terça-feira, 27 de maio de 2025

Enquanto agonizo



Tull

Era quase meia-noite e tinha começado a chover quando ele nos acordou. Foi uma noite medonha, com a tempestade formando-se; uma noite em que se espera que aconteça o pior, antes de se trazer o gado do pasto e se entrar em casa para jantar e meter-se na cama com a chuva começando a cair, e então, quando a parelha de Peabody chegou aqui, coberta de espuma, com o a mês partido, a se arrastar, e a coleira por entre as patas do animal à direita, Cora disse: “É Addie Bundren. Ela acabou-se, afinal.” “Peabody pode ter ido a um das dezenas de casas que existem nas redondezas”, digo. “Além disso, como você tem certeza que é a parelha de Peabody?” “Acha que não?”, ela diz. “Vamos, vá atrelar os cavalos.” “Para que?”, digo. “Se ela acabou-se, nada podemos fazer até de manhã. E a tempestade vai desabar.” “É meu dever”, ela diz. “Vá recolher a parelha”. Mas eu não queria. “Acho melhor que eles nos chamem, se precisarem de nós. Você nem mesmo tem certeza se ela morreu.” “Ora, não vê que é a parelha de Peabody? Insiste em dizer que não? Como quiser, então.” Mas eu não queria ir. Sempre achei que, se alguém quer prestar ajuda, melhor esperar que lhe peçam. “Fiz meu dever de cristã”, diz Cora. “Quer se interpor entre eu e meu dever de cristã?” “Você pode ficar lá o dia inteiro, amanhã, se quiser”, digo.
Assim, quando Cora me acordou, já havia começado a chover. Mesmo enquanto eu ia à porta, com a candeia, fazendo-a brilhar, através do vidro, para que ele visse que eu ia atender, ele continuou batendo à porta. Não muito alto, mas com firmeza, como se pudesse cair no sono enquanto batia, mas eu não havia percebido ainda que as pancadas soavam mais embaixo, na porta, até que abri e não vi nada. Levantei a candeia, a chuva cintilou adiante da candeia e Cora, atrás, no corredor, dizia: “Quem é, Vernon?”, mas eu não podia ver ninguém, a princípio, até que baixei a candeia e examinei o portal.
Ele parecia um cãozinho encharcado, com seu macacão, sem chapéu cheio de lama até os joelhos, pois caminhara seis quilômetros na lama. “Bem, que o diabo me leve”, eu disse.
Quem é, Vernon?”, diz Cora. Ele olhou para mim, seus olhos redondos e pretos no centro, como quando a gente ilumina, de súbito, a cara de uma coruja. “Não se esqueça daquele peixe”, diz. “Venha para dentro”, eu digo. “Que aconteceu? Sua mamãe...” “Vernon”, diz Cora. Ele continuava parado junto à porta, no escuro. A chuva respingava a candeia, tamborilando de tal forma que eu tinha mede que ela se quebrasse a qualquer instante. “Você estava lá”, ele diz. “Você viu o peixe.” Então Cora chegou-se à porta. “Você aí, saia da chuva”, ela diz, puxando-o para dentro, enquanto ele contínua a me observar. Parecia mesmo um cachorrinho encharcado, “Eu lhe disse”, diz Cora. “Eu lhe disse que havia acontecido alguma coisa. Agora, vá atrelar os cavalos.” “Mas ele não disse...” Ele me olhou, gotas de chuva pingando no chão. “Está estragando o tapete”, diz Cora. “Vá cuidar da parelha enquanto eu o conduzo à cozinha.” Mas ele continuava atrás, pingando água, observando-me com aqueles olhos. “Você estava lá. Você o viu jogado no chão. Cash vai pregá-la, e ele estava estirado no chão. Você o viu. Você viu o sinal na poeira. Eu já vinha para cá quando começou a chover. Portanto, podemos chegar a tempo.” O diabo me leve se não senti calafrios, mesmo não sabendo ainda de nada. Mas Cora sabia. “Apronte a parelha o mais depressa que puder”, diz ela. “Ele está fora de si, de tanta dor e aflição.” O diabo me leve se não senti calafrios. De quando em quando, a gente se põe a pensar. Sobre todas as tristezas e aflições deste mundo; que é capaz de ferir em qualquer lugar, como o raio. Acho que para a gente se resguardar, é preciso muita fé em Deus, embora eu sinta, às vezes, que Cora é precavida demais, pois trata de afastar os outros e ficar o mais perto possível do acontecimento. Mas então, quando acontece uma coisa dessas, acho que ela tem razão e que não se pode dizer o contrário e que é uma bênção ter uma mulher que age sempre com piedade e que me indica sempre boas ações.
