27/05/2025

História de família

Nunca quis saber a história da minha família. Meu pai chegou ao Brasil no início do século XX, com 20 e poucos anos. E isto é tudo que sei. Por que veio, não sei. Nunca tive curiosidade para perguntar. Ou talvez tenha tido essa curiosidade tarde demais, papai morreu cedo demais, eu jovem demais quando assumi a vida dele, o trabalho na relojoaria, único jeito de ganhar a vida. Quando percebi já era ele. Meu pai morreu aos 45 e eu com 19, filho único, precisava trabalhar para sustentar minha mãe e no ano seguinte, já casado, também Ana. Trabalhar era debruçar em relógios, encomendar peças, pagar o aluguel da lojinha, sair da Tijuca às seis e meia da manhã, pegar dois bondes e chegar à relojoaria na Senhor dos Passos às oito em ponto. Sempre vivi preso ao relógio. Todos os dias, menos sábados e domingos.
Assumir a vida dele era sorrir timidamente para a clientela, usar ternos escuros, caminhar de cabeça baixa. Eu fiz tudo isso, foi tudo tão natural. Com 19 anos eu era papai, a vida inteira pela frente não queria dizer mais nada. Meu destino traçado desde então. E cumprido.
Minha mãe falava que ser relojoeiro era um excelente negócio. Relógios serão relógios para sempre, e graças a Deus sempre estragam, e também graças a Ele as pessoas sempre têm carinho por relógios e não compram outro, querem consertá-los. “E se comprarem, que seja conosco”, ela falava, sorrindo, mas séria, educativa. E a melhor coisa, mamãe me disse, cochichando: “Relógios são fáceis de consertar, qualquer um, até você, pode ganhar a vida assim.”
Mamãe estava certa. Consertar relógios sempre foi fácil. É um dos mecanismos de mais simples engenharia. Uma criança mais espertinha de 8 anos poderia fazer o serviço, eu com 19, 78, ao me aposentar. Geralmente os problemas se resumem a uma peça que esgarça ou que se solta pelo contato brusco do relógio com alguma superfície, ou à bateria que finda. Com as ferramentas certas, encomendando peças novas, sorrindo e prometendo consertar o estimado relógio que está na família há tanto tempo, o precioso presente do pai, marido, esposa, era possível ganhar a vida sem muito suor. Desde que também se vendam uns relógios novos e caros de vez em quando.
Talvez eu tenha um talento que sempre me facilitou o labor, talvez não. Mas passei quase 60 anos consertando relógios e nunca falhei. Poucas vezes aconselhei que o dono desistisse, mas eram casos de relógios vagabundos, em que a peça nova sairia mais cara que um novo. Minha sinceridade e competência me mantiveram no negócio até hoje-ontem, numa época em que quase ninguém manda consertar relógios. Quando me aposentei e entreguei a lojinha alugada, o mundo já aposentara a minha profissão, a profissão do meu pai.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

Gilberto Gil e Marisa Monte | A Paz

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Adélia Prado, em Bagagem

Mistério em São Cristóvão

Numa noite de maio – os jacintos rígidos perto da vidraça – a sala de jantar de uma casa estava iluminada e tranquila.
Ao redor da mesa, por um instante imobilizados, achavam-se o pai, a mãe, a avó, três crianças e uma mocinha magra de dezenove anos. O sereno perfumado de São Cristóvão não era perigoso, mas o modo como as pessoas se agrupavam no interior da casa tornava arriscado o que não fosse o seio de uma família numa noite fresca de maio. Nada havia de especial na reunião: acabara-se de jantar e conversava-se ao redor da mesa, os mosquitos em torno da luz. O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desabrochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família: pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha está se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância.
Depois cada um foi para o seu quarto. A velha estendeu-se gemendo com benevolência. O pai e a mãe, fechadas todas as portas, deitaram-se pensativos e adormeceram. As três crianças, escolhendo as posições mais difíceis, adormeceram em três camas como em três trapézios. A mocinha, na sua camisola de algodão, abriu a janela do quarto e respirou todo o jardim com insatisfação e felicidade. Perturbada pela umidade cheirosa, deitou-se prometendo-se para o dia seguinte uma atitude inteiramente nova que abalasse os jacintos e fizesse as frutas estremecerem nos ramos – no meio de sua meditação adormeceu.
Passaram-se horas. E quando o silêncio piscava nos vaga-lumes – as crianças penduradas no sono, a avó ruminando um sonho difícil, os pais cansados, a mocinha adormecida no meio de sua meditação – abriu-se a casa de uma esquina e dela saíram três mascarados.
Um era alto e tinha a cabeça de um galo. Outro era gordo e vestira-se de touro. E o terceiro, mais novo, por falta de ideias, disfarçara-se em cavalheiro antigo e pusera máscara de demônio, através da qual surgiam seus olhos cândidos. Os três mascarados atravessaram a rua em silêncio.
Quando passaram pela casa escura da família, aquele que era um galo e tinha quase todas as ideias do grupo parou e disse:
Olha só.
Os companheiros, tornados pacientes pela tortura da máscara, olharam e viram uma casa e um jardim. Sentindo-se elegantes e miseráveis, esperaram resignados que o outro completasse o pensamento. Afinal o galo acrescentou:
Podemos colher jacintos.
Os outros dois não responderam. Aproveitaram a parada para se examinar desolados e procurar um meio de respirar melhor dentro da máscara.
Um jacinto para cada um pregar na fantasia, concluiu o galo.
O touro agitou-se inquieto à ideia de mais um enfeite a ter que proteger na festa. Mas, passado um instante em que os três pareciam pensar profundamente para resolver, sem que na verdade pensassem em coisa alguma – o galo adiantou-se, subiu ágil pela grade e pisou na terra proibida do jardim. O touro seguiu-o com dificuldade. O terceiro, apesar de hesitante, num só pulo achou-se no próprio centro dos jacintos, com um baque amortecido que fez os três aguardarem assustados: sem respirar, o galo, o touro e o cavalheiro do diabo perscrutaram o escuro. Mas a casa continuava entre trevas e sapos. E, no jardim sufocado de perfume, os jacintos estremeciam imunes.
Então, o galo avançou. Poderia colher o jacinto que estava à sua mão. Os maiores, porém, que se erguiam perto de uma janela – altos, duros, frágeis – cintilavam chamando-o. Para lá o galo se dirigiu na ponta dos pés, e o touro e o cavalheiro acompanharam-no. O silêncio os vigiava.
Mal porém quebrara a haste do jacinto maior, o galo interrompeu-se gelado. Os dois outros pararam num suspiro que os mergulhou em sono.
Atrás do vidro escuro da janela estava um rosto branco olhando-os.
O galo imobilizara-se no gesto de quebrar o jacinto. O touro quedara-se de mãos ainda erguidas. O cavalheiro, exangue sob a máscara, rejuvenescera até encontrar a infância e o seu horror. O rosto atrás da janela olhava.
Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do outro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Paralisados, eles se espiavam.
A simples aproximação de quatro máscaras na noite de maio parecia ter percutido ocos recintos, e mais outros, e mais outros que, sem o instante no jardim, ficariam para sempre nesse perfume que há no ar e na imanência de quatro naturezas que o acaso indicara, assinalando hora e lugar – o mesmo acaso preciso de uma estrela cadente. Os quatro, vindos da realidade, haviam caído nas possibilidades que tem uma noite de maio em São Cristóvão. Cada planta úmida, cada seixo, os sapos roucos aproveitavam a silenciosa confusão para se disporem em melhor lugar – tudo no escuro era muda aproximação. Caídos na cilada, eles se olhavam aterrorizados: fora saltada a natureza das coisas e as quatro figuras se espiavam de asas abertas. Um galo, um touro, o demônio e um rosto de moça haviam desatado a maravilha do jardim... Foi quando a grande lua de maio apareceu.
Era um toque perigoso para as quatro imagens. Tão arriscado que, sem um som, quatro mudas visões recuaram sem se desfitarem, temendo que no momento em que não se prendessem pelo olhar novos territórios distantes fossem feridos, e que, depois da silenciosa derrocada, restassem apenas os jacintos – donos do tesouro do jardim. Nenhum espectro viu o outro desaparecer porque todos se retiraram ao mesmo tempo, vagarosos, na ponta dos pés. Mal, porém, se quebrara o círculo mágico de quatro, livres da vigilância mútua, a constelação se desfez com terror: três vultos pularam como gatos as grades do jardim, e um outro, arrepiado e engrandecido, afastou-se de costas até o limiar de uma porta, de onde, num grito, se pôs a correr.
Os três cavalheiros mascarados que, por ideia funesta do galo, pretendiam fazer uma surpresa num baile tão longe do carnaval, foram um triunfo no meio da festa já começada. A música interrompeu-se e os dançarinos ainda enlaçados, entre risos, viram três mascarados ofegantes parar como indigentes à porta. Afinal, depois de várias tentativas, os convidados tiveram que abandonar o desejo de torná-los os reis da festa porque, assustados, os três não se separavam: um alto, um gordo e um jovem, um gordo, um jovem e um alto, desequilíbrio e união, os rostos sem palavras embaixo de três máscaras que vacilavam independentes.
Enquanto isso, a casa dos jacintos iluminara-se toda. A mocinha estava sentada na sala. A avó, com os cabelos brancos entrançados, segurava o copo d’água, a mãe alisava os cabelos escuros da filha, enquanto o pai percorria a casa. A mocinha nada sabia explicar: parecia ter dito tudo no grito. Seu rosto apequenara-se claro – toda a construção laboriosa de sua idade se desfizera, ela era de novo uma menina. Mas na imagem rejuvenescida de mais de uma época, para o horror da família, um fio branco aparecera entre os cabelos da fronte. Como persistisse em olhar em direção da janela, deixaram-na sentada a repousar, e, com castiçais na mão, estremecendo de frio nas camisolas, saíram em expedição pelo jardim.
Em breve as velas se espalhavam dançando na escuridão. Heras aclaradas se encolhiam, os sapos saltavam iluminados entre os pés, frutos se douravam por um instante entre as folhas. O jardim, despertado no sonho, ora se engrandecia ora se extinguia; borboletas voavam sonâmbulas. Finalmente a velha, boa conhecedora dos canteiros, apontou o único sinal visível no jardim que se esquivava: o jacinto ainda vivo quebrado no talo... Então era verdade: alguma coisa sucedera. Voltaram, iluminaram a casa toda e passaram o resto da noite a esperar.
Só as três crianças dormiam ainda mais profundamente.
A mocinha aos poucos recuperou sua verdadeira idade. Somente ela não vivia a perscrutar. Mas os outros, que nada tinham visto, tornaram-se atentos e inquietos. E como o progresso naquela família era frágil produto de muitos cuidados e de algumas mentiras, tudo se desfez e teve que se refazer quase do princípio: a avó, de novo pronta a se ofender, o pai e a mãe fatigados, as crianças insuportáveis, toda a casa parecendo esperar que mais uma vez a brisa da abastança soprasse depois de um jantar. O que sucederia talvez noutra noite de maio.

