Essa pedra sou eu
O funcionário do rei aguarda a bruxa,
sábia em maldades, que virá prestar contas. Aos seus pés jaz, de
boca para baixo, o ídolo de pedra. A bruxa foi surpreendida quando
estava velando esta huaca escondida, e daqui a pouco pagará
por sua heresia. Mas antes do castigo, o funcionário quer escutar de
sua boca a confissão de suas conversas com o demônio. Enquanto
espera que ela chegue, se distrai pisando a huaca e meditando
sobre o destino destes índios, que dá pena a Deus tê-los feito.
Os soldados atiram a bruxa e a deixam
tremendo no umbral.
Então a huaca de pedra, feia e
velha, cumprimenta em idioma quechua a bruxa velha e feia:
– Bem-vinda sejas, princesa –
diz a voz, rouca, debaixo das solas do funcionário.
O funcionário fica vesgo e cai,
esparramado, no chão.
Enquanto o abana com um chapéu, a
velha se agarra à casaca do desmaiado e clama: “Não me castigues,
senhor, não a quebre!”
A velha queria explicar-lhe que nessa
pedra vivem as divindades e que se não fosse por causa da huaca,
ela não saberia como se chama, nem quem é, nem de onde vem e
andaria pelo mundo nua e perdida.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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