De vez em quando a gente tem de pensar nessas coisas. Sem exageros, porém. O que é bom. Pois o Senhor deseja que a gente aja em vez de passar todo o tempo pensando, porque o cérebro é como uma peça de maquinismo: não precisa estar sempre em movimento. Melhor deixá-lo funcionar rotineiramente, fazendo as tarefas do dia, sem utilizar, mais que o necessário, nenhuma de suas partes. Já disse e repito que e isto mesmo o que se passa com Darl: ele pensa muito, sozinho. Cora está certa quando diz que ele precisa e de uma mulher para fortalecer-se. E quando penso nisso, concluo que, se o casamento é a única salvação de um homem, então ele está perdido. Mas reconheço que Cora tem razão quando diz que a razão de Deus haver criado as mulheres está em que o homem não conhece seu próprio bem quando este bem aparece.
Quando voltei à casa com a parelha, eles já estavam na cozinha. Ela tinha-se vestido por cima da camisa de dormir e trazia um xale na cabeça e sua sombrinha e sua bíblia embrulhados num pedaço de oleado; ele estava sentado num balde de boca para baixo, sobre a chapa de zinco do fogão, onde ela o tinha posto, e pingava água no chão. “Não consigo fazê-lo falar, a não ser sobre um peixe”, ela diz. “É castigo de Deus. Vejo as mãos de Deus pousadas sobre este menino, para castigo e advertência de Anse Bundren.” “A chuva não havia começado quando eu saí”, ele diz. “Eu saí antes. Eu já estava na estrada. E ele estava jogado na poeira. Você o viu. Cash vai pregá-la, mas você o viu.” Quando chegamos, a chuva havia engrossado, e ele viajara sentado entre nós dois, envolvido no xale de Cora. Não falara mais nada; sentado, deixara que Cora segurasse a sombrinha sobre sua cabeça. De vez em quando, Cora parava de entoar um cântico para dizer: “É o castigo de Anse Bundren. Talvez isto the mostre o caminho do pecado que está trilhando.” Depois, voltava a cantar, e ele ali, sentado entre nós dois, inclinado para a frente, como se as mulas não conseguissem acompanhá-lo na sua pressa.
Ele estava ali, atirado ao chão”, diz, “mas a chuva só caiu depois que eu comecei a andar. De forma que posso abrir as janelas, pois Cash ainda não bateu os pregos.” Passava muito da meia-noite quando batemos o último prego e era quase de manhã quando voltamos para casa e eu desfiz a parelha e voltei para a cama, e o barrete de dormir de Cora estava em cima do outro travesseiro. O diabo me carregue se, mesmo então, eu não ouvia ainda o salmo de Cora e sentia que o menino se inclinava para diante, entre nós dois, como se quisesse ultrapassar as mulas, e ainda via Cash avançando e recuando o corpo, com aquela serra, e Anse em pé, como um estafermo, semelhante a um boi que, ajoelhado à beira de um poço, ainda não percebeu que alguém chega e o cutuca no flanco.
O dia estava prestes a raiar quando batemos o último prego e levamos o caixão para dentro da casa, onde ela estava estirada na cama, com a janela aberta e a chuva fustigando-a novamente. Por duas vezes ele fez o caixão, e está tão morto de sono que Cora diz que sua cara se parece com uma dessas máscaras de Natal que esteve enterrada algum tempo e que alguém desenterra; até que, afinal, puseram-na dentro e fecharam a tampa com pregos, para que ele não possa mais abrir a janela do quarto dela. E, de manhã, encontraram-no dormindo no chão, de camisa, como um bezerro abatido, e a tampa do caixão estava cheia de buracos e a broca nova de Cash quebrara-se ao abrir o último. E quando tiraram a tampa eles viram que dois dos buracos tinham penetrado fundo na cara dela.
Se é castigo, não é justo. Porque Deus tem mais com que se preocupar. Não pode ser de outra forma. Porque o único fardo que Anse Bundren tem de carregar é sua própria pessoa. E quando se põem a criticá-lo, eu digo a mim mesmo que ele é mais homem do que julgam, pois, se assim não fosse, não teria aguentado tanto.
Não é justo. O diabo me leve se é. Porque, se Ele disse: “Deixai vir a mim os pequeninos”, o castigo, então, não é Justo. Cora disse: “Tenho dado a você o que Deus Nosso Senhor me permite. Encarei-o sem medo, nem terror, porque minha fé em Deus era forte, eia sempre me animou e amparou. Se você não tem filho, é porque Deus assim determinou em sua sabedoria. Minha vida é e sempre tem sido um livro aberto para qualquer homem ou mulher entre as criaturas que Ele criou, pois eu confio em meu Deus e em minha recompensa.” Reconheço que ela está certa. Reconheço que, se há homem ou mulher em quem Ele possa confiar as coisas e descansar, essa pessoa terá de ser Cora. E reconheço também que ela faria algumas mudanças, por melhor que Ele houvesse disposto as coisas. Acho que as mudanças viriam para o bem de todos. Pelo menos, teríamos de aceitá-las. Pelo menos, agiríamos como se as aceitássemos.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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