Clarice Lispector, em Todos os contos

Provérbio

O seguro morreu de guarda-chuva.

Mário Quintana, em Sapato Florido

Pra publicar um livro

Considerações Iatrofilosóficas

Realmente, como vocês devem estar cansados de me ver repetir, não se pode querer tudo neste mundo. Há gente, contudo, como eu, que continua neuroticamente tentando. E não consegue, claro. Por exemplo, aqui com o juízo coçando, eu ia falar mal do governo outra vez. Como também já disse, não é que eu goste de falar mal do governo. Pelo contrário, queria falar bem, mas sabem como é, às vezes fica difícil (lá ia eu de novo, mil perdões). Pronto, não vou falar mal do governo. Mas aí outro problema que me aflige se apresentou, como é também frequente: um dos meus acessozinhos de pernosticismo, no título acima, com o uso de uma palavra que nem mesmo está registrada nos dicionários que consultei, embora sua formação me pareça tão legítima quanto a de “imexível”. Procurei esquivar-me, mas não deu e me redimo parcialmente, explicando que “iatro” é um elemento de composição que vem do grego e quer dizer “médico”. Por exemplo, “iatrogênico”, palavra que existe mesmo, qualifica uma enfermidade ou anomalia provocada pelo tratamento, ou seja, pelo médico. Não sei nem por que ela existe, pois ninguém ignora que médico não comete esse tipo de erro, como, segundo me dizem, costuma ser a posição dos conselhos regionais de medicina diante de denúncias — sempre calúnias geradas por pacientes irresponsáveis e, notadamente, pela imprensa, como todas as desgraças e calamidades.
Preâmbulo concluído, apresso-me a apresentar-lhes meu grande amigo Toinho Sabacu, conceituado cidadão de Itaparica, de quem nunca lhes falei antes devido a injusto esquecimento, pois ele, por suas inúmeras boas qualidades, já de muito merecia ser mais conhecido. E também porque, apesar de sermos amigos, ai de nós, há mais de 60 anos, não prestara suficiente atenção a certas colocações suas (vejam como posso não ser craque, mas dá para manejar o linguajar contemporâneo), que considero educativas, relevantes e de acentuado interesse público. No exemplo que vou narrar-lhes, as utilidades práticas e filosóficas são evidentes e devem interessar bastante aos que se preocupam com a saúde dos brasileiros, na vanguarda dos quais está o governo (pronto, lá vou eu novamente; por favor, ignorem esta última ironia).
Toinho é, que eu saiba, o autor da metáfora da catraca, alusão ao inevitável transcurso de todos nós desta para melhor. Ele sabe que ninguém escapa de passar pela catraca e, da mesma forma que a maioria, deseja adiar esse momento, digamos, desagradável, o máximo possível. É, aliás, da ala radical, não quer nem ouvir falar na catraca. Cuida-se com seriedade, não fuma, só bebe um copinho de cerveja de caju em caju, não come o que faz mal e, enfim, obedece escrupulosamente às recomendações aplicáveis à preservação da boa saúde. E oferece conselhos e exemplos práticos sempre que surge uma ocasião oportuna. Como os que expôs há pouco tempo, em relação a adivinhe o quê. Claro, exame de próstata, ato execrado pelos varões em geral e especialmente os itaparicanos, eis que a machidão altiva por lá impera, em grau ainda maior que entre outras coletividades. Ele me contou por que, apesar de seus princípios, a lembrança da catraca o leva a fazer o exame com resignação e assiduidade, sem receio ou acanhamento.
O médico me disse — disse ele — uma coisa importante. Ele queria fazer o exame, mas mandava minha natureza perguntar se não dava para quebrar o galho sem precisar enfiar o dedo num orifício de grande privacidade, em que eu nunca aprovei enfiar nada, pelo menos no meu. Aí ele me explicou que o exame do PSA era uma indicação importante, mas insuficiente, por isso e por aquilo. E, no que se refere à ultrassonografia, ele me elucidou: “Seu Antônio, vamos comparar a ultrassonografia a uma fotografia. Ela me dá uma visão de sua próstata, do tamanho a outros aspectos, é mais ou menos como uma foto. Mas, se eu puser um grãozinho de areia da praia na sua mão e fizer a foto dela, o senhor não vai enxergar o grãozinho. No entanto, se o senhor passar o dedo na mão, vai sentir alguma coisa, por mais miudinha que seja. É por isso que, apesar de compreender e respeitar a sua posição, enfiar o dedo é indispensável para um exame correto.”
E o que foi que você respondeu?
Ah, então pode até enfiar os cinco, doutor. Eu sou um homem de decisão e não é assim que eu vou dar moleza para a catraca.
Impressionado com a destemida atitude, passo adiante para o distinto leitor que ainda reluta e para as pessoas a ele afeiçoadas. É de fato rematada frescura esse negócio de não permitir o exame da dedada, catraquismo explícito, para não dizer pior. E acrescento um complemento adicional à lição. Outro amigo nosso, viúvo e em seus galantes 66 anos, tem-se recusado a fazer uma operação na próstata, porque traz a possibilidade de torná-lo impotente.
Que é que você está me dizendo? — espantou-se Toinho. — Ele não vai fazer a operação com medo disso? E ainda mais com 66 anos?
Pois é.
Interessante essa, muito interessante. Agora eu lhe pergunto, ele quer morrer com uma ereção, é isso? — Indagou ele, sem propriamente usar a expressão “com uma ereção”, mas outra, essa mesma em que vocês estão pensando. — É, bonita morte. Caixão especial abaulado no meio, algumas pessoas querendo conferir, coisa fina mesmo, uma beleza. E de fato não se pode negar que tem uma vantagem nisso.
Vantagem, que vantagem?
Ele vai poder transar com todas as caveirinhas do cemitério, não deve ser isso que ele está querendo?

