Talvez existam várias maneiras de
responder. A mais evidente vem do grego. A palavra grega eros denota
“querer”, “falta”, “desejo pelo que não está lá”. Quem
ama quer o que não tem. É, por definição, impossível para o
amante ter o que deseja se, assim que ele tem, não quer mais. É
mais do que um jogo de palavras. Há um dilema dentro de eros que tem
sido considerado crucial por pensadores desde Safo até hoje. Platão
vira e mexe volta para ele. Quatro de seus diálogos exploram o que
significa dizer que o desejo só pode ser por aquilo que falta, não
pelo que está à mão, não pelo que está presente, não por algo
que alguém possua nem que esteja em seu ser: eros implica
endeia. Como Diotima coloca no Simpósio, Eros é um
bastardo capturado pela Riqueza na Pobreza e seu lar é uma vida de
carência (203b-e). A fome é a analogia escolhida por Simone Weil
para esse impasse:
Todos os nossos desejos são
contraditórios, como o desejo por comida. Eu quero que a pessoa que
eu amo me ame. No entanto, se ele é totalmente devotado a mim, ele
para de existir e eu deixo de amá-lo. E enquanto ele não for
totalmente devotado a mim, ele não me ama o suficiente. Fome e
saciedade.(1)
Emily Dickinson formula a questão de
maneira mais atrevida em “I Had Been Hungry”
[“Tenho estado com fome”]:
Então pensei
que a fome é o modo de ver
de quem está fora das janelas
entrar põe tudo a perder(2)
Petrarca interpreta o problema com
termos da antiga fisiologia do fogo e do gelo:
Sei seguir enquanto fujo do meu
fogo
congelo quando presente; quando
ausente, quente é o meu desejo.
(“Trionfo d’Amore”)
Sartre tem menos paciência com o
ideal contraditório do desejo, esse “duplo engano”. Ele enxerga
nas relações eróticas um sistema de reflexões infinitas, um jogo
de espelhos enganador que carrega dentro de si a própria
frustração.(3) Para Simone de Beauvoir, o jogo é uma tortura: “O
cavalheiro que parte para novas aventuras ofende a dama, mas ela não
sente nada além de desprezo se ele permanecer a seus pés. Esta é a
tortura do amor impossível…”.(4) Jacques Lacan elabora a questão
de maneira um pouco mais enigmática quando diz que “o desejo...
evoca a falta do ser sob as três figuras do nada, que constitui a
base da demanda por amor, do ódio que chega a negar o ser do outro e
do elemento indizível que se ignora em seu pedido”.(5)
Parece que todas essas vozes estão
buscando uma percepção comum. Todo desejo humano está posicionado
em um eixo de paradoxo, ausência e presença são seus polos, amor e
ódio, suas energias motivadoras. Vamos voltar mais uma vez àquele
poema de Safo que já vimos. Esse fragmento (LP, fr. 130), conforme
foi preservado no texto e escólios de Heféstion,
Ἄτθι. σοὶ δ᾽ ἔμεθεν
μὲν ἀπήχθετο
φροντίσδην, ἐπί δ᾽
Ἀνδρομέδαν πόται
Atthis, your care for me stirred
hatred in you
and you flew to Andromeda.
Átis, seu carinho por mim despertou
ódio em você
então você voou para Andrômeda.
(LP, fr. 131)
Quem deseja o que não foi embora?
Ninguém. Os gregos deixaram isso bem claro. Inventaram eros para
expressar isso.
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(1) S. Weil, The Simone Weil Reader.
Ed. G. A. Panichas, 1977, p. 364. (N.A.)
(2) E. Dickinson, The Complete Poems.
Ed. T. H. Johnson, 1960. (N.A.) [Ed. bras.: Poesia completa, volume
1: os fascículos. Brasília/Campinas: UnB/Unicamp, 2020, p. 313.] A
formatação do texto difere da fonte e acompanha o uso de Carson.
(N.T.)
(3) J.-P. Sartre, Being and
Nothingness, Trad. M. E. Barnes, 1956, pp. 444-45. (N.A.)
(4) S. De Beauvoir, The Second Sex.
Trad. H. M. Parshley, 1953, p. 619. (N.A.)
(5) J. Lacan, Écrits. Paris, 1966, p.
28. (N.A.)
Anne Carson, em Eros, o doce-amargo: Um ensaio

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