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Saímos, sobre, fomos. Mas descemos no
canudo das desgraças, ei, saiba o senhor. Desarma do tempo, hora de
paga e pêrdas, e o mais, que a gente tinha de purgar, segundo se
diz. Tudo o melhor fizemos, e tudo no fim desandava. Deus não devia
de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Nós não
estávamos forte em frente, com a coragem esporeada? Estávamos. Mas,
então? Ah, então! mas tem o Outro ― o figura, o morcegão, o
tunes, o cramulhão, o dêbo, o carôcho, do pé-de-pato, o
mal-encarado, aquele ― o-que-não-existe! Que não existe, que não,
que não, é o que minha alma soletra. E da existência desse me
defendo, em pedras pontudas ajoelhado, beijando a barra do manto de
minha Nossa Senhora da Abadia! Ah, só Ela me vale; mas vale por um
mar sem fim... Sertão. Se a Santa puser em mim os olhos, como é que
ele pode me ver?! Digo isto ao senhor, e digo: paz. Mas, naquele
tempo, eu não sabia. Como é que podia saber? E foram esses
monstros, o sobredito. Ele vem no maior e no menor, se diz o
grão-tinhoso e o cão-miúdo. Não é, mas finge de ser. E esse
trabalha sem escrúpulo nenhum, por causa que só tem um curto prazo.
Quando protege, vem, protege com sua pessoa. Montado, mole, nas
costas do Hermógenes, indicando todo rumo. Do tamanho dum bago de
aí-vim, dentro do ouvido do Hermógenes, por tudo ouvir. Redondinho
no lume dos olhos do Hermógenes, para espiar o primeiro das coisas.
O Hermógenes, que ― por valente e valentão ― para demais até
ao fim deste mundo e do juízo-final se danara, oco de alma. Contra
ele a gente ia. Contra o demo se podia? Quem a quem? Milagres tristes
desses também se dão. Como eles conseguiram fugir das unhas da
gente, se escaparam ― o Ricardão e o Hermógenes ― os Judas.
Pois eles escapuliram: passaram perto, légua, quarto-de-légua, com
toda sua jagunçama, e não vimos, não ouvimos, não soubemos,
tivemos jeito nenhum para cercar e impedir. Avançaram, calados,
escorregando pelos matos, ganhando o mais poente, para o São
Francisco. Atravessaram por nós, sem a gente perceber, como a noite
atravessa o dia, da manhã à tarde, seu pretume dela escondido no
brancor do dia, se presume. Quando pudemos saber, a distância deles
já era impossível. Nós estávamos pegando o ar. Duro de
desanimável, hem? E pois demore o senhor para o pior: o que veio em
sobre!: os soldados do Governo. Os soldados, soldadesca, tantas
tropas. Surgiram de todos os lados, de supetão, e agatanhavam,
naquela sanha, é ver cachorrada caçante. Soldados do Tenente Plínio
― companhia de guerra. Tenente Reis Leme, outra. E veio depois, com
muitos mais outros, um capitão Carvalhais, maior da marca, esse
bebia café em cuité e cuspia pimenta com pólvora. Sofremos,
rolamos por aí aqui, se rolou. A vida é vez de injustiças assim,
quando o demo leva o estandarte. Pois ― aquela soldadama viera para
o Norte era por vingar Zé Bebelo, e Zé Bebelo já andava por longes
desterrado, e nisso eles se viravam contra a gente, que éramos de
Joca Ramiro, que tinha livrado a vida de Zé Bebelo das facas do
Hermógenes e Ricardão; e agora, por sua ação, o que eles estavam
era ajudando indireto àqueles sebaceiros. Mas, quem era que podia
explicar isso tudo a eles, que vinham em máquina enorme de cumprir o
grosso e o esmo, tendo as garras para o pescoço nosso mas o pensante
da cabeça longe, só geringonciável na capital do Estado?
De contar tudo o que foi, me retiro, o
senhor está cansado de ouvir narração, e isso de guerra é
mesmice, mesmagem. Combatemos o quanto mais pudemos ― está aí.