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

Enquanto agonizo



Tull

Era quase meia-noite e tinha começado a chover quando ele nos acordou. Foi uma noite medonha, com a tempestade formando-se; uma noite em que se espera que aconteça o pior, antes de se trazer o gado do pasto e se entrar em casa para jantar e meter-se na cama com a chuva começando a cair, e então, quando a parelha de Peabody chegou aqui, coberta de espuma, com o a mês partido, a se arrastar, e a coleira por entre as patas do animal à direita, Cora disse: “É Addie Bundren. Ela acabou-se, afinal.” “Peabody pode ter ido a um das dezenas de casas que existem nas redondezas”, digo. “Além disso, como você tem certeza que é a parelha de Peabody?” “Acha que não?”, ela diz. “Vamos, vá atrelar os cavalos.” “Para que?”, digo. “Se ela acabou-se, nada podemos fazer até de manhã. E a tempestade vai desabar.” “É meu dever”, ela diz. “Vá recolher a parelha”. Mas eu não queria. “Acho melhor que eles nos chamem, se precisarem de nós. Você nem mesmo tem certeza se ela morreu.” “Ora, não vê que é a parelha de Peabody? Insiste em dizer que não? Como quiser, então.” Mas eu não queria ir. Sempre achei que, se alguém quer prestar ajuda, melhor esperar que lhe peçam. “Fiz meu dever de cristã”, diz Cora. “Quer se interpor entre eu e meu dever de cristã?” “Você pode ficar lá o dia inteiro, amanhã, se quiser”, digo.
Assim, quando Cora me acordou, já havia começado a chover. Mesmo enquanto eu ia à porta, com a candeia, fazendo-a brilhar, através do vidro, para que ele visse que eu ia atender, ele continuou batendo à porta. Não muito alto, mas com firmeza, como se pudesse cair no sono enquanto batia, mas eu não havia percebido ainda que as pancadas soavam mais embaixo, na porta, até que abri e não vi nada. Levantei a candeia, a chuva cintilou adiante da candeia e Cora, atrás, no corredor, dizia: “Quem é, Vernon?”, mas eu não podia ver ninguém, a princípio, até que baixei a candeia e examinei o portal.
Ele parecia um cãozinho encharcado, com seu macacão, sem chapéu cheio de lama até os joelhos, pois caminhara seis quilômetros na lama. “Bem, que o diabo me leve”, eu disse.
Quem é, Vernon?”, diz Cora. Ele olhou para mim, seus olhos redondos e pretos no centro, como quando a gente ilumina, de súbito, a cara de uma coruja. “Não se esqueça daquele peixe”, diz. “Venha para dentro”, eu digo. “Que aconteceu? Sua mamãe...” “Vernon”, diz Cora. Ele continuava parado junto à porta, no escuro. A chuva respingava a candeia, tamborilando de tal forma que eu tinha mede que ela se quebrasse a qualquer instante. “Você estava lá”, ele diz. “Você viu o peixe.” Então Cora chegou-se à porta. “Você aí, saia da chuva”, ela diz, puxando-o para dentro, enquanto ele contínua a me observar. Parecia mesmo um cachorrinho encharcado, “Eu lhe disse”, diz Cora. “Eu lhe disse que havia acontecido alguma coisa. Agora, vá atrelar os cavalos.” “Mas ele não disse...” Ele me olhou, gotas de chuva pingando no chão. “Está estragando o tapete”, diz Cora. “Vá cuidar da parelha enquanto eu o conduzo à cozinha.” Mas ele continuava atrás, pingando água, observando-me com aqueles olhos. “Você estava lá. Você o viu jogado no chão. Cash vai pregá-la, e ele estava estirado no chão. Você o viu. Você viu o sinal na poeira. Eu já vinha para cá quando começou a chover. Portanto, podemos chegar a tempo.” O diabo me leve se não senti calafrios, mesmo não sabendo ainda de nada. Mas Cora sabia. “Apronte a parelha o mais depressa que puder”, diz ela. “Ele está fora de si, de tanta dor e aflição.” O diabo me leve se não senti calafrios. De quando em quando, a gente se põe a pensar. Sobre todas as tristezas e aflições deste mundo; que é capaz de ferir em qualquer lugar, como o raio. Acho que para a gente se resguardar, é preciso muita fé em Deus, embora eu sinta, às vezes, que Cora é precavida demais, pois trata de afastar os outros e ficar o mais perto possível do acontecimento. Mas então, quando acontece uma coisa dessas, acho que ela tem razão e que não se pode dizer o contrário e que é uma bênção ter uma mulher que age sempre com piedade e que me indica sempre boas ações.
De vez em quando a gente tem de pensar nessas coisas. Sem exageros, porém. O que é bom. Pois o Senhor deseja que a gente aja em vez de passar todo o tempo pensando, porque o cérebro é como uma peça de maquinismo: não precisa estar sempre em movimento. Melhor deixá-lo funcionar rotineiramente, fazendo as tarefas do dia, sem utilizar, mais que o necessário, nenhuma de suas partes. Já disse e repito que e isto mesmo o que se passa com Darl: ele pensa muito, sozinho. Cora está certa quando diz que ele precisa e de uma mulher para fortalecer-se. E quando penso nisso, concluo que, se o casamento é a única salvação de um homem, então ele está perdido. Mas reconheço que Cora tem razão quando diz que a razão de Deus haver criado as mulheres está em que o homem não conhece seu próprio bem quando este bem aparece.
Quando voltei à casa com a parelha, eles já estavam na cozinha. Ela tinha-se vestido por cima da camisa de dormir e trazia um xale na cabeça e sua sombrinha e sua bíblia embrulhados num pedaço de oleado; ele estava sentado num balde de boca para baixo, sobre a chapa de zinco do fogão, onde ela o tinha posto, e pingava água no chão. “Não consigo fazê-lo falar, a não ser sobre um peixe”, ela diz. “É castigo de Deus. Vejo as mãos de Deus pousadas sobre este menino, para castigo e advertência de Anse Bundren.” “A chuva não havia começado quando eu saí”, ele diz. “Eu saí antes. Eu já estava na estrada. E ele estava jogado na poeira. Você o viu. Cash vai pregá-la, mas você o viu.” Quando chegamos, a chuva havia engrossado, e ele viajara sentado entre nós dois, envolvido no xale de Cora. Não falara mais nada; sentado, deixara que Cora segurasse a sombrinha sobre sua cabeça. De vez em quando, Cora parava de entoar um cântico para dizer: “É o castigo de Anse Bundren. Talvez isto the mostre o caminho do pecado que está trilhando.” Depois, voltava a cantar, e ele ali, sentado entre nós dois, inclinado para a frente, como se as mulas não conseguissem acompanhá-lo na sua pressa.
Ele estava ali, atirado ao chão”, diz, “mas a chuva só caiu depois que eu comecei a andar. De forma que posso abrir as janelas, pois Cash ainda não bateu os pregos.” Passava muito da meia-noite quando batemos o último prego e era quase de manhã quando voltamos para casa e eu desfiz a parelha e voltei para a cama, e o barrete de dormir de Cora estava em cima do outro travesseiro. O diabo me carregue se, mesmo então, eu não ouvia ainda o salmo de Cora e sentia que o menino se inclinava para diante, entre nós dois, como se quisesse ultrapassar as mulas, e ainda via Cash avançando e recuando o corpo, com aquela serra, e Anse em pé, como um estafermo, semelhante a um boi que, ajoelhado à beira de um poço, ainda não percebeu que alguém chega e o cutuca no flanco.
O dia estava prestes a raiar quando batemos o último prego e levamos o caixão para dentro da casa, onde ela estava estirada na cama, com a janela aberta e a chuva fustigando-a novamente. Por duas vezes ele fez o caixão, e está tão morto de sono que Cora diz que sua cara se parece com uma dessas máscaras de Natal que esteve enterrada algum tempo e que alguém desenterra; até que, afinal, puseram-na dentro e fecharam a tampa com pregos, para que ele não possa mais abrir a janela do quarto dela. E, de manhã, encontraram-no dormindo no chão, de camisa, como um bezerro abatido, e a tampa do caixão estava cheia de buracos e a broca nova de Cash quebrara-se ao abrir o último. E quando tiraram a tampa eles viram que dois dos buracos tinham penetrado fundo na cara dela.
Se é castigo, não é justo. Porque Deus tem mais com que se preocupar. Não pode ser de outra forma. Porque o único fardo que Anse Bundren tem de carregar é sua própria pessoa. E quando se põem a criticá-lo, eu digo a mim mesmo que ele é mais homem do que julgam, pois, se assim não fosse, não teria aguentado tanto.
Não é justo. O diabo me leve se é. Porque, se Ele disse: “Deixai vir a mim os pequeninos”, o castigo, então, não é Justo. Cora disse: “Tenho dado a você o que Deus Nosso Senhor me permite. Encarei-o sem medo, nem terror, porque minha fé em Deus era forte, eia sempre me animou e amparou. Se você não tem filho, é porque Deus assim determinou em sua sabedoria. Minha vida é e sempre tem sido um livro aberto para qualquer homem ou mulher entre as criaturas que Ele criou, pois eu confio em meu Deus e em minha recompensa.” Reconheço que ela está certa. Reconheço que, se há homem ou mulher em quem Ele possa confiar as coisas e descansar, essa pessoa terá de ser Cora. E reconheço também que ela faria algumas mudanças, por melhor que Ele houvesse disposto as coisas. Acho que as mudanças viriam para o bem de todos. Pelo menos, teríamos de aceitá-las. Pelo menos, agiríamos como se as aceitássemos.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

24/05/2025

Mestrinho | Pra Você Voltar Pra Mim / Tarde Demais

O mundo em que vivo

Recusei-me a viver
fechada na bem composta
das razões e das provas.
O mundo em que vivo e creio
é mais amplo. De qualquer forma,
o que há de errado em “Talvez”?

Na acreditarias no que, vez ou outra,
tenho visto. Apenas
isto direi:
só se levares anjos no pensamento
é que terás a hipótese de, um dia, os ver.

Mary Oliver, (versão de Pedro Belo Clara)

