O barulho de ferro batendo nas pedras
me acordava de madrugada. O ruído das ferraduras se misturava com o
relinchar dos cavalos. Eu me levantava e abria a única bandeira da
janela. Só um pouquinho porque tinha medo de que me vissem. Eram
seres misteriosos, misturas de homens e cavalos que, na bruma da
manhã, me faziam imaginar centauros. Das ventas dos cavalos saía
fumaça quando relinchavam. Como se fossem dragões. Do ângulo pelo
qual os observava, através da fresta da janela, não me era possível
ver os rostos dos soldados. Via-os pelas costas, inumeráveis, iam
vagarosamente, a passo. Um exército inteiro de soldados dotados de
força descomunal, a caminho de uma batalha. Que iam para uma batalha
era certo: os fuzis pendentes dos coldres, ao lado direito das selas,
esperavam a hora do fogo. Passado o último centauro, eu fechava a
janela, voltava para a cama e ficava a imaginar a batalha, até
dormir.
Rubem Alves, em O velho que acordou menino
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