Consoante começou, no Curral de Vacas, perto do Morro do Cocoruto,
onde nos pegaram num relaxo. Fugimos, depois de grande fogo. Fogo
demos daí no Cutica, na Chapada Simão Guedes! mas rodaram com a
gente, de retruz. Serra da Saudade! a gente se desarranjou, fugimos,
bem. Ah, e! Córrego Estrelinhas, Córrego da Malhada Grande,
Ribeirão Traçadal ― tudo foram as feiezas. Recito frente ao
senhor! e é rol de nomes? Para mim ficaram em assento de sustos e
sofrimento. Nunca me queixei. Sofrimento passado é glória, é sal
em cinza. De tanta maneira Diadorim assistia comigo, como um gravatá
se fechou. Semeei minha presença dele, o que da vida é bom eu dele
entendia. Tomando o tempo da gente, os soldados remexiam este mundo
todo. Milho crescia em roças, sabiá deu cria, gameleira pingou
frutinhas, o pequí amadurecia no pequizeiro e a cair no chão, veio
veranico, pitanga e cajú nos campos. Ato que voltaram as
tempestades, mas entre aquelas noites de estrelaria se encostando.
Daí, depois, o vento principiou a entortar rumo, mais forte ―
porque o tempo todo das águas estava no se acabar.Tenente Reis Leme
nos escaramuçando: queria correr com a gente a pano de sabre.
Matou-se montanha de bons soldados. Estávamos em terras que entestam
com a Bahia. Em Bahia entramos e saímos, cinco vezes, sem render as
armas. Isto que digo, sei de cór: brigar no espinho da caatinga
pobre, onde o cãcã canta. Chão que queima, branco! E aqueles
cristais, pedra-cristal quase de sangue... Chegamos até no cabo do
mundo.
Quadrante o que havia, me esconjuro.
Parecia que a gente ia ter de passar o resto da vida guerreando com
os praças? Mas nosso constar era outro, com sangue de urgência ―
aquela luta de morte contra os Judas ― e que era briga nossa
particular. Não se tendo recurso competente. Ah, Diadorim mascava.
Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo. Eu mesmeava.
Mas, dando um dia, a gente teve certas notícias: os do Hermógenes
estando senhores arranchados, conforme retouçavam, da banda de lá
do Rio do Chico: nas vertentes da beira da mão direita do
Carinhanha, no Chapadão de António Pereira. Questionou-se nisso. Se
pensou e falou em tudo por fazer e não fazer. Resultado foi este:
que o principal era a gente mandar reforço, para Medeiro Vaz, uns
cinquenta ou cem homens, repartidos em miúdos grupos, caçando jeito
de safança por entre os lugares perigáveis. Enquanto tanto, João
Goanhá, Alípio Mota e Titão Passos, cada qual de lado seu, deviam
de ir desmanchar os rastos na caatinga, e depois se esconderem, por
uns tempos, em fazendas de donos amigos, até que a soldadesca se
espairecesse. E era bom e era justo. Era certo. Deus em armas nos
guardava.
De mim, vim, com Diadorim, Alaripe,
Jesualdo e João Vaqueiro, e o Fafafa. Era para o outro lado, era
para os meus Gerais, eu vinha alegre contente. E saímos, com o
seguinte risco! o Imbirussú, a Serra do Pau-dArco, o Mingú, a Lagoa
dos Marruás, o Dôminus-Vobíscum, o Cruzeiro-das-Embaúbas, o
Detrás-das-Duas-Serras. O Brejo dos Mártires, a Cachoeirinha Rôxa,
o Mocó, a Fazenda Riacho-Abaixo, a Santa Polônia, a Lagoa da
Jaboticaba. E daí, por uns atalhos! o Córrego Assombrado, o
Sassapo, o Pôço dAnjo, o Barreiro do Muquém. Nesse meu, caminho
fazendo, tirei minha desforra! faceirei. Severgonhei. Estive com o
melhor de mulheres. Na Malhada, comprei roupas. O vau do mundo é a
alegria! Mas Diadorim não se fornecia com mulher nenhuma, sempre
sério, só se em sonhos. Dele eu ainda mais gostava. E então se deu
que tínhamos esbarrado em frente da Lagoa Clara. Já era o do Chico
― o poder dele ― largas águas, seu destino. A ver, o
porto-de-balsa, que distava pouco. Travessia, ali, podia ser
perigosa, com tantos soldados vizinhantes. A gente se apartar? Ah,
mas o que bastava o balseiro se chamar! ― Hô, passador! Hô,
passador!... ― ele viesse. Assim, para uma invenção, que se teve.
