposenta. Não estou me referindo simplesmente ao momento em que não é mais necessário comparecer ao trabalho. Estou me referindo àquele momento quando um homem ou uma mulher atracam o seu barco e se entregam à tola ilusão de, finalmente, ter paz. Mas paz, precisamente, é o que a alma não deseja. A alma deseja o perigo, o desconhecido. A alma é uma águia que ama as alturas, as montanhas geladas, o mar desconhecido, os abismos. A alma é guerreira: “Pugno, ergo sum” – luto, logo existo. É preciso que haja sempre uma batalha a ser travada. A paz desejada (o sonho do “Sítio do Vovô”) logo se transforma num charco de água parada. A segurança é a mãe do tédio. E no tédio as serpentes chocam seus ovos. “Homens velhos devem ser exploradores, não importa onde... Temos de estar sempre nos movendo na direção de uma nova intensidade, de uma união mais alta, de uma comunhão mais profunda... Nos movendo através de uma desolação escura, fria e vazia: o grito das ondas, o grito do vento, as águas imensas das gaivotas e dos golfinhos: no meu fim está o meu início” (T. S. Eliot). Nikos Kazantzakis é um autor que precisa ser lido. Dentre todos os seus livros, todos eles maravilhosos, o que fala mais perto do meu coração é Zorba, o Grego ... Quem viu só o filme nada viu. Tentei ver o filme, pensando que seria igual ao livro, e não consegui chegar ao fim. Acontece que há certas sutilezas na escrita que não podem ser transformadas em imagens. Está relatado que Zorba, velho e doente, ao ver que a morte já estava dentro do seu quarto, levantou-se da cama, foi até a janela, e por longos minutos contemplou com sorriso e silêncio os cenários que se abriam à sua frente, o mundo maravilhoso, ao fundo as montanhas. De repente, pôs-se a relinchar como um cavalo, agarrou-se à janela e disse: “Um homem como eu deveria viver mil anos!”. Ditas essas palavras ele caiu morto... Zorba morreu criança.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

Street Art: Mural Bob Dylan, de Eduardo Kobra, em Minneapolis, Estados Unidos



Imagens da selva

Mergulhado nessas lembranças, desperto subitamente com o ruído do mar. Escrevo na Isla Negra, na costa, perto de Valparaíso. Acalmaram-se há pouco os grandes vendavais que açoitavam o litoral. O oceano - que, mais do que eu o olho de minha janela, me olha a mim com seus mil olhos de espuma - conserva ainda no marulhar a persistência terrível da tempestade.
Anos distantes! Reconstituí-los é como se o som das ondas que agora escuto entrasse intermitentemente dentro de mim, às vezes embalando-me para dormir, outras vezes com a brusca cintilação de uma espada. Recolherei essas imagens sem cronologia, tal como estas ondas que vão e vêm.
1929, de noite. Vejo a multidão agrupada na rua. É uma festa muçulmana. Prepararam uma vala comprida no meio da rua e rechearam-na de brasas. Aproximo-me. O vigor das brasas que foram se acumulando sob uma camada levíssima de cinza, sobre a faixa escarlate do fogo vivo, escalda meu rosto. Logo aparece um personagem estranho. Com o rosto tisnado de branco e vermelho vem sobre os ombros de quatro homens vestidos também de vermelho. Quando o descem, começa a andar cambaleante sobre as brasas, gritando enquanto caminha:
- Má! Má!
A multidão imensa devora atônita a cena. O mago já percorreu incólume a comprida faixa de brasas. Um homem então se separa da multidão, tira as sandálias e faz com os pés descalços o mesmo percurso. Interminavelmente vão se apresentando voluntários. Alguns se detêm na metade da trincheira para afundar os calcanhares no fogo ao grito de Má! Má!, uivando com gestos horríveis, desviando o olhar para o céu. Outros passam com crianças nos braços. Ninguém se queima ou talvez se queimem e ninguém sabe.
Junto ao rio sagrado eleva-se o templo de Khali, a deusa da morte. Entramos misturados a centenas de peregrinos que chegaram dos confins da província hindu para pedir sua bênção. Atemorizados, maltrapilhos, são empurrados pelos brâmanes que a cada passo cobram tributos por alguma coisa. Os brâmanes levantam um dos sete véus da deusa execrável e, quando o levantam, soa um golpe de gongo que parece desabar o mundo. Os peregrinos caem de joelhos, saúdam de mãos postas, tocam o chão com a testa e continuam andando até o próximo véu. Os sacerdotes fazem-nos convergir para um pátio onde decapitam bodes com uma única machadada e cobram novos tributos. Os balidos dos animais feridos são afogados pelos golpes do gongo. As paredes de cal suja são salpicadas de sangue até o teto. A deusa é uma imagem de face escura e olhos brancos. Uma língua escarlate de dois metros desce de sua boca até o chão. De suas orelhas e de seu pescoço pendem colares de crânios e emblemas da morte. Os peregrinos dão suas últimas moedas antes de serem empurrados para a rua.
Os poetas que me rodeavam para dizer suas canções e seus versos eram muito diferentes daqueles peregrinos submissos. Acompanhando-se com seus tamborins, vestidos com suas talares roupas brancas, sentados de cócoras sobre a relva, cada um deles lançava um grito rouco e entrecortado, e de seus lábios saía uma canção que tinham composto com a mesma forma e métrica das canções antigas e milenares. Mas o sentido das canções tinha mudado. Não eram canções de sensualidade, de gozo, mas canções de protesto, canções contra a fome, canções escritas nas prisões. Muitos destes jovens poetas que encontrei ao longo da Índia e cujos olhares sombrios não poderei esquecer, acabavam de sair da prisão e iam voltar para dentro de seus muros talvez amanhã. Porque eles pretendiam sublevar-se contra a miséria e contra os deuses. Esta é a época que nos foi reservada para viver. E este é o século de ouro da poesia universal. Enquanto os novos cânticos são perseguidos, um milhão de homens dormem noite após noite nas estradas, nos arredores de Bombaim. Dormem, nascem e morrem. Não há casas nem pão, nem medicamentos. Foi assim que a Inglaterra, civilizada e orgulhosa, deixou o seu império colonial. Despediu-se de seus antigos súditos sem deixar-lhes escolas nem indústrias, nem habitações, nem hospitais, mas somente prisões e montes de garrafas de uísque vazias.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

1919

Com a Revolução Russa, Mayer Guinzburg ficou ainda mais revoltado — continua Avram. — Acordava à noite gritando: “Às barricadas!” Não me chamava de Avram, mas sim Companheiro Irmão; e dizia: o que é meu é teu, o que é teu é meu — não há mais propriedade privada. Resolveu que usaríamos até a mesma escova de dentes, e, de fato, jogou fora a sua. Eu não quis contrariá-lo, mas deixei de escovar os dentes: tive muitas cáries por causa disto. Estas coisas todas faziam nosso pai sofrer muito. Nosso pai queria que Mayer fosse rabino; à noite colocava diante do filho os livros sagrados. Mayer abria-os de má vontade. Nosso pai incentivava-o com sábias palavras: — Estuda, filho, estuda. Lembra-te que Rabi Iochanan ben Zacai dizia: “ Foste criado para estudar a Torá.
Tonto de sono, Mayer respondia: — Mas Simeon, filho de Rabi Gamaliel, dizia: “ “Passei a vida entre sábios e nada achei de melhor do que o silêncio. O essencial não é estudar, é fazer”.
Mayer queria espicaçar; mas nosso pai não percebia; ao contrário, encantava-se com a polêmica: — Simeon? Era inexperiente. Rabi Gamaliel, seu pai, sabia o que estava dizendo quando recomendou: “Procure um mestre”.. Eu sou o teu mestre, meu filho.
Na Guemara — contestava o perverso Mayer — está escrito: “Se o discípulo percebe que seu mestre erra, deve corrigi-lo”.
A testa de nosso pai vincava-se: — Em que estou errado, meu filho? — Em me obrigar a estudar estas bobagens — gritava Mayer — quando estou louco de sono! É um absurdo! — Na Guemara está escrito: — respondia nosso pai docemente — “Se um grande homem disser uma coisa que te pareça absurdo, não rias; tenta entendê-lo”. Eu também estou com sono; e se fico aqui contigo é porque Rabi Hananiá ben Teradion dizia: “Quando dois homens se reúnem para discutir a Torá o Santo Espírito paira sobre eles”. Estamos com fome, é certo. Mas o que importa? Está escrito: “Eis como vive o estudioso: come uma côdea de pão com sal; bebe água moderadamente; dorme no chão; suporta privações”. A maior riqueza é o estudo, a religião.
Não! — gritava Mayer. — A maior riqueza é a posse dos meios de produção, estás ouvindo? Estudo, religião! É bem como diz Marx: a religião é o ópio dos povos! — Quem é este Marx? — perguntava nosso pai, espantado. — E o que ele sabe da felicidade dos homens? — Sabe tudo! Sabe que não deve haver fome, nem injustiça. Não deve haver “meu” nem “teu”; deve ser: “O que é meu é teu; o que é teu, é meu”.
Nosso pai abanava tristemente a cabeça.
Na Mishná está escrito que há quatro tipos de homens: o vulgar diz: “O que é meu é meu; o que é teu é teu”; o perverso diz: “O que é meu é meu; e o que é teu também é meu”. Quanto a mim, prefiro as palavras do homem santo, que diz: “O que é meu é teu; e o que é teu é teu”. Mas tu, meu filho, dizes: “O que é meu é teu; e o que é teu é meu”. E isto, segundo a Mishná, são as palavras do excêntrico, do estranho entre os homens. Acho que vais sofrer muito, filho.
Nosso pai tinha razão. Fez o que pôde para salvar Mayer Guinzburg, o Capitão Birobidjan. Se não conseguiu, não foi culpa sua.
Eu era mais velho do que Mayer e mais ajuizado. Eu era bom filho. Eu casei cedo. Eu dei a meus pais muitos netos, todos inteligentes (Mayer — sempre desprezou seus sobrinhos). Mas Mayer Guinzburg... “O que é meu é teu, e o que é teu é meu.”
Um excêntrico.
Moacyr Scliar, in O exército de um homem só