Singular ocorrência


Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.
De preto?
Justamente; lá vai entrando; entrou.
Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua recordação de outro tempo, e não há de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.
Deve ter 46 anos.
Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?
Não.
Bem; o marido ainda vive. É velho?
Não é casada.
Solteira?
Assim, assim. Deve chamar-se hoje d. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.
Por exemplo, ao senhor.
Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de 26 anos, meio advogado, meio político, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, donde viera em 1859. Era bonita a mulher dele, afetuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dous anos.
Apesar disso, a Marocas...?
É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa, conto-lhe uma cousa interessante.
Diga.
A primeira vez que ele a encontrou foi à porta da loja Paula Brito, no Rocio. Estava ali, viu a distância uma mulher bonita, e esperou, já alvoroçado, porque ele tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o número ali escrito. Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provável da casa. Ela cortejou com muita graça; ele ficou sem saber o que pensasse da pergunta.
Como eu estou.
Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Ele não chegou a suspeitá-lo. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estátua nem jardim, e ir à casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao Ginásio; dava-se a Dama das Camélias; Marocas estava lá, e, no último ato, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de 15 dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sozinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra afeição, não cogitando de nenhum outro interesse.
Como a Dama das Camélias.
Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. — Estou mestre-escola, disse-me ele um dia; e foi então que me contou a anedota do Rocio. Marocas aprendeu depressa. Compreende-se; o vexame de não saber, o desejo de conhecer os romances em que ele lhe falava, e finalmente o gosto de obedecer a um desejo dele, de lhe ser agradável... Não me encobriu nada; contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu tinha a confiança de ambos. Jantávamos às vezes os três juntos; e... não sei por que negá-lo — algumas vezes os quatro. Não cuide que eram jantares de gente pândega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se intimidade entre nós; ela interrogava-me acerca da vida do Andrade, da mulher, da filha, dos hábitos dele, se gostava deveras dela, ou se era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a força e a sinceridade da afeição... Um dia, uma festa de São João, o Andrade acompanhou a família à Gávea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dous dias de ausência. Eu fui com eles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comédia que ouvira algumas semanas antes no Ginásio — Janto com minha mãe — e disse-me que, não tendo família para passar a festa de São João, ia fazer como a Sofia Arnoult da comédia, ia jantar com um retrato; mas não seria o da mãe, porque não tinha, e sim do Andrade. Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ela, porém, vendo que eu estava ali, afastou-o delicadamente com a mão.
Gosto desse gesto.
Ele não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambas as mãos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gávea. De caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as últimas frioleiras de ambos, falou-me do projeto que tinha de comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispor de dinheiro; e, de passagem, elogiou a modéstia da moça, que não queria receber dele mais do que o estritamente necessário. “Há mais do que isso”, disse-lhe eu, e contei-lhe uma cousa que sabia, isto é, que cerca de três semanas antes, a Marocas empenhara algumas joias para pagar uma conta da costureira. Esta notícia abalou-o muito; não juro, mas creio que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de cogitar algum tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pô-la ao abrigo da miséria. Na Gávea ainda falamos da Marocas, até que as festas acabaram, e nós voltamos. O Andrade deixou a família em casa, na Lapa, e foi ao escritório aviar alguns papéis urgentes. Pouco depois do meio-dia apareceu-lhe um tal Leandro, ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de costume, dous ou três mil-réis. Era um sujeito reles e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patrão. Andrade deu-lhe três mil-réis, e, como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedotas eróticas, perguntou-lhe se eram amores. Ele mastigou um pouco, e confessou que sim.
Olhe; lá vem ela saindo; não é ela?
Ela mesma; afastemo-nos da esquina.
Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duquesa.
Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do Ouvidor...
Sim, senhor. Compreendo o Andrade.
Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na véspera uma fortuna rara, ou antes única, uma cousa que ele nunca esperara achar, nem merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre-diabo. Mas, enfim, os pobres também são filhos de Deus. Foi o caso que, na véspera, perto das dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada num xale grande. A dama vinha atrás dele, e mais depressa; ao passar rentezinha com ele, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando devagar, como quem espera. O pobre-diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apesar da roupa simples, viu logo que não era cousa para os seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instância, que ele chegou atrever-se um pouco; ela atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Cousa papa-fina. E depois o desinteresse... “Olhe, acrescentou ele, para Vossa Senhoria é que era um bom arranjo.” Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, número tantos...
Não me diga isso!
Imagine como não ficou o Andrade. Ele mesmo não soube o que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante cousa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe segredo, dizendo que ele, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sair; Andrade deteve-o e propôs-lhe um negócio; propôs-lhe ganhar vinte mil-réis. — “Pronto!” — “Dou-lhe vinte mil-réis, se você for comigo à casa dessa moça e disser em presença dela que é ela mesma.”
Oh!
Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, nesse caso, cega os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo, e ele amava-a tanto, que não recuou diante de uma tal vingança.
O outro aceitou?
Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte mil-réis... Pôs uma condição: não metê-lo em barulhos... Marocas estava na sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguém. Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empalideceu. — “É esta senhora?” perguntou ele. — “Sim, senhor”, murmurou o Leandro com voz sumida, porque há ações ainda mais ignóbeis do que o próprio homem que as comete. Andrade abriu a carteira com grande afetação, tirou uma nota de vinte mil-réis e deu-lha; e, com a mesma afetação, ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro saiu. A cena que se seguiu foi breve, mas dramática. Não a soube inteiramente, porque o próprio Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita cousa lhe escapou. Ela não confessou nada; mas estava fora de si, e, quando ele, depois de lhe dizer as cousas mais duras do mundo, atirou-se para a porta, ela rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar da escada; ele desceu vertiginosamente e saiu.
Na verdade, um sujeito reles, apanhado na rua; provavelmente eram hábitos dela?
Não.
Não?
Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veio à minha casa, e esperou por mim. Já me tinha procurado três vezes. Fiquei estupefato; mas como duvidar, se ele tivera a precaução de levar a prova até à evidência? Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estilo e todo o repertório dessas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal, vivesse para a mulher e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Ele concordava, mas tornava ao furor. Do furor passou à dúvida; chegou a imaginar que a Marocas, com o fim de o experimentar, inventara o artifício e pagara ao Leandro para vir dizer-lhe aquilo; e a prova é que o Leandro, não querendo ele saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o número. E agarrado a esta inverossimilhança, tentava fugir à realidade; mas a realidade vinha — a palidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio até que ele arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!
Há uma frase de teatro que pode explicar a aventura, uma frase de Augier, creio eu: “a nostalgia da lama”.
Acho que não; mas vá ouvindo. Às dez horas apareceu-nos em casa uma criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava aflita em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito, trancada no quarto, saiu de casa sem jantar, e não voltara mais. Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sair logo. A preta pedia-nos por tudo que fôssemos descobrir a ama. “Não é costume dela sair?”, perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume. “Está ouvindo?”, bradou ele para mim. Era a esperança que de novo empolgara o coração do pobre-diabo. “E ontem?...”, disse eu. A preta respondeu que na véspera sim; mas não lhe perguntei mais nada, tive compaixão do Andrade, cuja aflição crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Saímos em busca da Marocas; fomos a todas as casas em que era possível encontrá-la; fomos à polícia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manhã voltamos à polícia. O chefe ou um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da Marocas era conhecida de todos os seus amigos. Pesquisou-se tudo; nenhum desastre se dera durante a noite; as barcas da praia Grande não viram cair ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma; as boticas nenhum veneno. A polícia pôs em campo todos os seus recursos, e nada. Não lhe digo o estado de aflição em que o pobre Andrade viveu durante essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquisas inúteis. Não era só a dor de a perder; era também o remorso, a dúvida, ao menos, da consciência, em presença de um possível desastre, que parecia justificar a moça. Ele perguntava-me, a cada passo, se não era natural fazer o que fez, no delírio da indignação, se eu não faria a mesma cousa. Mas depois tornava a afirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na véspera tentara provar que era falsa; o que ele queria era acomodar a realidade ao sentimento da ocasião.
Mas, enfim, descobriram a Marocas?
Estávamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito horas, quando recebemos notícia de um vestígio: — um cocheiro que levara na véspera uma senhora para o Jardim Botânico, onde ela entrou em uma hospedaria, e ficou. Nem acabamos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim Botânico. O dono da hospedaria confirmou a versão; acrescentando que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada desde que chegou na véspera; apenas pediu uma xícara de café; parecia profundamente abatida. Encaminhamo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu à porta; ela respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e caíram nos braços um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.
Tudo se explicou?
Cousa nenhuma. Nenhum deles tornou ao assunto; livres de um naufrágio, não quiseram saber nada da tempestade que os meteu a pique. A reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, meses depois, uma casinha em Catumbi; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dous anos. Quando ele seguiu para o Norte, em comissão do governo, a afeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem já a mesma intensidade. Não obstante, ela quis ir também; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na província. A Marocas sentiu profundamente a morte, pôs luto, e considerou-se viúva; sei que nos três primeiros anos ouvia sempre uma missa no dia aniversário. Há dez anos perdi-a de vista. Que lhe parece tudo isto?
Realmente, há ocorrências bem singulares, se o senhor não abusou da minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...
Não inventei nada; é a realidade pura.
Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.
Não: nunca a Marocas desceu até aos Leandros.
Então por que desceria naquela noite?
Era um homem que ela supunha separado, por um abismo, de todas as suas relações pessoais; daí a confiança. Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo tempo... Enfim, cousas!

