Rosa Parks, não Rosa Banks. Um
lamentável desmaio de memória, que não terá sido o primeiro e
certamente não vai ser o último, fez-me incorrer num dos piores
deslizes que se podem cometer no sempre complexo sistema das relações
entre pessoas: dar a alguém um nome que não é o seu. Salvo ao
paciente leitor destas despretensiosas linhas, não tenho a quem
pedir que me desculpem, mas já basta, para ver-me punido do
desacerto, o sentimento de intensa vergonha que de mim se apossou
quando, logo depois, me apercebi da gravidade do equívoco. Ainda
pensei em deixar correr, mas afastei a tentação, e aqui estou para
confessar o erro e prometer que doravante terei o cuidado de
verificar tudo, até aquilo de que julgue ter a certeza.
Há males que vêm por bem, diz a
sabedoria popular, e talvez seja certo. Tenho assim a oportunidade
para voltar a Rosa Parks, aquela costureira de 42 anos que, viajando
num autocarro em Montgomery, no estado de Alabama, no dia 1 de
Dezembro de 1955, se recusou a ceder o seu lugar a uma pessoa de raça
branca, como o condutor lhe havia ordenado. Este delito levou-a à
prisão sob a acusação de ter perturbado a ordem pública. Há que
esclarecer que Rosa Parks ia sentada na parte destinada aos negros,
mas, como a secção dos brancos estava completamente ocupada, a
pessoa de raça branca quis o seu assento.
Em resposta ao encarceramento de Rosa
Parks, um pastor baptista relativamente desconhecido nesse tempo,
Martin Luther King, dirigiu os protestos contra os autocarros de
Montgomery, o que obrigou a autoridade do transporte público a
acabar com a prática da segregação racial naqueles veículos. Foi
o sinal para desencadear outras manifestações contra a segregação.
Em 1956 o caso de Parks chegou finalmente ao Supremo Tribunal dos
Estados Unidos, que declarou que a segregação nos transportes era
anticonstitucional. Rosa Parks, que já desde 1950 se havia unido à
Associação Nacional para o Avanço do Povo de Cor (National
Association for the Advancement of Colored People), viu-se convertida
em ícone do movimento de direitos civis, para o qual trabalhou
durante toda a sua vida. Morreu em 2005. Sem ela, talvez Barack Obama
não fosse hoje o presidente dos Estados Unidos.
José Saramago, em O caderno

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