02/11/2026

Já foi

 



Talvez existam várias maneiras de responder. A mais evidente vem do grego. A palavra grega eros denota “querer”, “falta”, “desejo pelo que não está lá”. Quem ama quer o que não tem. É, por definição, impossível para o amante ter o que deseja se, assim que ele tem, não quer mais. É mais do que um jogo de palavras. Há um dilema dentro de eros que tem sido considerado crucial por pensadores desde Safo até hoje. Platão vira e mexe volta para ele. Quatro de seus diálogos exploram o que significa dizer que o desejo só pode ser por aquilo que falta, não pelo que está à mão, não pelo que está presente, não por algo que alguém possua nem que esteja em seu ser: eros implica endeia. Como Diotima coloca no Simpósio, Eros é um bastardo capturado pela Riqueza na Pobreza e seu lar é uma vida de carência (203b-e). A fome é a analogia escolhida por Simone Weil para esse impasse:

Todos os nossos desejos são contraditórios, como o desejo por comida. Eu quero que a pessoa que eu amo me ame. No entanto, se ele é totalmente devotado a mim, ele para de existir e eu deixo de amá-lo. E enquanto ele não for totalmente devotado a mim, ele não me ama o suficiente. Fome e saciedade.(1)

Emily Dickinson formula a questão de maneira mais atrevida em “I Had Been Hungry”

[“Tenho estado com fome”]:

Então pensei
que a fome é o modo de ver
de quem está fora das janelas
entrar põe tudo a perder(2)

Petrarca interpreta o problema com termos da antiga fisiologia do fogo e do gelo:

Sei seguir enquanto fujo do meu fogo
congelo quando presente; quando ausente, quente é o meu desejo.
(“Trionfo d’Amore”)
Sartre tem menos paciência com o ideal contraditório do desejo, esse “duplo engano”. Ele enxerga nas relações eróticas um sistema de reflexões infinitas, um jogo de espelhos enganador que carrega dentro de si a própria frustração.(3) Para Simone de Beauvoir, o jogo é uma tortura: “O cavalheiro que parte para novas aventuras ofende a dama, mas ela não sente nada além de desprezo se ele permanecer a seus pés. Esta é a tortura do amor impossível…”.(4) Jacques Lacan elabora a questão de maneira um pouco mais enigmática quando diz que “o desejo... evoca a falta do ser sob as três figuras do nada, que constitui a base da demanda por amor, do ódio que chega a negar o ser do outro e do elemento indizível que se ignora em seu pedido”.(5)
Parece que todas essas vozes estão buscando uma percepção comum. Todo desejo humano está posicionado em um eixo de paradoxo, ausência e presença são seus polos, amor e ódio, suas energias motivadoras. Vamos voltar mais uma vez àquele poema de Safo que já vimos. Esse fragmento (LP, fr. 130), conforme foi preservado no texto e escólios de Heféstion,

Ἄτθι. σοὶ δ᾽ ἔμεθεν μὲν ἀπήχθετο
φροντίσδην, ἐπί δ᾽ Ἀνδρομέδαν πόται

Atthis, your care for me stirred hatred in you
and you flew to Andromeda.

Átis, seu carinho por mim despertou ódio em você
então você voou para Andrômeda.
(LP, fr. 131)

Quem deseja o que não foi embora? Ninguém. Os gregos deixaram isso bem claro. Inventaram eros para expressar isso.

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(1) S. Weil, The Simone Weil Reader. Ed. G. A. Panichas, 1977, p. 364. (N.A.)
(2) E. Dickinson, The Complete Poems. Ed. T. H. Johnson, 1960. (N.A.) [Ed. bras.: Poesia completa, volume 1: os fascículos. Brasília/Campinas: UnB/Unicamp, 2020, p. 313.] A formatação do texto difere da fonte e acompanha o uso de Carson. (N.T.)
(3) J.-P. Sartre, Being and Nothingness, Trad. M. E. Barnes, 1956, pp. 444-45. (N.A.)
(4) S. De Beauvoir, The Second Sex. Trad. H. M. Parshley, 1953, p. 619. (N.A.)
(5) J. Lacan, Écrits. Paris, 1966, p. 28. (N.A.)

Anne Carson, em Eros, o doce-amargo: Um ensaio

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