O balseiro só avistando João Vaqueiro e o Fafafa ― estes ele
então podia passar, com cinco dos cavalos, falavam que era para uns
caçadores. Da outra banda, João Vaqueiro e o Fafafa fossem levando
os cavalos para um lugar para cima da barra, no Urucúia, chamado o
Olho-dAgua-das-Outras. Lá a gente se encontrava.
Somente ficados com um cavalinho só,
Alaripe e eu, Diadorim e Jesualdo, andamos beira-rio, no
vagarosamente. A gente esperava o que acontecesse. Ali mais adiante,
era um porto-de-lenha. ― Você tem receio, Riobaldo? ― Diadorim
me perguntou. Eu?! Com ele em qualquer parte eu embarcava, até na
prancha de Pirapora! ― Vau do mundo é a coragem... ― eu disse.
E, com os rifles escorados, acenamos para uma grande barca ―
aquela, a cara-de-pau que tinha no bico da frente era uma cabeça de
touro, boa-sorte nos dava. O barqueiro tocou um berro no buzo,
encostaram. A gente os quatro, com o cavalo, era nada ― as
arrobazinhas. E nós entramos, depois que o patrão nos saudou, em
nome de Nosso Senhor Cristo-Jesus, e disse: ― Eu cá sou amigo de
todos, segundo a minha condição... E o Alaripe aceitou dele
um gole de cachaça, aceitamos. Jesualdo disse, repostando: ― Amigo
de todos? Rio-abaixo, na canoa, quem governa é o remador! Bem que
rio-acima é que era, mas com remeiros muito bons esforçados. Aí
constante, o velejo, vento em pano ― nem remeiro com o varejão não
carecia de fazer talento. Pediram notícias do sertão. Essa gente
estava tão devolvida de tudo, que eu não pude adivinhar a
honestidade deles. O sertão nunca dá notícia. Eles serviram à
gente farta jacuba. ― Por onde os senhores vieram? ― o patrão
indagou. ― Viemos da Serra Rompe-Dia... ― respondemos. Mentiras
dágua. Tanto fazia dizer que tínhamos vindo da de São Felipe. O
barqueiro não acreditou, deu o zé de ombros. Mas levou a gente
travessia fácil, frenteando a boca do Urucúia. Ah, o meu Urucúia,
as águas dele são claras certas. E ainda por ele entramos, subindo
légua e meia, por isso pagamos uma gratificação. Rios bonitos são
os que correm para o Norte, e os que vêm do poente ― em caminho
para se encontrar com o sol. E descemos num pojo, num ponto sem
praia, onde essas altas árvores ― a caraíba-de-flor-róxa, tão
urucuiana. E o folha-larga, o aderno-preto, o pau-de-sangue; o
pau-paraíba, sombroso. O Urucúia, suas abas. E vi meus Gerais!
Aquilo nem era só mata, era até
florestas! Montamos direito, no Olho-dAgua-das-Outras, andamos, e
demos com a primeira vereda ― dividindo as chapadas ―: o flaflo
de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeal de suas folhas
altas; e, sassafrazal ― como o da alfazema, um cheiro que refresca;
e aguadas que molham sempre.Vento que vem de toda parte. Dando no meu
corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade ―
aposto ― ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro
do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de
aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina! o bêco para a
liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor! a
vida não é cousa terrível? Lengalenga. Fomos, fomos.
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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