quinta-feira, 22 de maio de 2025

1565 – Yauyos

Essa pedra sou eu

O funcionário do rei aguarda a bruxa, sábia em maldades, que virá prestar contas. Aos seus pés jaz, de boca para baixo, o ídolo de pedra. A bruxa foi surpreendida quando estava velando esta huaca escondida, e daqui a pouco pagará por sua heresia. Mas antes do castigo, o funcionário quer escutar de sua boca a confissão de suas conversas com o demônio. Enquanto espera que ela chegue, se distrai pisando a huaca e meditando sobre o destino destes índios, que dá pena a Deus tê-los feito.
Os soldados atiram a bruxa e a deixam tremendo no umbral.
Então a huaca de pedra, feia e velha, cumprimenta em idioma quechua a bruxa velha e feia:
Bem-vinda sejas, princesa – diz a voz, rouca, debaixo das solas do funcionário.
O funcionário fica vesgo e cai, esparramado, no chão.
Enquanto o abana com um chapéu, a velha se agarra à casaca do desmaiado e clama: “Não me castigues, senhor, não a quebre!”
A velha queria explicar-lhe que nessa pedra vivem as divindades e que se não fosse por causa da huaca, ela não saberia como se chama, nem quem é, nem de onde vem e andaria pelo mundo nua e perdida.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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