Machado de Assis, em Gazeta de Notícias, 30 de maio de 1883

O impagável Laerte

 

Em Busca dos Vencidos

Escolhi um caminho

Embora eu tenha me tornado militante muito mais tarde no Chile, quando ingressei oficialmente no partido, creio ter-me definido como um comunista diante de mim mesmo durante a guerra da Espanha. Muitas coisas contribuíram para a minha profunda convicção.
Meu contraditório companheiro, o poeta nietzschiano León Felipe, era um homem encantador. O melhor entre seus atrativos era um anárquico senso de indisciplina e de rebeldia zombeteira. Em plena guerra civil adaptou-se facilmente à chamativa propaganda da FAI (Federación Anarquista Ibérica). Percorria frequentemente as frentes anarquistas onde expunha seus pensamentos e lia seus poemas iconoclastas. Estes refletiam uma ideologia vagamente acrata, anticlerical, com invocações e blasfêmias. Suas palavras cativavam os grupos que se multiplicavam pitorescamente em Madri enquanto a população ia para a frente de batalha cada vez mais próxima. Os anarquistas pintavam bondes e ônibus, metade vermelha e outra amarela. Com seus cabelos compridos e barbas, colares e pulseiras de balas, protagonizavam o carnaval agônico da Espanha. Vi vários deles calçando sapatos emblemáticos, a metade de couro vermelho e a outra de couro negro, cuja confecção devia ter custado muitíssimo trabalho aos sapateiros. E não pensem que era uma festa inofensiva. Cada um levava punhais, pistolas descomunais, rifles e carabinas. Em geral ficavam nas portas principais dos edifícios em grupos que fumavam e cuspiam, fazendo ostentação de seu armamento. Sua principal preocupação era cobrar os rendimentos aos aterrorizados inquilinos, assim como fazer-lhes renunciar voluntariamente a seus adornos de valor, anéis e relógios.
Voltava León Felipe de uma de suas conferências anarquistas, já de noite, quando nos encontramos no café da esquina de minha casa. O poeta levava uma capa espanhola que ia muito bem com sua barba nazarena. Ao sair, roçou com as elegantes pregas de sua ostentação romântica em um de seus melindrosos correligionários. Não sei se o aspecto de antigo fidalgo de León Felipe aborreceu aquele “herói” da retaguarda mas o certo é que fomos detidos a poucos passos por um grupo de anarquistas, encabeçados pelo ofendido do café. Queriam examinar nossos papéis e, depois de dar-lhes uma vistoria, levaram o poeta lionês entre dois homens armados.
Enquanto o conduziam para o fuzilamento próximo à minha casa, cujos tiros noturnos muitas vezes não me deixavam dormir, vi passar dois milicianos armados que voltavam do front. Expliquei-lhes quem era León Felipe, qual era a falta em que havia incorrido e graças a eles pude obter a liberação de meu amigo.
Esta atmosfera de perturbação ideológica e de destruição gratuita me deu muito que pensar. Soube das façanhas de um anarquista austríaco, velho e míope, de longas melenas louras, que tinha se especializado em dar “passeios”. Tinha formado uma brigada que batizou “Amanecer” porque atuava à saída do sol.
Você não sentiu uma dor de cabeça? - perguntava à vítima.
Sim, claro, uma ou outra vez.
Pois vou dar-lhe um bom analgésico – dizia o anarquista austríaco, encostando-lhe na fronte o revólver e disparando uma bala.
Enquanto esses bandos pululavam pela noite cega de Madri, os comunistas eram a única força organizada que criava um exército para enfrentar os italianos, os alemães, os mouros e os falangistas. E eram, ao mesmo tempo, a força moral que mantinha a resistência e a luta antifascista.
Simplesmente tinha que escolher um caminho. Foi o que fiz naqueles dias e nunca me arrependi da decisão tomada entre as trevas e a esperança daquela época trágica.

Pablo Neruda, em Confesso que Vivi

The End, de Paul McCartney e John Lennon


Oh yeah, alright
Are you gonna be in my dreams tonight?
And in the end the love you take
Is equal to the love you make

Copiando versos de “O conto da prioresa”, de Os contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer. Caderno escolar de Literatura Inglesa de Paul
John nem de longe compartilhava de meu interesse pela literatura, embora curtisse Lewis Carroll e, em particular, Winston Churchill. A tia dele, a Dona Mimi, tinha muitos livros de Churchill na sala de visitas. É uma sólida base educacional.
No meu caso, sempre fui fascinado pelo dístico, ou parelha, a estrofe com dois versos rimados. Se você for parar para pensar, o dístico tem sido o carro-chefe da poesia inglesa desde o início. Chaucer, Pope, Wilfred Owen. Sempre me fascino pela forma como Shakespeare usa o dístico para arrematar uma cena ou uma peça inteira. Basta dar uma folheada em Macbeth, por exemplo, para você encontrar maravilhas como:

Receive what cheer you may:
The night is long that never finds the day.

ou

I go, and it is done; the bell invites me.
Hear it not, Duncan; for it is a knell
That summons thee to heaven or to hell.

Essa era a maneira de Shakespeare dizer: “Isso é tudo, pessoal”, e a canção “The End” foi a nossa maneira de dizer o mesmo.

And in the end the love you take
Is equal to the love you make

Esse é um daqueles dísticos que deixam a gente pensando um tempão. Pode ter a ver com um bom carma. Tudo o que vai, um dia volta, como se diz.
Muitas vezes, eu penso no que poderia ter acontecido se eu não tivesse entrado numa banda que acabou levando a minha vida de roldão. Fico me perguntando sobre o caminho que pensei trilhar com meu conceito A em Literatura Inglesa e aonde isso poderia ter me levado.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

22/05/2025

Hamilton de Holanda Trio / Todo dia é um recomeço

Pequeno exercício de ornitologia hagiográfica

Imagem: quatro trabalhos do holandês Albert Eckhout (1610–1665) para a ornitologia brasileira


de santos e sábios
os céus
têm os seus sabiás
e assuns.

só as aves sãs
são os anjos
que nos cabem,
nos sabem.

na igreja homens
egressos do barro
de novo são barro
cozido e pintado.

mas de Pedro
vejo o velho
vivo de cabeça
para baixo,

de Sebastião
vejo o jovem
que era são
antes das setas

e Francisco todo,
são e sanado,
canta ao lobo
-guará e suindara.

São Barro,
rogai por nós,
somos só
roupa e borra.

o que difere
seu João
de
São João?

o que difere
ave, Maria’
de
vai, Maria’?

o cardeal
a quem peço
a bença
é o pássaro,

o sol no mar
é meu Lázaro
e é você o sal
da minha terra.

seja sã, Maria,
seja são, João,
nessa febre
terçã do chão

enquanto
no céu, suave
e só,
vai a ave.

Ricardo Domeneck, em https://ricardo-domeneck.blogspot.com/

As duas portas

I

Disse a discreta Penélope: Forasteiro! Há sonhos inescrutáveis e de linguagem obscura, e não se realiza tudo quanto eles anunciam aos homens. Há duas portas para os leves sonhos: Uma, construída de chifre; outra, de marfim. Os que vêm através do brunido marfim nos enganam, trazendo-nos palavras sem finalidade; as que saem pelo polido chifre anunciam, ao mortal que os vê, coisas que realmente vão acontecer.
Odisseia, XIX

II

Gêmeas são as portas do sonho, das quais se diz que uma é de chifre e através dela se dá saída fácil às verdadeiras sombras; a outra, reluzente, primorosamente lavrada em branco marfim, é aquela pela a qual as almas enviam à terra os falsos sonhos.
Eneida, VI

Em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

A arte da colagem do curitibano Catenzaro

Curitiba, de Adriano Catenzaro

1565 – Yauyos

Essa pedra sou eu

O funcionário do rei aguarda a bruxa, sábia em maldades, que virá prestar contas. Aos seus pés jaz, de boca para baixo, o ídolo de pedra. A bruxa foi surpreendida quando estava velando esta huaca escondida, e daqui a pouco pagará por sua heresia. Mas antes do castigo, o funcionário quer escutar de sua boca a confissão de suas conversas com o demônio. Enquanto espera que ela chegue, se distrai pisando a huaca e meditando sobre o destino destes índios, que dá pena a Deus tê-los feito.
Os soldados atiram a bruxa e a deixam tremendo no umbral.
Então a huaca de pedra, feia e velha, cumprimenta em idioma quechua a bruxa velha e feia:
Bem-vinda sejas, princesa – diz a voz, rouca, debaixo das solas do funcionário.
O funcionário fica vesgo e cai, esparramado, no chão.
Enquanto o abana com um chapéu, a velha se agarra à casaca do desmaiado e clama: “Não me castigues, senhor, não a quebre!”
A velha queria explicar-lhe que nessa pedra vivem as divindades e que se não fosse por causa da huaca, ela não saberia como se chama, nem quem é, nem de onde vem e andaria pelo mundo nua e perdida.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A vida não é cousa terrível?

 


[...]

Saímos, sobre, fomos. Mas descemos no canudo das desgraças, ei, saiba o senhor. Desarma do tempo, hora de paga e pêrdas, e o mais, que a gente tinha de purgar, segundo se diz. Tudo o melhor fizemos, e tudo no fim desandava. Deus não devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Nós não estávamos forte em frente, com a coragem esporeada? Estávamos. Mas, então? Ah, então! mas tem o Outro ― o figura, o morcegão, o tunes, o cramulhão, o dêbo, o carôcho, do pé-de-pato, o mal-encarado, aquele ― o-que-não-existe! Que não existe, que não, que não, é o que minha alma soletra. E da existência desse me defendo, em pedras pontudas ajoelhado, beijando a barra do manto de minha Nossa Senhora da Abadia! Ah, só Ela me vale; mas vale por um mar sem fim... Sertão. Se a Santa puser em mim os olhos, como é que ele pode me ver?! Digo isto ao senhor, e digo: paz. Mas, naquele tempo, eu não sabia. Como é que podia saber? E foram esses monstros, o sobredito. Ele vem no maior e no menor, se diz o grão-tinhoso e o cão-miúdo. Não é, mas finge de ser. E esse trabalha sem escrúpulo nenhum, por causa que só tem um curto prazo. Quando protege, vem, protege com sua pessoa. Montado, mole, nas costas do Hermógenes, indicando todo rumo. Do tamanho dum bago de aí-vim, dentro do ouvido do Hermógenes, por tudo ouvir. Redondinho no lume dos olhos do Hermógenes, para espiar o primeiro das coisas. O Hermógenes, que ― por valente e valentão ― para demais até ao fim deste mundo e do juízo-final se danara, oco de alma. Contra ele a gente ia. Contra o demo se podia? Quem a quem? Milagres tristes desses também se dão. Como eles conseguiram fugir das unhas da gente, se escaparam ― o Ricardão e o Hermógenes ― os Judas. Pois eles escapuliram: passaram perto, légua, quarto-de-légua, com toda sua jagunçama, e não vimos, não ouvimos, não soubemos, tivemos jeito nenhum para cercar e impedir. Avançaram, calados, escorregando pelos matos, ganhando o mais poente, para o São Francisco. Atravessaram por nós, sem a gente perceber, como a noite atravessa o dia, da manhã à tarde, seu pretume dela escondido no brancor do dia, se presume. Quando pudemos saber, a distância deles já era impossível. Nós estávamos pegando o ar. Duro de desanimável, hem? E pois demore o senhor para o pior: o que veio em sobre!: os soldados do Governo. Os soldados, soldadesca, tantas tropas. Surgiram de todos os lados, de supetão, e agatanhavam, naquela sanha, é ver cachorrada caçante. Soldados do Tenente Plínio ― companhia de guerra. Tenente Reis Leme, outra. E veio depois, com muitos mais outros, um capitão Carvalhais, maior da marca, esse bebia café em cuité e cuspia pimenta com pólvora. Sofremos, rolamos por aí aqui, se rolou. A vida é vez de injustiças assim, quando o demo leva o estandarte. Pois ― aquela soldadama viera para o Norte era por vingar Zé Bebelo, e Zé Bebelo já andava por longes desterrado, e nisso eles se viravam contra a gente, que éramos de Joca Ramiro, que tinha livrado a vida de Zé Bebelo das facas do Hermógenes e Ricardão; e agora, por sua ação, o que eles estavam era ajudando indireto àqueles sebaceiros. Mas, quem era que podia explicar isso tudo a eles, que vinham em máquina enorme de cumprir o grosso e o esmo, tendo as garras para o pescoço nosso mas o pensante da cabeça longe, só geringonciável na capital do Estado?
De contar tudo o que foi, me retiro, o senhor está cansado de ouvir narração, e isso de guerra é mesmice, mesmagem. Combatemos o quanto mais pudemos ― está aí. Consoante começou, no Curral de Vacas, perto do Morro do Cocoruto, onde nos pegaram num relaxo. Fugimos, depois de grande fogo. Fogo demos daí no Cutica, na Chapada Simão Guedes! mas rodaram com a gente, de retruz. Serra da Saudade! a gente se desarranjou, fugimos, bem. Ah, e! Córrego Estrelinhas, Córrego da Malhada Grande, Ribeirão Traçadal ― tudo foram as feiezas. Recito frente ao senhor! e é rol de nomes? Para mim ficaram em assento de sustos e sofrimento. Nunca me queixei. Sofrimento passado é glória, é sal em cinza. De tanta maneira Diadorim assistia comigo, como um gravatá se fechou. Semeei minha presença dele, o que da vida é bom eu dele entendia. Tomando o tempo da gente, os soldados remexiam este mundo todo. Milho crescia em roças, sabiá deu cria, gameleira pingou frutinhas, o pequí amadurecia no pequizeiro e a cair no chão, veio veranico, pitanga e cajú nos campos. Ato que voltaram as tempestades, mas entre aquelas noites de estrelaria se encostando. Daí, depois, o vento principiou a entortar rumo, mais forte ― porque o tempo todo das águas estava no se acabar.Tenente Reis Leme nos escaramuçando: queria correr com a gente a pano de sabre. Matou-se montanha de bons soldados. Estávamos em terras que entestam com a Bahia. Em Bahia entramos e saímos, cinco vezes, sem render as armas. Isto que digo, sei de cór: brigar no espinho da caatinga pobre, onde o cãcã canta. Chão que queima, branco! E aqueles cristais, pedra-cristal quase de sangue... Chegamos até no cabo do mundo.
Quadrante o que havia, me esconjuro. Parecia que a gente ia ter de passar o resto da vida guerreando com os praças? Mas nosso constar era outro, com sangue de urgência ― aquela luta de morte contra os Judas ― e que era briga nossa particular. Não se tendo recurso competente. Ah, Diadorim mascava. Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo. Eu mesmeava. Mas, dando um dia, a gente teve certas notícias: os do Hermógenes estando senhores arranchados, conforme retouçavam, da banda de lá do Rio do Chico: nas vertentes da beira da mão direita do Carinhanha, no Chapadão de António Pereira. Questionou-se nisso. Se pensou e falou em tudo por fazer e não fazer. Resultado foi este: que o principal era a gente mandar reforço, para Medeiro Vaz, uns cinquenta ou cem homens, repartidos em miúdos grupos, caçando jeito de safança por entre os lugares perigáveis. Enquanto tanto, João Goanhá, Alípio Mota e Titão Passos, cada qual de lado seu, deviam de ir desmanchar os rastos na caatinga, e depois se esconderem, por uns tempos, em fazendas de donos amigos, até que a soldadesca se espairecesse. E era bom e era justo. Era certo. Deus em armas nos guardava.
De mim, vim, com Diadorim, Alaripe, Jesualdo e João Vaqueiro, e o Fafafa. Era para o outro lado, era para os meus Gerais, eu vinha alegre contente. E saímos, com o seguinte risco! o Imbirussú, a Serra do Pau-dArco, o Mingú, a Lagoa dos Marruás, o Dôminus-Vobíscum, o Cruzeiro-das-Embaúbas, o Detrás-das-Duas-Serras. O Brejo dos Mártires, a Cachoeirinha Rôxa, o Mocó, a Fazenda Riacho-Abaixo, a Santa Polônia, a Lagoa da Jaboticaba. E daí, por uns atalhos! o Córrego Assombrado, o Sassapo, o Pôço dAnjo, o Barreiro do Muquém. Nesse meu, caminho fazendo, tirei minha desforra! faceirei. Severgonhei. Estive com o melhor de mulheres. Na Malhada, comprei roupas. O vau do mundo é a alegria! Mas Diadorim não se fornecia com mulher nenhuma, sempre sério, só se em sonhos. Dele eu ainda mais gostava. E então se deu que tínhamos esbarrado em frente da Lagoa Clara. Já era o do Chico ― o poder dele ― largas águas, seu destino. A ver, o porto-de-balsa, que distava pouco. Travessia, ali, podia ser perigosa, com tantos soldados vizinhantes. A gente se apartar? Ah, mas o que bastava o balseiro se chamar! ― Hô, passador! Hô, passador!... ― ele viesse. Assim, para uma invenção, que se teve. O balseiro só avistando João Vaqueiro e o Fafafa ― estes ele então podia passar, com cinco dos cavalos, falavam que era para uns caçadores. Da outra banda, João Vaqueiro e o Fafafa fossem levando os cavalos para um lugar para cima da barra, no Urucúia, chamado o Olho-dAgua-das-Outras. Lá a gente se encontrava.
Somente ficados com um cavalinho só, Alaripe e eu, Diadorim e Jesualdo, andamos beira-rio, no vagarosamente. A gente esperava o que acontecesse. Ali mais adiante, era um porto-de-lenha. ― Você tem receio, Riobaldo? ― Diadorim me perguntou. Eu?! Com ele em qualquer parte eu embarcava, até na prancha de Pirapora! ― Vau do mundo é a coragem... ― eu disse. E, com os rifles escorados, acenamos para uma grande barca ― aquela, a cara-de-pau que tinha no bico da frente era uma cabeça de touro, boa-sorte nos dava. O barqueiro tocou um berro no buzo, encostaram. A gente os quatro, com o cavalo, era nada ― as arrobazinhas. E nós entramos, depois que o patrão nos saudou, em nome de Nosso Senhor Cristo-Jesus, e disse: ― Eu cá sou amigo de todos, segundo a minha condição...  E o Alaripe aceitou dele um gole de cachaça, aceitamos. Jesualdo disse, repostando: ― Amigo de todos? Rio-abaixo, na canoa, quem governa é o remador! Bem que rio-acima é que era, mas com remeiros muito bons esforçados. Aí constante, o velejo, vento em pano ― nem remeiro com o varejão não carecia de fazer talento. Pediram notícias do sertão. Essa gente estava tão devolvida de tudo, que eu não pude adivinhar a honestidade deles. O sertão nunca dá notícia. Eles serviram à gente farta jacuba. ― Por onde os senhores vieram? ― o patrão indagou. ― Viemos da Serra Rompe-Dia... ― respondemos. Mentiras dágua. Tanto fazia dizer que tínhamos vindo da de São Felipe. O barqueiro não acreditou, deu o zé de ombros. Mas levou a gente travessia fácil, frenteando a boca do Urucúia. Ah, o meu Urucúia, as águas dele são claras certas. E ainda por ele entramos, subindo légua e meia, por isso pagamos uma gratificação. Rios bonitos são os que correm para o Norte, e os que vêm do poente ― em caminho para se encontrar com o sol. E descemos num pojo, num ponto sem praia, onde essas altas árvores ― a caraíba-de-flor-róxa, tão urucuiana. E o folha-larga, o aderno-preto, o pau-de-sangue; o pau-paraíba, sombroso. O Urucúia, suas abas. E vi meus Gerais!
Aquilo nem era só mata, era até florestas! Montamos direito, no Olho-dAgua-das-Outras, andamos, e demos com a primeira vereda ― dividindo as chapadas ―: o flaflo de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeal de suas folhas altas; e, sassafrazal ― como o da alfazema, um cheiro que refresca; e aguadas que molham sempre.Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade ― aposto ― ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina! o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor! a vida não é cousa terrível? Lengalenga. Fomos, fomos.

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas