23/01/2016

Ação x Inércia

Da mesma forma que não podemos escapar das consequências de nossas ações, também não podemos escapar das consequências de nossa inércia.”
Yehuda Berg

Os limites de nossa personalidade

- Sempre achamos que são demasiadamente estreitos os limites de nossa personalidade! Atribuímos à nossa pessoa somente aquilo que distinguimos como individual e divergente. Mas cada um de nós é um ser total do mundo, e da mesma forma como o corpo integra toda a trajetória da evolução, remontando ao peixe e mesmo a antes, levamos em nossa alma tudo o quanto desde o princípio está vivendo na alma dos homens. Todos os deuses e todos os demônios que já existiram, quer entre os gregos, os chineses ou os cafres, todos estão conosco, todos estão presentes, como possibilidades, desejos ou caminhos. Se toda a humanidade perecesse, com exceção de uma só criança medianamente dotada, esse menino sobrevivente tornaria a encontrar o curso das coisas e poderia criar tudo de novo: deuses, demônios e paraísos, mandamentos e proibições, antigos e novos Testamentos.
- Pois bem — objetei-lhe. — Mas que fim leva o valor do indivíduo? Para que aspiramos a algo se já temos tudo concluído em nós mesmos?
- Alto lá! — exclamou Pistórius com força. — Há muita diferença entre levarmos simplesmente o mundo em nós mesmos e conhecê-lo.”
Hermann Hesse, in Demian

Lábia de amigo

Vaidade e orgulho

A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.”
Jane Austen, in Orgulho e preconceito

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya


O quadro El 3 de mayo en Madrid foi pintado pelo artista espanhol Francisco Goya em 1814, referente à invasão napoleônica na Espanha. Quando o pintor foi questionado sobre a razão de haver pintado uma tela como essa, ele respondeu: “Para ter o gosto de dizer eternamente aos homens que não sejam bárbaros”. E foi inspirado por esse quadro que outro grande artista, Jorge de Sena, escreveu “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, a qual mesmo havendo sido escrita a mais de 40 anos, permanece atual e soa como um belo manifesto pra os dias de hoje. Eis a Carta:

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.

Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sêmen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.

É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.

Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.

E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge de Sena

Minhas ações

Quando eu morrer, minhas ações irão comigo, isso é o que eu imagino. Levarei comigo o que fiz. Nesse entretempo, é importante garantir que não chegue ao fim com as mãos vazias.
A significação da minha existência tem uma pergunta que me é endereçada. Ou, ao contrário, eu próprio sou uma pergunta dirigida ao mundo, e devo comunicar a minha resposta, porque, de outra maneira, fico dependente da resposta do mundo.”
Carl Jung, in Memórias, sonhos e reflexões

22/01/2016

Vazio

Desgraças

A única coisa que a psicanálise consegue é fazer a pessoa mais consciente de suas desgraças.”
Anäis Nin, in Henry e June

Nosso tempo

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
Carlos Drummond de Andrade

Ia chover: a caatinga ressuscitaria

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Seu Tomás fugira também, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia porquê, mas era. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrelas no céu. A lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a. solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinha Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.
Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos e folhas secas.
Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.
Eram todos felizes. Sinha Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória remoçaria, as nádegas bambas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa encarnada de Sinha Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.
A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.
A fazenda renasceria - e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.
Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.
Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam a cara triste de Sinha Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A catinga ficaria verde. Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.
Graciliano Ramos, in Vidas Secas

Quase Nada 345

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A casa marinha

O que o homem tem do pássaro é inveja. Saudade é o que o peixe sente da nuvem.
Eram falas de Tiane Kumadzi, o velho que vivia fora do juízo, apartado da gente, longe da aldeia. Eu seguia-o enquanto ele desperdiçava pegadas na areia da praia. Meus pais muito me proibiam aquelas divagabundagens.
Esse tipo não regulamenta bem. Você está proibido.
Que ele era o indevido indivíduo. E somavam-me: esse tipo anda a apanhar as lenhas de uma grande desgraça. Pois o futuro o que é? Se nem temos palavra na nossa materna língua para nomear o porvir. O futuro, meu filho, é um pais que não se pode visitar.
Mas eu não resistia a seguir os passos molhados de Kumadzi quando ele, manhãs cedinho, procurava sinais do além-mundo. Acontecia na subluminosidade quando o sol nos deitava em sombras sobre as ondas.
O desremediado velho se dezembrava assim, para cá e para diante, todo concurvado enquanto pronunciava indecifráveis rezas. Me divertia aquele renhenhar dele, cabeça abaixo dos ombros, remexendo algas, conchas e troncos trazidos pelo mar de longínquas tempestades.
Eu o seguia calado, morto por saber os enfins daquela busca. Me apetecia aquela companhia como se Tiane fosse mais menino que eu, parceiro de minha meninagem.
Quantos anos tenho? Sou igual como você...
E dizia: uma criança é um homem que se dá licença de voar. Às vezes me mandava correr, passar o sem-fim da praia. Que eu devia voltar sem nenhum fôlego.
Ganhe vantagem do cansaço, filho. Há uma sabedoria do cansaço.
O cansaço é um modo do corpo ensinar a cabeça. Assim dizia Tiane. Que havia sentidos que só o cansaço despertava. Sono e fadiga: mãos que nos abrem janelas para o mundo. Fosse por esse cansaço que ele encontrava na praia aquilo que ninguém mais ousava. Certa vez, quebrei o peito e lhe atirei a pergunta:
Mas procuramos o quê, vovô Tiane?
Isto.
E atirou-me um pedaço de madeira. Era um pau a modos que nunca vira: acertados os cantos com as arestas, corrigidos os redondos da madeira e as asperezas da casca. Me admirei: em que terra cresciam árvores desse formato, tão gostosas de alisar o dedo?
Mas o que é isto avô?
Procuras-me mais istos e te deixo espreitar na minha casa.
Não fiz segunda coisa nos dias seguintes. Enquanto restasse fiapo de claridade eu afadigava os olhos a farejar mais estranhos objetos. Fazia o que ele me recomendava: me cansava pelas dunas, à procura da sapiência da fadiga.
Ao fim do dia, meus pés escamavam de tanto aguarem. Meus braços se contentavam ao peso de tantas madeirinhas. O velho Kumadzi juntava-as no seu quintal, no mesmo lugar onde, nas casas dos outros, se empilhava a lenha. Pela noite, o velho se dedicava a dar sentido àquele desordenado monte. Estudava cada um dos paus. Ajustando os encaixes, entrância na reentrância, foi construindo um barco cheio de dimensões.
Os pescadores se espantaram — um barco? Aquilo mais parecia era uma casa. E se chegaram, espetando no sossego do velho o gume da curiosidade:
Quem lhe ensinou a fazer uma coisa que não existe?”
Kumadzi encolheu os ombros. Ele não sabia mas o adivinho já pressentia. Aquilo era casa que anda na água, obra de homens— peixe, gente de aspecto nunca visto. E o adivinho juntava terríveis premonições: vinham aí tempos de cinza e fogo.
É melhor que esses nunca venham, é melhor que nunca cheguem.
E somou sentença: era urgente matar a viagem dos forasteiros. E logo ali se executou mandança: nessa noite se deitaria fogo na forasteira construção. Todos saíram. Fiquei apenas eu dando encosto à solidão do velho. Passaram-se densos silêncios até que Tiane Kumadzi me pediu que o ajudasse a empurrar o barco até à água. Nem beliscámos centímetro. O navio estava mais encalhado que árvore. Kumadzi desofegou:
Tu, miúdo, meta-se no barco!”
Apontei para mim, em espanto. Eu? O velho confirmou: eu devia era navegar, sair por esses mares para ir ter com os esses que chegavam. E completou:
Assim não haverá quem tenha vaidade de encontrar quem...
Me escusei. Dei volta ao momento e desandei pelo escuro. Reconheci razão dos conselhos da aldeia: o velho sofria o castigo de visitar de mais o futuro. Regressei a casa e deparei com estranha agitação. Meu pai comandava furiosa multidão. Vendo-me chegar, ele me ordenou: — Vai donde que vieste!
E levaram-me em diante da raiva e gritaria. Se dirigiam ao lugar de Tiane Kumadzi. O meu velho me empurrava para cá e para nenhum lado. Nem tive tempo de acertar vistas com ideias. Já o barco ardia, engolido por mil tochas, chamas chamando chamas.
Num instante, tresvoaram espessas fuligens. Eu via os fumos subirem e comporem estranhas figuras, monstros de engolir mundos. Eu fechava os olhos mas as visões não se afastavam. Ainda escutei uma voz dizer para meu pai: — Cuidado, mano, esses fumos estão cheios de veneno!
Fosse ou não veneno: as gentes se descompunham, embriagadas. Primeiro, deram gritos, saltos e danças. Aos poucos, se instalou a festa e a alegria enrijeceu a restante noite. Até os corpos lençolarem a terra.
Na manhã seguinte, o braço do velho Tiane me acordou. Primeira coisa que vi foi o barco. Esse mesmo que ardera horas prévias. Mas ali estava ele, intacto, com todo o formato. Algumas chamuscadelas, mais nada. O velho antecedeu minha pergunta:
Não chegou de arder, a madeira estava molhada.
Nas mãos tinha um naco de madeira meio ardida. Esfarelou a cinza, misturou a areia. E acrescentou: — Esse barco estava cheio de mar!”
Percorreu as escassas cinzas como que a confirmar a presença de qualquer coisa já vista. Perguntava-se, nervoso:
Onde está, onde está?”
Finalmente, se debruçou a apanhar uma taça feita de madeira. Levantou-a nos braços. Me aproximei. Aquilo não era simples objeto de usar. Desenhos de enfeitar se inscreviam em belezas. Tiane acenou a taça e proclamou:
Viu? O mar quer juntar as pessoas.
Estendeu a taça e pediu-me que bebesse. Beber o quê?, perguntei. Espreitei o redondo da taça e havia gotas. De cacimbo, adiantou Tiane para aplacar meu receio. Levei a taça aos lábios mas não consegui beber. Improvisei desculpa: — Vou guardar isto, para beber com eles...
Escondi a taça por baixo do velho canhoeiro. De novo, fomos à rebentação ao encalço dos sinais dos homens-peixe. O velho se deixou ficar dentro de água. Era já noite e ele se recusou a sair. Disse que nunca mais voltaria para terra. Ficava ali a encharcar-se de mar. Queria semelhar-se com o barco, a madeira ensopada? Quando houvesse viagem já ele se converteria em madeira salgada. Já ele se convertera em casa marinha à espera dos que haveriam de vir.
Mia Couto, in Contos de nascer a Terra

Ventos

Ventos poderosos que partem os galhos de novembro! – e o sol brilhante e calmo, intocado pelas fúrias da terra, que abandona a terra à escuridão e ao desamparo selvagem, e à noite, enquanto homens tremem em seus casacos e correm para casa. E então as luzes dos lares se acendem naquelas profundezas desoladas. Mas há as estrelas!, que brilham no alto de um firmamento espiritual. Vamos caminhar ao vento, absortos e satisfeitos em pensamentos maldosos, em busca de uma repentina e sorridente inteligência da humanidade abaixo dessas belezas abismais. Agora a fúria turbulenta da meia-noite, o ranger de nossas portas e janelas, agora o inverno, agora a compreensão da terra e de nossa presença nela: esse teatro de enigmas e duplos sentidos e pesares e alegrias solenes, essas coisas humanas na vastidão elemental do mundo açoitado pelo vento.
Jack Kerouac, 12 de novembro de 1947

21/01/2016

Voluptas voluptatis

Senti prazer ao ver que tinha prazer, contentamento por estar contente: era o prazer do prazer, voluptas voluptatis.”
Fernando Pessoa

Jorge Vercillo - Sensível demais

O retrato de minha mãe

Ilustração: Patricia Gutiérrez

Senti o retrato de minha mãe guardado no bolso da camisa, esquentando meu coração, como se ela também suasse. Era um retrato velho, carcomido nas beiradas; mas foi o único que conheci. Eu havia encontrado o retrato no armário da cozinha, dentro de uma caçarola cheia de ervas: folhas de capim-limão, flores de Castela, ramos de arruda. Desde então guardei o retrato. Minha mãe sempre foi inimiga de deixar-se fotografar. Dizia que os retratos eram coisa de bruxaria. E pareciam ser; porque o dela estava cheio de furos como de agulha, e na direção do coração tinha um bem grande onde podia muito bem caber o dedo médio.
É esse mesmo retrato que trago aqui, achando que poderia ajudar meu pai a me reconhecer.
Veja bem, senhor — me diz o tropeiro, detendo-se. — Está vendo aquele morro que parece bexiga de porco? Pois justo atrás dele fica a Media Luna. Agora, vire para lá. Vê o topo daquele morro? Pois veja. E agora vire para este outro rumo. Vê aquele outro topo que quase não dá para ver de tão longe? Bem, pois isso é a Media Luna de cabo a rabo. Como se diz por aí, toda terra que dá para percorrer com o olhar. E esse terrenão todo é dele. A verdade é que nossas mães nos malpariram numa esteira, apesar de sermos filhos de Pedro Páramo. E o mais engraçado é que ele nos levou para batizar. Com o senhor deve ter acontecido a mesma coisa, não é?
Eu não me lembro.
Pois então vai para o caralho!
O que foi que o senhor disse?
Que já estamos chegando, senhor.
Pois é, estou vendo. O que foi que aconteceu?
Um corre-caminhos, senhor. É assim que chamam esses pássaros.
Não, eu perguntava o que foi que aconteceu com o povoado, que parece tão solitário, como se estivesse abandonado. Parece que ninguém mora nele.
Não é que pareça. É que é. Aqui não mora ninguém.
E Pedro Páramo?
Pedro Páramo morreu faz muitos anos.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

O par que me parece

Pesa dentro de mim
o idioma que não fiz,
aquela língua sem fim
feita de ais e de aquis.
Era uma língua bonita,
música, mais que palavra,
alguma coisa de hitita,
praia do mar de Java.
Um idioma perfeito,
quase não tinha objeto.
Pronomes do caso reto,
nunca acabavam sujeitos.
Tudo era seu múltiplo,
verbo, triplo, prolixo.
Gritos eram os únicos.
O resto ia pro lixo.
Dois leos em cada pardo,
dois saltos em cada pulo,
eu que só via a metade,
silêncio, está tudo duplo.
Paulo Leminski

Um homem estranho

Desenho: Darel

Nunca pude saber o verdadeiro motivo que teria induzido um homem aparentemente tão sensato como o falecido general Krakhótkin a se casar com uma viúva de quarenta e dois anos. É de se imaginar que ele suspeitasse que ela tinha dinheiro. Outros achavam que ele simplesmente precisava de uma babá, pressentindo já então todo aquele enxame de doenças que o acometeria mais tarde, na velhice. Só se sabe que o general teve um profundo desrespeito por sua esposa durante todo o tempo de sua convivência com ela, de quem ria mordazmente a cada oportunidade. Era um homem estranho. Pouco instruído, mas bastante inteligente, decididamente desprezava a todos, não respeitava regra alguma, ria de tudo e de todos; e com a velhice e as doenças — consequência de sua vida não de todo regrada e justa — tornou-se mau, irritadiço e impiedoso. Servira com êxito; fora no entanto forçado, por um certo “acontecimento desagradável”, a reformar-se de uma maneira bastante ruim, esquivando-se por pouco da corte marcial e perdendo sua pensão. Isso o enraiveceu definitivamente. Quase sem quaisquer meios, possuindo uma centena de almas arruinadas, ele cruzou os braços e, pelo resto de sua vida, doze anos ao todo, jamais se indagou com que meios vivia, quem o sustentava; mas, enquanto isso, exigia todas as comodidades da vida, não cortava as despesas, mantinha uma carruagem. Logo perdeu o uso das pernas, e seus últimos dez anos passou sentado numa cadeira de rodas, empurrada, quando necessário, por dois criados gigantescos, que nunca ouviam nada dele além das mais diversas injúrias. A carruagem, a criadagem e a cadeira eram sustentadas pelo filho desrespeitoso, que enviava à mãe seus últimos recursos, que fazia hipoteca em cima de hipoteca de sua propriedade, que abria mão das coisas mais imprescindíveis para si, que contraía dívidas quase impossíveis de serem pagas com seu patrimônio de então; e, mesmo assim, a alcunha de egoísta e de filho ingrato não deixou jamais de acompanhá-lo. Mas o caráter do titio era tal, que ele mesmo finalmente acreditou ser um egoísta, e por isso, em punição a si mesmo e para não ser um egoísta, mandava cada vez mais dinheiro. A generala venerava seu marido. Porém, agradava-lhe sobretudo o fato de que ele era general, e que ela, por conta disso, era uma generala.
Ela tinha sua metade da casa, onde, durante todo o período de semiexistência de seu marido, brilhara na companhia de agregadas, mexeriqueiras da cidade e totós. Em sua cidadezinha, ela era uma importante personalidade. As fofocas, os convites para que fosse madrinha em batizados e casamentos, para jogos de préférence valendo copeques e o respeito geral por sua posição de generala recompensavam-na inteiramente pelas limitações do lar. Os tagarelas da cidade vinham até ela com relatórios; davam-lhe sempre e em toda parte o melhor lugar: em suma, ela tirava de sua posição de generala tudo que podia tirar. O general não se intrometia em nada disso; mas, em compensação, ria da esposa na frente das pessoas sem nenhum pudor; por exemplo, fazia para si mesmo perguntas como: por que se casara com “essa beata?”, e ninguém ousava contrariá-lo. Pouco a pouco, todos os conhecidos o abandonaram; e no entanto ele necessitava de companhia: adorava prosear, discutir, adorava ter sempre diante de si um ouvinte. Era um livre-pensador e um ateu à moda antiga, e por isso adorava discorrer também sobre a alta filosofia.
Mas os ouvintes da cidadezinha de N. não apreciavam a alta filosofia e apareciam cada vez menos. Tentaram organizar uma mesa doméstica de uíste-préférence; mas o jogo terminava geralmente em tamanhos acessos do general, que a generala e suas agregadas, horrorizadas, acendiam velas, encomendavam missas, adivinhavam o futuro em folhas de chá ou em cartas, distribuíam pãezinhos de trigo na prisão e esperavam aterrorizadas o momento da tarde em que novamente teriam que organizar o jogo de uíste-préférence e, a cada erro, levar gritos, ganidos, xingamentos e escapar por pouco de uma surra. O general, quando algo o desagradava, não se constrangia diante de ninguém: berrava como uma mulherzinha, praguejava como um cocheiro, e às vezes, depois de rasgar e espalhar as cartas pelo chão e de enxotar seus parceiros, chegava a chorar de irritação e de raiva, e tudo por conta de algum valete que haviam jogado no lugar de um nove.
Fiodor Dostoievski, in A aldeia de Stiepantchikov e seus habitantes

Creio e não creio

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Ah, eu estou vivido, repassado. Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem... Com isso minha fama clarêia? Remei vida solta. Sertão! estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. Vaqueiros? Ao antes ― a um, ao Chapadão do Urucúia ― aonde tanto boi berra... Ou o mais longe! vaqueiros do Brejo-Verde e do Córrego do Quebra-Quináus! cavalo deles conversa cochicho ― que se diz ― para dar sisado conselho ao cavaleiro, quando não tem mais ninguém perto, capaz de escutar. Creio e não creio. Tem coisa e cousa, e o ó da raposa... Dali para cá, o senhor vem, começos do Carinhanha e do Piratinga filho do Urucúia ― que os dois, de dois, se dão as costas. Saem dos mesmos brejos ― buritizais enormes. Por lá, sucurí geme. Cada surucuiú do grosso! vôa corpo no veado e se enrosca nele, abofa ― trinta palmos! Tudo em volta, é um barro colador, que segura até casco de mula, arranca ferradura por ferradura. Com medo de mãe-cobra, se vê muito bicho retardar ponderado, paz de hora de poder água beber, esses escondidos atrás das touceiras de buritirana. Mas o sassafrás dá mato, guardando o pôço; o que cheira um bom perfume. Jacaré grita, uma, duas, as três vezes, rouco roncado. Jacaré choca ― olhalhão, crespido do lamal, feio mirando na gente. Eh, ele sabe se engordar. Nas lagoas aonde nem um de asas não pousa, por causa de fome de jacaré e da piranha serrafina. Ou outra ― lagoa que nem não abre o olho, de tanto junco. Daí longe em longe, os brejos vão virando rios. Buritizal vem com eles, burití se segue, segue. Para trocar de bacia o senhor sobe, por ladeiras de beira-de-mesa, entra de bruto na chapada, chapadão que não se devolve mais. Água ali nenhuma não tem ― só a que o senhor leva. Aquelas chapadas compridas, cheias de mutucas ferroando a gente. Mutucas! Dá o sol, de onda forte, dá que dá, a luz tanta machuca.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

Invernada no sertão

O sertanejo amola a enxada,
Bate estaca na cerca, troca arame,
Faz o broque da malva e do velame,
Ara as terras da serra e da baixada,
Quando a nuvem destampa a invernada,
Corta a terra, abre cova, põe o grão,
E espera, do céu, a redenção,
E da terra, a fartura pro seu lar,
O inverno chegou para animar
O caboclo sofrido do sertão.

Em mil regos água se derrama,
Rebentando nas pedras do serrote,
Bezerro pelo prado dá pinote,
Galinha cacareja, cisca a grama,
Marmeleiro ligeiro pega rama,
Passarada entoa uma canção,
Mané Besta na ponta dum mourão,
Faz firula por não saber cantar,
O inverno chegou para animar,
O caboclo sofrido do sertão.

Papa-sebo bicora uma saúva,
Berra um bode ao longe, a vaca muge,
A ovelha se farta na babuge,
Abrem flores nas “Toucas de Viúva,”
Natureza celebra quando a chuva,
Se despenca do céu e cai no chão,
Cada vivo renasce numa ação,
Que o milagre da chuva fez brotar,
O inverno chegou para animar,
O caboclo sofrido do sertão.
Zenóbio Oliveira