05/05/2019

22/11/91 - 00:26

Bem, meu 71º ano foi um ano muito produtivo. Provavelmente escrevi mais palavras este ano do que em qualquer ano da minha vida. E, apesar de um escritor ser um mau juiz do seu próprio trabalho, ainda tenho a tendência de acreditar que estou escrevendo melhor do que antes – quero dizer, tão bem quanto nos meus períodos de auge. Este computador, que comecei a usar em 18 de janeiro, tem muito a ver com isso. Simplesmente é mais fácil escrever, a palavra é transferida mais rápido do cérebro (ou de onde quer que venha) aos dedos e dos dedos ao monitor, onde fica visível imediatamente – nítida e clara. Não é uma questão de velocidade em si, é uma questão de fluxo, um rio de palavras e, se as palavras forem boas, deixe que elas fluam com facilidade. Chega de carbonos, chega de reescrever. Antes, eu precisava de uma noite para escrever e a noite seguinte para corrigir os erros e a bagunça da noite anterior. Erros de ortografia, de tempos verbais etc. podem agora ser todos corrigidos na cópia original sem ter que datilografar tudo de novo, escrever por cima ou rasurar. Ninguém gosta de ler uma cópia rabiscada, nem mesmo o escritor. Sei que tudo isso pode parecer frescura e excesso de zelo, mas não é, tudo o que faz é deixar que a força ou sorte que você possa ter criado surja claramente. É para seu bem, realmente, e se é assim que você perde sua alma, sou totalmente a favor.
Houve alguns momentos ruins. Lembro de uma noite, depois de escrever por umas quatro horas, que achei que tinha tido uma sorte incrível quando – bati em alguma coisa – houve uma descarga de luz azul e as várias páginas que tinha escrito desapareceram. Tentei de tudo para trazê-las de volta. Simplesmente desapareceram. Sim, eu tinha posto em “Salvar tudo”, mas não fez diferença. Isto já tinha acontecido outras vezes, mas não com tantas páginas. Vou te contar, foi a mais terrível das sensações quando as páginas desapareceram. Pensando bem, já perdi três ou quatro páginas da minha novela outras vezes. Um capítulo inteiro. O que fiz foi simplesmente escrever tudo de novo. Quando você faz isso, você perde alguma coisa, pequenos detalhes não voltam, mas você também ganha alguma coisa, porque quando você reescreve você deixa de fora partes de que não gostou muito e acrescenta partes que são melhores. E daí? Bem, daí é que é uma longa noite. Os passarinhos já acordaram. Minha mulher e os gatos acham que fiquei louco.
Consultei alguns especialistas sobre a “luz azul”, mas nenhum conseguiu me dizer nada. Descobri que a maioria dos experts em computador não são muito espertos. Acontecem coisas confusas que não estão nos livros. Acho que sei uma coisa que poderia ter recuperado o trabalho depois da “luz azul”...
A pior noite foi quando sentei no computador e ele ficou completamente maluco, mandando bombas, sons estranhos e altos, momentos de escuridão, treva mortal, tentei, tentei e não consegui fazer nada. Daí, reparei no que parecia ser um líquido que tinha endurecido sobre a tela e ao redor da abertura perto do “cérebro”, a abertura onde se colocam os disquetes. Um dos meus gatos tinha mijado no computador. Tive que levar para a loja de computadores. O mecânico tinha saído e quando um vendedor retirou uma parte do “cérebro” um líquido amarelo espirrou sobre a sua camisa branca e ele gritou “mijo de gato!”. Coitado. Coitado. De qualquer forma, deixei o computador. A garantia não cobria nenhum dano por mijo de gato. Tiveram que tirar, praticamente, todas as entranhas do “cérebro”. Levaram oito dias para consertá-lo. Durante este período, voltei à minha máquina de escrever. Era como tentar quebrar pedras com as mãos. Tive que aprender a datilografar de novo. Tinha que ficar bêbado para conseguir que as palavras fluíssem. E, mais uma vez, era uma noite para escrever e outra para arrumar. Mas ainda bem que a máquina estava lá. Ficamos juntos por mais de cinco décadas e tivemos ótimos momentos. Quando peguei o computador de volta, foi com certa tristeza que recoloquei a velha máquina no seu canto. Mas voltei ao computador e as palavras voaram como pássaros enlouquecidos. E não houve mais nenhuma luz azul e palavras que desapareciam. Estava ainda melhor. O gato ter mijado no computador arrumou tudo. Só que agora, quando saio do computador, cubro-o com uma grande toalha de praia e fecho a porta.
Sim, esse tem sido meu ano mais produtivo. O vinho fica melhor se for envelhecido adequadamente.
Não estou competindo com ninguém, não tenho ilusões com a imortalidade, não estou nem aí pra ela. É a AÇÃO enquanto você está vivo. Os partidores se abrindo na luz do sol, os cavalos mergulhando na luz, todos os jóqueis, bravos e pequenos diabos em sua seda brilhante, indo fundo, fazendo acontecer. A glória é o movimento e a audácia. Que a morte se foda. É hoje e hoje e hoje. Sim.
Charles Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio

Calvin e Haroldo


O começo da literatura europeia

Coleman passara quase toda a sua carreira acadêmica na Athena; homem extrovertido, arguto, urbano, terrivelmente sedutor, com um toque de guerreiro e charlatão, em nada se parecia com a figura pedante do professor de latim e grego (assim, por exemplo, quando ainda era um jovem instrutor, cometeu a heresia de criar um clube de conversação em grego e latim). Seu venerável curso introdutório de literatura grega clássica em tradução — conhecido pela sigla DHM, ou seja, deuses, heróis e mitos — era popular entre os alunos precisamente por tudo o que havia nele de direito, franco, enfático e pouco acadêmico. ‘Vocês sabem como começa a literatura europeia?’, perguntava ele, após fazer a chamada na primeira aula. ‘Com uma briga. Toda a literatura europeia nasce de uma briga.’ Então pegava sua Ilíada e lia para os alunos os primeiros versos.’ ‘Musa divina, canta a cólera desastrosa de Aquiles... Começa com o motivo do conflito entre os dois, Agamenon, rei dos homens, e o grande Aquiles’, E por que é que eles estão brigando, esses dois grandes espíritos violentos e poderosos? Por um motivo tão simples quanto qualquer briga de botequim. Estão brigando por causa de uma mulher. Uma menina, na verdade. Uma menina roubada do pai. Capturada numa guerra. Ora, Agamenon gosta muito mais dessa menina do que de sua esposa, Clitemnestra. ‘Clitemnestra não é tão boa quanto ela’, diz ele, ‘nem de rosto, nem de corpo’. É uma explicação bastante direta do motivo pelo qual ele não quer abrir mão da tal moça, não é? Quando Aquiles exige que Agamenon a devolva ao pai a fim de apaziguar Apolo, o deus cuja ira assassina foi despertada pelas circunstâncias em que a moça fora raptada, Agamenon se recusa: diz que só abre mão da namorada se Aquiles lhe der a dele em troca. Com isso, Aquiles fica ainda mais enfurecido. Aquiles, o adrenalina: o sujeito mais inflamável e explosivo de todos os que já foram imaginados pelos escritores; especialmente quando seu prestígio e seu apetite estão em jogo, ele é a máquina de matar mais hipersensível da história da guerra. Aquiles, o célebre: apartado e alijado por causa de uma ofensa à sua honra. Aquiles, o grande herói, tão enraivecido por um insulto — o insulto de não poder ficar com a garota — acaba se isolando e se excluindo, numa atitude desafiadora, da sociedade que precisa muitíssimo dele, pois ele é justamente seu glorioso protetor. Assim, uma briga, uma briga brutal por causa de uma menina, de seu corpo jovem e das delícias da rapacidade sexual: é assim, nessa ofensa ao direito fálico, à dignidade fálica, de um poderosíssimo príncipe guerreiro, que tem início, bem ou mal, a grande literatura de ficção europeia, e é por isso que, quase três mil anos depois, vamos começar nosso estudo aqui...”
Philip Roth, in A mancha humana

Capítulo 99 - Na Plateia

Na plateia achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervalo seguinte, prestes a levantar o pano, encontramo-nos num dos corredores, em que não havia ninguém. Ele veio a mim, com muita afabilidade e riso, puxou-me a um dos óculos do teatro, e falamos muito, principalmente ele, que parecia o mais tranquilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação para assuntos gerais, expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferença; eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote.
Não ouvi nada do seguinte ato, nem as palavras dos atores, nem as palmas do público. Reclinado na cadeira, apanhava de memória os retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras dele, e concluía que era muito melhor a nova situação. Bastava-nos a Gamboa. A frequência da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podíamos dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, metia a saudade de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e não era nada, nem simples eleitor de paróquia. Urgia fazer alguma coisa, ainda por amor de Virgília, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome... Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos, mas não juro; eu pensava em outra coisa.
Multidão, cujo amor cobicei até à morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Esquilo fazia aos seus verdugos. Ah! Tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir considerar no ermo. O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer, quando ele tomar a si, - isto é, quando toma aos outros, - é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus! Eis um bom fecho de capítulo.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

De tanto te pensar

De tanto te pensar,
Sem Nome, me veio a ilusão,
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, Sem Nome, tenho nada
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e de abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
Do muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n’água.
Hilda Hilst

04/05/2019

Conto do dilúvio

O rapaz vinha contente pelo aguaceiro - plact, ploct, ploct - na semi-embriaguez em que o tinham deixado umas cachaças tomadas para cortar: um mulatinho bacano e desempenado, naquela idade em que só se olha para a frente. Levantara as calças até os joelhos e agora deixava a chuva bater-lhe livremente no rosto, tomado de euforia. Nunca tinha visto tanta água. Ficara um tempão preso na obra, tudo alagado em torno, mas a cachaça correra de mão em mão - ele pouco habituado - e de repente, com a cabeça em fogo, resolvera enfrentar o temporal - poxa! - senão ia perder a vez da Ritinha.
Ritinha era uma jovem prostituta do morro, menina de 14 anos que se achamegara por ele. Ela o esperava sempre embaixo da escadaria que cortava a encosta, para evitar confusão com os malandros que a requestavam. “Deixa eles comigo”, dizia-lhe o rapaz cheio de entono, gingando o corpo como quem vai se espalhar. Mas ela sabia que seu namorado ainda não dava pé para enfrentar a turma da pesada, e por isso arrumara aquele cantinho discreto, onde podiam se amar à vontade.
Ele a viu mesmo de longe, abrigada sob a pedra da encosta, e correu para ela - ploct, ploct, ploct, ploct - o mais depressa que podia, a mente cheia de desejo do seu amor fácil e sem compromisso. Teve apenas o cuidado de rodear de longe o grande bueiro aberto na rua, para onde as águas lamacentas eram tragadas em rápida e perigosa sucção:
- Pensei que você não viesse mais... - queixou-se ela, abraçando-o todo contra o coração.
- Ah! roxinha... Não foi mole não! Se o papai aqui não é muito safo, você hoje ficava sem a sua marmita...
E veio o amor violento sob a chuva, um a querer sugar o outro, ela no seu abandono de prostituta-menina, ele no ardor de seus verdes anos, acrescido da embriaguez do álcool. E a tromba-d'água caía em torrente sobre seus jovens corpos se amando na lama, lavando-os das impurezas da vida no morro. E depois veio a paz.
-Vou te levar pro teu barraco - disse-lhe ele, agradecido.
- Que barraco? Não tem mais barraco nenhum não...
- Como é que não tem mais barraco?
Ela deu de ombros:
- A pedra rolou ontem de madrugada e acabou com tudo.
O rapaz ergueu o corpo a meio, para olhá-la melhor. Só então notou grandes rnanchas de sangue por baixo da lama que a cobria.
- Quer dizer que você não tem mais onde morar?
Ela levantou-se, apoiando-se nele:
- Tenho. Só agora é que eu tenho mesmo onde morar. Você chama morar àquele barraco imundo que eu tinha, onde eu vendia meu corpo por um dólar de maconha?
Depois, desprendendo-se dele, deu alguns passos em direção à rua cheia onde a água turbilhonava:
- Eu só voltei para não faltar ao nosso encontro…
E caminhando rapidamente para o sumidouro, gritou-lhe:
- Desde ontem eu moro aqui.
E tapando delicadamente as narinas com os dedos sujos de sangue e barro, deu um gracioso saltinho para dentro do bueiro e desapareceu.
Vinicius de Moraes, in Prosa

Elza Soares e Liniker - Foi você, fui eu

O retorno ao caos

Marcha à ré rumo ao caos inicial, retorno à confusão primordial, ao redemoinho original! Lancemo-nos rumo ao turbilhão anterior à aparição das formas. Que nossos sentidos palpitem neste esforço, nesta demência, nestes surtos e abismos! Que desapareça tudo o que é, a fim de que, nesta confusão e neste desequilíbrio, acessemos plenamente à vertigem total, retornando dos cosmos ao caos, da natureza à indivisão original, da forma ao turbilhão. A desintegração do mundo segue um processo contrário ao da evolução: um apocalipse inverso, mas brotando das mesmas aspirações. Ninguém deseja o retorno ao caos, a menos que já tenha sido plenamente submetido às vertigens do apocalipse.
Quão grandes são meu terror e minha alegria quando penso em ser arrebatado pelo tumulto do caos inicial, por sua confusão e sua geometria paradoxal - a única geometria caótica, sem excelência de forma nem de sentido.
A vertigem, enquanto isto, aspira à forma, e o caos mantém suas virtualidades cósmicas. Eu adoraria viver neste começo de mundo, no vórtex demoníaco das turbulências primordiais. Que nada do que, em mim, é veleidade da forma se realize; que tudo vibre de um estremecimento primitivo, como um despertar do vazio.
Eu posso viver apenas num começo ou num fim de mundo.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

Martírio


Você conhece a velha piada: É fácil deixar de fumar, eu mesmo já deixei mais de 100 vezes. Ou a do cara que passa a usar uma piteira comprida porque o médico lhe disse para afastar-se do cigarro. Mas não há nada de engraçado com uma pessoa tentando livrar-se do vício. Outro dia, por exemplo, prenderam o estrangulador.
É que eu deixei de fumar, delegado...
E daí? Isso é desculpa para estrangular 17 pessoas?
Eu não sabia o que fazer com as mãos...
Como eu nunca fumei, não tenho muita paciência com o martírio dos amigos que deixam de fumar. Antes eles eram intragáveis, por assim dizer, com aquele ar de superioridade e falso autodesprezo que todo viciado assume diante de nós, inocentes.
Você não fuma, é? Faz muito bem. Eu já estou perdido...
Mas estava implícito na sua atitude que cada baforada era um gosto do doce prazer da perdição que eu jamais sentiria e que, por não fumar, eu era ingênuo, trouxa, contraído e provavelmente virgem. Agora são insuportáveis na sua dependência. E eu sou intransigente na minha superioridade.
Me dá uma bala.
Não tenho.
Um chiclé.
Não tenho.
Me dá esse lápis para mastigar.
Não dou.
Deixa eu roer as tuas unhas que as minhas já acabaram.
Não deixo.
Eles são nervosos, os que deixaram de fumar. Engordam, emagrecem como os outros respiram. Alguns mantêm um cigarro apagado sempre no canto da boca ou entre os dedos e o usam para gesticular, cheirar e amassar furiosamente no cinzeiro antes de tirar outro da carteira. E não aceitam cigarro oferecido.
Eu tenho os meus, obrigado.
É de cortar o coração, concordo. Mas eu não me comovo.
Afinal, quem demorou tanto tempo para descobrir que botar fumaça para dentro dos pulmões, deixá-la dar as suas voltas lá dentro e depois expelir pode fazer mal à saúde não merece compaixão. Alguns engordam demais com privação do cigarro e, aí sim, têm a minha compreensão. Eu só sou solidário no peso. É fácil fazer regime, eu mesmo começo um novo todas as segundas-feiras. Mas não adianta, sou viciado. Em cigarro de chocolate, inclusive, embora não trague. Uma vez combinei com um amigo do mesmo apetite que formaríamos uma sociedade de ajuda mútua. Como os alcoólatras anônimos. Sempre que nos víssemos diante da tentação da comida, procuraríamos o apoio do companheiro para não quebrar o regime.
Alô?
Alô. Sou eu.
A esta hora da madrugada?
Estou há quatro horas sentado na frente de um quindim, resistindo à tentação, mas não tenho mais forças. Eu vou comer o quindim.
Não faça loucura.
Eu vou comer o quindim!
Espere! Não faça nada até eu chegar aí.
É dos molhadinhos. De um amarelo-gema profundo. Translúcido em cima e com a textura mais firme embaixo. E eu vou comê-lo.
Aguenta aí que eu já estou saindo de casa.
Vem depressa!
Haveria, periodicamente, reuniões da nossa sociedade para autocrítica e recriminações.
Confesso. Tive contato carnal esta semana. Com um filé na manteiga! Mas não toquei no purê de batata.
Eu acuso. Vi um companheiro saindo sorrateiramente de uma doçaria com um pacote na mão.
Você não pode ter me reconhecido. Eu estava de nariz e bigode postiços!
Ah! Eu não tinha certeza mas agora tenho. Era você mesmo. Vergonha!
E o que é que você estava fazendo perto da doçaria? Hein? Hein?
O meu cooper. E em jejum.
O tal amigo e eu desistimos da ideia quando, de repente, nos vimos planejando a festa de inauguração da sociedade e já tínhamos evoluído do buffet frio para os pratos quentes e nos preparávamos, entusiasticamente, para escolher as sobremesas. É, não daria certo.
Luís Fernando Veríssimo, in A mesa voadora

O segundo Tolstói

Leio Os últimos dias, de Liev Tolstói (Penguin / Companhia das Letras), livro que resulta de um esforço conjunto de tradução de Anastassia Bytsenko, Belkiss J. Rabello, Denise Regina de Sales, Graziela Schneider e Natalia Quintero. Abraçado ao livro, pego no sono. A organização é de Elena Vássina, a seleção, de Jay Parini. Tantos nomes para dar conta deste “segundo Tolstói”, o homem que se converteu a um espantoso cristianismo primitivo. Tantos textos, fortes, mas o cansaço me vence e adormeço.
Pego no sono enquanto leio “Três perguntas”, narrativa filosófica que Tolstói escreveu em 1903. Dois anos antes, apesar da conversão religiosa, é excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa por “escrever obras repugnantes para Cristo e a Igreja”. Torna-se um profeta incompreendido – embora, em todo o mundo, seja lido e respeitado. Leva uma vida simples, abdica dos direitos autorais, torna-se vegetariano e luta contra a propriedade privada. Entre a penúria e a bravura, escreve “Três perguntas”, delicada parábola a respeito da inutilidade das perguntas e a favor da potência dos atos.
O ensaio tem cinco páginas, eu já estou nas últimas linhas. O sono vem e sonho: um sonho distante de Tolstói e de sua Rússia. Eu sou um pianista. No palco de um teatro, em um piano negro, interpreto um “Concerto para piano”. Meus solos são comoventes, eu mesmo não acredito que venham de minhas mãos. A música se infiltra em meu sonho; mais que imagens, eu sonho sons. Até que, em uma escala mais longa, noto, ao meu lado, um segundo pianista. Divide comigo o piano, veste uma casaca solene, tem a cabeleira branca. Só agora me dou conta de que é um concerto a quatro mãos. O pianista, meu parceiro, me ignora.
Sua presença, ao contrário, me fulmina. As teclas em que toco começam a soltar, meu banco range, minhas mãos deslizam. Por algum tempo, ainda mantenho o controle. Enquanto pensamentos atrozes me invadem, meu parceiro, sereno e sóbrio, limita-se a tocar. Quando dou por mim, dedilho sobre buracos, armo acordes sobre teclas inexistentes, bordejo o abismo. Uma pergunta toma conta, então, de minha mente: interpreto um “Concerto para piano” ou um “Piano para conserto”? A pergunta – prova irrefutável de que o inconsciente tem a estrutura de uma linguagem – me atordoa. Aos poucos, acordo. Custo a entender que não estou em um teatro, mas em minha cama. Que não sou um pianista, mas apenas eu mesmo. A pergunta ainda me inferniza quando, já no banheiro, em busca de uma imagem mais firme, me observo no espelho.
Só quando volto para o quarto, me dou conta do livro de Tolstói aberto a meu lado. Sento-me na cama e, ainda trêmulo, busco um elo entre “Três perguntas” e meu pesadelo. Sim, foi um pesadelo: acordei ofegante e a pergunta ainda me inferniza. De alguma maneira, cujo sentido me escapa, o relato de Tolstói invadiu minha noite. Preciso entender o que me aconteceu. Venho para o escritório e, bem devagar, releio a parábola de Liev Tolstói.
É a história de um tsar que promete uma grande recompensa a quem lhe responder três perguntas. Como saber a hora certa de cada coisa? Como saber quais são as pessoas mais necessárias? Como não se enganar ao julgar, entre todas as coisas, qual a mais importante? Ninguém lhe dá respostas convincentes. Em busca de respostas mais verdadeiras, o soberano se veste de homem comum e, sozinho, viaja até a morada de um eremita. “O eremita era magro e fraco – enfiava a pá na terra e arrancava pequenos torrões, respirando a custo.” Mal dá conta de si, como poderá saciar sua fome de respostas? Mesmo assim, o soberano lhe faz as três perguntas. O homem ouve em silêncio, depois retoma sua pá e volta a trabalhar na terra.
Comovido com seu esforço, o tsar lhe toma a pá e começa, ele mesmo, a cavar. Surge, logo depois, um desconhecido, que, com as mãos trêmulas, segura o próprio ventre, coberto de sangue. Sem pensar no que faz, movido só pela compaixão, o soberano lhe rasga a roupa e cuida de seu ferimento. Depois lhe dá água fresca e o acomoda em uma cama. No dia seguinte, já melhor, o homem o surpreende com um pedido de perdão. “Não tenho por que o perdoar”, o tsar lhe diz. O desconhecido revela, então, sua identidade: é um inimigo do imperador, que executara seu irmão e lhe tirara todos os bens. Cheio de ódio, jurara vingar-se. “Eu queria matá-lo, mas você salvou minha vida.” Gestos silenciosos, e não palavras, salvaram os dois homens.
Antes de retornar a seu palácio, o tsar ainda tenta, pela última vez, obter do eremita as respostas que busca. “Pela última vez, sábio homem, lhe peço que responda.” O velho parece surpreso. “Mas elas já foram respondidas”, diz. A hora certa foi aquela em que o tsar tomou a pá do velho para ajudá-lo a cavar o chão. A hora certa foi, também, o momento em que decidiu tratar da ferida do desconhecido. “A hora mais importante é agora”, o eremita resume. O homem mais importante é aquele com quem estamos no momento. A coisa mais importante a fazer é a coisa que o momento nos pede – e não pensar sobre isso. O eremita leva o tsar a ver que ele já não precisa de respostas. Ele mesmo as formulara através de seus atos.
Volto, incomodado, a meu sonho. Por que o intrometo aqui? A literatura é uma máquina de interpretar. Máquina sutil, que a cada página, a cada palavra, se move de maneira diferente. Máquina imprevisível, que nunca produz as mesmas respostas. Um “concerto para piano” ou um “piano para o conserto”? Sigo a pista que Liev Tolstói me deixou: há horas em que devemos nos entregar à beleza – a música que toco em meu piano – e preferir o silêncio. Há muitas horas em que as palavras não servem para nada. Mil palavras não valem um pequeno ato.
A literatura nos ajuda a ler a vida – ainda que se trate apenas de um pesadelo. Na vigília, eu admito, ainda me espanto com o Tolstói messiânico, que trocou a literatura pela fé. Prefiro o “primeiro Tolstói”, que escreveu Anna Karenina e Guerra e paz. Contudo, o “segundo Tolstói” existe – e agora tenho seus escritos em minhas mãos. Preciso aprender alguma coisa com ele. Alguma coisa precisamos sempre fazer do que lemos.
José Castello, in Sábados inquietos

Volta ao tempo com celebridades através de selfies da fotógrafa húngara Flora Borsi

Com John Lennon

Com Salvador Dali

Com Audrey Hepburn

Com Albert Einstein

Com Sigmund Freud

Com Marilyn Monroe

Com Mahatma Gandhi

Visite o site da artista aqui.

02/05/2019

O universo

O universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Sono

Tudo fica mais leve no escuro da casa. As escadas param de repente no ar... Mas os anjos sonâmbulos continuam subindo os degraus truncados, atravessando os espelhos como se entrassem numa outra sala. O sonho devora os sapatos, os pés da cama, o tempo. Vovô resmunga qualquer coisa no fim do século passado.
Mário Quintana, in Sapato florido

As pérolas

Dentro do pacote de açúcar, Renata encontrou uma pérola. A pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto.
Agora vou esperar que cheguem as outras pérolas — disse Renata, confiante. E ativou a fabricação de doces, para esvaziar mais pacotes de açúcar.
Os clientes queixavam-se de que os doces de Renata estavam demasiado doces, e muitos devolviam as encomendas. Por que não aparecia outra pérola? Renata deixou de ser doceira qualificada, e ultimamente só fazia arroz-doce. Envelheceu.
A menina que provou o arroz-doce, aquele dia, quase já ia quebrando um dente, ao mastigar um pedaço encaroçado. O caroço era uma pérola. A mãe não quis devolvê-la a Renata, e disse:
Quem sabe se não aparecerão outras, e eu farei com elas um colar de pérolas? Vou encomendar arroz-doce toda semana.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

01/05/2019

Beth Carvalho - Folhas Secas/Hora De Chorar (TV Record, 1973)

Os olhos dos pobres

Ah! Quer saber porque hoje a detesto? Você terá, sem dúvida, menos facilidade em compreendê-lo do que eu em explicá-lo. Considero-a o mais belo exemplo de impermeabilidade feminina que se possa encontrar.
Passamos juntos um longo dia, que me parecera curto. Tínhamos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns e que as nossas almas seriam uma só. Ora, esse sonho nada tem de original, a não ser o fato de que, sonhado por todos os homens, não foi realizado por nenhum.
À tarde, sentindo-se um pouco fatigada, você quis sentar-se defronte a um café novo, na esquina de uma nova avenida, ainda cheia de asfalto e já mostrando gloriosamente esplendores inacabados. O café estava cintilante. O gás tinha todo o ardor de um começo, iluminando com toda a intensidade as paredes resplandentes de brancura, as cascatas deslumbrantes dos espelhos, o ouro das molduras e das cornijas, os criados de bochechas redondas puxados por cães presos à corrente, as damas sorrindo ao falcão trepado no punho, as ninfas e as deusas carregando frutas, pastéis e caça na cabeça, as Hebes e os Ganimedes ostentando com o braço estendido a pequena ânfora de néctar, ou o obelisco bicolor dos sorvetes aromáticos: toda a história e toda a mitologia postas a serviço da gulodice.
De pé diante de nós, na calçada, um homem de uns quarenta anos, rosto abatido, barba grisalha, dava a mão a um menino e no outro braço segurava um ser pequenino fraco demais para andar. Fazia as vezes de ama, para os filhos respirarem o ar da tarde. Todos em andrajos. As três fisionomias estavam extraordinariamente sérias e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com igual admiração, apenas diversificada pela idade.
Diziam os olhos do pai: — Como é bonito! Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo foi trazido para essas paredes.
Os olhos do menino diziam: — Como é bonito! Mas, é uma casa onde só pode entrar gente que não é como nós.
Quanto aos olhos do pequenino, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa além de uma alegria estúpida e profunda.
Dizem os cancioneiros que o prazer torna a alma bondosa e enternece o coração.
Tinham razão, essa tarde. Eu não só estava enternecido com essa família de olhos, mas me sentia um tanto envergonhado dos nossos copos e garrafas, maiores do que a nossa sede.
Fitei então os meus nos seus, meu amor, para ler o meu pensamento. E estava mergulhado nos seus olhos, tão belos e tão singularmente doces, nos seus olhos verdes, quando você me disse: — Não suporto essa gente de olhos escancarados como porteiras! Porque você não pede ao dono do café que os afaste daqui? Como é difícil um entendimento, anjo querido! E como o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

Lenda de Namarói

(Inspirado no relato da mulher do régulo de Namarói, Zambézia, recolhido pelo padre Elia Ciscato)

Vou contar a versão do mundo, razão de brotarmos homens e mulheres. Aproveitei a doença para receber esta sabedoria: o que vou contar me foi passado em sonho pelos antepassados. Não fosse isso nunca eu poderia falar. Sou mulher, preciso autorização para ter palavra. Estou contando coisas que nunca soube. Por minha boca falam, no calor da febre, os que nos fazem existir e nos dão e retiram nossos nomes. Agora, o senhor me traduza, sem demoras. Não tarda que eu perca a voz que agora me vai chegando.
No princípio, todos éramos mulheres. Os homens não haviam. E assim foi até aparecer um grupo de mulheres que não sabia como parir. Elas engravidavam mas não devolviam ao mundo a semente que consigo traziam. Aconteceu então o seguinte: as restantes mulheres pegaram nessas inférteis e as engoliram, todas e inteiras. Ficaram três dias cheias dessa carga, redondas de uma nova gravidez. Passado esse tempo as mulheres que haviam engolido as outras deram à luz. Esses seres que estavam dentro dos ventres ressurgiram mas sendo outros, nunca antes vistos. Tinham nascido os primeiros homens. Estas criaturas olhavam as progenitoras e se envergonhavam. E se acharam diferentes, adquirindo comportamentos e querendo disputas. Eles decidiram transitar de lugar.
Passaram o regato, emigraram para o outro lado do monte Namuli. Assim que se assentaram nessa outra terra viram que o fiozinho de água engrossava. O regato passava a riacho, o riacho passava a rio. Na margem onde se transferiram os homens comiam apenas coisas cruas. E assim ficaram durante tempos. Uma certa noite eles viram, do outro lado, o acender das fogueiras. As mulheres sabiam colher a chama, semeavam o fogo como quem conhece as artes da semente e da colheita. E os homens disseram:
As mulheres têm uma parte vermelha: é dela que sai o fogo.
Então, o muene que chefiava os homens mandou que fossem buscar o fogo e lho entregassem intacto. E dois atravessaram o rio para cumprir a ordem. Mas eles desconseguiram: as chamas se entornavam, esvaídas. O fogo não tinha competência de atravessar o rio.
O fogo cansa-se, muene.
Assim disseram ao muene. Desiludido, o chefe atribuiu-se a si mesmo a missão. Atravessou a corrente em noite de chuva cheia. O rio estava em maré plena, tempestanoso. O muene perdeu o corpo, deixou escapar a alma. Acordou na outra margem, mais molhado que peixe. Sentiu que o puxavam, lhe davam ar e luz. Viu então uma mulher que lhe acudia, acendendo um foguinho para que secassem suas roupas. O homem lhe falou, confessando desejos, invejas e intenções. A mulher disse:
O fogo é um rio. Deve-se colher pela fonte.
Essa fonte: nós não sabemos o seu lugar.
Era de noite, a mulher chamou o muene e fez com que se deitasse sobre a terra. E ela se cobriu nele, corpo em lençol de outro corpo. Nenhum homem nunca havia dormido com aquelas da outra margem. A mulher, no fim, lhe beijou os olhos e neles ficou um sabor de gota. Era uma lágrima de sangue, ferida da terra. A lágrima chorava, clamando que se costurassem as duas margens em que sua carne se havia aberto. A mão dele se ensonou sobre o suave abismo dela.
Anichado no colo da mulher, o homem desfiou o seguinte sonho: que ele era o último homem. E que daquele cruzar de corpos que experimentara aquela noite ele se ferira, seu corpo se abrira, veia escancarada. Ele vê o sangue se espalhar no rio e desmaia. Quando recupera vê que a inteira água do rio se convertera em sangue. Segue o curso do rio e repara como o vermelho se vai espessando, líquido em coágulo, coágulo em massa. Uma figura humana se vai formando. Aos poucos, nasce uma mulher. E, no imediato, o rio volta a escorrer, água límpida e pura. Esse foi o sonho. Do qual o muene se esqueceu mesmo antes de acordar.
O chefe madrugou e regressou à sua margem. Na passagem viu que o rio se acalmara, águas em jamais visto sossego. O homem chegou aos outros, sôfrego como se tivesse desaprendido respirar. Os outros lhe olharam, admirados. Trazia ele um fogo dentro de si? O muene ainda procurava o fôlego:
Ouçam: lá do outro lado...
E tombou, sem mais. Os outros foram, mandados pelo bicho de quererem saber. Passavam depois de o sol se esconder. De cada vez que um regressava o rio estreitava, mais a jeito de riacho. Afinal, havia uma margem desconhecida da noite, o outro lado da vida. E um por um, todos realizaram a visita, para além do rio. No final, o curso de água voltou a ser o que tinha sido: um fiozito, timiúdo. O mundo já quase não dispunha de dois lados. Os homens, aos poucos, decidiam ficar no território das mulheres. Na outra, antiga margem, nenhum homem restou.
E os tempos circularam. Um dia uma mulher deu à luz. Os homens se espantaram: eles desconheciam o ato do parto. A grávida foi atrás da casa, juntaram-se as outras mulheres e cortaram a criança onde ela se confundia com a mãe. Decepado o cordão, o um se fez dois, o sangue separando os corpos como o rio antes cindira a terra.
Os homens viram isto e murmuraram: se elas cortam nós também podemos. Afiaram as facas e levaram os rapazes para o mato. Assim nasceu a circuncisão. Cortavam os filhos para que eles entrassem no mundo e se esquecessem da margem de lá, de onde haviam migrado os homens iniciais. E os homens se sentiram consolados: podiam, ao menos, dar um segundo parto. E assim se iludiram ter poderes iguais aos das mulheres: geravam tanto como elas. Engano deles: só as mulheres cortavam o laço de uma vida em outra vida. Nós deixamos assim, nem procuramos neles outro convencimento. Porque, afinal, ainda hoje eles continuam atravessando a correnteza do rio para buscar em nós a fonte do fogo.
Mia Couto, in Estórias abensonhadas

Primeiro de Maio

Nesta manhã de Primeiro de Maio,
Não há por que invejar o sol.
Éramos algo sem nenhuma importância coletiva,
Indivíduos, nada mais.
Nos transformamos num gigante coração
A marchar pelas avenidas.
Nossas reivindicações eram apenas pedidos,
Menos do que isso, gemidos,
Aguardando audiências e despachos.
Agora a voz de cada um faz parte
De um canto cantado por um coral de milhares.
Não somos indivíduos nem multidão,
Somos um povo unido.
Adalberto Monteiro

Bufão


E Kolakowski chega a ponto de sugerir uma “filosofia do bufão”, o riso tendo o poder mágico de produzir aquilo que os filósofos zen denominavam satori, iluminação.
A filosofia do bufão é a filosofia que, em cada época, denuncia como duvidoso aquilo que parece ser inabalável. Declaramo-nos a favor da filosofia do bufão – aquela atitude de vigilância negativa frente a qualquer absoluto. Declaramo-nos a favor dos valores anti-intelectuais inerentes numa atitude cujos perigos e absurdos conhecemos muito bem. É uma opção por uma visão de mundo que oferece possibilidades para uma reorganização vagarosa e difícil daqueles elementos que, em nossa ação, são os mais difíceis de serem organizados: bondade sem que isto signifique tolerar tudo, coragem sem fanatismo, inteligência sem apatia, e esperança sem cegueira. Todos os outros frutos da filosofia são de importância secundária.”
Nietzsche, se não me engano, foi o grande mestre do riso. Com o que Nietzsche concordava. Muito do seu uso iconoclasta das imagens pode ser entendido como gozação, o seu jeito de dizer que o rei está nu. De toda verdade que não é acompanhada por um riso “pelo menos deveríamos dizer que é falsa”. E, ao final de um denso poema em que fala sobre a sua diferença, ele se resume: “Sou apenas um bufão! Sou apenas um poeta!”. É fácil confundir o bufão com o louco ou com um tolo. Foi o que o velho eremita disse ao se encontrar com Zaratustra quando descia da montanha onde passara dez anos de solidão:
Esse viandante não me é estranho; muitos anos atrás ele passou por esse caminho. Ele se chamava Zaratustra. Mas ele mudou. Naquele tempo tu levavas tuas cinzas para as montanhas; e agora tu levas teu fogo para os vales? Não tens medo de ser punido como incendiário?”
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

Capítulo 92 - Um Homem Extraordinário

Já agora acabo com as coisas extraordinárias. Vinha de guardar a carta e o relógio, quando me procurou um homem magro e meão, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado com uma irmã do Cotrim,chegara poucos dias antes do Norte, chamava-se Damasceno,e fizera a revolução de 1831. Foi ele mesmo que me disse isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por desacordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele. De resto, a revolução estava outra vez às portas. Neste ponto, conquanto trouxesse as ideias políticas um pouco baralhadas, consegui organizar e formular o governo de suas preferências: era um despotismo temperado, -não por cantigas, como dizem alhures,- mas por penachos da guarda nacional. Só não pude alcançar se ele queria o despotismo de um, de três, de trinta ou de trezentos. Opinava por várias coisas, entre outras, o desenvolvimento do tráfico dos africanos e a expulsão dos ingleses. Gostava muito de teatro; logo que chegou foi ao teatro de São Pedro, onde viu um drama soberbo, a Maria Joana, e uma comédia muito interessante, Kettly ou a volta à Suíça. Também gostara muito da Deperini, na Safo, ou na Ana Bolena, não se lembrava bem. Mas a Candiani! sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o Ernani, que a filha dele cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami... -E dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz. -No Norte essas coisas chegavam como um eco. A filha morria por ouvir todas as óperas. Tinha uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda, com umas saudades... Palavra! em alguns lugares teve vontade de chorar. Mas não embarcaria mais. Enjoara muito a bordo, como todos os outros passageiros, exceto um inglês... Que os levasse o diabo os ingleses! Isto não ficava direito sem irem todos eles barra fora. Que é que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos tais godemes... Graças a Deus, tinha patriotismo, -e batia no peito,- o que não admirava porque era de família; descendia de um antigo capitão-mor muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a ocasião, e ele havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para maior palestra. -Levei-o até a porta da sala; ele parou dizendo que simpatizava muito comigo. Quando casara, estava eu na Europa. Conheceu meu pai, um homem às direitas, com quem dançara num célebre baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta...
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas